terça-feira, 5 de abril de 2016

O Conhecimento Humano e a Existência de Deus

Carl Sagan, astrônomo e astrofísico entre outras coisas, foi um cientista muito popular na década de 1980 devido a seu papel na divulgação científica. Certa vez ele comentou acerca de ateísmo e crença na existência de Deus:

"Um ateu é alguém que tem certeza de que Deus não existe, alguém que tem evidências convincentes contra a existência de Deus. Eu não conheço uma evidência assim convincente. Como Deus pode ser relegado a tempos e locais remotos e a causas últimas, teríamos que saber muito mais sobre o universo do que sabemos agora para ter certeza de que Deus não existe. Ter certeza da existência de Deus e ter a certeza da não existência de Deus parece-me serem os extremos muito confiantes em um assunto tão cheio de dúvida e incerteza a ponto de inspirar, na verdade, muito pouca confiança." [1]

E concordo com isso, em parte. Essa opinião demonstra mais bom senso do que grande parte das idéias expressas neste mundo, sejam religiosas ou céticas. O problema é que bom senso não é suficiente. O bom senso nos induz a pensar que se uma coisa não é vista, tocada ou ouvida, existe uma boa chance de ela não existir.

Ocorre, porém, que essa afirmação de Sagan demonstra conhecimento também. Quando se vai um pouco além, estuda-se um pouco mais a natureza e suas leis, percebe-se que existe uma infinidade de coisas que não podem ser vistas, tocadas e sentidas. Alguns exemplos são: partículas subatômicas, espaço, tempo e gravidade. Contudo, conhecimento ainda não é suficiente. Porque por mais que se conheça, sempre existe um infinito além para ser conhecido. Qualquer entidade neste universo, e mesmo o próprio universo, existe dentro desse "aquário" que é a nossa realidade física, restrita às nossas leis físicas, ao tempo e ao espaço.

No entanto, essa asserção ainda revela entendimento. Que é o que acontece quando se percebe que certezas podem fechar portas para questionamentos válidos. Como é possível ter certeza sem nunca ter questionado uma idéia, observado pontos fortes e fracos, ido até as últimas consequências testando opiniões contrárias às nossas?

O problema, com a maioria das certezas, é que, ao tropeçarmos em alguma evidência muito contrária a elas, ainda parecem mais fortes do que qualquer evidência. Isso ocorre com crentes e descrentes. O próprio ceticismo pode se tornar uma convicção mais forte do que a evidência. Desta forma, entendimento, mais uma vez, não é suficiente.

Percebemos que bom senso, conhecimento e entendimento são coisas fundamentais, necessárias, para conseguirmos diferenciar o que é real do que não é. Constatamos, por todos os exemplos de intolerância ao longo da história, que certezas que não admitem questionamentos têm grande chance de imperdir o reconhecimento de evidências. E, também, que a própria idéia de que não se pode ter certeza sobre um determinado assunto pode tornar-se uma certeza, impedindo que evidências sejam percebidas como evidências. Resumindo: certeza que não admite questionamentos tem grande chance de enfraquecer ou mesmo obliterar evidências. A percepção de que não se pode ter certeza sobre alguma coisa pode tornar-se uma certeza e, consequentemente, da mesma forma enfraquecer e obliterar evidências.

Neste caso, o que seria suficiente? Para começar, o desejo de descobrir a verdade qualquer que seja ela. Isso é ainda mais difícil do que parece à princípio.
Enquanto se está pisando em um terreno conhecido, enquanto nossos fundamentos não estão sendo abalados, é relativamente fácil reajustar nossas visões de mundo. O problema ocorre quando a realidade começa a ir em uma direção que tem o potencial de derrubar a plataforma em que nos sentimos seguros. Minha questão é: até que ponto você conseguiria examinar evidências contrárias a sua posição de uma forma isenta? Isto é possível?

Relacionada à capacidade de examinar idéias contrárias às nossas com isenção, há a questão de como construimos nossas bases do que é confiável. Comumente se acredita que a base para as convicções de religiosos, ou místicos e espiritualistas, seria um conjunto de ensinamentos expostos em livros como a Bíblia, Alcorão, ensinamentos de Buda ou mensagens dos espíritos e outras. E a base para as de céticos seriam a ciência e o pensamento racional. Um ponto fundamental, porém, na forma como avaliamos proposições, tem a ver com o grau de confiança e credibilidade que depositamos em determinadas pessoas. Isso, além de nossas experiências individuais e conjunto de valores, é um dos fatores que mais pesa em nossas avaliações do que é do que é aceitável ou não.  Por exemplo, há sempre algumas pessoas que se destacaram por seu entendimento e realizações em áreas de conhecimento que compõem a base para nossas concepções. Consequentemente, o que essas pessoas disseram ou acreditaram costuma ter um papel fundamental na hora de avaliarmos evidências. Não há nada errado em levarmos em conta a experiência de outros que se destacaram por suas realizações. O problema é quando isso se torna um obstáculo para avaliarmos evidências por nós mesmos!

O bom senso faz muitos questionarem a existência de um Deus bom em face da exitência do mal, como doenças, calamidades, guerras, etc. Ao mesmo tempo, também faz com que pessoas questionem por que Deus, aparentemente, não se manifesta aos nossos sentidos nesse planeta. Estas são questões muito relevantes que pretendo abordar posteriormente. No momento, existe uma questão que vem ainda antes destas duas: existe, atualmente, à disposição do ser humano, conhecimento suficiente para responder sobre a existência ou não de Deus?

Para investigarmos isto, é importante que tenhamos, inicialmente, uma idéia correta de como se estrutura o conhecimento humano sobre a realidade. Em um primeiro momento da vida, adquirimos conhecimento sobre o mundo através dos sentidos, do que podemos ver, tocar, provar, cheirar e ouvir. A partir disso, dirigidos por nossos raciocínios e emoções, vamos construindo nossos conceitos. Quando aprendemos a linguagem, adquirimos uma ferramenta importante para ampliar nossos meios de investigação sobre a realidade. Para sobreviver, porém, precisamos aprender a lidar com nosso ambiente e isso inclui começarmos a aprender as formas, os números, as cores, a paisagem, nossa geografia, nossa história, enfim, começamos uma jornada que nos leva a perceber em maior ou menor grau como as coisas estão interconectadas, como nos afetam e são afetadas por nós.

Ocorre que a forma como descobrimos o mundo segue um caminho inverso ao de como a realidade se estrutura. Começamos com uma experiência social, de sermos tocados e cuidados por outras pessoas, de experimentarmos o mundo através dos sentidos. Então, obtemos uma noção de nosso ambiente e de como nos movimentarmos nele; também adquirimos a linguagem. A partir do momento em que nosso cérebro começa a processar informações, iniciamos a construção de uma história através da memória e aprendizado. Do ponto de vista humano, o conhecimento se processo através da construção de uma história, da interação social, de uma experiência física e geográfica, da aquisição da linguagem. Conhecimentos abstratos como matemática explícita e filosofia só acontecem mais tarde e, a maior parte das pessoas do planeta, não se aprofunda muito nestes temas.

A realidade, no entanto, tem uma estrutura inversa. Porque, ao investigarmos a história, percebemos que ela tem origem nas questões sociais. As questões sociais se compõem de interações das pessoas entre si e com o ambiente físico, ou seja, psicologia, fisiologia, ecologia, geografia, economia, política, etc. O funcionamento de todas essas coisas obedece às leis da física. O ambiente, todos os seres vivos e suas interações, em todos os níveis, são regidos pelo eletromagnetismo, gravidade, interações fracas e fortes. Com certeza, todas essas coisas geram superestruturas que, intuitivamente, parecem ser muito mais do que a soma das partes. E são. A soma das partes, porém, acrescida de todas as interações entre elas, ainda segue estritamente estas leis básicas e não existe nenhum princípio mágico por trás. Cada detalhe tem sua origem nas leis da física. Todas estas leis seguem o princípio da ação mínima, que é expresso por uma equação bem pequena.

δA=0

Então, apesar do que parece para o nosso senso comum, as leis mais básicas que geram toda a complexidade do Universo, seguem um princípio básico bem simples, que é um princípio de otimização. Quando expresso matematicamente, este princípio nos permite deduzir as leis físicas.

Eu disse "expresso matematicamente" porque, nossa linguagem matemática, a forma como escrevemos os símbolos dos conceitos abstratos não é a Matemática. Os símbolos que escolhemos para representar os conceitos foram inventados pelos homens, mas os conceitos por trás dos símbolos não foram criados pelos seres humanos. Eles foram sendo descobertos e se demonstraram a forma mais eficiente de representar e gerar novos conhecimentos sobre a realidade. Incluindo aqueles aos quais jamais teríamos acesso simplesmente por nossos sentidos ou raciocínio filosófico. Apesar de que, para o nosso senso comum, muitas vezes os conceitos matemáticos parecem meras abstrações sem correspondência na realidade, tudo o que o homem conhece e experimenta tem sua base no funcionamento matemático da realidade. Aquela matemática que está por trás dos símbolos e que se expressa não só por números, mas por equações e Lógica. Quando a experiência humana é insuficiente para compreender algo, quando a filosofia não consegue alcançar, quando não se pode testar em laboratório, o uso de Matemática gera conhecimentos testáveis e comprováveis cientificamente. Acaba gerando toda a realidade que conhecemos, a que não conhecemos e tudo o que poderia existir, mas não sabemos se existe ou não.

Toda a nossa Física e, portanto, nossa Biologia, Economia, Sociologia e tudo no Universo deixam de existir sem o tempo e o espaço. E hoje se sabe que tempo e espaço tiveram origem. Portanto, nossa realidade, "nosso aquário", a Física e suas consequências, só existem a partir dali, dentro do tempo e do espaço. Tudo o que está fora disso, e não tem sentido falar-se em antes disso sem existência de tempo, pode ser acessado pela Matemática, mas não por outras formas de conhecimento humano.

Existe um Teorema da Lógica Modal conhecido como Teorema Ontológico, demonstrado por um matemático chamado Kurt Gödel. Este teorema conclui que Deus necessariamente deve existir. Ele é formamelmente consistentente e correto e foi validado por diversos softwares.[2] Naturalmente, há várias críticas ao teorema e suas conclusões. Algumas destas críticas afirmam que várias coisas poderiam substituir Deus no teorema, tais como estrelas do mar, mal absoluto e outras. Contudo, se estas coisas fossem colocadas ali, não se encaixariam nos axiomas do teorema. Uma outra crítica argumenta que a Lógica Modal S5 depende de um pressuposto metafísico questionável envolvendo a existência real dos mundos de possibilidades mencionados na literatura. O problema com este argumento é que ele confunde a linguagem utilizada em livros didáticos sobre o assunto com a própria Lógica Modal. A linguagem didática normalmente utilizada nesta área, se entendida literalmente, parece estar fazendo afirmações metafísicas. Entretanto, a Lógica Modal em si não depende de tais pressupostos filosóficos.

Deus seria uma entidade que está fora do Universo e, portanto, não depende de nossas leis físicas, do tempo e do espaço. Ele teria criado estas coisas. Não podemos tentar aplicar a Ele nossas regras de causalidade. As únicas coisas existentes fora do tempo e do espaço seriam Deus e a Matemática. Por isso ela é útil para tratar da existência ou não de Deus. No entanto, não é só através da Matemática que podemos encontrar evidências de Deus. Pretendo continuar este assunto posteriormente.

Referências

[1] Wikipédia, Carl Sagan (fonte: Head, Tom, ed. (2006). Conversations with Carl Sagan (1st ed.). Jackson, MS: University Press of Mississippi. ISBN 1-57806-736-7. LCCN 2005048747. OCLC 60375648.)

[2] Christoph Benzmuller e Bruno Woltzenlogel Paleo. "Automating Godel’s Ontological Proof of God’s Existence with Higher-order Automated Theorem Provers". Disponível em: http://page.mi.fu-berlin.de/cbenzmueller/papers/C40.pdf Acessado em 05/04/2016.

terça-feira, 1 de março de 2016

Reflexões sobre a Morte

Depois de uma longa pausa, estou retornando ao meu blog. E, para este retorno, resolvi tratar de alguns temas bem controvertidos: morte, Deus, fé e Ciência. Embora, no momento, essa seja apenas uma reflexão sobre a morte.

Minha vida acabou de passar por alguns daqueles tipos de acontecimentos que puxam o tapete debaixo dos pés e têm o poder de revirar tudo!
Meu pais faleceram em 2014. Eles estavam bem idosos e, é claro, eu sabia que eles iriam morrer um dia. Eu achava que tinha, finalmente, entrado em um acordo razoável com a morte. Algo assim: ela existe, significa o fim da existência, não é temível e todo mundo vai passar por ela. Uma fórmula bem simples para lidar com esse conceito. Porque quando se é jovem a morte parece uma coisa distante: só um conceito abstrato!

Minhas experiências com a morte foram bem limitadas até 2014. Durante minha adolescência vivi alguns momentos de muita depressão e uso de drogas. Nessa época, até tentei suicídio uma vez. Foi uma tentativa bem titubeante, por causa da sensação de incerteza sobre o que me aguardava. Quando criança, a idéia da morte me apavorava, pelo motivo de que parecia desolador simplesmente não existir mais depois de todo o turbilhão de emoções que é viver! O problema é quando viver se torna extremamente doloroso! O que pessoas que passam por isto querem não é a morte, mas simplesmente pararem de sofrer tanto! A morte parece a única forma de atingir esse objetivo.

A questão é que, quando a pessoa não se mata, aquilo que parecia um sofrimento sem fim se modifica. Porque a pessoa aprende a lidar com o que parecia sem solução, ela aprende a lidar melhor com as próprias emoções. Isso até ela se encontrar com novos obstáculos e pensar na morte outra vez. Então vai ter que aprender a lidar com esses obstáculos também. Nem sempre isso vai acontecer, porque, às vezes, a pessoa não consegue crescer, ela usa medicamentos e atitudes que a "congelam" numa atitude de negação e autoproteção. Não tenho nada contra medicamentos para depressão e outros problemas psicológicos. Acho que eles foram feitos para ajudar as pessoas a conseguir viver com problemas muitas vezes intoleráveis. O que acontece, infelizmente com alguma frequência, é que, para algumas pessoas, as dificuldades a serem vencidas não têm a ver com a forma como elas as enfrentam, não são o modo como elam reagem às situações, mas o fato de existirem coisas que lhes causam sofrimento. O que as pessoas fazem é se proteger dessas coisas externas. O remédio e o evitar situações desagradáveis servem de escudo para se protegerem do mundo hostil. Não percebem que enfrentar o mundo hostil e controlar as emoções é a única coisa que faz com que alguém realmente supere os obstáculos e cresça. Crescer pode ser doloroso, mas é necessário. Porque, do contrário, tanto faz continuar vivendo se passamos pela vida sem ter saído de dentro de uma casca! É como participar de uma corrida de obstáculos contornando todos eles! Você não participou de fato da corrida, só fingiu que sim. Daí quem passa a vida tentando se proteger de sofrimentos e evitando toda a situação desagradável, não viveu de fato! Não experimentou a recompensa pelos esforços, porque evita esforços. Não apreendeu o sentido da vida, porque viveu só pra si, em uma concha.

O que aconteceu comigo, recentemente, foi o choque que ocorreu entre as idéias que eu usava para enfrentar um fenômeno distante de mim e a realidade de enfrentar esse fenômeno cara à cara. A morte, infelizmente, não recompensa aquela sua idéia romântica de que, depois de uma vida intensa de muitas realizações, um dia você simplesmente adormece calmamente depois de se despedir devidamente de toda a família! Não, primeiro você vai perdendo, cada dia um pouco mais, tudo o que tinha e era! Se você era rico e orgulhoso ou pobre e ansioso, não faz mais diferença depois de algum tempo! E isso porque, muito frequentemente, você não morre de repente. A não ser naqueles casos em que a pessoa morre de acidente ou de mal súbito, ela vai perdendo a capacidade de desfrutar da própria vida e das coisas que antes gostava, até perder a si mesma, sua memória e aquilo que fazia dela o que ela era. E isso não é só nos casos de Alzheimer ou demência avançada. Porque a mente e o corpo vão ficando cansados e incapazes de fazer os mesmos esforços. Tem um pequeno instante, entre a morte e a vida, em que você ainda não foi, mas já não está mais aqui. E esse momento é muito triste! Quando você é o espectador desse fenômeno e pode apenas olhar a vida dos seus entes queridos escorrendo pelos dedos sem ao menos conseguir produzir um real confôrto, porque eles já estão escapando do seu alcance, isso é muito terrível! Talvez a coisa mais terrível que eu já tive de enfrentar na minha vida!

É estranho como as palavras de pessoas que nunca passaram por isto soam nos seus ouvidos nesse momento: "Faz parte da vida" ou "É a vida, todos vão morrer". Soa estranho porque você já pensou isso, já disse isso alguma vez. E, principalmente quando as pessoas que morreram eram idosas, você pensa que é natural esperar que elas irão morrer logo! Não é nenhuma surpresa! Claro que não! Quando é o seu vizinho, um parente pouco chegado, um estranho, ou quando você não acompanhou todo o processo de morrer, passo a passo, pelo qual a pessoa passou. Quando você não morreu com ela, hora a hora, dia a dia, minuto a minuto, sempre um pouquinho mais e tentou, desesperadamente, evitar a dor, o sofrimento e a perda até da dignidade para aquela pessoa! Quando ela finalmente atravessa os portais de além da vida, você pensa: "Como assim, porque ainda estou aqui? Eu andei todo o caminho com ela, passei por todo o processo até a morte! Agora ela foi e eu fiquei! O que eu faço?"

Eu não tenho perguntas do tipo: por que existe a morte? O que ocorre depois da morte? Por que existe o sofrimento? E existe um Deus? Essas são perguntas que eu já respondi para mim mesma. São perguntas que fiz naquela ocasião da tentativa de suicídio.

Acho que a diferença entre as minhas perguntas e as daqueles que deixam de crer em um Deus ao se deparar com esse tipo de questão é que eu as fiz diretamente para Deus. Meu raciocínio foi o seguinte: Se existe um Deus, Ele deve ser capaz de me responder essas questões e, se não, quero saber que as coisas são assim justamente por esse motivo. Quero que as respostas sejam o que elas realmente são e não o que eu quero que sejam! E as respostas foram chegando, não todas de uma vez, porque envolve muitas coisas e coisas profundas. Contudo, elas estão ao alcance de qualquer um que realmente queira entender. As respostas não se encontram simplesmente na fé ou na Ciência. Elas abrangem tudo isso, mas ninguém precisa ser expert para entender, embora quanto mais se aprenda mais claras as respostas vão se tornando.

Pretendo entrar em mais detalhes em posts subsequentes.

sábado, 8 de agosto de 2015

terça-feira, 31 de dezembro de 2013


A estrada se estende indefinida
Iluminada pelo sol nascente
Imprevisível qual bala perdida
Sob os pés da alma ainda inocente

Quando o sol brilha intensamente
Em árvores e flores coloridas,
Tudo passando tão rapidamente,
São feitas tantas e tantas feridas!

De repente o sol se desvanece
A noite cai no meio da estrada
Em devaneios a alma enlouquece
Grita aos Céus no eco da madrugada!

Quem faz o sol nascer à meia-noite?
Quem ouve o grito da alma solitária?
Quem suspende a dor como açoite?
Quem inspira a atitude solidária?

E renova a esperança perdida
Já caída à beira da estrada?
Porque a humanidade falida
Pouco pode em nossa breve estada

Só você é quem pode responder
Viajante desta estranha estrada
Olhar as evidências e entender
Antes de virarmos pó, sermos nada!

Estrada


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Como Sair da Depressão


Recentemente terminei de ler o livro "Como sair da depressão - prevenção, tratamento e cura", de Neil Nedley.
O autor, um médico americano, trabalhando como médico interno em um hospital, percebeu que as diversas doenças e sintomas de muitos de seus pacientes estavam relacionados à depressão e que a medicina atual oferece, basicamente, um tratamento com medicamentos associado a terapia para estes pacientes. Contudo, geralmente, as causas da depressão não são investigadas devidamente e os remédios combatem apenas os sintomas, mas nem sempre com muita eficiência. O médico começou a estudar o assunto e desenvolveu estratégias eficazes para buscar as causas individuais da depressão e tratar a doença através de mudanças nos hábitos e estilo de vida das pessoas. Desta forma elas podem ir diminuindo a  medicação e suspendê-la completamente ao atingirem a cura após implementarem as mudanças. Ele começou a ser convidado para fazer palestras sobre o assunto e as pessoas pediam para que ele fizesse um livro sobre o que estava lhes ensinando, de modo que elas pudessem ter estes conselhos e conhecimentos por escrito.

A depressão pode se tornar a causa ou um fator agravante para diversas doenças, como já foi comentado no post "Sobre Viver o Hoje e não Pensar no Amanhã", inclusive doenças bastante graves como câncer e problemas cardíacos, sem falar nos danos ao lobo frontal do cérebro. A depressão tem como causas, normalmente, um conjunto de fatores, alguns não são modificáveis e outros podem ser modificados. Entre os não modificáveis estão os fatores genéticos, a idade, o sexo, antecedentes na família, etc. Entre os modificáveis estão os relacionados com a alimentação e estilo de vida. Fatores sociais, muitas vezes são difíceis de alterar, mas a pessoa pode desenvolver uma atitude positiva diante de situações que não podem ser alteradas. Com relação à fatores orgânicos, como desequílibrios na química cerebral, uma alimentação correta e exercícios podem ajudar a contornar. Algumas carências alimentares podem desencadear ou agravar a depressão, alguns tipos de alimentos, que contenham mais tripotofano ou ômega 3, por exemplo, podem ajudar pessoas que tenham depressão. A música clássica ajuda a aliviar a depressão, bem como o receber massagens, fazer inspirações profundas e se expôr à luz solar por um breve período. A confiança no poder e amor de Deus e o "ouvi-Lo" através das mensagens das Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, bem como o conversar com Ele por levar-lhe nossas preocupações e expectativas por meio da oração, são um poderoso auxílio e antídoto contra a depressão.

Sabe-se que a depressão está associada a danos no córtex pré-frontal no lobo frontal do cérebro, a sede de nossa personalidade, capacidade de decisões, planejamento, raciocínio, consciência, auto-controle, etc. Alguns hábitos podem levar a danos nesta importante região do cérebro, como assistir a programas de TV cujas imagens se modificam a cada 3 segundos aproximadamente, levando o cérebro a um tipo de estado hipnótico, fazer uso de drogas, álcool, nicotina, cafeína, carnes e queijos. Adicionalmente, alguns outros fatores, tais como estresse, ausência de repouso e adequada atividade física, podem agravar ou somar-se a outras condições para desencadear a depressão maior.

Evitar pensamentos ruins e procurar desenvolver pensamentos alegres é importante, mas alguns pensamentos negativos costumam ser bastante recorrentes e difíceis de serem vencidos sem ajuda. Por experiência própria, sei que isso pode ser conseguido quando nossa maneira de encarar a vida, as pessoas e nosso papel como ser humano é modificado. Esse processo pode levar algum tempo, pois todo ser humano tem a tendência de ser egoísta e focado em si mesmo. Aprender a ser abnegado e colocar a felicidade dos outros acima da nossa própria não é uma coisa natural para nós. Passar algum tempo cada dia aprendendo as lições da vida de Jesus Cristo e experimentando a paz que ele nos proporciona ao nos livrar de nossas culpas causa uma inteira reviravolta em nossas perspectivas de vida. É decisivo não apenas para vencer a depressão, mas para viver uma vida que valha a pena.

Referência:

"Como sair da depressão. Prevenção, tratamento e cura." Neil Nedley. Casa Publicadora Brasileira. Tatuí, SP.

sábado, 6 de outubro de 2012

Sobre Viver o Hoje e não Pensar no Amanhã


À medida em que o tempo passa e observo mais a vida das pessoas em nosso mundo - porque com 50 anos já consegui observar um pouco a evolução de muitas vidas individuais - percebo que a coisa mais triste não é nem a falta de amor entre as pessoas, a guerra, a fome, a miséria e as catástrofes. O que existe de mais triste neste mundo é o que as próprias pessoas fazem a si mesmas. Outras pessoas podem nos ferir com palavras, com atos ou até fisicamente, mas elas não têm o poder de destruir nosso ânimo, nosso íntimo, se não consentirmos que elas façam isso, somos nós que permitimos que nossa mente nos torture com o que os outros fazem. O que não nos damos conta é que, no fim da vida, tudo o que fizemos habitualmente, pensando em agradar a nós mesmos, não será simplesmente o que vai causar
nossa morte - porque todos morrem - mas será o que vai nos tornar pedaços de seres humanos incompletos arrastando uma vida miserável antes de morrer.

As pessoas não param muito para observar os velhinhos nos asilos e nos hospitais e, na verdade, mesmo quando eles são parentes, não se pensa muito sobre o que fez com que eles perdessem os movimentos, o coração, a memória, a perna, os olhos, os pulmões, os rins, o fígado, o senso crítico, o juízo e, muitas vezes, tudo o que eles já foram um dia! É como se tudo isso fizesse parte do envelhecer de outros e não fosse acontecer conosco. A verdade é que nossos hábitos estão nos levando para uma velhice desse tipo e, quando acontecer conosco, não teremos mais condições de avisar os outros para que possam evitar os erros que cometemos, ninguém mais vai nos ouvir e, possivelmente, nem vamos mais ouvir a nós mesmos! Todos os dias tenho visto pessoas despedaçadas que não têm mais força nem capacidade para se ajudarem, são como brinquedos quebrados jogados num canto.

Você já parou para pensar sobre o porquê de as pessoas terminarem assim e por que este é o destino mais provável de quem vive neste mundo? Outro dia estava lendo em um livro escrito por um médico [1] sobre coisas que podem danificar o lobo frontal de nosso cérebro. Só para esclarecer, o lobo frontal define quem somos, nossa capacidade de decidir, raciocinar e tomar decisões. O autor descreve um lista de coisas que fazemos que podem danificar nosso lobo frontal e fazer com que nos tornemos, pouco a pouco, menos conscientes, menos capazes de avaliar e tomar decisões acertadas. Ele cita diversas pesquisas que demonstram que o uso de drogas ilegais, nicotina, cafeína, bebidas alcoólicas, carnes e queijos, por exemplo, causam danos ao lobo frontal. Certos hábitos também podem ter este efeito, tais como assistir por várias horas programas de televisão em que as cenas demoram menos de 30 s para serem trocadas, causando um estado meio hipnótico no telespectador, por não permitir tempo suficiente para serem analisadas pelo lobo frontal, também o ouvir certos tipos de música com ritmos mais agressivos. Por outro lado, outros hábitos e alimentos podem reforçar a capacidade do lobo frontal, tais como ouvir música clássica, praticar exercícios e ingerir carboidratos de vegetais integrais e frutas. Várias doenças mentais têm como causa ou agravante danos no lobo frontal; entre estas está a depressão. Os hábitos, substâncias e alimentos mencionados acima podem ajudar a causar ou agravar a depressão ou ajudar a evitá-la e/ou curá-la, dependendo de quais escolhermos. A depressão, por sua vez, está envolvida em inúmeras outras doenças: demências, infecções, enxaqueca, esclerose múltipla, doença de Parkinson, tumores, derrames, diabetes, hiper e hipotireoidismo, hiper e hipocalcemia, influenza, mononucleose, pneumonia, artrite reumatóide, lupus eritematoso sistêmico, tuberculose, anemia, apneia, câncer, etc.

Não é incrível que as próprias coisas que a pessoas fazem para preservar seu bem-estar e liberdade são as que as fazem perdê-los mais rápido? Comer o que parece mais gostoso para o apetite mal-acostumado, ouvir e assistir o que desperta nossas emoções e sentidos e não nosso bom senso, até mesmo permitir que nossos sentimentos mais institivos, como raiva, medo, inveja, preguiça e cobiça nos dominem, tudo isso faz com que nossa qualidade de vida e nossa capacidade de discernir bem se enfraqueçam. O resultado vamos sentir aos 60, 70 ou 80 anos, dependendo de quanto nossos antepassados enfraqueceram a carga genética que nos doaram. Quantos se orgulham de sua posição e realizações pessoais, quantos se julgam inteligentes ou importantes, quantos não pensam no dia depois de amanhã?

Quando chega a doença e a velhice, a voz, a mente e o corpo se tornam muito fracos para advertir as próximas gerações e, mesmo que eles pudessem fazê-lo, quantos ouviriam? A pessoa nem mesmo têm consciência clara do que está acontecendo com ela. Tenho visto muito frequentemente pessoas aos pedaços, mal subsistindo e, descubro que aqueles fragmentos humanos foram médicos, advogados, juízes, empresários, assim como operários, donas de casa, empregadas domésticas. Não importa quem você seja ou tenha sido, porque quando os hábitos cobram seu preço, todos se tornam apenas sombras daquilo que um dia foram. E podem culpar apenas a si mesmos.

[1] Como Sair da Depressão - Prevenção, tratamento e cura. Neil Nedley.