segunda-feira, 4 de julho de 2016
A Terra da Filosofia, a Matemática e a Grande Barca
terça-feira, 5 de abril de 2016
O Conhecimento Humano e a Existência de Deus
"Um ateu é alguém que tem certeza de que Deus não existe, alguém que tem evidências convincentes contra a existência de Deus. Eu não conheço uma evidência assim convincente. Como Deus pode ser relegado a tempos e locais remotos e a causas últimas, teríamos que saber muito mais sobre o universo do que sabemos agora para ter certeza de que Deus não existe. Ter certeza da existência de Deus e ter a certeza da não existência de Deus parece-me serem os extremos muito confiantes em um assunto tão cheio de dúvida e incerteza a ponto de inspirar, na verdade, muito pouca confiança." [1]
E concordo com isso, em parte. Essa opinião demonstra mais bom senso do que grande parte das idéias expressas neste mundo, sejam religiosas ou céticas. O problema é que bom senso não é suficiente. O bom senso nos induz a pensar que se uma coisa não é vista, tocada ou ouvida, existe uma boa chance de ela não existir.
Ocorre, porém, que essa afirmação de Sagan demonstra conhecimento também. Quando se vai um pouco além, estuda-se um pouco mais a natureza e suas leis, percebe-se que existe uma infinidade de coisas que não podem ser vistas, tocadas e sentidas. Alguns exemplos são: partículas subatômicas, espaço, tempo e gravidade. Contudo, conhecimento ainda não é suficiente. Porque por mais que se conheça, sempre existe um infinito além para ser conhecido. Qualquer entidade neste universo, e mesmo o próprio universo, existe dentro desse "aquário" que é a nossa realidade física, restrita às nossas leis físicas, ao tempo e ao espaço.
No entanto, essa asserção ainda revela entendimento. Que é o que acontece quando se percebe que certezas podem fechar portas para questionamentos válidos. Como é possível ter certeza sem nunca ter questionado uma idéia, observado pontos fortes e fracos, ido até as últimas consequências testando opiniões contrárias às nossas?
O problema, com a maioria das certezas, é que, ao tropeçarmos em alguma evidência muito contrária a elas, ainda parecem mais fortes do que qualquer evidência. Isso ocorre com crentes e descrentes. O próprio ceticismo pode se tornar uma convicção mais forte do que a evidência. Desta forma, entendimento, mais uma vez, não é suficiente.
Percebemos que bom senso, conhecimento e entendimento são coisas fundamentais, necessárias, para conseguirmos diferenciar o que é real do que não é. Constatamos, por todos os exemplos de intolerância ao longo da história, que certezas que não admitem questionamentos têm grande chance de imperdir o reconhecimento de evidências. E, também, que a própria idéia de que não se pode ter certeza sobre um determinado assunto pode tornar-se uma certeza, impedindo que evidências sejam percebidas como evidências. Resumindo: certeza que não admite questionamentos tem grande chance de enfraquecer ou mesmo obliterar evidências. A percepção de que não se pode ter certeza sobre alguma coisa pode tornar-se uma certeza e, consequentemente, da mesma forma enfraquecer e obliterar evidências.
Neste caso, o que seria suficiente? Para começar, o desejo de descobrir a verdade qualquer que seja ela. Isso é ainda mais difícil do que parece à princípio.
Enquanto se está pisando em um terreno conhecido, enquanto nossos fundamentos não estão sendo abalados, é relativamente fácil reajustar nossas visões de mundo. O problema ocorre quando a realidade começa a ir em uma direção que tem o potencial de derrubar a plataforma em que nos sentimos seguros. Minha questão é: até que ponto você conseguiria examinar evidências contrárias a sua posição de uma forma isenta? Isto é possível?
Relacionada à capacidade de examinar idéias contrárias às nossas com isenção, há a questão de como construimos nossas bases do que é confiável. Comumente se acredita que a base para as convicções de religiosos, ou místicos e espiritualistas, seria um conjunto de ensinamentos expostos em livros como a Bíblia, Alcorão, ensinamentos de Buda ou mensagens dos espíritos e outras. E a base para as de céticos seriam a ciência e o pensamento racional. Um ponto fundamental, porém, na forma como avaliamos proposições, tem a ver com o grau de confiança e credibilidade que depositamos em determinadas pessoas. Isso, além de nossas experiências individuais e conjunto de valores, é um dos fatores que mais pesa em nossas avaliações do que é do que é aceitável ou não. Por exemplo, há sempre algumas pessoas que se destacaram por seu entendimento e realizações em áreas de conhecimento que compõem a base para nossas concepções. Consequentemente, o que essas pessoas disseram ou acreditaram costuma ter um papel fundamental na hora de avaliarmos evidências. Não há nada errado em levarmos em conta a experiência de outros que se destacaram por suas realizações. O problema é quando isso se torna um obstáculo para avaliarmos evidências por nós mesmos!
O bom senso faz muitos questionarem a existência de um Deus bom em face da exitência do mal, como doenças, calamidades, guerras, etc. Ao mesmo tempo, também faz com que pessoas questionem por que Deus, aparentemente, não se manifesta aos nossos sentidos nesse planeta. Estas são questões muito relevantes que pretendo abordar posteriormente. No momento, existe uma questão que vem ainda antes destas duas: existe, atualmente, à disposição do ser humano, conhecimento suficiente para responder sobre a existência ou não de Deus?
Para investigarmos isto, é importante que tenhamos, inicialmente, uma idéia correta de como se estrutura o conhecimento humano sobre a realidade. Em um primeiro momento da vida, adquirimos conhecimento sobre o mundo através dos sentidos, do que podemos ver, tocar, provar, cheirar e ouvir. A partir disso, dirigidos por nossos raciocínios e emoções, vamos construindo nossos conceitos. Quando aprendemos a linguagem, adquirimos uma ferramenta importante para ampliar nossos meios de investigação sobre a realidade. Para sobreviver, porém, precisamos aprender a lidar com nosso ambiente e isso inclui começarmos a aprender as formas, os números, as cores, a paisagem, nossa geografia, nossa história, enfim, começamos uma jornada que nos leva a perceber em maior ou menor grau como as coisas estão interconectadas, como nos afetam e são afetadas por nós.
Ocorre que a forma como descobrimos o mundo segue um caminho inverso ao de como a realidade se estrutura. Começamos com uma experiência social, de sermos tocados e cuidados por outras pessoas, de experimentarmos o mundo através dos sentidos. Então, obtemos uma noção de nosso ambiente e de como nos movimentarmos nele; também adquirimos a linguagem. A partir do momento em que nosso cérebro começa a processar informações, iniciamos a construção de uma história através da memória e aprendizado. Do ponto de vista humano, o conhecimento se processo através da construção de uma história, da interação social, de uma experiência física e geográfica, da aquisição da linguagem. Conhecimentos abstratos como matemática explícita e filosofia só acontecem mais tarde e, a maior parte das pessoas do planeta, não se aprofunda muito nestes temas.
A realidade, no entanto, tem uma estrutura inversa. Porque, ao investigarmos a história, percebemos que ela tem origem nas questões sociais. As questões sociais se compõem de interações das pessoas entre si e com o ambiente físico, ou seja, psicologia, fisiologia, ecologia, geografia, economia, política, etc. O funcionamento de todas essas coisas obedece às leis da física. O ambiente, todos os seres vivos e suas interações, em todos os níveis, são regidos pelo eletromagnetismo, gravidade, interações fracas e fortes. Com certeza, todas essas coisas geram superestruturas que, intuitivamente, parecem ser muito mais do que a soma das partes. E são. A soma das partes, porém, acrescida de todas as interações entre elas, ainda segue estritamente estas leis básicas e não existe nenhum princípio mágico por trás. Cada detalhe tem sua origem nas leis da física. Todas estas leis seguem o princípio da ação mínima, que é expresso por uma equação bem pequena.
δA=0
Então, apesar do que parece para o nosso senso comum, as leis mais básicas que geram toda a complexidade do Universo, seguem um princípio básico bem simples, que é um princípio de otimização. Quando expresso matematicamente, este princípio nos permite deduzir as leis físicas.
Eu disse "expresso matematicamente" porque, nossa linguagem matemática, a forma como escrevemos os símbolos dos conceitos abstratos não é a Matemática. Os símbolos que escolhemos para representar os conceitos foram inventados pelos homens, mas os conceitos por trás dos símbolos não foram criados pelos seres humanos. Eles foram sendo descobertos e se demonstraram a forma mais eficiente de representar e gerar novos conhecimentos sobre a realidade. Incluindo aqueles aos quais jamais teríamos acesso simplesmente por nossos sentidos ou raciocínio filosófico. Apesar de que, para o nosso senso comum, muitas vezes os conceitos matemáticos parecem meras abstrações sem correspondência na realidade, tudo o que o homem conhece e experimenta tem sua base no funcionamento matemático da realidade. Aquela matemática que está por trás dos símbolos e que se expressa não só por números, mas por equações e Lógica. Quando a experiência humana é insuficiente para compreender algo, quando a filosofia não consegue alcançar, quando não se pode testar em laboratório, o uso de Matemática gera conhecimentos testáveis e comprováveis cientificamente. Acaba gerando toda a realidade que conhecemos, a que não conhecemos e tudo o que poderia existir, mas não sabemos se existe ou não.
Toda a nossa Física e, portanto, nossa Biologia, Economia, Sociologia e tudo no Universo deixam de existir sem o tempo e o espaço. E hoje se sabe que tempo e espaço tiveram origem. Portanto, nossa realidade, "nosso aquário", a Física e suas consequências, só existem a partir dali, dentro do tempo e do espaço. Tudo o que está fora disso, e não tem sentido falar-se em antes disso sem existência de tempo, pode ser acessado pela Matemática, mas não por outras formas de conhecimento humano.
Existe um Teorema da Lógica Modal conhecido como Teorema Ontológico, demonstrado por um matemático chamado Kurt Gödel. Este teorema conclui que Deus necessariamente deve existir. Ele é formamelmente consistentente e correto e foi validado por diversos softwares.[2] Naturalmente, há várias críticas ao teorema e suas conclusões. Algumas destas críticas afirmam que várias coisas poderiam substituir Deus no teorema, tais como estrelas do mar, mal absoluto e outras. Contudo, se estas coisas fossem colocadas ali, não se encaixariam nos axiomas do teorema. Uma outra crítica argumenta que a Lógica Modal S5 depende de um pressuposto metafísico questionável envolvendo a existência real dos mundos de possibilidades mencionados na literatura. O problema com este argumento é que ele confunde a linguagem utilizada em livros didáticos sobre o assunto com a própria Lógica Modal. A linguagem didática normalmente utilizada nesta área, se entendida literalmente, parece estar fazendo afirmações metafísicas. Entretanto, a Lógica Modal em si não depende de tais pressupostos filosóficos.
Deus seria uma entidade que está fora do Universo e, portanto, não depende de nossas leis físicas, do tempo e do espaço. Ele teria criado estas coisas. Não podemos tentar aplicar a Ele nossas regras de causalidade. As únicas coisas existentes fora do tempo e do espaço seriam Deus e a Matemática. Por isso ela é útil para tratar da existência ou não de Deus. No entanto, não é só através da Matemática que podemos encontrar evidências de Deus. Pretendo continuar este assunto posteriormente.
Referências
[1] Wikipédia, Carl Sagan (fonte: Head, Tom, ed. (2006). Conversations with Carl Sagan (1st ed.). Jackson, MS: University Press of Mississippi. ISBN 1-57806-736-7. LCCN 2005048747. OCLC 60375648.)
[2] Christoph Benzmuller e Bruno Woltzenlogel Paleo. "Automating Godel’s Ontological Proof of God’s Existence with Higher-order Automated Theorem Provers". Disponível em: http://page.mi.fu-berlin.de/cbenzmueller/papers/C40.pdf Acessado em 05/04/2016.
terça-feira, 1 de março de 2016
Reflexões sobre a Morte
Minha vida acabou de passar por alguns daqueles tipos de acontecimentos que puxam o tapete debaixo dos pés e têm o poder de revirar tudo!
Meu pais faleceram em 2014. Eles estavam bem idosos e, é claro, eu sabia que eles iriam morrer um dia. Eu achava que tinha, finalmente, entrado em um acordo razoável com a morte. Algo assim: ela existe, significa o fim da existência, não é temível e todo mundo vai passar por ela. Uma fórmula bem simples para lidar com esse conceito. Porque quando se é jovem a morte parece uma coisa distante: só um conceito abstrato!
Minhas experiências com a morte foram bem limitadas até 2014. Durante minha adolescência vivi alguns momentos de muita depressão e uso de drogas. Nessa época, até tentei suicídio uma vez. Foi uma tentativa bem titubeante, por causa da sensação de incerteza sobre o que me aguardava. Quando criança, a idéia da morte me apavorava, pelo motivo de que parecia desolador simplesmente não existir mais depois de todo o turbilhão de emoções que é viver! O problema é quando viver se torna extremamente doloroso! O que pessoas que passam por isto querem não é a morte, mas simplesmente pararem de sofrer tanto! A morte parece a única forma de atingir esse objetivo.
A questão é que, quando a pessoa não se mata, aquilo que parecia um sofrimento sem fim se modifica. Porque a pessoa aprende a lidar com o que parecia sem solução, ela aprende a lidar melhor com as próprias emoções. Isso até ela se encontrar com novos obstáculos e pensar na morte outra vez. Então vai ter que aprender a lidar com esses obstáculos também. Nem sempre isso vai acontecer, porque, às vezes, a pessoa não consegue crescer, ela usa medicamentos e atitudes que a "congelam" numa atitude de negação e autoproteção. Não tenho nada contra medicamentos para depressão e outros problemas psicológicos. Acho que eles foram feitos para ajudar as pessoas a conseguir viver com problemas muitas vezes intoleráveis. O que acontece, infelizmente com alguma frequência, é que, para algumas pessoas, as dificuldades a serem vencidas não têm a ver com a forma como elas as enfrentam, não são o modo como elam reagem às situações, mas o fato de existirem coisas que lhes causam sofrimento. O que as pessoas fazem é se proteger dessas coisas externas. O remédio e o evitar situações desagradáveis servem de escudo para se protegerem do mundo hostil. Não percebem que enfrentar o mundo hostil e controlar as emoções é a única coisa que faz com que alguém realmente supere os obstáculos e cresça. Crescer pode ser doloroso, mas é necessário. Porque, do contrário, tanto faz continuar vivendo se passamos pela vida sem ter saído de dentro de uma casca! É como participar de uma corrida de obstáculos contornando todos eles! Você não participou de fato da corrida, só fingiu que sim. Daí quem passa a vida tentando se proteger de sofrimentos e evitando toda a situação desagradável, não viveu de fato! Não experimentou a recompensa pelos esforços, porque evita esforços. Não apreendeu o sentido da vida, porque viveu só pra si, em uma concha.
O que aconteceu comigo, recentemente, foi o choque que ocorreu entre as idéias que eu usava para enfrentar um fenômeno distante de mim e a realidade de enfrentar esse fenômeno cara à cara. A morte, infelizmente, não recompensa aquela sua idéia romântica de que, depois de uma vida intensa de muitas realizações, um dia você simplesmente adormece calmamente depois de se despedir devidamente de toda a família! Não, primeiro você vai perdendo, cada dia um pouco mais, tudo o que tinha e era! Se você era rico e orgulhoso ou pobre e ansioso, não faz mais diferença depois de algum tempo! E isso porque, muito frequentemente, você não morre de repente. A não ser naqueles casos em que a pessoa morre de acidente ou de mal súbito, ela vai perdendo a capacidade de desfrutar da própria vida e das coisas que antes gostava, até perder a si mesma, sua memória e aquilo que fazia dela o que ela era. E isso não é só nos casos de Alzheimer ou demência avançada. Porque a mente e o corpo vão ficando cansados e incapazes de fazer os mesmos esforços. Tem um pequeno instante, entre a morte e a vida, em que você ainda não foi, mas já não está mais aqui. E esse momento é muito triste! Quando você é o espectador desse fenômeno e pode apenas olhar a vida dos seus entes queridos escorrendo pelos dedos sem ao menos conseguir produzir um real confôrto, porque eles já estão escapando do seu alcance, isso é muito terrível! Talvez a coisa mais terrível que eu já tive de enfrentar na minha vida!
É estranho como as palavras de pessoas que nunca passaram por isto soam nos seus ouvidos nesse momento: "Faz parte da vida" ou "É a vida, todos vão morrer". Soa estranho porque você já pensou isso, já disse isso alguma vez. E, principalmente quando as pessoas que morreram eram idosas, você pensa que é natural esperar que elas irão morrer logo! Não é nenhuma surpresa! Claro que não! Quando é o seu vizinho, um parente pouco chegado, um estranho, ou quando você não acompanhou todo o processo de morrer, passo a passo, pelo qual a pessoa passou. Quando você não morreu com ela, hora a hora, dia a dia, minuto a minuto, sempre um pouquinho mais e tentou, desesperadamente, evitar a dor, o sofrimento e a perda até da dignidade para aquela pessoa! Quando ela finalmente atravessa os portais de além da vida, você pensa: "Como assim, porque ainda estou aqui? Eu andei todo o caminho com ela, passei por todo o processo até a morte! Agora ela foi e eu fiquei! O que eu faço?"
Eu não tenho perguntas do tipo: por que existe a morte? O que ocorre depois da morte? Por que existe o sofrimento? E existe um Deus? Essas são perguntas que eu já respondi para mim mesma. São perguntas que fiz naquela ocasião da tentativa de suicídio.
Acho que a diferença entre as minhas perguntas e as daqueles que deixam de crer em um Deus ao se deparar com esse tipo de questão é que eu as fiz diretamente para Deus. Meu raciocínio foi o seguinte: Se existe um Deus, Ele deve ser capaz de me responder essas questões e, se não, quero saber que as coisas são assim justamente por esse motivo. Quero que as respostas sejam o que elas realmente são e não o que eu quero que sejam! E as respostas foram chegando, não todas de uma vez, porque envolve muitas coisas e coisas profundas. Contudo, elas estão ao alcance de qualquer um que realmente queira entender. As respostas não se encontram simplesmente na fé ou na Ciência. Elas abrangem tudo isso, mas ninguém precisa ser expert para entender, embora quanto mais se aprenda mais claras as respostas vão se tornando.
Pretendo entrar em mais detalhes em posts subsequentes.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Misticismo X Racionalidade: a religião na história contemporânea
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Deus existe? A Evolução é um fato?
Pretendo terminar a série de posts "Misticismo X Racionalidade". Mas antes de continuar sobre o tema, pretendo dar uma pausa para considerar estas questões acima. Elas poderiam ser consideradas em posts separados, pois são dois assuntos diferentes. Crer em um Deus não implica em não crer na Evolução e acreditar na Evolução não implica em não crer em um Deus. Mas estou colocando estas duas questões juntas porque até a divulgação da “Origem das Espécies” de Charles Darwin não se considerava haver contradição entre a crença em Deus e a Ciência. Inclusive a maioria dos primeiros cientistas, daqueles que descobriram o método científico, como Galileu, Newton, Da Vinci e outros, criam em Deus e essa crença os induziu ao desenvolvimento do método cientifico, que é um tema para um post futuro. Foi somente depois que a “Origem das Espécies” ganhou status de “teoria científica” que a crença em Deus passou a ser algo a ser estigmatizado pelo que se acredita ser a maioria acadêmica, embora se estime que cerca de 2/3 dos cientistas atuais creiam em Deus (www.msnbc.msn.com/id/8916982/ns/technology_and_science-science/t/scientists-belief-god-varies-discipline/). Na verdade, as questões acima se desdobram em várias outras, mas eu resumiria tudo em quatro questões principais: Existem boas razões para crer na existência de Deus? Existem boas razões para não crer? A Evolução pode ser considerada um fato? Existem evidências contrárias?
Com relação as duas primeiras questões, eu pretendo enumerar algumas razões para elas que costumam ser mais comuns, mas com certeza, não tenho a pretensão de esgotar o tema. Com relação às duas últimas, é importante definir os significados das palavras “fato”, “evidência” e “ciência”, entre outras.
Procurei na internet algumas estatísticas de quantas pessoas ao redor do mundo creem em algum deus. Concluí, se elas estão corretas, que acima de 75% das pessoas, mais ou menos, acredita em algum tipo de deus. Não é preciso muita habilidade para perceber isso. A maioria das pessoas têm alguma forma de religião que propõe alguma forma de divindade ou ser superior. Maioria pode ser considerado um bom argumento para muitos; essa é uma razão que muitos costumam apresentar para suas atitudes e crenças. Pessoalmente, considero essa uma péssima razão. Basta pesquisar um pouco a história do mundo para perceber como as maiorias estiveram erradas em incontáveis exemplos através da história. Por muito tempo, maiorias acreditaram que a Terra fosse o centro do Universo, que a vida podia surgir de restos orgânicos, que mulheres eram menos capazes que os homens, entre outras ideias que já prevaleceram nas sociedades. Maiorias podem decidir eleições, mas não garantem que as escolhas sejam as melhores. Uma razão aparentemente boa para não se crer em Deus seria o fato de não se poder vê-lo ou tocá-lo.
Contudo, muitas tecnologias utilizadas em nosso mundo estão baseadas em teorias que são abstratas e das quais podemos apenas ter evidências. É o caso da relatividade, mecânica quântica e outras teorias. Mas, antes de prosseguir com estas duas questões, consideremos, por um momento, as questões relativas a definições de palavras e Evolução.
As definições para “fato”, encontradas em dicionários, são do tipo algo “real” ou “verdadeiro”, “que existe”. Já “evidência”, no contexto científico, é uma informação que altera a probabilidade de hipóteses relevantes. Portanto, uma evidência favorável a uma hipótese aumenta a probabilidade dessa hipótese se confirmar. “Ciência” seria o método científico em funcionamento, o qual consiste, basicamente, em observação controlada (observação preliminar, planejamento da coleta de informações, coleta de informações, elaboração de dados a partir das informações coletadas, tudo isso seguindo critérios da Estatística e da Teoria da Informação) e sistematização formal, que é o processo de elaborar e utilizar modelos matemáticos que expressem aspectos do assunto em estudo1. Normalmente, em Ciência, as coisas raramente podem ser ditas como “provadas”, mas geralmente, a maior parte dos dados ou leis obtidos em Ciência são evidências para algo. Assim, considerando a evolução das espécies, como proposta por Charles Darwin e posteriormente corrigida para o Neodarwinismo, do ponto de vista da definição de Ciência proposta acima, ela está, basicamente, restrita à primeira parte do método científico apenas, pois não existe um modelo matemático abrangente do qual surjam naturalmente as proposições evolutivas ou que faça uso formal (matemático) delas: mutações e seleção natural2. E isto não entra no mérito de elas serem ou não boas ideias, apenas que não se encaixam na plenitude do método científico, como fazem, por exemplo, a Relatividade Geral, a Mecânica Quântica, etc. Com respeito a evidências, por exemplo, as que serviriam para solidificar hipóteses como o ancestral comum ou as modificações sofridas até se obter a diversidade de seres existentes hoje são praticamente inexistentes ou duvidosas. Por exemplo, o registro fóssil não apresenta as diferentes graduações até as formas atuais, salvo algumas poucas formas que poderiam ser consideradas como intermediárias. O que se observa é não uma evolução gradual até os estágios atuais, mas quase todo o tempo dado para a idade da Terra com poucas formas de vida e, de repente, no período Cambriano, uma explosão de formas de vida complexas. Ou seja, repentinamente, aparece uma multidão de formas de vida complexas sem nenhuma forma intermediária anterior aparente. E quanto ao ancestral comum, por exemplo, ele teria supostamente surgido de uma célula primordial que teria descendido de algum grupo de moléculas orgânicas originais, RNAs primitivos ou um ciclo metabólico simples, coisas que se têm demonstrado em experimentos de laboratório altamente improváveis. O maior argumento a favor da Evolução é que a maioria acadêmica aceita esta hipótese. E a realidade é que este é motivo suficiente para muitas pessoas.
Voltando às questões sobre a existência de Deus, uma pergunta comum que é feita por muitos que não acreditam nEle é a seguinte: Se Deus existe e criou tudo, quem criou Deus? Esta pergunta, em termos de lógica, é semelhante a que os antigos faziam sobre o nosso planeta: o que acontece quando chegamos ao fim do mundo: podemos cair da borda da Terra? Em outras palavras: este tipo de pergunta apenas demonstra nossa falta de conhecimento para lidar com o assunto: essas perguntas não fazem sentido quando se entende a realidade; precisam ser modificadas. Deus, não sendo limitado por tempo e espaço e existindo além deles, não pode ser sujeito às mesmas leis físicas que nós. Não se pode falar em criação (algo que supõe tempo) do que existe for a do espaço-tempo. Outra questão comumente apresentada é quanto à presença do mal ou sofrimento: se Deus existe por que permite as guerras ou as doenças ou a injustiça? A resposta para este tipo de questão requer considerações de mais alto nível do que a anterior e não pode ser encontrada simplesmente pelo estudo da Natureza. A Bíblia apresenta a resposta para esta questão. A resposta, resumidamente, é que a presença do mal em nosso planeta é o resultado da escolha dos ancestrais humanos. A eles foi dada a liberdade de escolherem o governo de Deus ou não no planeta. A escolha contrária ao governo de Deus, cujas leis promoveriam o máximo bem-estar no planeta, significou que as coisas não funcionariam mais como planejadas, e isto implicou em mau funcionamento que gera sofrimento e injustiça. Mas por que Deus permitiu que isso acontecesse? - muitos perguntam. Porque Ele não queria que os seres humanos fossem autômatos programados para fazerem o que os programou para fazer, queria que eles fossem semelhantes a Ele, capazes de fazer escolhas inteligentes, capazes de amar por entendimento e livremente. Ele previu o que aconteceria com a humanidade e providenciou um plano para corrigir o mal, o qual está em andamento. É verdade que há muito sofrimento na Terra, muitos sofrem sem causa, mas em muitos casos, as pessoas que sofrem trouxeram sobre si mesmas o sofrimento por seus maus hábitos, por suas escolhas. No plano de Deus para corrigir o mal, Ele sofreu (na pessoa de Jesus Cristo) mais do que qualquer ser humano jamais sofrerá. Sobre Ele foi colocada a culpa por toda transgressão já praticada no planeta. Sob o peso dessa culpa seu coração se rompeu e quando os soldados romanos retiraram o corpo da cruz, uma lança rasgou o peito de Jesus e dali saiu “sangue e água” (João 19:34). Agora, imagine essa história, por um momento: todas as divindades em todas as culturas recebem a adoração de seres humanos e todas concedem dons ou favores, mas todas permanecem na sua esfera superior ou se elas viessem a Terra não seria para serem pobres, sofredoras ou rejeitadas, mas principalmente, não viriam para pagar por um crime que não cometeram, muito menos por todos os crimes já cometidos. E por que tudo isso? Para colocar o ser humano novamente na sua condição original, por amar tanto essas criaturas que formou que não deseja perdê-las apesar do que elas trouxeram sobre si mesmas. De um ponto de vista egoísta, seria mais fácil deixar estas criaturas simplesmente morrerem conforme elas escolheram.
Já um cientista chamado Maupertuis inspirado na ideia de que tudo o que Deus faz é perfeito descobriu o princípio da ação mínima, do qual derivam todas as leis da Física.
Existem, com certeza, muitas questões que poderiam ser adicionadas aqui, mas como disse, não pretendo esgotar o assunto. Mas gostaria de acrescentar alguns motivos para acreditar em Deus.
Porque a vida não parece ter-se originado por acaso (seguindo meramente leis químicas e físicas), isto tem-se demonstrado altamente improvável.
Porque a história tem seguido em detalhes (até com datas específicas) previsões das profecias bíblicas.
Porque a fé no Deus bíblico está por traz dos melhores avanços da humanidade, como a observação da natureza, o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento do método científico e, acima de tudo, regeneração da humanidade.
1O Método Científico. Eduardo F. Lütz
2Entenda-se que não estou me referindo a alguns cálculos matemáticos, mas a um modelo matemático abrangente para a Evolução das Espéicies.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Misticismo X Racionalidade: A Religião na Idade Moderna
Um estudo cuidadoso da história, no entanto, nos mostra que embora o retorno ao estudo dos clássicos gregos e latinos tenha dado um impulso a Reforma por possibilitar a leitura do Novo Testamento em sua língua original, o grego, o desenvolvimento científico (a partir da descoberta do método científico), a valorização da razão, direitos humanos, liberdade e igualdade são valores que provêm antes do retorno à religião bíblica durante a Reforma do que do mero estudo dos clássicos. Eu não pretendo apenas afirmar isto aqui. Eu gostaria de convidar aqueles que me lêem a um passeio pela história dentro de nossas limitadas possibilidades.
Antes de iniciarmos nosso passeio, convém abrir parênteses para enfatizar uma diferença crucial existente entre a religião bíblica e qualquer outra forma de religão, pensamento ou filosofia de vida. (Isto precisa ser dito, creiamos ou não na Bíblia como uma fonte confiável de informação,' para que os eventos históricos referentes a Reforma possam ser entendidos.) A ênfase de todos os tipos de religiões que não têm a Bíblia como único fundamento em questões de fé é posta sobre o que o homem pode realizar para alcançar benefícios, vida após a morte, iluminação ou o que seja. Seja por meio de sacrifícios, boas obras, esforços, peregrinações, meditações, etc. Filosofias de vida diferentes, não importa quão diferentes entre si, sempre se centralizam em coisas que os seres humanos podem realizar e experimentar. A religião bíblica (aquela que se baseia unicamente no que está escrito na Bíblia e a usa como seu próprio intérprete) coloca ênfase no que Deus faz pelos seres humanos, assim os sacrifícios de cordeiros do Antigo Testamento apontavam para "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Na perspectiva bíblica, quando o ser humano se alienou de Deus, no princípio de sua história, perdeu sua capacidade de amar a Deus e de ser genuinamente bom, uma vez que Deus seria a fonte do bem no homem e do funcionamento de todas as leis do Universo. Por causa disso, o ser humano passou a ter duas tendências: uma que o faz ter uma natureza religiosa e desejar o bem, boas coisas e até realizar várias delas, e outra que o faz rebelar-se contra Deus e ser egoísta (tendência a degradação). Um texto que declara isto inequivocamente é o seguinte: "Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros." Romanos 7:19-23.
Segundo a religião bíblica, o homem pode ser ético, estabelecer bons ideiais para si mesmo e os outros, mas é incapaz de, alienado de Deus, vencer completamente seu egoísmo. A solução bíblica para o problema humano está no que Deus pode fazer pelo homem quando este permite: "Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. ... Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser". "Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. ...Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação; pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." (Romanos 8: 2-4 e 8; 2 Coríntios 5: 14-15, 17-21.)
No ponto onde paramos, no post anterior, o mundo ocidental era um mundo místico, religioso, sem desenvolvimento científico, quase completamente estagnado em conhecimento, sem respeito a liberdade ou direitos humanos, mas ainda era um mundo centralizado no homem. A salvação dos homens estava centralizada na autoridade da Igreja, assumida pelo papa, para obter aprovação da divindade os homens realizavam orações e jejuns dedicados aos santos (seres humanos mortos), realizavam peregrinações e pagavam indulgências, em suma, confiavam nas próprias obras, na intercessão de sacerdotes e santos. Pagando uma boa soma em dinheiro muitos sentiam-se livres para viverem de acordo com seus instintos. Exemplares da Bíblia, em latim e grego, eram muito raros mesmo para os sacerdotes que, normalmente não a liam, o povo comum não tinha qualquer acesso a eles. É nesse contexto histórico que encontramos Lutero precisamente antes de começar a Reforma:
"Ele encontrou no convento uma Bíblia presa por uma corrente, e a esta Bíblia acorrentada ele retornava constantemente. Ele tinha apenas pouca compreensão da Palavra, todavia era seu mais agradável estudo. ... Parece que cerca desta época ele começou a estudar as Escrituras em suas línguas originais, e a lançar o fundamento do mais perfeito e útil de seus labores - a tradução da Bíblia. ... Queimando com o desejo de alcançar aquela santidade em busca da qual ele entrara no claustro, Lutero cedeu a todo o rigor de uma vida ascética. Ele se esforçou para crucificar a carne por jejuns, mortificações e vigílias. Encerrado em sua cela, como em uma prisão, ele lutava incessantemente contra os pensamentos enganosos e as más inclinações de seu coração. Um pequeno pão e peixe eram frequentemente seu único alimento. ...Lutero não encontrou na tranquilidade do claustro e na perfeição do monastério aquela paz de mente que tinha procurado ali. Ele desejava ter a segurança de sua salvação: esta era a grande necessidade de sua alma. Sem ela, não havia repouso para ele. Mas os temores que o tinham agitado no mundo perseguiam-no em sua cela. Não, eles tinham aumentado. ... O senso de sua pecaminosidade pertubava-o; a perspectiva do juízo de Deus enchia-o de temor. Mas no próprio momento em que estes terrores tinham alcançado seu ponto mais alto, as palavras de S. Paulo, que já o tinham impressionado em Wittenberg, "o justo viverá pela fé" [Galátas 3:11], retornaram forçosamente à sua memória e iluminaram sua alma como um raio do Céu." History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 2, capítulos 3 e 6.
Acreditando que o único modo de um ser humano ser justificado diante de Deus é pela fé no que Cristo fez e faz por ele e que a única autoridade em matéria de fé são as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, Lutero lançou a base da libertação da escravidão espiritual do homem pelo homem, do estudo das Escrituras de cada pessoa por si mesma (e não através da interpretação dos sacerdotes) e da igualdade de todos os homens perante Deus.
Segundo D'Aubigné:
"O Cristianismo não é um simples desenvolvimento do Judaísmo. Diferente do papado, ele não objetiva confinar o homem nas apertadas faixas de ordenaças exteriores e doutrinas humanas. O Cristianismo é uma nova criação; ele toma posse do homem interior e tranforma-o nos mais profundos princípios de sua natureza humana, de modo que o homem não mais requer que outro homem imponha regras sobre ele; mas, ajudado por Deus, ele pode de si mesmo e por si próprio distinguir o que é verdadeiro e fazer o que é correto. Ao levar a humanidade para aquela idade madura que Cristo lhe adquiriu e libertá-la da tutela em que Roma a tinha mantido por tanto tempo, a Reforma deveria desenvolver o homem inteiro; e enquanto regenera seu coração e sua vontade pela Palavra de Deus, ilumina seu entendimento pelo estudo de conhecimento profano e sagrado. ... 'Ocupem-se com as crianças,' continua Lutero, ainda dirigindo-se aos magistrados; 'pois muitos pais são como avestruzes; eles estão endurecidos para com seus pequenos, e satisfeitos com ter posto o ovo, eles não se preocupam com nada depois disto. A prosperidade de uma cidade não consiste meramente em acumular grandes tesouros, em construir fortes muros, em erigir esplêndidas mansões, em possuir brilhantes exércitos. Se homens loucos caem sobre ela, sua ruína será apenas maior. A verdadeira riqueza de uma cidade, sua segurança e sua força, é ter cidadãos instruídos, sérios, dignos e bem-educados. E a quem devemos culpar porque existem tão poucos no presente, a não ser vocês magistrados, que têm permitido que nossa juventude cresça como árvores em uma floresta?' " History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 10, capítulo 9.
Lutero e outros reformadores aprenderam que a religião bíblica requer um "culto racional" (Romanos 12:1). A Reforma foi o movimento que, no final da Idade Média, lançou os fundamentos para a valorização do ser humano como um ser racional, livre, independente e capaz de pensar por si mesmo. O renascimento da cultura grega e latina sozinho não fez isto, pois os cultos daquela época não ousavam questionar ou tentar modificar a estrutura estabelecida (ver http://www.iep.utm.edu/humanism/ no item "Erasmus"), os primeiros humanistas eram cristãos, mas a ruptura entre cristianismo e humanismo se deu durante o Iluminismo: "O Iluminismo da metade do século dezoito na Europa trouxe uma separação entre instituições religiosas e seculares que exemplificaram uma crescente fissura entre cristianismo e humanismo. A dependência em declínio dos fundamentos religiosos por parte de filósofos levou a experiências em vários planos políticos e sociais dos últimos poucos séculos ao redor do mundo, incluindo Comunismo Internacionalista, Socialismo Nacional, Facismo, Anarquismo, Teocracia, Caesaropapismo e várias comunidades utópicas. Cristãos participaram em todos estes movimentos em vários graus como indivíduos e institucionalmente, como participaram deístas e materialistas (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Christian_Humanism).
O humanismo atual, um humanismo inclusivo, procura abraçar a humanidade toda com valores que foram trazidos à luz a partir da religião bíblica pela Reforma, com a diferença de que ele procura estabelecer estes valores à parte do Deus da Bíblia.
Considerando o método científico, por exemplo, as primeiras idéias para ele vieram de homens como Da Vinci, Galileu e Newton, os quais foram influenciados pela Bíblia e buscaram revelar a sabedoria do Deus bíblico através da Natureza que criam que Ele criou. Eles se deram conta do papel que a matemática tem no funcionamento da Natureza, o que para eles era perfeitamente natural, pois a Bíblia apresenta um Deus que governa segundo leis bem estabelecidas.
"A sabedoria é filha da experiência. A experiência jamais engana; e os que se lamentam dos seus logros deveriam antes lamentar-se da sua ignorância porque pedem à experiência aquilo que está para lá dos seus limites. Em contrapartida, pode o juízo enganar-se sobre a experiência; e para evitar o erro não há outra via senão reduzir todos os juízos a cálculos matemáticos o servir-se exclusivamente da matemática para entender e demonstrar as razões das coisas que a experiência manifesta. A matemática é o fundamento de toda a certeza." Leonardo da Vinci – apud in (ABBAGNANO 1970, Origens da Ciência, p. 9) (http://filosofiageral.wikispaces.com/A+Revolu%C3%A7%C3%A3o+Cient%C3%ADfica)
"A Filosofia [Física] está escrita neste grandioso livro que está sempre aberto à nossa contemplação (refiro-me ao universo), mas que não pode ser entendido sem que primeiro aprenda-se a língua, e conheçam-se os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em linguagem matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender sequer uma de suas palavras; sem estes
[caracteres] fica-se a vagar por um escuro labirinto." (Il Saggiatore, 1623, Galileo Galilei)
"Newton foi levado acima de tudo por argumentos derivados do estudo do universo, embora sua mente profundamente pensadora extraiu outros argumentos também. Este grande homem cria (Opticks III. Book. Query 31) que o movimento dos corpos celestiais demonstrava a existência Daquele que governa-os. Seis planetas - Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno - revolvem-se ao redor do Sol. Todos os planetas rotacionam na mesma direção em órbitas que são mais ou menos concêntricas. (Não obstante, existem outros corpos, os cometas, que seguem totalmente diferentes órbitas, movendo-se em todas as direções e em cada região do Céu.) Newton acreditava que tal uniformidade de movimento só podia resultar da vontade de um Ser supremo." Derivation of the laws of motion and equilibrium from a metaphysical principle, by Pierre Louis Moreau de Maupertuis (http://en.wikisource.org/wiki/Derivation_of_the_laws_of_motion_and_equilibrium_from_a_metaphysical_principle).
Newton também escreveu um livro sobre as profecias de Daniel e Apocalipse, Observations upon the
Prophecies of Daniel,and the Apocalypse of St. John, in Two Parts, que pode ser obtido no seguinte site http://www.isaacnewton.ca/daniel_apocalypse/
Em seu artigo acima e no seguinte, Accord between different laws of Nature that seemed incompatible, Maupertuis deduz o princípio da ação mínima, segundo ele "ninguém pode duvidar de que tudo é governado por um Ser supremo que tem imposto forças sobre os objetos materiais, forças que mostram seu poder, tal como ele destinou estes objetos a executar ações que demonstram sua sabedoria. A harmonia entre estes dois atributos é tão perfeita, que indubitavelmente todos os efeitos da Natureza poderiam ser derivados de cada um tomado separadamente. Uma cega e determinística mecânica segue os planos de um intelecto perfeitamente claro e livre." O princípio metafísico de Maupertuis do qual ele deriva seu princípio da ação mínima (um princípio de otimização) tem como base a crença de que Deus faz as coisas com sabedoria e perfeição e se origina da declaração bíblica: "E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom." Gênesis 1:31.
Mesmo Freeman Dyson declarou: "A ciência ocidental nasceu da teologia cristã. Provavelmente não é um acidente que a ciência moderna tenha crescido explosivamente na Europa cristã e deixado para trás o resto do mundo. Milhares de anos de debates teológicos nutriram o hábito do pensamento analítico capaz de ser aplicado à análise de fenômenos naturais." Review of Feynman and of Polkinghorne "Belief in God in an Age of Science", 1998.
Na realidade, o Iluminismo e Racionalismo do século 18, que romperam com o Cristianismo, derivaram seus ideais da Reforma, como Russel também acreditava: "Russel argumenta que o iluminismo foi, em última instância, nascido da reação protestante contra a contra-reforma católica, quando as visões filosóficas dos últimos dois séculos cristalizaram-se em uma visão de mundo coerente. Ele argumenta que muitas das visões filosóficas, tais como afinidade pela democracia contra a monarquia, originaram-se entre os protestantes no início do século 16 para justificar seu desejo de romper com o papa e a Igreja Católica. Embora muitos destes ideais filosóficos tenham sido acolhidos por católicos, Russel argumenta, no século 18 o Iluminismo foi a manifestação do princípio do rompimento que começou com Martinho Lutero." Age of Enlightenment citando Russell, Bertrand. A History of Western Philosophy. p492-494." (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Age_of_Enlightenment#cite_note-3)
A religião bíblica, é, na verdade, uma religião raramente praticada em nosso mundo. Ela foi praticada pelos ancestrais do povo de Israel (Abrãao, Isaque e Jacó) e apenas muito pouco tempo pelo próprio povo de Israel, que, na maior parte das vezes, viveu em rebelião contra seus princípios. Os primeiros cristãos viveram de acordo com ela, mas seus seguidores deram origem a Igreja Católica da Idade Média. Os primeiros protestantes deram lugar a descendentes que já não viviam de acordo com os princípios destes. Desta forma, os ideais que deram origem ao moderno humanismo, a saber, ética, racionalidade, democracia e direitos humanos (http://www.iheu.org/adamdecl.htm), além do método científico, tiveram origem nos princípios extraídos da religião bíblica, os ideais foram mantidos, mas o Deus que motivou a existência deles foi deixado de fora.