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terça-feira, 5 de abril de 2016

O Conhecimento Humano e a Existência de Deus

Carl Sagan, astrônomo e astrofísico entre outras coisas, foi um cientista muito popular na década de 1980 devido a seu papel na divulgação científica. Certa vez ele comentou acerca de ateísmo e crença na existência de Deus:

"Um ateu é alguém que tem certeza de que Deus não existe, alguém que tem evidências convincentes contra a existência de Deus. Eu não conheço uma evidência assim convincente. Como Deus pode ser relegado a tempos e locais remotos e a causas últimas, teríamos que saber muito mais sobre o universo do que sabemos agora para ter certeza de que Deus não existe. Ter certeza da existência de Deus e ter a certeza da não existência de Deus parece-me serem os extremos muito confiantes em um assunto tão cheio de dúvida e incerteza a ponto de inspirar, na verdade, muito pouca confiança." [1]

E concordo com isso, em parte. Essa opinião demonstra mais bom senso do que grande parte das idéias expressas neste mundo, sejam religiosas ou céticas. O problema é que bom senso não é suficiente. O bom senso nos induz a pensar que se uma coisa não é vista, tocada ou ouvida, existe uma boa chance de ela não existir.

Ocorre, porém, que essa afirmação de Sagan demonstra conhecimento também. Quando se vai um pouco além, estuda-se um pouco mais a natureza e suas leis, percebe-se que existe uma infinidade de coisas que não podem ser vistas, tocadas e sentidas. Alguns exemplos são: partículas subatômicas, espaço, tempo e gravidade. Contudo, conhecimento ainda não é suficiente. Porque por mais que se conheça, sempre existe um infinito além para ser conhecido. Qualquer entidade neste universo, e mesmo o próprio universo, existe dentro desse "aquário" que é a nossa realidade física, restrita às nossas leis físicas, ao tempo e ao espaço.

No entanto, essa asserção ainda revela entendimento. Que é o que acontece quando se percebe que certezas podem fechar portas para questionamentos válidos. Como é possível ter certeza sem nunca ter questionado uma idéia, observado pontos fortes e fracos, ido até as últimas consequências testando opiniões contrárias às nossas?

O problema, com a maioria das certezas, é que, ao tropeçarmos em alguma evidência muito contrária a elas, ainda parecem mais fortes do que qualquer evidência. Isso ocorre com crentes e descrentes. O próprio ceticismo pode se tornar uma convicção mais forte do que a evidência. Desta forma, entendimento, mais uma vez, não é suficiente.

Percebemos que bom senso, conhecimento e entendimento são coisas fundamentais, necessárias, para conseguirmos diferenciar o que é real do que não é. Constatamos, por todos os exemplos de intolerância ao longo da história, que certezas que não admitem questionamentos têm grande chance de imperdir o reconhecimento de evidências. E, também, que a própria idéia de que não se pode ter certeza sobre um determinado assunto pode tornar-se uma certeza, impedindo que evidências sejam percebidas como evidências. Resumindo: certeza que não admite questionamentos tem grande chance de enfraquecer ou mesmo obliterar evidências. A percepção de que não se pode ter certeza sobre alguma coisa pode tornar-se uma certeza e, consequentemente, da mesma forma enfraquecer e obliterar evidências.

Neste caso, o que seria suficiente? Para começar, o desejo de descobrir a verdade qualquer que seja ela. Isso é ainda mais difícil do que parece à princípio.
Enquanto se está pisando em um terreno conhecido, enquanto nossos fundamentos não estão sendo abalados, é relativamente fácil reajustar nossas visões de mundo. O problema ocorre quando a realidade começa a ir em uma direção que tem o potencial de derrubar a plataforma em que nos sentimos seguros. Minha questão é: até que ponto você conseguiria examinar evidências contrárias a sua posição de uma forma isenta? Isto é possível?

Relacionada à capacidade de examinar idéias contrárias às nossas com isenção, há a questão de como construimos nossas bases do que é confiável. Comumente se acredita que a base para as convicções de religiosos, ou místicos e espiritualistas, seria um conjunto de ensinamentos expostos em livros como a Bíblia, Alcorão, ensinamentos de Buda ou mensagens dos espíritos e outras. E a base para as de céticos seriam a ciência e o pensamento racional. Um ponto fundamental, porém, na forma como avaliamos proposições, tem a ver com o grau de confiança e credibilidade que depositamos em determinadas pessoas. Isso, além de nossas experiências individuais e conjunto de valores, é um dos fatores que mais pesa em nossas avaliações do que é do que é aceitável ou não.  Por exemplo, há sempre algumas pessoas que se destacaram por seu entendimento e realizações em áreas de conhecimento que compõem a base para nossas concepções. Consequentemente, o que essas pessoas disseram ou acreditaram costuma ter um papel fundamental na hora de avaliarmos evidências. Não há nada errado em levarmos em conta a experiência de outros que se destacaram por suas realizações. O problema é quando isso se torna um obstáculo para avaliarmos evidências por nós mesmos!

O bom senso faz muitos questionarem a existência de um Deus bom em face da exitência do mal, como doenças, calamidades, guerras, etc. Ao mesmo tempo, também faz com que pessoas questionem por que Deus, aparentemente, não se manifesta aos nossos sentidos nesse planeta. Estas são questões muito relevantes que pretendo abordar posteriormente. No momento, existe uma questão que vem ainda antes destas duas: existe, atualmente, à disposição do ser humano, conhecimento suficiente para responder sobre a existência ou não de Deus?

Para investigarmos isto, é importante que tenhamos, inicialmente, uma idéia correta de como se estrutura o conhecimento humano sobre a realidade. Em um primeiro momento da vida, adquirimos conhecimento sobre o mundo através dos sentidos, do que podemos ver, tocar, provar, cheirar e ouvir. A partir disso, dirigidos por nossos raciocínios e emoções, vamos construindo nossos conceitos. Quando aprendemos a linguagem, adquirimos uma ferramenta importante para ampliar nossos meios de investigação sobre a realidade. Para sobreviver, porém, precisamos aprender a lidar com nosso ambiente e isso inclui começarmos a aprender as formas, os números, as cores, a paisagem, nossa geografia, nossa história, enfim, começamos uma jornada que nos leva a perceber em maior ou menor grau como as coisas estão interconectadas, como nos afetam e são afetadas por nós.

Ocorre que a forma como descobrimos o mundo segue um caminho inverso ao de como a realidade se estrutura. Começamos com uma experiência social, de sermos tocados e cuidados por outras pessoas, de experimentarmos o mundo através dos sentidos. Então, obtemos uma noção de nosso ambiente e de como nos movimentarmos nele; também adquirimos a linguagem. A partir do momento em que nosso cérebro começa a processar informações, iniciamos a construção de uma história através da memória e aprendizado. Do ponto de vista humano, o conhecimento se processo através da construção de uma história, da interação social, de uma experiência física e geográfica, da aquisição da linguagem. Conhecimentos abstratos como matemática explícita e filosofia só acontecem mais tarde e, a maior parte das pessoas do planeta, não se aprofunda muito nestes temas.

A realidade, no entanto, tem uma estrutura inversa. Porque, ao investigarmos a história, percebemos que ela tem origem nas questões sociais. As questões sociais se compõem de interações das pessoas entre si e com o ambiente físico, ou seja, psicologia, fisiologia, ecologia, geografia, economia, política, etc. O funcionamento de todas essas coisas obedece às leis da física. O ambiente, todos os seres vivos e suas interações, em todos os níveis, são regidos pelo eletromagnetismo, gravidade, interações fracas e fortes. Com certeza, todas essas coisas geram superestruturas que, intuitivamente, parecem ser muito mais do que a soma das partes. E são. A soma das partes, porém, acrescida de todas as interações entre elas, ainda segue estritamente estas leis básicas e não existe nenhum princípio mágico por trás. Cada detalhe tem sua origem nas leis da física. Todas estas leis seguem o princípio da ação mínima, que é expresso por uma equação bem pequena.

δA=0

Então, apesar do que parece para o nosso senso comum, as leis mais básicas que geram toda a complexidade do Universo, seguem um princípio básico bem simples, que é um princípio de otimização. Quando expresso matematicamente, este princípio nos permite deduzir as leis físicas.

Eu disse "expresso matematicamente" porque, nossa linguagem matemática, a forma como escrevemos os símbolos dos conceitos abstratos não é a Matemática. Os símbolos que escolhemos para representar os conceitos foram inventados pelos homens, mas os conceitos por trás dos símbolos não foram criados pelos seres humanos. Eles foram sendo descobertos e se demonstraram a forma mais eficiente de representar e gerar novos conhecimentos sobre a realidade. Incluindo aqueles aos quais jamais teríamos acesso simplesmente por nossos sentidos ou raciocínio filosófico. Apesar de que, para o nosso senso comum, muitas vezes os conceitos matemáticos parecem meras abstrações sem correspondência na realidade, tudo o que o homem conhece e experimenta tem sua base no funcionamento matemático da realidade. Aquela matemática que está por trás dos símbolos e que se expressa não só por números, mas por equações e Lógica. Quando a experiência humana é insuficiente para compreender algo, quando a filosofia não consegue alcançar, quando não se pode testar em laboratório, o uso de Matemática gera conhecimentos testáveis e comprováveis cientificamente. Acaba gerando toda a realidade que conhecemos, a que não conhecemos e tudo o que poderia existir, mas não sabemos se existe ou não.

Toda a nossa Física e, portanto, nossa Biologia, Economia, Sociologia e tudo no Universo deixam de existir sem o tempo e o espaço. E hoje se sabe que tempo e espaço tiveram origem. Portanto, nossa realidade, "nosso aquário", a Física e suas consequências, só existem a partir dali, dentro do tempo e do espaço. Tudo o que está fora disso, e não tem sentido falar-se em antes disso sem existência de tempo, pode ser acessado pela Matemática, mas não por outras formas de conhecimento humano.

Existe um Teorema da Lógica Modal conhecido como Teorema Ontológico, demonstrado por um matemático chamado Kurt Gödel. Este teorema conclui que Deus necessariamente deve existir. Ele é formamelmente consistentente e correto e foi validado por diversos softwares.[2] Naturalmente, há várias críticas ao teorema e suas conclusões. Algumas destas críticas afirmam que várias coisas poderiam substituir Deus no teorema, tais como estrelas do mar, mal absoluto e outras. Contudo, se estas coisas fossem colocadas ali, não se encaixariam nos axiomas do teorema. Uma outra crítica argumenta que a Lógica Modal S5 depende de um pressuposto metafísico questionável envolvendo a existência real dos mundos de possibilidades mencionados na literatura. O problema com este argumento é que ele confunde a linguagem utilizada em livros didáticos sobre o assunto com a própria Lógica Modal. A linguagem didática normalmente utilizada nesta área, se entendida literalmente, parece estar fazendo afirmações metafísicas. Entretanto, a Lógica Modal em si não depende de tais pressupostos filosóficos.

Deus seria uma entidade que está fora do Universo e, portanto, não depende de nossas leis físicas, do tempo e do espaço. Ele teria criado estas coisas. Não podemos tentar aplicar a Ele nossas regras de causalidade. As únicas coisas existentes fora do tempo e do espaço seriam Deus e a Matemática. Por isso ela é útil para tratar da existência ou não de Deus. No entanto, não é só através da Matemática que podemos encontrar evidências de Deus. Pretendo continuar este assunto posteriormente.

Referências

[1] Wikipédia, Carl Sagan (fonte: Head, Tom, ed. (2006). Conversations with Carl Sagan (1st ed.). Jackson, MS: University Press of Mississippi. ISBN 1-57806-736-7. LCCN 2005048747. OCLC 60375648.)

[2] Christoph Benzmuller e Bruno Woltzenlogel Paleo. "Automating Godel’s Ontological Proof of God’s Existence with Higher-order Automated Theorem Provers". Disponível em: http://page.mi.fu-berlin.de/cbenzmueller/papers/C40.pdf Acessado em 05/04/2016.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Misticismo X Racionalidade: A Religião na Idade Moderna

É um pensamento comum em nosso tempo o de que o retorno ao estudo dos clássicos gregos e latinos, nos últimos séculos da Idade Média, com o consequente despertamento cultural e o surgimento dos ideais humanistas e, posteriormente, racionalistas, tenham colocado o mundo em uma nova rota de desenvolvimento científico, valorização da razão, dos direitos humanos, liberdade e igualdade. Nesta perspectiva, a Reforma teria sido apenas mais um movimento de emancipação que acompanhou as tendências da época.

Um estudo cuidadoso da história, no entanto, nos mostra que embora o retorno ao estudo dos clássicos gregos e latinos tenha dado um impulso a Reforma por possibilitar a leitura do Novo Testamento em sua língua original, o grego, o desenvolvimento científico (a partir da descoberta do método científico), a valorização da razão, direitos humanos, liberdade e igualdade são valores que provêm antes do retorno à religião bíblica durante a Reforma do que do mero estudo dos clássicos. Eu não pretendo apenas afirmar isto aqui. Eu gostaria de convidar aqueles que me lêem a um passeio pela história dentro de nossas limitadas possibilidades.

Antes de iniciarmos nosso passeio, convém abrir parênteses para enfatizar uma diferença crucial existente entre a religião bíblica e qualquer outra forma de religão, pensamento ou filosofia de vida. (Isto precisa ser dito, creiamos ou não na Bíblia como uma fonte confiável de informação,' para que os eventos históricos referentes a Reforma possam ser entendidos.) A ênfase de todos os tipos de religiões que não têm a Bíblia como único fundamento em questões de fé é posta sobre o que o homem pode realizar para alcançar benefícios, vida após a morte, iluminação ou o que seja. Seja por meio de sacrifícios, boas obras, esforços, peregrinações, meditações, etc. Filosofias de vida diferentes, não importa quão diferentes entre si, sempre se centralizam em coisas que os seres humanos podem realizar e experimentar. A religião bíblica (aquela que se baseia unicamente no que está escrito na Bíblia e a usa como seu próprio intérprete) coloca ênfase no que Deus faz pelos seres humanos, assim os sacrifícios de cordeiros do Antigo Testamento apontavam para "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Na perspectiva bíblica, quando o ser humano se alienou de Deus, no princípio de sua história, perdeu sua capacidade de amar a Deus e de ser genuinamente bom, uma vez que Deus seria a fonte do bem no homem e do funcionamento de todas as leis do Universo. Por causa disso, o ser humano passou a ter duas tendências: uma que o faz ter uma natureza religiosa e desejar o bem, boas coisas e até realizar várias delas, e outra que o faz rebelar-se contra Deus e ser egoísta (tendência a degradação). Um texto que declara isto inequivocamente é o seguinte: "Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros." Romanos 7:19-23.

Segundo a religião bíblica, o homem pode ser ético, estabelecer bons ideiais para si mesmo e os outros, mas é incapaz de, alienado de Deus, vencer completamente seu egoísmo. A solução bíblica para o problema humano está no que Deus pode fazer pelo homem quando este permite: "Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. ... Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser". "Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. ...Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação; pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." (Romanos 8: 2-4 e 8; 2 Coríntios 5: 14-15, 17-21.)

No ponto onde paramos, no post anterior, o mundo ocidental era um mundo místico, religioso, sem desenvolvimento científico, quase completamente estagnado em conhecimento, sem respeito a liberdade ou direitos humanos, mas ainda era um mundo centralizado no homem. A salvação dos homens estava centralizada na autoridade da Igreja, assumida pelo papa, para obter aprovação da divindade os homens realizavam orações e jejuns dedicados aos santos (seres humanos mortos), realizavam peregrinações e pagavam indulgências, em suma, confiavam nas próprias obras, na intercessão de sacerdotes e santos. Pagando uma boa soma em dinheiro muitos sentiam-se livres para viverem de acordo com seus instintos. Exemplares da Bíblia, em latim e grego, eram muito raros mesmo para os sacerdotes que, normalmente não a liam, o povo comum não tinha qualquer acesso a eles. É nesse contexto histórico que encontramos Lutero precisamente antes de começar a Reforma:

"Ele encontrou no convento uma Bíblia presa por uma corrente, e a esta Bíblia acorrentada ele retornava constantemente. Ele tinha apenas pouca compreensão da Palavra, todavia era seu mais agradável estudo. ... Parece que cerca desta época ele começou a estudar as Escrituras em suas línguas originais, e a lançar o fundamento do mais perfeito e útil de seus labores - a tradução da Bíblia. ... Queimando com o desejo de alcançar aquela santidade em busca da qual ele entrara no claustro, Lutero cedeu a todo o rigor de uma vida ascética. Ele se esforçou para crucificar a carne por jejuns, mortificações e vigílias. Encerrado em sua cela, como em uma prisão, ele lutava incessantemente contra os pensamentos enganosos e as más inclinações de seu coração. Um pequeno pão e peixe eram frequentemente seu único alimento. ...Lutero não encontrou na tranquilidade do claustro e na perfeição do monastério aquela paz de mente que tinha procurado ali. Ele desejava ter a segurança de sua salvação: esta era a grande necessidade de sua alma. Sem ela, não havia repouso para ele. Mas os temores que o tinham agitado no mundo perseguiam-no em sua cela. Não, eles tinham aumentado. ... O senso de sua pecaminosidade pertubava-o; a perspectiva do juízo de Deus enchia-o de temor. Mas no próprio momento em que estes terrores tinham alcançado seu ponto mais alto, as palavras de S. Paulo, que já o tinham impressionado em Wittenberg, "o justo viverá pela fé" [Galátas 3:11], retornaram forçosamente à sua memória e iluminaram sua alma como um raio do Céu." History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 2, capítulos 3 e 6.

Acreditando que o único modo de um ser humano ser justificado diante de Deus é pela fé no que Cristo fez e faz por ele e que a única autoridade em matéria de fé são as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, Lutero lançou a base da libertação da escravidão espiritual do homem pelo homem, do estudo das Escrituras de cada pessoa por si mesma (e não através da interpretação dos sacerdotes) e da igualdade de todos os homens perante Deus.

Segundo D'Aubigné:

"O Cristianismo não é um simples desenvolvimento do Judaísmo. Diferente do papado, ele não objetiva confinar o homem nas apertadas faixas de ordenaças exteriores e doutrinas humanas. O Cristianismo é uma nova criação; ele toma posse do homem interior e tranforma-o nos mais profundos princípios de sua natureza humana, de modo que o homem não mais requer que outro homem imponha regras sobre ele; mas, ajudado por Deus, ele pode de si mesmo e por si próprio distinguir o que é verdadeiro e fazer o que é correto. Ao levar a humanidade para aquela idade madura que Cristo lhe adquiriu e libertá-la da tutela em que Roma a tinha mantido por tanto tempo, a Reforma deveria desenvolver o homem inteiro; e enquanto regenera seu coração e sua vontade pela Palavra de Deus, ilumina seu entendimento pelo estudo de conhecimento profano e sagrado. ... 'Ocupem-se com as crianças,' continua Lutero, ainda dirigindo-se aos magistrados; 'pois muitos pais são como avestruzes; eles estão endurecidos para com seus pequenos, e satisfeitos com ter posto o ovo, eles não se preocupam com nada depois disto. A prosperidade de uma cidade não consiste meramente em acumular grandes tesouros, em construir fortes muros, em erigir esplêndidas mansões, em possuir brilhantes exércitos. Se homens loucos caem sobre ela, sua ruína será apenas maior. A verdadeira riqueza de uma cidade, sua segurança e sua força, é ter cidadãos instruídos, sérios, dignos e bem-educados. E a quem devemos culpar porque existem tão poucos no presente, a não ser vocês magistrados, que têm permitido que nossa juventude cresça como árvores em uma floresta?' " History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 10, capítulo 9.

Lutero e outros reformadores aprenderam que a religião bíblica requer um "culto racional" (Romanos 12:1). A Reforma foi o movimento que, no final da Idade Média, lançou os fundamentos para a valorização do ser humano como um ser racional, livre, independente e capaz de pensar por si mesmo. O renascimento da cultura grega e latina sozinho não fez isto, pois os cultos daquela época não ousavam questionar ou tentar modificar a estrutura estabelecida (ver http://www.iep.utm.edu/humanism/ no item "Erasmus"), os primeiros humanistas eram cristãos, mas a ruptura entre cristianismo e humanismo se deu durante o Iluminismo: "O Iluminismo da metade do século dezoito na Europa trouxe uma separação entre instituições religiosas e seculares que exemplificaram uma crescente fissura entre cristianismo e humanismo. A dependência em declínio dos fundamentos religiosos por parte de filósofos levou a experiências em vários planos políticos e sociais dos últimos poucos séculos ao redor do mundo, incluindo Comunismo Internacionalista, Socialismo Nacional, Facismo, Anarquismo, Teocracia, Caesaropapismo e várias comunidades utópicas. Cristãos participaram em todos estes movimentos em vários graus como indivíduos e institucionalmente, como participaram deístas e materialistas (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Christian_Humanism).

O humanismo atual, um humanismo inclusivo, procura abraçar a humanidade toda com valores que foram trazidos à luz a partir da religião bíblica pela Reforma, com a diferença de que ele procura estabelecer estes valores à parte do Deus da Bíblia.

Considerando o método científico, por exemplo, as primeiras idéias para ele vieram de homens como Da Vinci, Galileu e Newton, os quais foram influenciados pela Bíblia e buscaram revelar a sabedoria do Deus bíblico através da Natureza que criam que Ele criou. Eles se deram conta do papel que a matemática tem no funcionamento da Natureza, o que para eles era perfeitamente natural, pois a Bíblia apresenta um Deus que governa segundo leis bem estabelecidas.

"A sabedoria é filha da experiência. A experiência jamais engana; e os que se lamentam dos seus logros deveriam antes lamentar-se da sua ignorância porque pedem à experiência aquilo que está para lá dos seus limites. Em contrapartida, pode o juízo enganar-se sobre a experiência; e para evitar o erro não há outra via senão reduzir todos os juízos a cálculos matemáticos o servir-se exclusivamente da matemática para entender e demonstrar as razões das coisas que a experiência manifesta. A matemática é o fundamento de toda a certeza." Leonardo da Vinci – apud in (ABBAGNANO 1970, Origens da Ciência, p. 9) (http://filosofiageral.wikispaces.com/A+Revolu%C3%A7%C3%A3o+Cient%C3%ADfica)

"A Filosofia [Física] está escrita neste grandioso livro que está sempre aberto à nossa contemplação (refiro-me ao universo), mas que não pode ser entendido sem que primeiro aprenda-se a língua, e conheçam-se os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em linguagem matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender sequer uma de suas palavras; sem estes
[caracteres] fica-se a vagar por um escuro labirinto." (Il Saggiatore, 1623, Galileo Galilei)

"Newton foi levado acima de tudo por argumentos derivados do estudo do universo, embora sua mente profundamente pensadora extraiu outros argumentos também. Este grande homem cria (Opticks III. Book. Query 31) que o movimento dos corpos celestiais demonstrava a existência Daquele que governa-os. Seis planetas - Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno - revolvem-se ao redor do Sol. Todos os planetas rotacionam na mesma direção em órbitas que são mais ou menos concêntricas. (Não obstante, existem outros corpos, os cometas, que seguem totalmente diferentes órbitas, movendo-se em todas as direções e em cada região do Céu.) Newton acreditava que tal uniformidade de movimento só podia resultar da vontade de um Ser supremo." Derivation of the laws of motion and equilibrium from a metaphysical principle, by Pierre Louis Moreau de Maupertuis (http://en.wikisource.org/wiki/Derivation_of_the_laws_of_motion_and_equilibrium_from_a_metaphysical_principle).

Newton também escreveu um livro sobre as profecias de Daniel e Apocalipse, Observations upon the
Prophecies of Daniel,and the Apocalypse of St. John, in Two Parts
, que pode ser obtido no seguinte site http://www.isaacnewton.ca/daniel_apocalypse/

Em seu artigo acima e no seguinte, Accord between different laws of Nature that seemed incompatible, Maupertuis deduz o princípio da ação mínima, segundo ele "ninguém pode duvidar de que tudo é governado por um Ser supremo que tem imposto forças sobre os objetos materiais, forças que mostram seu poder, tal como ele destinou estes objetos a executar ações que demonstram sua sabedoria. A harmonia entre estes dois atributos é tão perfeita, que indubitavelmente todos os efeitos da Natureza poderiam ser derivados de cada um tomado separadamente. Uma cega e determinística mecânica segue os planos de um intelecto perfeitamente claro e livre." O princípio metafísico de Maupertuis do qual ele deriva seu princípio da ação mínima (um princípio de otimização) tem como base a crença de que Deus faz as coisas com sabedoria e perfeição e se origina da declaração bíblica: "E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom." Gênesis 1:31.

Mesmo Freeman Dyson declarou: "A ciência ocidental nasceu da teologia cristã. Provavelmente não é um acidente que a ciência moderna tenha crescido explosivamente na Europa cristã e deixado para trás o resto do mundo. Milhares de anos de debates teológicos nutriram o hábito do pensamento analítico capaz de ser aplicado à análise de fenômenos naturais." Review of Feynman and of Polkinghorne "Belief in God in an Age of Science", 1998.

Na realidade, o Iluminismo e Racionalismo do século 18, que romperam com o Cristianismo, derivaram seus ideais da Reforma, como Russel também acreditava: "Russel argumenta que o iluminismo foi, em última instância, nascido da reação protestante contra a contra-reforma católica, quando as visões filosóficas dos últimos dois séculos cristalizaram-se em uma visão de mundo coerente. Ele argumenta que muitas das visões filosóficas, tais como afinidade pela democracia contra a monarquia, originaram-se entre os protestantes no início do século 16 para justificar seu desejo de romper com o papa e a Igreja Católica. Embora muitos destes ideais filosóficos tenham sido acolhidos por católicos, Russel argumenta, no século 18 o Iluminismo foi a manifestação do princípio do rompimento que começou com Martinho Lutero." Age of Enlightenment citando Russell, Bertrand. A History of Western Philosophy. p492-494." (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Age_of_Enlightenment#cite_note-3)

A religião bíblica, é, na verdade, uma religião raramente praticada em nosso mundo. Ela foi praticada pelos ancestrais do povo de Israel (Abrãao, Isaque e Jacó) e apenas muito pouco tempo pelo próprio povo de Israel, que, na maior parte das vezes, viveu em rebelião contra seus princípios. Os primeiros cristãos viveram de acordo com ela, mas seus seguidores deram origem a Igreja Católica da Idade Média. Os primeiros protestantes deram lugar a descendentes que já não viviam de acordo com os princípios destes. Desta forma, os ideais que deram origem ao moderno humanismo, a saber, ética, racionalidade, democracia e direitos humanos (http://www.iheu.org/adamdecl.htm), além do método científico, tiveram origem nos princípios extraídos da religião bíblica, os ideais foram mantidos, mas o Deus que motivou a existência deles foi deixado de fora.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Misticismo X Racionalidade: a religião na história antiga

Continuando o tema proposto em Misticismo X Racionalidade, eu pretendo explorar um pouco as evidências na história humana de que pode haver uma religião fundamentada na crença em um Ser sobrenatural (acima e além da Natureza) que não seja mística, ou "uma religião de mistérios". Pode haver uma religião baseada em evidências e que pode mudar de acordo com elas.

Aqui, usamos a expressão "religião baseada em evidências" associada a dois sentidos:
(a) existem evidências que podem ser usadas para avaliar afirmações dessa religião e
(b) os ensinamentos dessa religião estimulam não uma fé cega, mas uma fé racional,
isto é, uma confiança desenvolvida pela avaliação de evidências.

Nesta série de posts, estamos abordando algumas informações relacionadas com esse tipo de religião.

Este tipo de religião, embora sendo uma manifestação rara em nosso mundo em termos de contingente humano engajado nela, tem tido um impacto significativo em todos os setores da sociedade humana ao longo dos séculos.

Existem evidências, por exemplo, de que vários dos conceitos e histórias escritos nos livros da Bíblia já eram conhecidos de vários povos ao longo do globo muito antes de serem escritos os primeiros livros bíblicos.

Antes de discorrer sobre os eventos e evidências relacionados à religião bíblica na história, faz-se necessária uma descrição suscinta do que compõe essa religião. Ela centraliza-se na revelação do Deus bíblico e traz uma mensagem que foi escrita em 66 livros por cerca de 40 autores ao longo de mais de 1500 anos. Os livros de Isaías e Ezequiel contam a história do início do mal no Universo, quando um dos seres criados por Deus, usando sua liberdade de escolha iniciou uma rebelião contra o governo de Deus e perdeu sua posição original neste governo. Esta rebelião foi permitida continuar a existir para que fossem julgados pelos seres inteligentes os seus efeitos e todos pudessem fazer suas escolhas a favor ou contra. No livro de Gênesis, encontramos o relato da criação da vida na Terra e a história da escolha dos seres humanos de ficarem do lado da rebelião. Como essa escolha não foi totalmente deliberada, mas os seres humanos foram ludibriados, eles receberam um tempo de teste do governo de rebelião na Terra. Deus, embora não se manifestando de forma direta aos seres humanos depois de sua rebelião, elaborou um plano para esclarecê-los e resgatá-los para o estado de harmonia com Ele novamente. Aceitar ou não este plano é uma questão individual de cada ser humano pensante. A Bíblia conta a história destas duas rebeliões, da promessa de um Redentor, da perda exponencial por parte dos seres humanos da capacidade de compreender e aceitar a Deus e seu plano, à medida em que faziam más escolhas. Fala do consequente embotamento das faculdades morais e de discernimento claro entre o bem e o mal, do dilúvio, da escolha de pessoas para serem porta-vozes de Deus, da escolha do povo de Israel para se tornar um exemplo para os outros povos das características do governo de Deus sobre a Terra. Apresenta Israel como a nação da qual surgiria o Redentor, as profecias sobre eventos relacionados com o plano de redenção e desdobramentos históricos das ações humanas, os constantes afastamentos do povo de Israel do plano de Deus, a divisão do povo de Israel em dois reinos, o esfacelamento da maioria de Israel pelos assírios e o cativeiro babilônico dos judeus. Descreve o retorno do exílio e a recontrução da nação, a vinda e rejeição do Redentor pela maioria dos judeus, sua morte e ressureição e o início da igreja cristã. Termina com profecias de eventos ocorrendo desde o início da igreja cristã até o encerramento da história da rebelião no Universo. Durante o período de teste para a humanidade, os seres inteligentes do Universo devem perceber a diferença entre viver sob a direção de Deus e fazer de sua lei a norma de vida e o viver sob o domínio da satisfação própria, em um contraste entre a lei do amor e a lei do egoísmo.

É bom lembrar que cada parte desse todo foi escrita por pessoas bem diferentes ao longo de muitos séculos e que, na maioria das vezes, não tinham uma visão clara do que elas mesmas estavam escrevendo. Outro detalhe é que fica difícil compreender a Bíblia por uma leitura ocasional, cada parte depende das outras e a compreensão dos símbolos proféticos depende da compreensão da história toda e do conhecimento dos símbolos que aparecem em outras profecias, ou seja, se você não mergulhar no todo, não vai entender as partes. Apocalipse, por exemplo, que é uma palavra grega que significa revelação (não um mistério, foi escrito para ser entendido), usa símbolos tirados do Gênesis, da história de Israel no Antigo Testamento, das profecias de Daniel, dos livros dos profetas menores e da história dos evangelhos e início da igreja cristã no Novo Testamento. Enfim, se a pessoa for ler com má vontade, preconceito e visão superficial, não vai entender e encontrará muitas contradições.

Mais uma observação que cabe neste momento é a de que a Bíblia pretende ser um conjunto de livros inspirados, mas não ditados, por Deus. Isto significa que as idéias subjacentes vieram de Deus, mas a linguagem é humana, expressa com as limitações culturais, de entendimento e de conhecimentos do autor de cada livro. Outro aspecto que se destaca indiscutivelmente ao longo da história bíblica é o fato de Deus lidar com os seres humanos levando em conta sua capacidade de absorver conceitos novos em cada época, ou seja, a revelação é gradativa e as responsabilidades também crescem com o grau de progresso do ser humano.

Tendo em conta as informações prévias, gostaria de apresentar, primeiramente, evidências de que as histórias da criação, da queda de Adão e Eva, do dilúvio e da torre de Babel que aparecem em Gênesis, fazem parte das tradições de diversos povos por todo o globo, muitas delas mais antigas do que a escrita do livro de Gênesis.

"Milhares de tabletes cuneiformes foram escavados na região que compreende a antiga Mesopotâmia.
Eram recibos, cartas, leis, documentos de propriedade, etc. Alguns continham listas genealógicas e histórias tradicionais sobre os primórdios da humanidade. Ao avaliá-los, qual não foi a surpresa dos arqueólogos ao perceberem que muitos traziam semelhanças bastante acentuadas com o que seria posteriormente escrito na Bíblia.

"Uma extraordinária coincidência foi percebida, por exemplo, na forma como os antigos documentos
egípcios e mesopotâmicos chamavam o primeiro ancestral da humanidade: Adamu, Adime, Adapa, Alulim, Alorus, Atûm, Adumuzi, etc. ...

"Ao contrário de ser um plágio, o Gênesis possui características de ser quase uma 'correção' daquilo que o antecede. Prova disso é o fato de que, dentre todos os textos, ele é o único que assume um monoteísmo clássico em meio a versões milenares que preferiam atribuir aos 'deuses' a obra de criação e julgamento do planeta Terra.

"Até mesmo Levi-Strauss que considerava o relato da criação um mito foi forçado a admitir que 'grande surpresa e perplexidade surgem do fato de que esses temas básicos para os mitos da criação são mundialmente os mesmos em diferentes áreas do globo', principalmente fora do Oriente Médio. (Claude Levi-Strauss, 'The Structural Study of Myth', em Structural Anthropology, (New York: Basic Books, 1963), p. 208.)" Rodrigo P. Silva, "Escavando a verdade - A arqueologia e as incríveis histórias da Bíblia". São Paulo, Casa Publicadora Brasileira, 2008, p.p. 48 e 50.

Em textos sagrados muito antigos do Egito (~3000 a.C.), The Pyramid Texts (http://www.sacred-texts.com/egy/pyt/index.htm), Atum aparece como um deus, ele é considerado um dos deuses mais antigos do Egito. Ele foi primeiramente considerado um deus da terra e, depois, foi associado com Rá, o deus sol. Os sacerdotes da cidade de Heliópolis, consideravam Atum como o primeiro ser que emergiu das águas de Nun (espécie de águas primordiais) na criação. Entre seus filhos houve Set, que matou um de seus irmãos, Osíris (http://www.egyptianmyths.net/atum.htm). Embora existam muitas diferenças básicas entre estas concepções religiosas e a narrativa bíblica, encontramos similaridades em alguns pontos: na criação da vida na Terra, o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas (Gênesis 1:2), Adão foi o primeiro ser humano criado, o nome de um de seus filhos foi Sete, um dos filhos de Adão, que foi Caim e não Sete, matou seu irmão, Abel.

"Saindo do Egito para a Mesopotâmia, encontramos ainda outra grande variedade de mitos, com curiosas semelhanças com um ou outro aspecto da cosmogonia bíblica. O conto de Enki e Ninhursag, mais conhecido como o 'mito do paraíso', foi escrito por volta do 2º milênio a.C. Nele, os deuses criaram os céus, a Terra e os homens. Eles os colocam no paraíso idílico de Dilman e, para curar a costela de Enki, fazem surgir uma mulher e lhe dão o nome de Nin-ti, cujo signifcado seria 'rainha dos meses', 'senhora da costela' ou 'aquela que faz viver'. Ora, Eva também foi criada a partir de uma costela de Adão e seu nome hebraico (hawwa) é associada etmologicamente ao verbo 'viver'.

"O Enuma Elish é outro importantíssimo documento que também possui muitos paralelos com o relato bíblico. O texto foi primeiramente encontrado nas escavações da biblioteca real de Assurbanipal, que ficava na cidade de Nínive e data do 7º século a.C. Porém, outros fragmentos mais completos foram encontrados posteriormente em Kish. Ao todo são sete tabletes que descrevem a criação do mundo dividida em sete partes (como o Gênesis que a divide em sete dias)." Rodrigo P. Silva, "Escavando a verdade - A arqueologia e as incríveis histórias da Bíblia". São Paulo, Casa Publicadora Brasileira, 2008, p.p. 53 e 54.

Os relatos da criação nestes sete tabletes apresentam inúmeras semelhanças com o relato bíblico da criação. Por exemplo, os dois falam do sugimento do céu e da Terra, da pré-existência do espírito divino, de caos e trevas primitivas, a luz emanando dos deuses ou de Deus, criação do firmamento, da terra seca e dos luminares, criação do homem na sexta etapa ou sexto dia e dos deuses ou de Deus celebrando a criação na sétima etapa ou sétimo dia (ibidem).

Foram encontrados quatro tabletes cuneiformes sobre uma história tradicional da Mesopotâmia, três da biblioteca de Assurbanipal e um mais extenso e antigo (século 14 a.C.) dos arquivos egípcios de El Amarna. Segundo este relato, o primeiro homem chamado Adapa recebeu grande sabedoria, mas não era naturalmente imortal, ele era filho do deus Ea e morava na cidade de Eridu. Éden, o paraíso bíblico, e Eridu têm a mesma raiz etmológica, como o sumeriano Edin e Edenu, que significa "paraíso" ou "planura". O livro bíblico de Lucas também estabelece a genealogia humana a partir de Adão e que este procede de Deus (Lucas 3:38). Adapa vivia no meio dos Anunnakis,lembrando os anaquins, ou gigantes, mencionados na Bíblia. Ele quebra com a vela de seu barco a asa do vento sul e é julgado pelos deuses. Em seu julgamento, ele recusa-se a se alimentar da água e do pão da vida, pois sabia serem reservados aos deuses. O deus Anu o questiona por não ter comido ou bebido a água da vida, pois assim ele não poderia ter vida eterna, mas isto era um teste e ele é elogiado por isto. Ele recebe um manto para substituir o
primeiro que era da lamentação e é ungido com azeite. No Gênesis, Adão não deveria comer do fruto da árvore do bem e do mal para não morrer, ele seria, como Deus, conhecedor do bem e do mal (Gênesis 2:16 e 17, 3:1-5). Por ter desobedecido esta ordem ele perde o direito de comer da árvore da vida e viver eternamente (Gênesis 3:22-24). Adão e Eva fizeram para si vestimentas de folhas de figueira, mas Deus as substituiu por outras de peles de animais (Gênesis 3:7, 21). (Ibidem, p.p. 55 e 56).

Outro relato que apresenta similaridades com o bíblico é o épico babilônico de Gilgamesh, em que este herói sumeriano tem um amigo chamado Enkidu que é seduzido por uma cortesã da deusa Ishtar e passa a ter um "conhecimento pleno". Ishtar, então, declara: "Você agora é um conhecedor, Enkidu. Você será igual a Deus. Ela improvisa vestiduras e o veste com elas. (Ibidem, p. 56.)

Existem tradições e relatos acerca de um dilúvio semelhante ao da Bíblia nas mais diversas regiões do planeta. Nos relatos sumerianos, a versão mais antiga é a de um tablete bastante danificado que conta a história de Ziusudra que sobreviveu a uma imensa inundação que ocorreu sobre a Terra. O tablete número 11 do Épico de Gilgamesh (de uma tradição do segundo milênio antes de Cristo), conta que Gilgamesh tinha um amigo chamado Utnapishtim que conseguiu sobreviver ao Dilúvio. Ele foi avisado previamente pelo deus Ea sobre a inundação e deveria construir um barco de madeira e piche. Quando o barco ficou pronto entrou a bordo com seus tesouros, sua família, seus artesãos e os animais que havia recolhido. Ele fechou a porta e esperou a tempestade cair. Esta durou seis dias sem parar. No sétimo dia, o barco encalhou no topo do monte Nissir e ficou ali por mais seis dias. Depois, ele soltou uma pomba para ver se as águas haviam baixado, mas ela retornou; mais tarde, soltou um corvo que não retornou, pois havia
encontrado terra firme. Utnashpistim saiu do barco com os animais e companheiros e ofereceu um cordeiro aos deuses que respiraram a fumaça do sacrifício e se mostraram satisfeitos. Outra história semelhante, datada de 1646 a 1626 a.C., conta que Atrahasis foi avisado pelo deus Enki de que a Terra seria destruída por causa do barulho que os homens faziam, não permitindo que o deus Enlil descansasse em paz. Depois de serem enviadas pragas e fome veio um dilúvio. Atrahasis, sua família e vários tipos de animais sobreviveram através de um barco que ele construiu (Ibidem, p.p. 68, 69 e 70.)

No site da BBC (http://www.bbc.co.uk/ahistoryoftheworld/about/transcripts/episode16/), encontramos um relato interessante. Eis alguns trechos (traduzidos):

"É a hora do almoço no Museu Britânico e o local, como de costume, está agitado pelos visitantes. Naturais de Bloomsbury estão visitando como fazem regularmente por diversos motivos e, há cerca de 140 anos atrás, um destes nativos, um visitante da hora do almoço regular, era um homem chamado George Smith. Ele era um aprendiz em uma firma de impressão não distante do museu, e tinha se tornado fascinado pela coleção do museu de antigos tabletes de barro. Ele estava tão absorto neles, que educou-se para lê-los e, no devido prazo, tornou-se um dos principais tradutores de seu tempo. Em 1872, Smith estava estudando um tablete particular de Nínive (moderno Iraque) e isto é que desejo considerar agora.

"Caminhei pelo museu e estou agora sentado na biblioteca onde guardamos os tabletes de barro da Mesopotâmia; uma sala repleta de estantes desde o chão até o teto e, em cada estante, um estreito tabuleiro de madeira com uma dúzia de tabletes de barro nele - a maioria deles fragmentos. O fragmento que George Smith estava particularmente interessado, em 1872, tem cerca de 5 ou 6 polegadas (130 - 150 mm) de altura, é marrom escuro e está coberto com texto escrito muito densamente, organizado em duas colunas muito próximas. À distância, ele parece um bocado com pequenos anúncios de um antiquado jornal. Mas este fragmento, depois de George Smith perceber o que ele era, iria sacudir os fundamentos de uma das maiores histórias do Antigo Testamento, e, de fato, suscitou importantes questões sobre o papel das Escrituras e sua relação com a verdade.

"Nosso tablete é sobre um dilúvio - sobre um homem a quem foi dito por seu deus para construir um barco e carregá-lo com sua família e animais, porque a inundação estava prestes a apagar a humanidade da face da Terra. A narração no tablete era assombrosamente familiar a George Smith - porque quando ele leu e decifrou, tornou-se claro que o que ele tinha dinte de si era um antigo mito que era um paralelo e - mais importante - 'antecedia' a história de Noé e sua arca. ...

"Que uma história bíblica hebraica já tivesse sido contada em um tablete de barro mesopotâmico era uma descoberta estupenda - e Smith sabia-o - como um contemporâneo relata-nos:

" 'Smith tomou o tablete e começou a ler as linhas que o conservador que tinha limpado o tablete tinha trazido à luz; e quando ele viu que elas continham a parte da lenda que ele tinha esperado encontrar ali, ele disse: 'Eu sou o primeiro homem a ler isto após 2000 anos de esquecimento.' Colocando o tablete na mesa, ele saltou e correu pela sala em um grande estado de excitação e, para o espanto dos presentes, começou a despir-se!'

"Mas esta foi realmente uma descoberta digna de se tirar as roupas. Este tablete, agora universalmente conhecido como o Tablete do Dilúvio - tinha sido escrito no que é agora o Iraque no sétimo século a.C, 400 anos antes da mais antiga versão sobrevivente da narrativa bíblica. Seria concebível que essa narrativa bíblica, longe de ser uma reveleção especialmente privilegiada, era meramente parte de um conjunto de lendas que era compartilhado por todo o Oriente Médio?

"Este foi um dos grandes momentos de reescrita da história mundial no radical século desenove. George Smith publicou o tablete apenas 12 anos após o 'Origem das Espécies' de Charles Darwin. E ao fazer isto, ele abriu uma caixa de Pandora religiosa. O Professor David Damrosch, da Columbia University, avalia o sísmico impacto do Tablete do Dilúvio:

"'As pessoas nos anos de 1870 estavam obcecadas pela história bíblica, e houve grande quantidade de controvérsia quanto à veracidade das narrativas bíblicas. Assim, causou sensação quando George Smith encontrou esta antiga versão da história do dilúvio, claramente muito mais antiga do que a versão bíblica. O primeiro ministro Gladstone veio ouvir sua palestra descrevendo sua nova tradução, ela foi relatada em artigos de primeira página ao redor do globo, e houve um artigo de capa no 'New York Times' em 1872 em que já se notava que o tablete podia ser interpretado de dois modos muito diferentes - isto prova que a Bíblia é verdadeira ou mostra que ela é toda lendária? E a descoberta de Smith deu munição adicional ao debate de ambos os lados quanto à veracidade da história bíblica, debates sobre Darwin e evolução, geologia - todas estas coisas estavam ocorrendo."

Mas relatos sobre um dilúvio que inundou a Terra inteira fazem parte das tradições de, virtualmente, todas as culturas ao redor do globo (http://en.wikipedia.org/rewiki/Flood_myth; http://www.talkorigins.org/faqs/flood-myths.html#Pygmy).

Por exemplo, o site The TalkOrigins Archive apresenta um index por região de locais onde existem relatos sobre um dilúvio. (Neste site também podemos encontrar as narrativas por região.) As regiões incluem Europa: gregos, arcadianos, samotrácios, romanos, escandinávios, germânicos, celtas, galeses, lituanios, transilvanianos ciganos, turcos; Oriente Próximo: sumerianos, egípcios, babilônicos, assírios, caldeus, hebreus, islâmicos, persas, zoroastrianos; África: Camarões, Masai, Komililo Nandi, Kwaya (Lago Vitória), sudeste da Tanzânia, pigmeus, Ababua (norte do Zaire), Kikuyu (Quenia), Bakongo (oeste do Zaire), Bachokwe (sul do Zaire), Congo inferior, Basonge, Bena-Lulua (Rio Congo, sul do Zaire), Yoruba (sudeste da Nigéria), Efik Ibibio (Nigéria), Ekoi (Nigéria), Mandingo (Costa do Marfim)); Ásia: Vogul, Samoyed (norte da Sibéria), Yenisey-Ostyaks (centro norte da Sibéria), Kamchadale (nordeste da Sibéria), altaicos (Ásia central), tuvinianos (Soyot) (norte da Mongólia), Mongólia, Buryat (leste da Sibéria), Sagaiye (leste da Sibéria), russos, hindus, Bhil (Ìndia central), Kamar (distrito de Raipur, Índia Central), Assam, Tamil (sudeste da Índia), Lepcha (Sikkim), Tibet, Singpho (Assam), Lushai (Assam), Lisu (nordeste de Yunnan, China), Lolo (sudeste da China), Jino (sudeste de Yunnan, China), Karen (Burma), Chingpaw (Burma superior), China, Coréia, Munda (centro-norte da Índia), Santal (Bengala), Ho (sudeste de Bengala), Bahnar (China), Kammu (nordeste da Tailândia), Ilhas Andaman (Baía de Bengala), Zhuang (China), Sui (sudeste de Guizhou, China), Shan (Burma), Tsuwo (interior de Formosa), Bunun (interior de Formosa), Ami (Taiwan oriental), Benua-Jakun (Península Malaia), Kelantan (Península Malaia), Ifugao (Filipinas), Kiangan Ifugao, Atá (Filipinas), Mandaya (Filipinas), Tinguian (Luzon, Filipinas), Batak (Sumatra), Nias (uma ilha a oeste de Sumatra) Engano (outra ilha a oeste de Sumatra), Dusun (Borneo Norte Britânico), Dyak (Borneo), Ot-Danom (Borneo holandês), Toradja (Celebes central), Alfoor (entre Celebes e Nova Guiné), Rotti (sudeste de Timor), Nage (Flores); Austrália: Arnhem Land (norte do Território do Norte), Maung (Ilhas Goulburn, Arnhem Land), Gunwinggu (norte de Arnhem Land), Gumaidj (Arnhem Land), Manger (Arnhem Land), área do Rio Fitzroy (Austrália ocidental), Monte Elliot (costa de Queensland), Andingari (sul da Austrália), Wiranggu (sul da Austrália), Narrinyeri (sul da Austrália), Lago Tyres (Vitória), Kurnai (Gippsland, Vitória), sudeste australiano, Maori (Nova Zelândia); Ilhas do Pacífico: Kabadi (Nova Guiné), Valman (norte da Nova Guiné), Rio Mamberao (Irian Jaya), Samo-Kubo (Papua Nova Guiné ocidental), Papua Nova Guiné, Ilhas Palau, Carolinas ocidentais, Novas Hébridas, Lifou (uma das ilhas Loyalty), Fiji, Samoa, Nanumanga (Tuvalu, sul do Pacífico), Mangaia (Ilhas Cook), Raiatea (Grupo Leeward, Polinésia francesa), Taiti, Havaí; América do Norte: Innuit, Esquimó (Orowignarak, Alasca), Norton Sound Eskimo Central Eskimo, Tchiglit Eskimo (Oceano Ártico), Herschel Island Eskimo, Netsilik Eskimo (Groenlândia), Tlingit (costa sul do Alasca), Hareskin (Alasca), Tinneh (Alasca e sul), Loucheux (Dindjie, Alasca), Dogrib and Slave (tribos Tinneh), Kaska (ilha da Colúmbia Britânica do norte), índios Thompson (Colúmbia Britânica), Sarcee (Alberta), Tsetsaut, Haida (Ilhas Queen Charlotte, Colúmbia Britânica), Tsimshian (Colúmbia Britânica), Kwakiutl (Colúmbia Britânica), Kootenay (sudeste da Colúmbia Britânica), Squamish (Colúmbia Britânica), Bella Coola (Colúmbia Britânica), Lillooet (Green River, Colúmbia Britânica), Makah (Cape Flattery, Washington), Klallam (nordeste de Washington), Skokomish (Washington), Skagit (Washington), Quillayute (Washington), Nisqually (Washington), Twana (Puget Sound, Washington), Kathlamet, Cascade Mountains, Spokana, Nez Perce, Cayuse (Washington oriental), Yakima (Washington), Warm Springs (Oregon), Joshua (sul de Oregon), Smith River (norte da costa da Califórnia), Wintu (centro-norte da Califórnia), Maidu (Califórnia central), Northern Miwok (Califórnia central), Tuleyome Miwok (próximo a Clear Lake, Califórnia), Olamentko Miwok (Bodega Bay, Califórnia) Ohlone (San Francisco a Monterey, Califórnia), Kato (Mendocino County, Califórnia), Shasta (norte da Califórnia interior), Pomo (centro-norte da Califórnia), Salinan (Califórnia), Yuma (Arizona ocidental, sul da Califórnia), Havasupai (Colorado River inferior), Ashochimi (Califórnia), Yurok (norte da costa da Califórnia), Blackfoot (Alberta e Montana), Cree (Canadá), Timagami Ojibway (Canadá), Chippewa (Ontário, Minnesota, Wisconsin), Ottawa, Menomini (fronteira Wisconsin-Michigan), Cheyenne (Minnesota), Yellowstone, Montagnais (norte do Golfo de St. Lawrence), Micmac (leste do Canadá maritimo), Algonquin (Rio Ottowa superior), Lenape (Delaware) (Delaware até New York), Cherokee (Great Lakes área dos Grandes lagos; leste do Tennessee), Mandan (Dakota do Norte), Lakota, Choctaw (Mississippi), Natche (Mississippi inferior), Chitimacha (Louisiana do sul), Caddo (Oklahoma, Arkansas), Pawnee (Nebraska), Navajo (Four Corners area), Jicarilla Apache (nordeste do Novo México), Sia (nordeste do Arizona), Acagchemem (próximo a San Juan Capistrano, Califórnia), Luiseño (sul da Califórnia), Pima (sudoeste do Arizona), Papago (Arizona), Hopi (nordeste do Arizona), Zuni (Novo México); América Central: Tarascan (norte de Michoacan, México), Michoacan (México), Yaqui (Sonoran, norte do México), Tarahumara (norte do México), Huichol (México ocidental), Cora (leste do Huichols), Tepecano (sudeste do Huichols), Tepehua (leste do México), Toltec (México), Nahua (México central), Tlaxcalan (México central), Tlapanec (sul central do México), Mixtec (norte de Oaxaca, México), Zapotec (Oaxaca, sul do México), Trique (Oaxaca, sul do México), Totonac (leste do Mexico), Chol (sul do México), Tzeltal (Chiapas, sul do México), Quiché (Guatemala), Maias (sul do México e Guatemala), Popoluca (Veracruz, México), Nicarágua, Panamá, Caribe (Antilhas); América do Sul: Acawai (Orinoco), Arekuna (Guyana), Makiritare (Venezuela), Macusi (Guyana Britânica), Muysca (Colômbia), Yaruro (sul da Venezuela), Yanomamö (sul da Venezuela), Tamanaque (Orinoco), Arawak (Guyana), Pamary, Abedery e Kataushy (rio Purus, Brasil), Ipurina (Amazonas superior), Jivaro (leste do Equador), Shuar (Andes), Murato (leste do Equador), Cañari (Quito, Equador), Guanca and Chiquito (Peru), Ancasmarca (próximo a Cuzco, Peru), Canelos Quechua, Quechua, Incas (Peru), Colla (alto dos Andes), Chiriguano (sul da Bolívia), Chorote (leste do Paraguai), leste do Brasil (região do Rio de Janiero), leste do Brasil (região de Cabo Frio), Caraya (rio Araguaia, Brasil central), Coroado (sul do Brasil), Araucania (costa do Chile), Toba (norte da Argentina), Selk'nam (extremo sul da Argentina), Yamana (Terra do Fogo).

Existem também vários documentos antigos e relatos semelhantes à história bíblica da Torre de Babel, em que a linguagem humana, que até ali era uma só, foi confundida e deu origem às diversas línguas. Alguns exemplos:

"Naqueles dias, as terras de Subur (e) Hamazi, Sumer possuidora de língua em harmônia (?), a grande terra dos decretos do principado, Uri, a terra tendo tudo que é apropriado (?), a terra Martu, repousando em segurança, o universo inteiro, o povo em unissono (?) para Enlil em uma língua [fala]. ... (Então) Enki, o senhor da abundância, (cujos) comandos são dignos de confiança, o senhor da sabedoria, que entende a terra, o líder dos deuses, dotado de sabedoria, o senhor de Eridu mudou a fala em suas bocas, [trouxe (?)] contenda para ela, na fala
do homem que (até então) tinha sido uma." ("The Babel of Tongues: A Sumerian Version" by Kramer, S.N., Journal of the American Oriental Society 88:108-11,1968 encontrado em: http://www.ancient-hebrew.org/36_babel.html)

"A ereção (construção) desta torre (templo) ofendeu muito a todos os deuses. Em uma noite eles (subverteram) o que o homem tinha construído, e impediram seu progresso. Eles foram dispersos e sua fala ficou estranha." ("Tells, Tombs and Treasures"; encontrado em: http://www.thehighway.com/flood_Wilson.html)

"Várias tradições similares à da Torre de Babel são encontradas na América Central. Uma diz que Xelhua, um dos sete gigantes salvos do dilúvio, construiu a Grande Pirâmide de Cholula para desafiar o Céu. Os deuses destruíram-no com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. O Dominicano Diego Duran (1537-1588) disse ter ouvido este relato de um sacerdote com 100 anos em Cholula, pouco depois da conquista do México.

Outra lenda, atribuída pelo historiador nativo Don Ferdinand d'Alva Ixtilxochitl (c. 1565-1648) aos antigos Toltecas, diz que depois dos homens se terem multiplicado após um grande dilúvio, eles erigiram um alto zacuali ou torre, para se preservarem no caso de um segundo dilúvio. Contudo, as suas línguas foram confundidas e eles foram para diferentes partes da terra.

Outra lenda ainda, atribuída aos Índios Tohono O'odham ou Papago, afirma que Montezuma escapou a uma grande inundação, depois tornou-se mau e tentou construir uma casa que chegasse ao céu, mas o Grande Espírito destruiu-a com relâmpagos.

Rastos de uma história um pouco parecida também têm sido citados entre os Tarus do Nepal e do Norte da Índia (Relatório do Census de Bengal, 1872, p. 160); e de acordo com David Livingstone, os Africanos que ele conhecera e que viviam junto ao Lago Ngami em 1879 tinham uma tradição assim, mas com as cabeças dos construtores a serem "partidas pela queda do scaffolding [andaime]" (Missionary Travels, cap. 26)." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_de_Babel)

Ethel R. Nelson, juntamente com outros autores, escreveu uma série de livros sobre a similaridade de histórias, conceitos e costumes da Bíblia com os mais antigos caracteres da escrita chinesa. Alguns destes livros são: "God and the Ancient Chinese", "God's Promise to the Chinese", "The Beginning of Chinese Characters", "Genesis and the Mystery Confucius Couldn't Solve". Para escrever o segundo livro, os autores examinaram as mais antigas inscrições feitas em ossos e carapaças de tartarugas, que são chamadas de "escrita de oráculos em ossos". Podemos encontrar algo das comparações destes símbolos chineses com idéias que aparecem no Gênesis no seguinte site: http://www.answersingenesis.org/creation/v20/i3/china.asp

Alguns exemplos: o símbolo antigo chinês para cobiça ou desejo é uma mulher entre duas árvores. Gênesis capítulo 3 conta a história de Eva comendo do fruto da árvore do bem e do mal porque aquele fruto era "desejável para dar entendimento" (Gên 3:6) e dando-o depois para seu marido. Como resultado, os dois tiveram de sair do jardim do Éden e deixar de comer do fruto da árvore da vida (Gên 3:22 e 23). Dificuldade ou problema é representado por uma área cercada com uma árvore dentro e uma coisa negativa ou um não é representado por uma serpente enrolada em duas árvores. Em Gênesis 3 foi uma serpente que enganou Eva acerca do fruto da árvore e como resultado ela e o marido tornaram-se suscetíveis à morte (perda do direito à árvore da vida), cansaço e doenças. O símbolo para justiça é a combinação de uma mão, uma lança, eu e um cordeiro ou carneiro. Nos rituais hebraicos do Antigo Testamento, as pessoas que cometiam uma injustiça e se arrependiam traziam um cordeiro ao sacerdote para ser imolado em lugar da pessoa culpada. Isto simbolizava que a transgressão tinha como penalidade a morte, mas Deus enviaria alguém como Ele mesmo (uma das pessoas da trindade), inocente, para morrer em lugar do transgressor e, por causa da inocência do substituto, essa pessoa seria considerada justa novamente. O signicado dos rituais do Antigo Testamento são expressos nos seguintes textos: "E como a sua oferta pela culpa, trará ao Senhor um carneiro sem defeito, do rebanho; conforme a tua avaliação para oferta pela culpa trá-lo-á ao sacerdote". Levítico 6:6. "Então imolará o cordeiro da oferta pela culpa e, tomando do sangue da oferta pela culpa, pô-lo-á sobre a ponta da orelha direita daquele que se há de purificar, e sobre o dedo polegar da sua mão direita, e sobre o dedo polegar do seu pé direito." Levítico 14:25. "Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo" 1 Pedro 1:18 e 19. "Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." 2 Coríntios 5:21. Estes símbolos representam o que os reformadores do século 16, na Europa, chamaram de "justificação pela fé".

O site acima também comenta sobre uma cerimônia que remonta a 4000 anos, conhecida como Sacrifício Limite, que é relatada no Shu Jing (Livro de História), livro compilado por Confúcio, em que está registrado que o Imperador Shun (que governou desde cerca de 2256 a.C. até 2205 a.C) oferecia sacrifício a ShangDi. A Primeira Canção do Sacrifício Limite - para saudar a aproximação do espírito de SahangDi - dizia o seguinte: "Outrora no início, havia grande caos, sem forma e escuro. Os cinco elementos não haviam começado a se revolver, nem o sol ou a lua a brilhar. No meio (do caos) não havia forma ou som. Tu, ó Soberano espiritual, vieste em tua presidência e primeiro separaste as partes mais espessas das mais claras." (http://www.hyperhistory.net/apwh/essays/comp/cw03bordersacrifice.htm). É interessante a semelhança com Gênesis 1:1-4: "No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. Disse Deus: haja luz. E houve luz. Viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas." Outras canções da cerimônia também apresentam paralelos com a Bíblia, quem se interessar pode consultar o site entre parênteses.

Bill Cooper escreveu um livro que foi publicado em março de 1995, "After the Flood". Em seu livro, ele traz o resultado de um estudo, que durou 25 anos, de textos contidos nos capítulos 10 e 11 de Gênesis, conhecidos como a "Tabela das Nações", em comparação com registros arqueológicos dos povos do Oriente Médio e genealogias e crônicas mais antigas dos
primeiros povos europeus. Os textos que aparecem abaixo foram extraídos do primeiro capítulo de seu livro: "O conhecimento de Deus entre os antigos pagãos".

"Para que possamos conduzir o assunto que estamos prestes a estudar em sua devida perspectiva, devemos primeiro admitir que muitos de nossos preconceitos com relação ao homem antigo estão equivocados. Comumente se supõe, por exemplo, que as nações do mundo tomaram conhecimento do Deus de Gênesis apenas depois que elas foram evangelizadas por missionários cristãos. Apenas desde a tradução das Escrituras, assume-se, elas tomaram conhecimento da criação e do Deus que a criou. Supõe-se ainda que o antigo homem pagão não podia ter qualquer conceito de uma divindade superior a um ídolo, porque é impossível chegar ao conhecimento de um verdadeiro Deus sem esse conhecimento ter sido dado através da direta revelação de Sua Palavra, e assim por diante. O pensamento popular parece nunca ter considerado a possibilidade de que o homem pagão
tinha, indubitavelmente, noção de Deus e de Seus atributos e poder, e que essa noção existiu e floresceu por séculos sem recorrer, em absoluto, às Escrituras. De modo que, é com alguma surpresa, que nos deparamos exatamente com isto, um profundo conhecimento e apreciação de um eterno e todo-poderoso Deus Criador, de Sua paternidade da raça humana e de Seus
infinitos atributos nos escritos de vários historiadores do mundo antigo e entre os ensinos dos mais antigos filósofos. ...

"Mas primeiro devemos entender algo da absoluta profundidade do conceito filosófico pagão do Deus verdadeiro único. Nos deparamos com ele em lugares tão distantes um do outro quanto o mundo é amplo, e entre culturas tão diversas social e politicamente como as da antiga Grécia e da China. Por exemplo, é dos escritos do taoísta Lao-tzé, que floresceu na China do século 16 a.C., que a profunda declaração seguinte a respeito da existência e de alguns dos atributos de Deus é tomada:

'Antes do tempo, e por todo o tempo, tem havido um ser auto-existente, eterno, infinito, completo, onipresente. Além deste ser, antes do início, não havia nada.' (Lao-tzu, Tao-te-ching, tr. Leon Wieger. English version by Derek Bryce. 1991. Llanerch Publishers, Lampeter. p. 13.) ...

"Embora, imperfeito como o conceito de Deus possa ter sido entre os antigos pagãos, ele era, todavia, muito real, frequentemente profundo, e pode ter-se fundamentado unicamente sobre um corpo de conhecimento que tinha sido presevado entre as raças antigas a partir de um ponto particular da história. Qual é esse ponto da história pode tornar-se evidente à medida em que nosso estudo prossegue e nos defrontamos com as famílias da humanidade dispersando-se ao redor do globo a partir de um único ponto. Mas que ele era profundo e, de muitos modos, inspirador, dificilmente pode ser negado, como o seguinte antigo texto de Heliópolis no Egito testifica:

'Eu sou o criador de todas as coisas que existem ...que procederam da minha boca. O céu e a Terra não existiam, nem haviam sido criadas as ervas do solo nem as coisas rastejantes. Eu as fiz surgir do abismo primitivo de um estado de não existência...' (Paráfrase do autor da tradução literal de Wallace Budge de 'The Gods of the Egyptians'. Vol. 1. Dover. New York. 1969. pp. 308-313.)...

"Por exemplo, entre os antigos gregos temos na Teogonia de Hesíodo (8º século a.C.) um relato da criação do mundo que mantém inequivoca e notavelmente íntimas similaridades como o relato de Gênesis:

'Primeiro de tudo o Vazio veio à existência ... em seguida a Terra ... Do Vazio surgiram as trevas ... e da Noite surgiu a Luz e o Dia ...' (Hesiod, Theogony, (tr. Norman Brown, 1953). Bobbs-Merrill Co. New York. p. 15.)

"E todavia é imediatamente óbvio a partir da leitura de toda a Teogonia que Hesíodo não obteve esta informação do livro de Gênesis. Isto é evidente a partir de sua degradante visão só do Criador. ... Xenófanes, por exemplo, que viveu cerca de dois séculos depois de Hesíodo, mantinha uma visão totalmente mais sublime do Criador e em uma passagem muito inspiradora busca restaurar o equilibrio teológico:

"Homero e Hesíodo atribuiram aos deuses todas as coisas que entre os homens são vergonhosas e censuráveis - roubo e adultério e mútuo engano ...[Mas] existe um Deus, o maior entre os deuses e homens, não semelhante aos mortais em forma ou pensamento ... ele vê como um todo, ele pensa como um todo, ele ouve como um todo ... Ele permanece sempre no mesmo estado, não mudando em absoluto ... Mas longe de se atarefar ele governa tudo com sua mente.' ( Barnes, Jonathan. 1987. Early Greek Philosophy. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 95-97.) ...

"Tales de Mileto (ca 625-545 a.C.) é comumente considerado como tendo sido o primeiro filósofo materialista entre os gregos. ... Mas contra isto deve-se apresentar os aforismas que são atribuídos por outros a Tales, tais como: 'Das coisas existentes, Deus é a mais antiga - pois ele não foi gerado. O mundo é a mais bela, pois é criação de Deus ... A mente é a mais rápida, pois percorre tudo ...' (Barnes, Jonathan. 1987. Early Greek Philosophy. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 68.) ...

"[Platão] pinta-nos um quadro das condições das coisas em seus próprios dias, mas fala dos materialistas como se eles fossem uma improvável nova geração de pensadores que tinham recém chegado em cena:

'Algumas pessoas, eu creio, explicam todas as coisas que vieram a existir, todas as coisas que estão vindo a existência agora, e todas as coisas que assim o farão no futuro, atribuindo-as ou a natureza, a arte ou ao acaso.' (Plato. The Laws, (tr. Trevor Saunders, 1970). Penguin Classics. Harmondsworth. p.416.)


" ... prossegue dizendo-nos como esses pensadores definem os deuses como 'conceitos artificiais'e 'ficções legais'. Ele cita a tendência para o que ele considerava ser 'uma doutrina perniciosa' que 'deve ser a ruína da geração mais jovem, tanto no estado em geral como nas famílias particulares'. (Plato. The Laws, (tr. Trevor Saunders, 1970). Penguin Classics. Harmondsworth.Plato. The Laws, (tr. Trevor Saunders, 1970). Penguin Classics. Harmondsworth. p.417.) ...

"Um estóico posterior, o romano Cícero, devia dar ao conceito [criacionista] talvez a sua mais alta expressão nos tempos pré-cristãos, e suas palavras são dignas de citação, em pequena extensão:

"Quando se vê um relógio de sol ou um relógio de água, vê-se que ele diz a hora por projeto e não por acaso. Como então se pode imaginar que o universo como um todo é vazio de propósito e inteligência quando ele abrange tudo, inclusive estes artefatos e seus artífices? Nosso amigo Possidônio, como se sabe, recentemente fez um globo que em suas revoluções mostra os movimentos do sol, das estrelas e dos planetas, de dia e de noite, como eles aparecem no céu. Então, se alguém tomasse este globo e mostrasse-o ao povo da Bretanha ou da Cítia, algum destes bárbaros deixaria de ver que ele era o produto de uma inteligência consciente?' (Cicero, On the Nature of the Gods, (tr. Horace McGregor, 1988). Penguin Classics. Harmondsworth. p. 159.)"

Embora ficasse muito extenso transcrever aqui a imensa quantidade de evidências documentadas que existem de que conceitos e histórias bíblicas permeiam as narrativas, crenças e tradições de todas as culturas pré-bíblicas ao redor do planeta, acredito que esta amostra já seja suficiente para os que a examinarem sem preconceitos.

É difícil imaginar povos ao redor do mundo antigo trocando informações tão eficientemente a ponto de influenciarem-se uns aos outros com suas narrativas de eventos passados. Muito mais razoável seria supor que esses povos descendem de pessoas que viviam inicialmente em uma mesma região geográfica e compartilhavam contos e crenças. Por sinal, isso está de acordo com as afirmações bíblicas sobre o passado da humanidade.

Um conceito que pretendo explorar na continuação deste tema, é a questão do significado de mistério no contexto bíblico (algo que ainda não é entendido) em relação ao conceito de mistério místico (algo que é inacessível).

As questões que eu gostaria de deixar aqui para reflexão são as seguintes: É razoável supor que a existência de registros tão antigos e tão amplamente espalhados pelo planeta de conceitos e histórias bíblicas indiquem que há fatos por trás dos detalhes contidos neles? É totalmente racional excluir esta possibilidade?

sábado, 20 de novembro de 2010

Misticismo X Racionalidade

Parece, para muitos, que a humanidade se divide em dois grandes grupos: místicos e racionais ou, no máximo, alguma combinação em diferentes proporções destes dois grupos.

O pensamento místico incluiria qualquer tipo de crença no sobrenatural ou mágico, enquanto o pensamento racional estaria baseado na lógica e no método científico.

Nessa visão de mundo, os místicos seriam guiados principalmente por sensações e intuição, ao passo que os racionais seriam dirigidos pela razão e evidências observáveis. Contudo, a maioria das pessoas se posicionaria em uma espécie de intersecção destes dois tipos básicos. Muitas vezes manifestando pensamentos que estariam em oposição entre si.

Essa visão dualista do mundo parece subjacente à mente das pessoas quando considerando temas relacionados a ciência e religião.

Na verdade, há nós nessa concepção de mundo, que se não forem desembaraçados, tornam difícil tratar dos temas acima com clareza imparcial.

Começo pelas definições de místico e racional. Místico é uma palavra de origem grega que significa "iniciado em uma religião de mistérios" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Misticismo). Eu parto do princípio de que todo o místico é religioso, mas nem todo o religioso é místico. Para ficar clara esta proposição, é preciso primeiro conceituar o termo religião. A etimologia da palavra é latina (religio). "O significado não é claro. Cícero (106-43 a. C.) no De Natura Deorum afirma que a palavra vem da raiz relegere ('considerar cuidadosamente'), oposto de neglere, descuidar. Já Lactâncio, escritor cristão (m. 330 d.C.), diz que vem de religare ('ligar', 'prender')." (http://www.ceismael.com.br/artigo/papel-da-religiao.htm, citando a Enciclopédia Luso-Brasileira).

Então, em princípio, um religioso seria alguém que considera cuidadosamente algo ao qual ele está ligado. Bem, mas a partir desta definição poder-se-ia concluir que todos são religiosos e muitas pessoas consideram-se não religiosas, por exemplo: ateus, agnósticos, céticos, materialistas, hedonistas, humanistas e muitos cientistas. Eu acredito que o ser humano é intrinsicamente religioso não importa aquilo em que acredite. Essa religiosidade não precisa se manifestar como crença no sobrenatural ou no culto a alguma divindade. (A Medicina parece ter encontrado o local da experiência religiosa no cérebro humano: o lobo temporal, http://www.bbc.co.uk/science/horizon/2003/godonbrain.shtml) O "deus" de muitas pessoas é qualquer coisa a que ela se sente tão ligada, dedica tanta energia e identifica-se de tal maneira que, se ela perdesse tal motivação, ela se sentiria perdida, vazia. Pode ser uma ideologia, um modo de vida, uma outra pessoa ou conjunto de pessoas, coisa materiais ou mesmo o estar centrada em si mesma.

Muitas pessoas sentir-se-iam desconfortáveis com este tipo de definição por causa das implicações relacionadas quando se subentende que todo o religioso é um místico.

Voltemos então à definição de místico: "iniciado em uma religião de mistérios". Vimos que, pela minha definição, qualquer pessoa pode ser considerada religiosa, creia ou não no sobrenatural (algo que esteja acima ou além da natureza). Mas será que qualquer um que creia que há algo ou alguém fora ou acima da natureza é um místico? Alguém que crê no sobrenatural pode ser racional sem ser uma mistura antagônica de pensamentos conflitantes? Alguém que se considera racional (baseia-se na razão), pode não estar baseando suas crenças em coisas tão objetivas quanto ele julga que são?

Para responder à primeira pergunta é preciso resolver primeiro a questão de algo ou alguém acima da natureza ser ou não um mistério (no sentido de inacessível e/ou incompreensível).

Ao longo da história, a maioria das crenças no sobrenatural e/ou mágico tem se caracterizado pela falta de explicações razoáveis e, portanto, ausência de compreensão. A maioria das crenças em divindades, mesmo a maior parte da religiosidade baseada no Deus dos cristãos, tem-se caracterizado pelos mesmos problemas. Poder-se-ia concluir que qualquer crença no sobrenatural seja caracterizada pelo misticismo, mas eu pretendo discutir algumas das evidências históricas de que, ao longo dos séculos, tem havido entre os seres humanos, uma crença em um ser sobrenatural, que não é absolutamente inacessível e incompreensível e que, ao contrário, existem muitas evidências que podem ser testadas por aqueles que desejam ser racionais.