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segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Terra da Filosofia, a Matemática e a Grande Barca


Autor: Eduardo F. Lütz

Havia uma cidade em uma região chamada Filosofia.

Para os cidadãos daquele lugar, Filosofia era tudo o que existia. Para onde quer que fossem, estavam em Filosofia. Construíam casas, plantavam, colhiam, passeavam pelos arredores da cidade e tinham a impressão de que as terras de Filosofia não tinham fim.

As Grandes Descobertas

Algumas pessoas com espírito de aventura começaram a sair pelos arredores, indo cada vez mais longe, a fim de melhor conhecer Filosofia. Alguns voltaram dizendo coisas intrigantes. Descobriram uma grande muralha que parecia não ter fim. Outros descobriram indícios de que havia muita água por debaixo do solo e que em qualquer lugar seria possível cavar um poço e encontrar água. O povo de Filosofia chamava a água de matemática. Curiosamente, eles chamavam também os poços de matemática, se bem que quando faziam isso referiam-se a características da água e não dos poços.

Até então, pensava-se que Filosofia se estendia sem limites e que água só poderia ser encontrada em locais muito específicos, nos quais haviam sido cavados poços. A água era últil para beber e lavar roupas. O povo não percebia que era a água que alimentava também suas plantações, seus animais e as árvores de onde obtinham frutos e madeira para construir casas.

Havia cópias de textos antigos reunidos em um livro chamado de Diários dos Pioneiros. Esses textos falavam de engenheiros que usaram uma tecnologia muito sofisticada para construir Filosofia e depois trouxeram colonos para povoar o local. Além de falar desses eventos, os Diários também falavam de regras de segurança, convívio e saúde.

Muitos duvidavam da autenticidade desses textos porque não acreditavam em tecnologias tão complexas e as interpretações mais aceitas de alguns trechos importantes pareciam-lhes absurdas. E, quanto a tecnologias avançadas, se elas estavam disponíveis no início, por que não estariam atualmente? Os Diários falavam de uma revolta que impediu que os engenheiros ensinassem tecnologias avançadas aos pioneiros e forçou-os a se retirarem, mas os detalhes estavam espalhados pelos Diários, de forma que a maioria das pessoas ignorava tais explicações.

Embora a maioria das pessoas não notasse, os Diários falavam em coisas além de Filosofia. Mencionavam que pessoas viajaram e passaram sobre muralhas que ficam além das muralhas de Filosofia. Também diziam que a água dava suporte a Filosofia. Os estudiosos dos Diários diziam que isso significava que água era algo importante para que as pessoas não morressem de sede.

Alguns curiosos, intrigados com esse tipo de texto, decidiram saber mais sobre matemática (água e poços). De alguma forma, isso teria sido fundamental para os pioneiros construírem Filosofia. Logo, seria importante estudar o assunto para saber mais sobre como os pioneiros pensavam e como foram capazes de construir Filosofia. Até então, os matemáticos (especialistas em poços e água) limitavam-se a encontrar maneiras mais eficientes de tirar água dos poços. As novas ideias abriram interessantes perspectivas para seu trabalho.

Exploradores decidiram investigar a profundidade das águas nos poços e concluíram que não era possível encontrar o fundo. Mais do que isso, descobriram que se um poço fosse cavado com profundidade suficiente, a partir de certo ponto o poço não parecia ter paredes.

Os matemáticos perceberam que precisavam desenvolver técnicas que permitissem a exploradores mergulhar e viajar sob a água a fim de poder melhor explorar poços. Um matemático chamado Natan resolveu iniciar um projeto assim, mas percebeu que precisaria de um grande tanque transparente cheio de água. Natan não tinha tanta água assim, mas lembrou-se de que havia água nos poços, a qual podia ser extraída e colocada em seu tanque. Com isso ele pode desenvolver os primeiros protótipos de equipamentos de mergulho e fazer os primeiros testes.

Exploradores começaram a utilizar e aperfeiçoar cada vez mais os equipamentos de mergulho. Não foram muito longe nas primeiras tentativas. Os rumores pareciam se confirmar: após uma certa profundidade, parecia-se estar em uma câmara gigantesca, da qual não se podiam ver as fronteiras. Olhando-se para cima a partir desse local, via-se uma estrutura que suportava as terras de Filosofia, pelo menos nas imediações em que ocorriam os mergulhos. A ideia de que Filosofia fora fundada sobre a água ganhou novo fôlego.

Com a experiência obtida nos mergulhos, alguns decidiram esforçar-se mais e construir uma espécie de submarino, que lhes permitisse ir mais longe e explorar aquela câmara de água subterrânea. Com o tempo, muito esforço e após muitas tentativas fracassadas, conseguiu-se finalmente construir um submarino capaz de alcançar boas velocidades viajando sob a água. Essas coisas precisavam ser feitas bem longe da cidade para não causar transtornos aos cidadãos e eliminar o risco de danificar alguma propriedade.

Boom no Conhecimento é ignorado

A maioria das pessoas que viviam em Filosofia não ficou sabendo do que se passava e continuou com suas atividades normais sem perceber que uma revolução no conhecimento estava acontecendo. Outros ouviram rumores, mas entenderam apenas que um grupo de curiosos gostava de explorar poços e acharam isso um tanto sem graça e sem propósito. Poços fornecem água para satisfazer algumas necessidades específicas e isso basta. Além disso, água não é algo particularmente gostoso. Intelectuais diziam: "Por que investir tanto esforço para olhar o que há dentro de poços? Sabemos o que há lá: água. O esforço seria melhor empregado plantando-se novas lavouras."

Chegou o grande dia de estrear o submarino. Ele foi colocado em um grande poço preparado para isso às custas de muito trabalho e engenhosidade. Algums exploradores especialmente treinados entraram no submarino. O aparelho começou a descer. O ambiente ficava cada vez mais escuro. Os exploradores ligaram as luzes do aparelho e continuaram descendo por aquele túnel vertical. Após um certo ponto, o submarino emergiu da extremidade inferior do túnel.

Após descer um pouco mais para evitar que o veículo colidisse com algo da base de Filosofia, iniciou-se uma viagem horizontal. Após algumas horas, notaram que o ambiente já não parecia tão escuro. A tripulação desligou as luzes e olhou para cima. Realmente, parecia haver uma vasta região iluminada. Iniciaram a subida e o ambiente ficava cada vez mais claro.

Chegaram à superfície da água, abriram a escotilha e foram para a parte de cima do submarino para ver melhor o que haviam encontrado. Estavam em um vasto oceano que não parecia ter fim. Olhando para o ponto de onde vieram, notaram uma gigantesca embarcação. Filosofia era uma barca gigante! Aquela água dos poços, que todos pensavam vir de uma fonte limitada, talvez um reservatório subtarrâneo, era só uma manifestação de algo muito maior do que Filosofia. Aquela água era parte de um oceano que sustentava Filosofia e que estendia-se de horizonte a horizonte. A expressão dos Diários que falava da água como sustentando Filosofia parecia muito mais clara e significativa agora. A maioria dos estudiosos dos Diários nunca ficou sabendo disso e continuou supondo que isso era apenas uma referência ao fato de que a água dos poços matava a sede.

Novas Tecnologias

Diversas outras viagens foram feitas, algumas para explorar os limites e a forma de Filosofia quando vista de fora, de longe, de perto e de baixo, para explorar a profundidade do oceano, para buscar outras embarcações semelhantes a Filosofia, e assim por diante. Nessas buscas, os exploradores descobriram coisas novas nas águas profundas, materiais úteis que poderiam usar em Filosofia. Até novas fontes de alimento foram descobertas. Seria possível viver ricamente desses alimentos e materiais sem retornar a Filosofia. Seria possível até construir novas embarcações que permitissem vida confortável, embora o esforço necessário para isso fosse grande demais naquela época. Para a maioria do povo que ignorava tudo isso, porém, Filosofia continuava a ser tudo o que existia e importava e poços ou água eram apenas um recurso limitado encontrado em locais muito específicos. Filosofia continuava sendo sinônimo de mundo para eles.

Revolução Conceitual

Para os exploradores da água, porém, isso não mais parecia adequado. Confundir poço com água não faz sentido algum considerando-se que a maior parte da água está em um vasto oceano que nada tem a ver com poços. Também decidiram parar de usar o nome de Filosofia como se fosse sinônimo de mundo, pois da perspectiva dos exploradores da água, Filosofia era apenas uma região que parecia extremamente pequena quando observada de um ponto mais distante na imensidão do mar. E, indo um pouco mais longe, sequer era possível ver Filosofia.

Refinar a linguagem facilitou muito a vida dos exploradores ao conversar entre si, mas ao falarem com o resto do povo, era necessário escolher entre usar a linguagem popular, que induzia ideias equivocadas, ou dar muitas explicações sobre a natureza de Filosofia, a abrangência da água e a diferença entre poço e água. A quase totalidade das pessoas, incluindo curiosos e exploradores que não participavam das excursões de submarino, ainda ignorava a existência do oceano (conceito que não fazia sentido para eles), muito menos seria capaz de entender e acreditar que Filosofia seria uma barca a flutuar nesse oceano.

O povo passou a usar coisas que exploradores construíram a partir de materiais encontrados no oceano. Também passaram a ter maior quantidade e qualidade de alimentos graças aos novos recursos encontrados durante as explorações oceânicas. Acreditavam, porém, que tudo aquilo era proveniente de alguma região de Filosofia. Se alguém dissesse que aquelas coisas vinham do oceano, entendiam que oceano era um poço situado em alguma região de Filosofia.

Quando exploradores falavam de sua percepção de Filosofia em função de suas aventuras no oceano, as pessoas entendiam que eles estavam falando de pequenos mergulhos em poços e que isso era algo muito restrito para gerar qualquer conclusão a respeito de Filosofia como um todo. Assim, acabavam descartando quase tudo o que os exploradores da água diziam. Intelectuais de Filosofia escreviam sobre a exploração de poços e argumentavam que era impossível obter uma visão panorâmica de Filosofia quando se está confinado ao interior de um poço. Segundo eles, bastaria sair um pouquinho do poço e olhar ao redor para notar o fato óbvio de que matemática é algo muito mais restrito do que as terras ilimitadas de Filosofia.

Com o tempo, os exploradores que haviam construído submarinos, descobriram no oceano materiais que lhes permitiram construir aviões, podendo não apenas obter uma visão aérea de Filosofia, mas viajar para mais longe e explorar novas regiões distantes do oceano com maior facilidade. Com isso, descobriram novas fontes de riquezas que foram trazidas para melhorar a vida dos habitantes de Filosofia. Algumas pessoas sem escrúpulos usaram alguns desses novos materiais para construir armas e fazer coisas que geravam muito lixo. De vez em quando, colocava-se a culpa nos exploradores por isso.

Debate sobre a Origem

Havia exploradores da água que acreditavam nos Diários e começaram a notar que vários trechos falavam em Filosofia como um ambiente limitado e que havia pessoas morando em lugares além de Filosofia. Pela forma como isso era mencionado, perceberam que provavelmente havia outras barcas semelhantes a Filosofia e mais antigas do que ela em locais muito distantes do oceano. Eles estudavam também os detalhes das estruturas que existiam na base de Filosofia e notaram que muitos trechos dos Diários faziam referências a eles. Tais referências eram geralmente ignoradas porque falavam de coisas que não faziam sentido para a maioria das pessoas, incluindo os estudiosos profissionais dos Diários.

Estudiosos profissionais dos Diários dos Pioneiros procuravam extrair deles toda informação possível. Por causa do perfil das pessoas que normalmente se dedicavam a essa área, concentravam-se mais nas regras de convivência, saúde e segurança, as quais realmente possuíam aplicação mais imediata para a população. Havia um trecho famoso que falava sobre o planejamento e a construção de Filosofia por engenheiros com grande conhecimento de tecnologias avançadíssimas. Esse texto dizia que Filosofia havia sido construída em um local previamente inóspito, que sementes foram plantadas em seu solo, poços foram cavados e encheram-se de água e depois foram trazidos colonos para habitá-la. Os Diários foram escritos por pioneiros, que afirmaram ter podido conversar com os engenheiros e tido a oportunidade de tomar notas do que eles haviam dito. Embora os pioneiros fossem pessoas simples, disseram ter feito seu melhor para anotar da forma mais fiel possível o que ouviram, ainda que algumas expressões não fizessem sentido para eles.

A maioria dos estudiosos dos Diários interpretava que os engenheiros encontraram uma terra hostil, possivelmente muito rochosa e irregular, e a prepararam para que pudesse ser habitada. Muitos estudiosos também diziam que a expressão "encheram-se os poços" significava que os engenheiros despejaram grande quantidade de água nos poços e que ela teria ficado armazenada em câmaras subterrâneas, anteriormente vazias.

Havia quem duvidasse dos Diários. Para onde teriam ido os engenheiros após construir Filosofia e por que razão o povo não mais tinha acesso a tecnologias tão avançadas? Aliás, toda essa história de tecnologias avançadas parecia um conto de fadas. Tal coisa provavelmente nunca existira.

Origem dos Habitantes de Filosofia

Alguns suspeitavam que o povo de Filosofia era originário dali mesmo. Havia muitos tipos de plantas estranhas em Filosofia. Talvez alguma delas, que poderia estar extinta, pudesse ter gerado pessoas como se fossem seus frutos. Isso simplificaria as coisas e não mais seria necessário apelar-se à ideia de engenheiros com tecnologias avançadas trazendo pessoas de algum lugar que não existe. Muito menos seria necessário seguir as regras supostamente decretadas pelos engenheiros. Plantas gerando frutos e sementes eram algo conhecido e mais provável do que engenheiros de fora de Filosofia com tecnologias inimagináveis. Aliás sequer faria sentido falar-se em "fora de Filosofia", já que Filosofia abrangia tudo o que existia.

Intrigado com a possibilidade de origem local dos habitantes de Filosofia, um curioso chamado Dórian saiu a investigar plantas exóticas. Isso foi antes dos aviões, porém após o início das explorações submarinas, que já estavam bastante avançadas na época. Dórian nunca viajou de submarino porque era claustrofóbico. Não acreditava em oceanos, apenas em poços e, possivelmente, câmaras subterrâneas de água. Mesmo assim, achava absurda a ideia de que os engenheiros teriam enchido os poços com água em algum momento e portanto uma interpretação literal dos Diários não seria algo confiável. Os reservatórios de água subterrânea provavelmente sempre estiveram lá.

Em sua viagem exploratória, descobriu uma espécie de planta que gerava uma grande semente. Abrindo-se essa semente, observava-se algo com um formato parecido com um feto humano. Dependendo da época, as sementes produzidas possuíam um conteúdo com formato um pouco diferente, distanciando-se ou aproximando-se mais do formato de um feto. Dado tempo suficiente, pensou Dorian, esta planta provavelmente produzirá uma semente contendo exatamente um feto humano. Deve ser um fenômeno raro, mas acontece. Se pudéssemos esperar tempo suficiente, provavelmente veríamos muitos humanos nascendo deste tipo de planta.

Tais ideias causaram vaias e aplausos entre o povo de Filosofia. Uns diziam que Dórian estava indo contra a sabedoria dos engenheiros e pioneiros. Outros ficaram felizes em não mais precisar seguir regras antigas. Com o tempo, a ideia de Dórian passou a ser aceita por quase todos os intelectuais respeitados, e ideias sobre detalhes do processo de geração de humanos a partir de sementes começaram a ser imaginados. Entre as evidências, os intelectuais falavam de como sementes pequenas podem gerar grandes árvores com características bem diferentes das sementes que lhes deram origem. As sementes eram pequenas e arredondadas, mas as árvores eram grandes, cheias de galhos e folhas. Portanto, uma semente poder gerar algo bem diferente de si mesma seria algo natural e provavelmente essa seria a origem dos habitantes de Filosofia.

Naturalistas e Planejamentistas

As estruturas engenhosas que sustentavam Filosofia, vistas logo nas primeiras viagens de submarino, passaram a ser ignoradas. Os planos de viagens submarinas ainda as levavam em conta para evitar colisões, mas sem mencionar seu significado e formato exatos. Os exploradores acostumaram-se a passar distraidamente pelo local pensando apenas em seu destino final.

A ideia de que Filosofia era uma estrutura que flutuava em um vasto oceano nunca foi popular até porque a maioria das pessoas não fazia ideia do que isso significava. Entre intelectuais, houve muita resistência a princípio, até porque ficava difícil descartar a existência dos engenheiros naquele cenário. Com o tempo, porém, testemunhos de exploradores da água e evidências se acumularam e os intelectuais buscaram maneiras de aceitar esse fato sem precisar recorrer à ideia de engenheiros com tecnologias avançadas. Segundo eles, o conhecimento precisava apoiar-se em fatos atuais e locais, sem nunca mencionar entidades de fora de Filosofia. Não percebiam o quanto isso contradizia o próprio conceito de oceano.

Por fim, a ideia de estrutura flutuante foi aceita pela maioria dos intelectuais, após imaginarem maneiras pelas quais materiais poderiam haver se unido espontaneamente no oceano para formar Filosofia.

A diversidade de crenças sobre a origem de Filosofia continuou a existir, mas cada vez menos pessoas cria ser literal o trecho dos Diários que falava sobre a construção do local realizada por engenheiros. Muitos exploradores que viajavam de submarino passaram a apoiar a ideia de Dórian. Eles citavam o fato de que a água de Filosofia era apenas manifestação de um grande oceano, muito maior do que Filosofia. Os poços eram apenas aberturas que permitiam acesso à água do oceano e que não faria sentido alguém precisar despejar água neles. Portanto, a ideia de que alguém preparou Filosofia para ser habitada era muito improvável. Este era o famoso argumento do oceano.

Os que criam que Filosofia se formou com base somente em fenômenos naturais eram chamados de naturalistas. Os que criam que Filosofia fora planejada e construída por engenheiros eram chamados de planejamentistas.

A maioria dos planejamentistas dizia que havia sido feita terraplanagem de um local inóspito, irregular e pedregoso, o solo havia sido então arado, depois haviam sido plantadas sementes úteis, depois poços foram cavados e muita água fora despejada neles. Depois disso, os pioneiros haviam sido trazidos. Um trecho dos Diários dizia claramente que "poços foram cavados e encheram-se de água" e muitos estudiosos afirmavam que essa expressão, na linguagem antiga, significava que água havia sido despejada nos poços.

A maioria dos planejamentistas contestavam o argumento do oceano dizendo que esse tipo de ideia baseava-se em pessoas desequilibradas que mergulhavam em poços e depois inventavam teorias absurdas, chegando até a falar em oceanos, máquinas voadoras e sementes que geram humanos. Não se poderia confiar em pessoas assim. Para estes, submarinos eram excentricidades sem propósito e aviões e oceanos eram meras especulações. Para eles, os Diários afirmavam claramente que água havia sido despejada nos poços e eles preferiam crer no relato de quem viu acontecer do que em especulações de lunáticos.

Havia exploradores planejamentistas que reconheciam que o argumento do oceano possuía um elemento de verdade: a ideia de que alguém precisou despejar água nos poços realmente não fazia sentido algum. Os poços seriam preenchidos com água automaticamente se alguém cavasse um poço suficientemente profundo. Apesar disso, eles não concordavam com os naturalistas, pois observando Filosofia por baixo, observavam claramente estruturas engenhosamente construídas para sustentar Filosofia.

Este grupo de planejamentistas não cria que haviam terras áridas e inabitáveis no início, mas apenas um oceano. Os Diários não falavam em terras áridas, mas em local inabitável. Os pioneiros teriam construído um grande navio a partir de materiais do oceano, criando um ambiente habitável nessa embarcação. Entendiam o texto que dizia que os poços encheram-se de água como sendo literais, mas significando que a água veio de baixo, do oceano, assim que os poços foram cavados. Ao usar esse tipo de argumento para convencer a outra ala de planejamentistas, frequentemente ouviam a resposta de que eles estavam apenas tentando reinterpretar os textos antigos para adequar-se a sua preferência pessoal e seu gosto por ideias mirabolantes que incluíam aviões, oceanos e sementes que geram pessoas. Note-se que os planejamentistas que viajavam pelo oceano não criam em sementes que geram pessoas, mas eram vistos como se cressem assim pelos demais planejamentistas, que achavam que viajar de submarino e avião testemunhando fatos era a mesma coisa que fazer extrapolações ao observar sementes com formato curioso. Para a maioria das pessoas essas eram atividades do mesmo tipo.

Com o tempo, a maioria da população aceitou a ideia de Dórian e passou a crer que os pioneiros nasceram de sementes, não entenderam o processo e inventaram fábulas sobre como teria sido sua origem. Muitos diziam acreditar em partes dos Diários, mas poucos conheciam de fato seu conteúdo.

Apesar das grandes descobertas, para o povo e para os intelectuais de Filosofia, incluindo a maioria dos estudiosos dos Diários, poços continuam sendo limitados, submarinos são desperdício de esforço e aviões são meras especulações: não pode existir algo assim. A ideia das sementes que geraram pessoas é bastante bem aceita pela maioria das pessoas, incluindo muitos estudiosos dos Diários, que entendem os trechos sobre construção de Filosofia como alegorias. E a controvérsia sobre as origens permanece, cada um propondo seus argumentos e ignorando as réplicas ou tratando-as de maneira simplista.

terça-feira, 5 de abril de 2016

O Conhecimento Humano e a Existência de Deus

Carl Sagan, astrônomo e astrofísico entre outras coisas, foi um cientista muito popular na década de 1980 devido a seu papel na divulgação científica. Certa vez ele comentou acerca de ateísmo e crença na existência de Deus:

"Um ateu é alguém que tem certeza de que Deus não existe, alguém que tem evidências convincentes contra a existência de Deus. Eu não conheço uma evidência assim convincente. Como Deus pode ser relegado a tempos e locais remotos e a causas últimas, teríamos que saber muito mais sobre o universo do que sabemos agora para ter certeza de que Deus não existe. Ter certeza da existência de Deus e ter a certeza da não existência de Deus parece-me serem os extremos muito confiantes em um assunto tão cheio de dúvida e incerteza a ponto de inspirar, na verdade, muito pouca confiança." [1]

E concordo com isso, em parte. Essa opinião demonstra mais bom senso do que grande parte das idéias expressas neste mundo, sejam religiosas ou céticas. O problema é que bom senso não é suficiente. O bom senso nos induz a pensar que se uma coisa não é vista, tocada ou ouvida, existe uma boa chance de ela não existir.

Ocorre, porém, que essa afirmação de Sagan demonstra conhecimento também. Quando se vai um pouco além, estuda-se um pouco mais a natureza e suas leis, percebe-se que existe uma infinidade de coisas que não podem ser vistas, tocadas e sentidas. Alguns exemplos são: partículas subatômicas, espaço, tempo e gravidade. Contudo, conhecimento ainda não é suficiente. Porque por mais que se conheça, sempre existe um infinito além para ser conhecido. Qualquer entidade neste universo, e mesmo o próprio universo, existe dentro desse "aquário" que é a nossa realidade física, restrita às nossas leis físicas, ao tempo e ao espaço.

No entanto, essa asserção ainda revela entendimento. Que é o que acontece quando se percebe que certezas podem fechar portas para questionamentos válidos. Como é possível ter certeza sem nunca ter questionado uma idéia, observado pontos fortes e fracos, ido até as últimas consequências testando opiniões contrárias às nossas?

O problema, com a maioria das certezas, é que, ao tropeçarmos em alguma evidência muito contrária a elas, ainda parecem mais fortes do que qualquer evidência. Isso ocorre com crentes e descrentes. O próprio ceticismo pode se tornar uma convicção mais forte do que a evidência. Desta forma, entendimento, mais uma vez, não é suficiente.

Percebemos que bom senso, conhecimento e entendimento são coisas fundamentais, necessárias, para conseguirmos diferenciar o que é real do que não é. Constatamos, por todos os exemplos de intolerância ao longo da história, que certezas que não admitem questionamentos têm grande chance de imperdir o reconhecimento de evidências. E, também, que a própria idéia de que não se pode ter certeza sobre um determinado assunto pode tornar-se uma certeza, impedindo que evidências sejam percebidas como evidências. Resumindo: certeza que não admite questionamentos tem grande chance de enfraquecer ou mesmo obliterar evidências. A percepção de que não se pode ter certeza sobre alguma coisa pode tornar-se uma certeza e, consequentemente, da mesma forma enfraquecer e obliterar evidências.

Neste caso, o que seria suficiente? Para começar, o desejo de descobrir a verdade qualquer que seja ela. Isso é ainda mais difícil do que parece à princípio.
Enquanto se está pisando em um terreno conhecido, enquanto nossos fundamentos não estão sendo abalados, é relativamente fácil reajustar nossas visões de mundo. O problema ocorre quando a realidade começa a ir em uma direção que tem o potencial de derrubar a plataforma em que nos sentimos seguros. Minha questão é: até que ponto você conseguiria examinar evidências contrárias a sua posição de uma forma isenta? Isto é possível?

Relacionada à capacidade de examinar idéias contrárias às nossas com isenção, há a questão de como construimos nossas bases do que é confiável. Comumente se acredita que a base para as convicções de religiosos, ou místicos e espiritualistas, seria um conjunto de ensinamentos expostos em livros como a Bíblia, Alcorão, ensinamentos de Buda ou mensagens dos espíritos e outras. E a base para as de céticos seriam a ciência e o pensamento racional. Um ponto fundamental, porém, na forma como avaliamos proposições, tem a ver com o grau de confiança e credibilidade que depositamos em determinadas pessoas. Isso, além de nossas experiências individuais e conjunto de valores, é um dos fatores que mais pesa em nossas avaliações do que é do que é aceitável ou não.  Por exemplo, há sempre algumas pessoas que se destacaram por seu entendimento e realizações em áreas de conhecimento que compõem a base para nossas concepções. Consequentemente, o que essas pessoas disseram ou acreditaram costuma ter um papel fundamental na hora de avaliarmos evidências. Não há nada errado em levarmos em conta a experiência de outros que se destacaram por suas realizações. O problema é quando isso se torna um obstáculo para avaliarmos evidências por nós mesmos!

O bom senso faz muitos questionarem a existência de um Deus bom em face da exitência do mal, como doenças, calamidades, guerras, etc. Ao mesmo tempo, também faz com que pessoas questionem por que Deus, aparentemente, não se manifesta aos nossos sentidos nesse planeta. Estas são questões muito relevantes que pretendo abordar posteriormente. No momento, existe uma questão que vem ainda antes destas duas: existe, atualmente, à disposição do ser humano, conhecimento suficiente para responder sobre a existência ou não de Deus?

Para investigarmos isto, é importante que tenhamos, inicialmente, uma idéia correta de como se estrutura o conhecimento humano sobre a realidade. Em um primeiro momento da vida, adquirimos conhecimento sobre o mundo através dos sentidos, do que podemos ver, tocar, provar, cheirar e ouvir. A partir disso, dirigidos por nossos raciocínios e emoções, vamos construindo nossos conceitos. Quando aprendemos a linguagem, adquirimos uma ferramenta importante para ampliar nossos meios de investigação sobre a realidade. Para sobreviver, porém, precisamos aprender a lidar com nosso ambiente e isso inclui começarmos a aprender as formas, os números, as cores, a paisagem, nossa geografia, nossa história, enfim, começamos uma jornada que nos leva a perceber em maior ou menor grau como as coisas estão interconectadas, como nos afetam e são afetadas por nós.

Ocorre que a forma como descobrimos o mundo segue um caminho inverso ao de como a realidade se estrutura. Começamos com uma experiência social, de sermos tocados e cuidados por outras pessoas, de experimentarmos o mundo através dos sentidos. Então, obtemos uma noção de nosso ambiente e de como nos movimentarmos nele; também adquirimos a linguagem. A partir do momento em que nosso cérebro começa a processar informações, iniciamos a construção de uma história através da memória e aprendizado. Do ponto de vista humano, o conhecimento se processo através da construção de uma história, da interação social, de uma experiência física e geográfica, da aquisição da linguagem. Conhecimentos abstratos como matemática explícita e filosofia só acontecem mais tarde e, a maior parte das pessoas do planeta, não se aprofunda muito nestes temas.

A realidade, no entanto, tem uma estrutura inversa. Porque, ao investigarmos a história, percebemos que ela tem origem nas questões sociais. As questões sociais se compõem de interações das pessoas entre si e com o ambiente físico, ou seja, psicologia, fisiologia, ecologia, geografia, economia, política, etc. O funcionamento de todas essas coisas obedece às leis da física. O ambiente, todos os seres vivos e suas interações, em todos os níveis, são regidos pelo eletromagnetismo, gravidade, interações fracas e fortes. Com certeza, todas essas coisas geram superestruturas que, intuitivamente, parecem ser muito mais do que a soma das partes. E são. A soma das partes, porém, acrescida de todas as interações entre elas, ainda segue estritamente estas leis básicas e não existe nenhum princípio mágico por trás. Cada detalhe tem sua origem nas leis da física. Todas estas leis seguem o princípio da ação mínima, que é expresso por uma equação bem pequena.

δA=0

Então, apesar do que parece para o nosso senso comum, as leis mais básicas que geram toda a complexidade do Universo, seguem um princípio básico bem simples, que é um princípio de otimização. Quando expresso matematicamente, este princípio nos permite deduzir as leis físicas.

Eu disse "expresso matematicamente" porque, nossa linguagem matemática, a forma como escrevemos os símbolos dos conceitos abstratos não é a Matemática. Os símbolos que escolhemos para representar os conceitos foram inventados pelos homens, mas os conceitos por trás dos símbolos não foram criados pelos seres humanos. Eles foram sendo descobertos e se demonstraram a forma mais eficiente de representar e gerar novos conhecimentos sobre a realidade. Incluindo aqueles aos quais jamais teríamos acesso simplesmente por nossos sentidos ou raciocínio filosófico. Apesar de que, para o nosso senso comum, muitas vezes os conceitos matemáticos parecem meras abstrações sem correspondência na realidade, tudo o que o homem conhece e experimenta tem sua base no funcionamento matemático da realidade. Aquela matemática que está por trás dos símbolos e que se expressa não só por números, mas por equações e Lógica. Quando a experiência humana é insuficiente para compreender algo, quando a filosofia não consegue alcançar, quando não se pode testar em laboratório, o uso de Matemática gera conhecimentos testáveis e comprováveis cientificamente. Acaba gerando toda a realidade que conhecemos, a que não conhecemos e tudo o que poderia existir, mas não sabemos se existe ou não.

Toda a nossa Física e, portanto, nossa Biologia, Economia, Sociologia e tudo no Universo deixam de existir sem o tempo e o espaço. E hoje se sabe que tempo e espaço tiveram origem. Portanto, nossa realidade, "nosso aquário", a Física e suas consequências, só existem a partir dali, dentro do tempo e do espaço. Tudo o que está fora disso, e não tem sentido falar-se em antes disso sem existência de tempo, pode ser acessado pela Matemática, mas não por outras formas de conhecimento humano.

Existe um Teorema da Lógica Modal conhecido como Teorema Ontológico, demonstrado por um matemático chamado Kurt Gödel. Este teorema conclui que Deus necessariamente deve existir. Ele é formamelmente consistentente e correto e foi validado por diversos softwares.[2] Naturalmente, há várias críticas ao teorema e suas conclusões. Algumas destas críticas afirmam que várias coisas poderiam substituir Deus no teorema, tais como estrelas do mar, mal absoluto e outras. Contudo, se estas coisas fossem colocadas ali, não se encaixariam nos axiomas do teorema. Uma outra crítica argumenta que a Lógica Modal S5 depende de um pressuposto metafísico questionável envolvendo a existência real dos mundos de possibilidades mencionados na literatura. O problema com este argumento é que ele confunde a linguagem utilizada em livros didáticos sobre o assunto com a própria Lógica Modal. A linguagem didática normalmente utilizada nesta área, se entendida literalmente, parece estar fazendo afirmações metafísicas. Entretanto, a Lógica Modal em si não depende de tais pressupostos filosóficos.

Deus seria uma entidade que está fora do Universo e, portanto, não depende de nossas leis físicas, do tempo e do espaço. Ele teria criado estas coisas. Não podemos tentar aplicar a Ele nossas regras de causalidade. As únicas coisas existentes fora do tempo e do espaço seriam Deus e a Matemática. Por isso ela é útil para tratar da existência ou não de Deus. No entanto, não é só através da Matemática que podemos encontrar evidências de Deus. Pretendo continuar este assunto posteriormente.

Referências

[1] Wikipédia, Carl Sagan (fonte: Head, Tom, ed. (2006). Conversations with Carl Sagan (1st ed.). Jackson, MS: University Press of Mississippi. ISBN 1-57806-736-7. LCCN 2005048747. OCLC 60375648.)

[2] Christoph Benzmuller e Bruno Woltzenlogel Paleo. "Automating Godel’s Ontological Proof of God’s Existence with Higher-order Automated Theorem Provers". Disponível em: http://page.mi.fu-berlin.de/cbenzmueller/papers/C40.pdf Acessado em 05/04/2016.

terça-feira, 1 de março de 2016

Reflexões sobre a Morte

Depois de uma longa pausa, estou retornando ao meu blog. E, para este retorno, resolvi tratar de alguns temas bem controvertidos: morte, Deus, fé e Ciência. Embora, no momento, essa seja apenas uma reflexão sobre a morte.

Minha vida acabou de passar por alguns daqueles tipos de acontecimentos que puxam o tapete debaixo dos pés e têm o poder de revirar tudo!
Meu pais faleceram em 2014. Eles estavam bem idosos e, é claro, eu sabia que eles iriam morrer um dia. Eu achava que tinha, finalmente, entrado em um acordo razoável com a morte. Algo assim: ela existe, significa o fim da existência, não é temível e todo mundo vai passar por ela. Uma fórmula bem simples para lidar com esse conceito. Porque quando se é jovem a morte parece uma coisa distante: só um conceito abstrato!

Minhas experiências com a morte foram bem limitadas até 2014. Durante minha adolescência vivi alguns momentos de muita depressão e uso de drogas. Nessa época, até tentei suicídio uma vez. Foi uma tentativa bem titubeante, por causa da sensação de incerteza sobre o que me aguardava. Quando criança, a idéia da morte me apavorava, pelo motivo de que parecia desolador simplesmente não existir mais depois de todo o turbilhão de emoções que é viver! O problema é quando viver se torna extremamente doloroso! O que pessoas que passam por isto querem não é a morte, mas simplesmente pararem de sofrer tanto! A morte parece a única forma de atingir esse objetivo.

A questão é que, quando a pessoa não se mata, aquilo que parecia um sofrimento sem fim se modifica. Porque a pessoa aprende a lidar com o que parecia sem solução, ela aprende a lidar melhor com as próprias emoções. Isso até ela se encontrar com novos obstáculos e pensar na morte outra vez. Então vai ter que aprender a lidar com esses obstáculos também. Nem sempre isso vai acontecer, porque, às vezes, a pessoa não consegue crescer, ela usa medicamentos e atitudes que a "congelam" numa atitude de negação e autoproteção. Não tenho nada contra medicamentos para depressão e outros problemas psicológicos. Acho que eles foram feitos para ajudar as pessoas a conseguir viver com problemas muitas vezes intoleráveis. O que acontece, infelizmente com alguma frequência, é que, para algumas pessoas, as dificuldades a serem vencidas não têm a ver com a forma como elas as enfrentam, não são o modo como elam reagem às situações, mas o fato de existirem coisas que lhes causam sofrimento. O que as pessoas fazem é se proteger dessas coisas externas. O remédio e o evitar situações desagradáveis servem de escudo para se protegerem do mundo hostil. Não percebem que enfrentar o mundo hostil e controlar as emoções é a única coisa que faz com que alguém realmente supere os obstáculos e cresça. Crescer pode ser doloroso, mas é necessário. Porque, do contrário, tanto faz continuar vivendo se passamos pela vida sem ter saído de dentro de uma casca! É como participar de uma corrida de obstáculos contornando todos eles! Você não participou de fato da corrida, só fingiu que sim. Daí quem passa a vida tentando se proteger de sofrimentos e evitando toda a situação desagradável, não viveu de fato! Não experimentou a recompensa pelos esforços, porque evita esforços. Não apreendeu o sentido da vida, porque viveu só pra si, em uma concha.

O que aconteceu comigo, recentemente, foi o choque que ocorreu entre as idéias que eu usava para enfrentar um fenômeno distante de mim e a realidade de enfrentar esse fenômeno cara à cara. A morte, infelizmente, não recompensa aquela sua idéia romântica de que, depois de uma vida intensa de muitas realizações, um dia você simplesmente adormece calmamente depois de se despedir devidamente de toda a família! Não, primeiro você vai perdendo, cada dia um pouco mais, tudo o que tinha e era! Se você era rico e orgulhoso ou pobre e ansioso, não faz mais diferença depois de algum tempo! E isso porque, muito frequentemente, você não morre de repente. A não ser naqueles casos em que a pessoa morre de acidente ou de mal súbito, ela vai perdendo a capacidade de desfrutar da própria vida e das coisas que antes gostava, até perder a si mesma, sua memória e aquilo que fazia dela o que ela era. E isso não é só nos casos de Alzheimer ou demência avançada. Porque a mente e o corpo vão ficando cansados e incapazes de fazer os mesmos esforços. Tem um pequeno instante, entre a morte e a vida, em que você ainda não foi, mas já não está mais aqui. E esse momento é muito triste! Quando você é o espectador desse fenômeno e pode apenas olhar a vida dos seus entes queridos escorrendo pelos dedos sem ao menos conseguir produzir um real confôrto, porque eles já estão escapando do seu alcance, isso é muito terrível! Talvez a coisa mais terrível que eu já tive de enfrentar na minha vida!

É estranho como as palavras de pessoas que nunca passaram por isto soam nos seus ouvidos nesse momento: "Faz parte da vida" ou "É a vida, todos vão morrer". Soa estranho porque você já pensou isso, já disse isso alguma vez. E, principalmente quando as pessoas que morreram eram idosas, você pensa que é natural esperar que elas irão morrer logo! Não é nenhuma surpresa! Claro que não! Quando é o seu vizinho, um parente pouco chegado, um estranho, ou quando você não acompanhou todo o processo de morrer, passo a passo, pelo qual a pessoa passou. Quando você não morreu com ela, hora a hora, dia a dia, minuto a minuto, sempre um pouquinho mais e tentou, desesperadamente, evitar a dor, o sofrimento e a perda até da dignidade para aquela pessoa! Quando ela finalmente atravessa os portais de além da vida, você pensa: "Como assim, porque ainda estou aqui? Eu andei todo o caminho com ela, passei por todo o processo até a morte! Agora ela foi e eu fiquei! O que eu faço?"

Eu não tenho perguntas do tipo: por que existe a morte? O que ocorre depois da morte? Por que existe o sofrimento? E existe um Deus? Essas são perguntas que eu já respondi para mim mesma. São perguntas que fiz naquela ocasião da tentativa de suicídio.

Acho que a diferença entre as minhas perguntas e as daqueles que deixam de crer em um Deus ao se deparar com esse tipo de questão é que eu as fiz diretamente para Deus. Meu raciocínio foi o seguinte: Se existe um Deus, Ele deve ser capaz de me responder essas questões e, se não, quero saber que as coisas são assim justamente por esse motivo. Quero que as respostas sejam o que elas realmente são e não o que eu quero que sejam! E as respostas foram chegando, não todas de uma vez, porque envolve muitas coisas e coisas profundas. Contudo, elas estão ao alcance de qualquer um que realmente queira entender. As respostas não se encontram simplesmente na fé ou na Ciência. Elas abrangem tudo isso, mas ninguém precisa ser expert para entender, embora quanto mais se aprenda mais claras as respostas vão se tornando.

Pretendo entrar em mais detalhes em posts subsequentes.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Misticismo X Racionalidade: a religião na história contemporânea

Vimos, nos posts anteriores sobre misticismo X racionalidade que - utilizando uma definição do termo "religião" baseada no seu sentido original - todos os seres humanos são religiosos, ou se tornam "ligados" a algo; as histórias contadas no Antigo Testamento hebraico já eram conhecidas por povos de diferentes culturas ao redor de todo o globo mesmo antes de terem sido escritas pelos escritores hebreus; a religião praticada pelos cristãos durante a Idade Média era baseada na superstição e fundada na autoridade humana e, finalmente, a religião que emergiu durante a Reforma protestante, baseada na Bíblia, lançou as bases da Idade Moderna.

Mas a libertação que veio com a mudança nos parâmetros religiosos da Idade Média e que fez o mundo ocidental acordar para princípios como igualdade, individualidade e racionalidade, não foi naturalmente seguida por um mundo mais humano, racional e livre, apesar das filosofias humanistas e racionalistas. O quadro histórico que temos diante de nós é o da Revolução Francesa, que conquistou a liberdade e exaltou a Razão através de extrema violência e derramamento de sangue, as duas Grandes Guerras, o nazismo, o facismo, o marxismo na Rússia, as ditaduras militares, guerra fria, terrorismo, etc.

Porque o que temos diante de nós, comparando o mundo medieval com o mundo moderno, não é a oposição entre um mundo que seguia o cristianismo e a religião bíblica e um mundo que se libertou deste modelo e partiu em busca do progresso e desenvolvimento humanos. O que temos é um mundo que abandonou os princípios bíblicos (a Bíblia era um livro quase extinto na maior parte do período medieval), abandonou os princípios do cristianismo, colocou a autoridade de um ou poucos homens no centro, mas manteve os nomes e palavras relacionados ao cristianismo e à Bíblia enquanto matava seu verdadeiro significado. A Reforma despertou o mundo para o que estava acontecendo, mas, como eu disse antes, a religião bíblica é uma religião que raramente foi praticada ao longo da história da humanidade e, diga-se de passagem, sempre suscitou extrema oposição. No mundo moderno aconteceu algo semelhante, foram mantidos alguns dos ideais reativados pelo cristianismo, como igualdade, racionalidade e liberdade, mas a Bíblia e o Cristo que os fizeram reacender foram rejeitados. Como resultado, o homem foi colocado no centro novamente, não um ou poucos, mas o conceito de ser humano, enquanto o ser humano real continuou oprimido e escravizado por outros ou por si mesmo (vícios, crimes, ambição, loucura, etc).
E o que acontece com o mundo contemporâneo? Ele progrediu muito em termos materiais, sem dúvida, o conhecimento e tecnologia desenvolvidos não são igualados em nenhuma época anterior. Porque Ciência, o Método Científico em funcionamento, não recompensa a nenhum tipo específico de pessoa, sabendo-se usá-lo corretamente ele funciona, não vai discriminar ninguém pela raça (nazismo, racismo), nem pelas posses (capitalismo selvagem), nem pelo sexo (machismo, feminismo, homofobia) e nem pela filosofia (evolucionismo, criacionismo). Ciência é simplesmente um método pra se conhecer as coisas.

Mas em relação a religião, o mundo está voltando a Idade Média: misticismo, superstição e magia retornaram com força total. Na prática, não importa de que lado da balança o mundo esteja, uma coisa básica não muda: a ênfase no que o homem pode realizar por seus próprios esforços.

Não me entendam mal, por seus esforços o homem pode muita coisa e é desejável, mesmo necessário, que ele se esforce para produzir, conhecer, vencer obstáculos e melhorar a si mesmo e a outros, mas em termos de conseguir ultrapassar seu egoísmo natural (fonte dos piores males que afligem a humanidade), ele é totalmente impotente em seus esforços.

Entre as implicações das considerações acima se encontra o problema de se supor que se está sendo totalmente racional quando existem conceitos anteriormente aceitos que interferem no raciocínio, especialmente quando este não se baseia explicitamente no método científico, ou seja, em métodos matemáticos.

Em oposição às soluções humanas para o problema do egoísmo, a solução bíblica é uma nova criação do ser humano segundo Deus, a qual não produz uma justiça meramente exterior de um cidadão aparentemente exemplar, mas altera os motivos e intenções do coração ("e a vos revestir do novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade" Efésios 4:24).

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Deus existe? A Evolução é um fato?

Pretendo terminar a série de posts "Misticismo X Racionalidade". Mas antes de continuar sobre o tema, pretendo dar uma pausa para considerar estas questões acima. Elas poderiam ser consideradas em posts separados, pois são dois assuntos diferentes. Crer em um Deus não implica em não crer na Evolução e acreditar na Evolução não implica em não crer em um Deus. Mas estou colocando estas duas questões juntas porque até a divulgação da “Origem das Espécies” de Charles Darwin não se considerava haver contradição entre a crença em Deus e a Ciência. Inclusive a maioria dos primeiros cientistas, daqueles que descobriram o método científico, como Galileu, Newton, Da Vinci e outros, criam em Deus e essa crença os induziu ao desenvolvimento do método cientifico, que é um tema para um post futuro. Foi somente depois que a “Origem das Espécies” ganhou status de “teoria científica” que a crença em Deus passou a ser algo a ser estigmatizado pelo que se acredita ser a maioria acadêmica, embora se estime que cerca de 2/3 dos cientistas atuais creiam em Deus (www.msnbc.msn.com/id/8916982/ns/technology_and_science-science/t/scientists-belief-god-varies-discipline/). Na verdade, as questões acima se desdobram em várias outras, mas eu resumiria tudo em quatro questões principais: Existem boas razões para crer na existência de Deus? Existem boas razões para não crer? A Evolução pode ser considerada um fato? Existem evidências contrárias?


Com relação as duas primeiras questões, eu pretendo enumerar algumas razões para elas que costumam ser mais comuns, mas com certeza, não tenho a pretensão de esgotar o tema. Com relação às duas últimas, é importante definir os significados das palavras “fato”, “evidência” e “ciência”, entre outras.


Procurei na internet algumas estatísticas de quantas pessoas ao redor do mundo creem em algum deus. Concluí, se elas estão corretas, que acima de 75% das pessoas, mais ou menos, acredita em algum tipo de deus. Não é preciso muita habilidade para perceber isso. A maioria das pessoas têm alguma forma de religião que propõe alguma forma de divindade ou ser superior. Maioria pode ser considerado um bom argumento para muitos; essa é uma razão que muitos costumam apresentar para suas atitudes e crenças. Pessoalmente, considero essa uma péssima razão. Basta pesquisar um pouco a história do mundo para perceber como as maiorias estiveram erradas em incontáveis exemplos através da história. Por muito tempo, maiorias acreditaram que a Terra fosse o centro do Universo, que a vida podia surgir de restos orgânicos, que mulheres eram menos capazes que os homens, entre outras ideias que já prevaleceram nas sociedades. Maiorias podem decidir eleições, mas não garantem que as escolhas sejam as melhores. Uma razão aparentemente boa para não se crer em Deus seria o fato de não se poder vê-lo ou tocá-lo.

Contudo, muitas tecnologias utilizadas em nosso mundo estão baseadas em teorias que são abstratas e das quais podemos apenas ter evidências. É o caso da relatividade, mecânica quântica e outras teorias. Mas, antes de prosseguir com estas duas questões, consideremos, por um momento, as questões relativas a definições de palavras e Evolução.


As definições para “fato”, encontradas em dicionários, são do tipo algo “real” ou “verdadeiro”, “que existe”. Já “evidência”, no contexto científico, é uma informação que altera a probabilidade de hipóteses relevantes. Portanto, uma evidência favorável a uma hipótese aumenta a probabilidade dessa hipótese se confirmar. “Ciência” seria o método científico em funcionamento, o qual consiste, basicamente, em observação controlada (observação preliminar, planejamento da coleta de informações, coleta de informações, elaboração de dados a partir das informações coletadas, tudo isso seguindo critérios da Estatística e da Teoria da Informação) e sistematização formal, que é o processo de elaborar e utilizar modelos matemáticos que expressem aspectos do assunto em estudo1. Normalmente, em Ciência, as coisas raramente podem ser ditas como “provadas”, mas geralmente, a maior parte dos dados ou leis obtidos em Ciência são evidências para algo. Assim, considerando a evolução das espécies, como proposta por Charles Darwin e posteriormente corrigida para o Neodarwinismo, do ponto de vista da definição de Ciência proposta acima, ela está, basicamente, restrita à primeira parte do método científico apenas, pois não existe um modelo matemático abrangente do qual surjam naturalmente as proposições evolutivas ou que faça uso formal (matemático) delas: mutações e seleção natural2. E isto não entra no mérito de elas serem ou não boas ideias, apenas que não se encaixam na plenitude do método científico, como fazem, por exemplo, a Relatividade Geral, a Mecânica Quântica, etc. Com respeito a evidências, por exemplo, as que serviriam para solidificar hipóteses como o ancestral comum ou as modificações sofridas até se obter a diversidade de seres existentes hoje são praticamente inexistentes ou duvidosas. Por exemplo, o registro fóssil não apresenta as diferentes graduações até as formas atuais, salvo algumas poucas formas que poderiam ser consideradas como intermediárias. O que se observa é não uma evolução gradual até os estágios atuais, mas quase todo o tempo dado para a idade da Terra com poucas formas de vida e, de repente, no período Cambriano, uma explosão de formas de vida complexas. Ou seja, repentinamente, aparece uma multidão de formas de vida complexas sem nenhuma forma intermediária anterior aparente. E quanto ao ancestral comum, por exemplo, ele teria supostamente surgido de uma célula primordial que teria descendido de algum grupo de moléculas orgânicas originais, RNAs primitivos ou um ciclo metabólico simples, coisas que se têm demonstrado em experimentos de laboratório altamente improváveis. O maior argumento a favor da Evolução é que a maioria acadêmica aceita esta hipótese. E a realidade é que este é motivo suficiente para muitas pessoas.


Voltando às questões sobre a existência de Deus, uma pergunta comum que é feita por muitos que não acreditam nEle é a seguinte: Se Deus existe e criou tudo, quem criou Deus? Esta pergunta, em termos de lógica, é semelhante a que os antigos faziam sobre o nosso planeta: o que acontece quando chegamos ao fim do mundo: podemos cair da borda da Terra? Em outras palavras: este tipo de pergunta apenas demonstra nossa falta de conhecimento para lidar com o assunto: essas perguntas não fazem sentido quando se entende a realidade; precisam ser modificadas. Deus, não sendo limitado por tempo e espaço e existindo além deles, não pode ser sujeito às mesmas leis físicas que nós. Não se pode falar em criação (algo que supõe tempo) do que existe for a do espaço-tempo. Outra questão comumente apresentada é quanto à presença do mal ou sofrimento: se Deus existe por que permite as guerras ou as doenças ou a injustiça? A resposta para este tipo de questão requer considerações de mais alto nível do que a anterior e não pode ser encontrada simplesmente pelo estudo da Natureza. A Bíblia apresenta a resposta para esta questão. A resposta, resumidamente, é que a presença do mal em nosso planeta é o resultado da escolha dos ancestrais humanos. A eles foi dada a liberdade de escolherem o governo de Deus ou não no planeta. A escolha contrária ao governo de Deus, cujas leis promoveriam o máximo bem-estar no planeta, significou que as coisas não funcionariam mais como planejadas, e isto implicou em mau funcionamento que gera sofrimento e injustiça. Mas por que Deus permitiu que isso acontecesse? - muitos perguntam. Porque Ele não queria que os seres humanos fossem autômatos programados para fazerem o que os programou para fazer, queria que eles fossem semelhantes a Ele, capazes de fazer escolhas inteligentes, capazes de amar por entendimento e livremente. Ele previu o que aconteceria com a humanidade e providenciou um plano para corrigir o mal, o qual está em andamento. É verdade que há muito sofrimento na Terra, muitos sofrem sem causa, mas em muitos casos, as pessoas que sofrem trouxeram sobre si mesmas o sofrimento por seus maus hábitos, por suas escolhas. No plano de Deus para corrigir o mal, Ele sofreu (na pessoa de Jesus Cristo) mais do que qualquer ser humano jamais sofrerá. Sobre Ele foi colocada a culpa por toda transgressão já praticada no planeta. Sob o peso dessa culpa seu coração se rompeu e quando os soldados romanos retiraram o corpo da cruz, uma lança rasgou o peito de Jesus e dali saiu “sangue e água” (João 19:34). Agora, imagine essa história, por um momento: todas as divindades em todas as culturas recebem a adoração de seres humanos e todas concedem dons ou favores, mas todas permanecem na sua esfera superior ou se elas viessem a Terra não seria para serem pobres, sofredoras ou rejeitadas, mas principalmente, não viriam para pagar por um crime que não cometeram, muito menos por todos os crimes já cometidos. E por que tudo isso? Para colocar o ser humano novamente na sua condição original, por amar tanto essas criaturas que formou que não deseja perdê-las apesar do que elas trouxeram sobre si mesmas. De um ponto de vista egoísta, seria mais fácil deixar estas criaturas simplesmente morrerem conforme elas escolheram.


Já um cientista chamado Maupertuis inspirado na ideia de que tudo o que Deus faz é perfeito descobriu o princípio da ação mínima, do qual derivam todas as leis da Física.


Existem, com certeza, muitas questões que poderiam ser adicionadas aqui, mas como disse, não pretendo esgotar o assunto. Mas gostaria de acrescentar alguns motivos para acreditar em Deus.


Porque a vida não parece ter-se originado por acaso (seguindo meramente leis químicas e físicas), isto tem-se demonstrado altamente improvável.


Porque a história tem seguido em detalhes (até com datas específicas) previsões das profecias bíblicas.


Porque a fé no Deus bíblico está por traz dos melhores avanços da humanidade, como a observação da natureza, o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento do método científico e, acima de tudo, regeneração da humanidade.

1O Método Científico. Eduardo F. Lütz

2Entenda-se que não estou me referindo a alguns cálculos matemáticos, mas a um modelo matemático abrangente para a Evolução das Espéicies.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Misticismo X Racionalidade: A Religião na Idade Moderna

É um pensamento comum em nosso tempo o de que o retorno ao estudo dos clássicos gregos e latinos, nos últimos séculos da Idade Média, com o consequente despertamento cultural e o surgimento dos ideais humanistas e, posteriormente, racionalistas, tenham colocado o mundo em uma nova rota de desenvolvimento científico, valorização da razão, dos direitos humanos, liberdade e igualdade. Nesta perspectiva, a Reforma teria sido apenas mais um movimento de emancipação que acompanhou as tendências da época.

Um estudo cuidadoso da história, no entanto, nos mostra que embora o retorno ao estudo dos clássicos gregos e latinos tenha dado um impulso a Reforma por possibilitar a leitura do Novo Testamento em sua língua original, o grego, o desenvolvimento científico (a partir da descoberta do método científico), a valorização da razão, direitos humanos, liberdade e igualdade são valores que provêm antes do retorno à religião bíblica durante a Reforma do que do mero estudo dos clássicos. Eu não pretendo apenas afirmar isto aqui. Eu gostaria de convidar aqueles que me lêem a um passeio pela história dentro de nossas limitadas possibilidades.

Antes de iniciarmos nosso passeio, convém abrir parênteses para enfatizar uma diferença crucial existente entre a religião bíblica e qualquer outra forma de religão, pensamento ou filosofia de vida. (Isto precisa ser dito, creiamos ou não na Bíblia como uma fonte confiável de informação,' para que os eventos históricos referentes a Reforma possam ser entendidos.) A ênfase de todos os tipos de religiões que não têm a Bíblia como único fundamento em questões de fé é posta sobre o que o homem pode realizar para alcançar benefícios, vida após a morte, iluminação ou o que seja. Seja por meio de sacrifícios, boas obras, esforços, peregrinações, meditações, etc. Filosofias de vida diferentes, não importa quão diferentes entre si, sempre se centralizam em coisas que os seres humanos podem realizar e experimentar. A religião bíblica (aquela que se baseia unicamente no que está escrito na Bíblia e a usa como seu próprio intérprete) coloca ênfase no que Deus faz pelos seres humanos, assim os sacrifícios de cordeiros do Antigo Testamento apontavam para "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Na perspectiva bíblica, quando o ser humano se alienou de Deus, no princípio de sua história, perdeu sua capacidade de amar a Deus e de ser genuinamente bom, uma vez que Deus seria a fonte do bem no homem e do funcionamento de todas as leis do Universo. Por causa disso, o ser humano passou a ter duas tendências: uma que o faz ter uma natureza religiosa e desejar o bem, boas coisas e até realizar várias delas, e outra que o faz rebelar-se contra Deus e ser egoísta (tendência a degradação). Um texto que declara isto inequivocamente é o seguinte: "Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros." Romanos 7:19-23.

Segundo a religião bíblica, o homem pode ser ético, estabelecer bons ideiais para si mesmo e os outros, mas é incapaz de, alienado de Deus, vencer completamente seu egoísmo. A solução bíblica para o problema humano está no que Deus pode fazer pelo homem quando este permite: "Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. ... Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser". "Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. ...Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação; pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." (Romanos 8: 2-4 e 8; 2 Coríntios 5: 14-15, 17-21.)

No ponto onde paramos, no post anterior, o mundo ocidental era um mundo místico, religioso, sem desenvolvimento científico, quase completamente estagnado em conhecimento, sem respeito a liberdade ou direitos humanos, mas ainda era um mundo centralizado no homem. A salvação dos homens estava centralizada na autoridade da Igreja, assumida pelo papa, para obter aprovação da divindade os homens realizavam orações e jejuns dedicados aos santos (seres humanos mortos), realizavam peregrinações e pagavam indulgências, em suma, confiavam nas próprias obras, na intercessão de sacerdotes e santos. Pagando uma boa soma em dinheiro muitos sentiam-se livres para viverem de acordo com seus instintos. Exemplares da Bíblia, em latim e grego, eram muito raros mesmo para os sacerdotes que, normalmente não a liam, o povo comum não tinha qualquer acesso a eles. É nesse contexto histórico que encontramos Lutero precisamente antes de começar a Reforma:

"Ele encontrou no convento uma Bíblia presa por uma corrente, e a esta Bíblia acorrentada ele retornava constantemente. Ele tinha apenas pouca compreensão da Palavra, todavia era seu mais agradável estudo. ... Parece que cerca desta época ele começou a estudar as Escrituras em suas línguas originais, e a lançar o fundamento do mais perfeito e útil de seus labores - a tradução da Bíblia. ... Queimando com o desejo de alcançar aquela santidade em busca da qual ele entrara no claustro, Lutero cedeu a todo o rigor de uma vida ascética. Ele se esforçou para crucificar a carne por jejuns, mortificações e vigílias. Encerrado em sua cela, como em uma prisão, ele lutava incessantemente contra os pensamentos enganosos e as más inclinações de seu coração. Um pequeno pão e peixe eram frequentemente seu único alimento. ...Lutero não encontrou na tranquilidade do claustro e na perfeição do monastério aquela paz de mente que tinha procurado ali. Ele desejava ter a segurança de sua salvação: esta era a grande necessidade de sua alma. Sem ela, não havia repouso para ele. Mas os temores que o tinham agitado no mundo perseguiam-no em sua cela. Não, eles tinham aumentado. ... O senso de sua pecaminosidade pertubava-o; a perspectiva do juízo de Deus enchia-o de temor. Mas no próprio momento em que estes terrores tinham alcançado seu ponto mais alto, as palavras de S. Paulo, que já o tinham impressionado em Wittenberg, "o justo viverá pela fé" [Galátas 3:11], retornaram forçosamente à sua memória e iluminaram sua alma como um raio do Céu." History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 2, capítulos 3 e 6.

Acreditando que o único modo de um ser humano ser justificado diante de Deus é pela fé no que Cristo fez e faz por ele e que a única autoridade em matéria de fé são as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, Lutero lançou a base da libertação da escravidão espiritual do homem pelo homem, do estudo das Escrituras de cada pessoa por si mesma (e não através da interpretação dos sacerdotes) e da igualdade de todos os homens perante Deus.

Segundo D'Aubigné:

"O Cristianismo não é um simples desenvolvimento do Judaísmo. Diferente do papado, ele não objetiva confinar o homem nas apertadas faixas de ordenaças exteriores e doutrinas humanas. O Cristianismo é uma nova criação; ele toma posse do homem interior e tranforma-o nos mais profundos princípios de sua natureza humana, de modo que o homem não mais requer que outro homem imponha regras sobre ele; mas, ajudado por Deus, ele pode de si mesmo e por si próprio distinguir o que é verdadeiro e fazer o que é correto. Ao levar a humanidade para aquela idade madura que Cristo lhe adquiriu e libertá-la da tutela em que Roma a tinha mantido por tanto tempo, a Reforma deveria desenvolver o homem inteiro; e enquanto regenera seu coração e sua vontade pela Palavra de Deus, ilumina seu entendimento pelo estudo de conhecimento profano e sagrado. ... 'Ocupem-se com as crianças,' continua Lutero, ainda dirigindo-se aos magistrados; 'pois muitos pais são como avestruzes; eles estão endurecidos para com seus pequenos, e satisfeitos com ter posto o ovo, eles não se preocupam com nada depois disto. A prosperidade de uma cidade não consiste meramente em acumular grandes tesouros, em construir fortes muros, em erigir esplêndidas mansões, em possuir brilhantes exércitos. Se homens loucos caem sobre ela, sua ruína será apenas maior. A verdadeira riqueza de uma cidade, sua segurança e sua força, é ter cidadãos instruídos, sérios, dignos e bem-educados. E a quem devemos culpar porque existem tão poucos no presente, a não ser vocês magistrados, que têm permitido que nossa juventude cresça como árvores em uma floresta?' " History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 10, capítulo 9.

Lutero e outros reformadores aprenderam que a religião bíblica requer um "culto racional" (Romanos 12:1). A Reforma foi o movimento que, no final da Idade Média, lançou os fundamentos para a valorização do ser humano como um ser racional, livre, independente e capaz de pensar por si mesmo. O renascimento da cultura grega e latina sozinho não fez isto, pois os cultos daquela época não ousavam questionar ou tentar modificar a estrutura estabelecida (ver http://www.iep.utm.edu/humanism/ no item "Erasmus"), os primeiros humanistas eram cristãos, mas a ruptura entre cristianismo e humanismo se deu durante o Iluminismo: "O Iluminismo da metade do século dezoito na Europa trouxe uma separação entre instituições religiosas e seculares que exemplificaram uma crescente fissura entre cristianismo e humanismo. A dependência em declínio dos fundamentos religiosos por parte de filósofos levou a experiências em vários planos políticos e sociais dos últimos poucos séculos ao redor do mundo, incluindo Comunismo Internacionalista, Socialismo Nacional, Facismo, Anarquismo, Teocracia, Caesaropapismo e várias comunidades utópicas. Cristãos participaram em todos estes movimentos em vários graus como indivíduos e institucionalmente, como participaram deístas e materialistas (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Christian_Humanism).

O humanismo atual, um humanismo inclusivo, procura abraçar a humanidade toda com valores que foram trazidos à luz a partir da religião bíblica pela Reforma, com a diferença de que ele procura estabelecer estes valores à parte do Deus da Bíblia.

Considerando o método científico, por exemplo, as primeiras idéias para ele vieram de homens como Da Vinci, Galileu e Newton, os quais foram influenciados pela Bíblia e buscaram revelar a sabedoria do Deus bíblico através da Natureza que criam que Ele criou. Eles se deram conta do papel que a matemática tem no funcionamento da Natureza, o que para eles era perfeitamente natural, pois a Bíblia apresenta um Deus que governa segundo leis bem estabelecidas.

"A sabedoria é filha da experiência. A experiência jamais engana; e os que se lamentam dos seus logros deveriam antes lamentar-se da sua ignorância porque pedem à experiência aquilo que está para lá dos seus limites. Em contrapartida, pode o juízo enganar-se sobre a experiência; e para evitar o erro não há outra via senão reduzir todos os juízos a cálculos matemáticos o servir-se exclusivamente da matemática para entender e demonstrar as razões das coisas que a experiência manifesta. A matemática é o fundamento de toda a certeza." Leonardo da Vinci – apud in (ABBAGNANO 1970, Origens da Ciência, p. 9) (http://filosofiageral.wikispaces.com/A+Revolu%C3%A7%C3%A3o+Cient%C3%ADfica)

"A Filosofia [Física] está escrita neste grandioso livro que está sempre aberto à nossa contemplação (refiro-me ao universo), mas que não pode ser entendido sem que primeiro aprenda-se a língua, e conheçam-se os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em linguagem matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender sequer uma de suas palavras; sem estes
[caracteres] fica-se a vagar por um escuro labirinto." (Il Saggiatore, 1623, Galileo Galilei)

"Newton foi levado acima de tudo por argumentos derivados do estudo do universo, embora sua mente profundamente pensadora extraiu outros argumentos também. Este grande homem cria (Opticks III. Book. Query 31) que o movimento dos corpos celestiais demonstrava a existência Daquele que governa-os. Seis planetas - Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno - revolvem-se ao redor do Sol. Todos os planetas rotacionam na mesma direção em órbitas que são mais ou menos concêntricas. (Não obstante, existem outros corpos, os cometas, que seguem totalmente diferentes órbitas, movendo-se em todas as direções e em cada região do Céu.) Newton acreditava que tal uniformidade de movimento só podia resultar da vontade de um Ser supremo." Derivation of the laws of motion and equilibrium from a metaphysical principle, by Pierre Louis Moreau de Maupertuis (http://en.wikisource.org/wiki/Derivation_of_the_laws_of_motion_and_equilibrium_from_a_metaphysical_principle).

Newton também escreveu um livro sobre as profecias de Daniel e Apocalipse, Observations upon the
Prophecies of Daniel,and the Apocalypse of St. John, in Two Parts
, que pode ser obtido no seguinte site http://www.isaacnewton.ca/daniel_apocalypse/

Em seu artigo acima e no seguinte, Accord between different laws of Nature that seemed incompatible, Maupertuis deduz o princípio da ação mínima, segundo ele "ninguém pode duvidar de que tudo é governado por um Ser supremo que tem imposto forças sobre os objetos materiais, forças que mostram seu poder, tal como ele destinou estes objetos a executar ações que demonstram sua sabedoria. A harmonia entre estes dois atributos é tão perfeita, que indubitavelmente todos os efeitos da Natureza poderiam ser derivados de cada um tomado separadamente. Uma cega e determinística mecânica segue os planos de um intelecto perfeitamente claro e livre." O princípio metafísico de Maupertuis do qual ele deriva seu princípio da ação mínima (um princípio de otimização) tem como base a crença de que Deus faz as coisas com sabedoria e perfeição e se origina da declaração bíblica: "E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom." Gênesis 1:31.

Mesmo Freeman Dyson declarou: "A ciência ocidental nasceu da teologia cristã. Provavelmente não é um acidente que a ciência moderna tenha crescido explosivamente na Europa cristã e deixado para trás o resto do mundo. Milhares de anos de debates teológicos nutriram o hábito do pensamento analítico capaz de ser aplicado à análise de fenômenos naturais." Review of Feynman and of Polkinghorne "Belief in God in an Age of Science", 1998.

Na realidade, o Iluminismo e Racionalismo do século 18, que romperam com o Cristianismo, derivaram seus ideais da Reforma, como Russel também acreditava: "Russel argumenta que o iluminismo foi, em última instância, nascido da reação protestante contra a contra-reforma católica, quando as visões filosóficas dos últimos dois séculos cristalizaram-se em uma visão de mundo coerente. Ele argumenta que muitas das visões filosóficas, tais como afinidade pela democracia contra a monarquia, originaram-se entre os protestantes no início do século 16 para justificar seu desejo de romper com o papa e a Igreja Católica. Embora muitos destes ideais filosóficos tenham sido acolhidos por católicos, Russel argumenta, no século 18 o Iluminismo foi a manifestação do princípio do rompimento que começou com Martinho Lutero." Age of Enlightenment citando Russell, Bertrand. A History of Western Philosophy. p492-494." (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Age_of_Enlightenment#cite_note-3)

A religião bíblica, é, na verdade, uma religião raramente praticada em nosso mundo. Ela foi praticada pelos ancestrais do povo de Israel (Abrãao, Isaque e Jacó) e apenas muito pouco tempo pelo próprio povo de Israel, que, na maior parte das vezes, viveu em rebelião contra seus princípios. Os primeiros cristãos viveram de acordo com ela, mas seus seguidores deram origem a Igreja Católica da Idade Média. Os primeiros protestantes deram lugar a descendentes que já não viviam de acordo com os princípios destes. Desta forma, os ideais que deram origem ao moderno humanismo, a saber, ética, racionalidade, democracia e direitos humanos (http://www.iheu.org/adamdecl.htm), além do método científico, tiveram origem nos princípios extraídos da religião bíblica, os ideais foram mantidos, mas o Deus que motivou a existência deles foi deixado de fora.