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terça-feira, 5 de abril de 2016

O Conhecimento Humano e a Existência de Deus

Carl Sagan, astrônomo e astrofísico entre outras coisas, foi um cientista muito popular na década de 1980 devido a seu papel na divulgação científica. Certa vez ele comentou acerca de ateísmo e crença na existência de Deus:

"Um ateu é alguém que tem certeza de que Deus não existe, alguém que tem evidências convincentes contra a existência de Deus. Eu não conheço uma evidência assim convincente. Como Deus pode ser relegado a tempos e locais remotos e a causas últimas, teríamos que saber muito mais sobre o universo do que sabemos agora para ter certeza de que Deus não existe. Ter certeza da existência de Deus e ter a certeza da não existência de Deus parece-me serem os extremos muito confiantes em um assunto tão cheio de dúvida e incerteza a ponto de inspirar, na verdade, muito pouca confiança." [1]

E concordo com isso, em parte. Essa opinião demonstra mais bom senso do que grande parte das idéias expressas neste mundo, sejam religiosas ou céticas. O problema é que bom senso não é suficiente. O bom senso nos induz a pensar que se uma coisa não é vista, tocada ou ouvida, existe uma boa chance de ela não existir.

Ocorre, porém, que essa afirmação de Sagan demonstra conhecimento também. Quando se vai um pouco além, estuda-se um pouco mais a natureza e suas leis, percebe-se que existe uma infinidade de coisas que não podem ser vistas, tocadas e sentidas. Alguns exemplos são: partículas subatômicas, espaço, tempo e gravidade. Contudo, conhecimento ainda não é suficiente. Porque por mais que se conheça, sempre existe um infinito além para ser conhecido. Qualquer entidade neste universo, e mesmo o próprio universo, existe dentro desse "aquário" que é a nossa realidade física, restrita às nossas leis físicas, ao tempo e ao espaço.

No entanto, essa asserção ainda revela entendimento. Que é o que acontece quando se percebe que certezas podem fechar portas para questionamentos válidos. Como é possível ter certeza sem nunca ter questionado uma idéia, observado pontos fortes e fracos, ido até as últimas consequências testando opiniões contrárias às nossas?

O problema, com a maioria das certezas, é que, ao tropeçarmos em alguma evidência muito contrária a elas, ainda parecem mais fortes do que qualquer evidência. Isso ocorre com crentes e descrentes. O próprio ceticismo pode se tornar uma convicção mais forte do que a evidência. Desta forma, entendimento, mais uma vez, não é suficiente.

Percebemos que bom senso, conhecimento e entendimento são coisas fundamentais, necessárias, para conseguirmos diferenciar o que é real do que não é. Constatamos, por todos os exemplos de intolerância ao longo da história, que certezas que não admitem questionamentos têm grande chance de imperdir o reconhecimento de evidências. E, também, que a própria idéia de que não se pode ter certeza sobre um determinado assunto pode tornar-se uma certeza, impedindo que evidências sejam percebidas como evidências. Resumindo: certeza que não admite questionamentos tem grande chance de enfraquecer ou mesmo obliterar evidências. A percepção de que não se pode ter certeza sobre alguma coisa pode tornar-se uma certeza e, consequentemente, da mesma forma enfraquecer e obliterar evidências.

Neste caso, o que seria suficiente? Para começar, o desejo de descobrir a verdade qualquer que seja ela. Isso é ainda mais difícil do que parece à princípio.
Enquanto se está pisando em um terreno conhecido, enquanto nossos fundamentos não estão sendo abalados, é relativamente fácil reajustar nossas visões de mundo. O problema ocorre quando a realidade começa a ir em uma direção que tem o potencial de derrubar a plataforma em que nos sentimos seguros. Minha questão é: até que ponto você conseguiria examinar evidências contrárias a sua posição de uma forma isenta? Isto é possível?

Relacionada à capacidade de examinar idéias contrárias às nossas com isenção, há a questão de como construimos nossas bases do que é confiável. Comumente se acredita que a base para as convicções de religiosos, ou místicos e espiritualistas, seria um conjunto de ensinamentos expostos em livros como a Bíblia, Alcorão, ensinamentos de Buda ou mensagens dos espíritos e outras. E a base para as de céticos seriam a ciência e o pensamento racional. Um ponto fundamental, porém, na forma como avaliamos proposições, tem a ver com o grau de confiança e credibilidade que depositamos em determinadas pessoas. Isso, além de nossas experiências individuais e conjunto de valores, é um dos fatores que mais pesa em nossas avaliações do que é do que é aceitável ou não.  Por exemplo, há sempre algumas pessoas que se destacaram por seu entendimento e realizações em áreas de conhecimento que compõem a base para nossas concepções. Consequentemente, o que essas pessoas disseram ou acreditaram costuma ter um papel fundamental na hora de avaliarmos evidências. Não há nada errado em levarmos em conta a experiência de outros que se destacaram por suas realizações. O problema é quando isso se torna um obstáculo para avaliarmos evidências por nós mesmos!

O bom senso faz muitos questionarem a existência de um Deus bom em face da exitência do mal, como doenças, calamidades, guerras, etc. Ao mesmo tempo, também faz com que pessoas questionem por que Deus, aparentemente, não se manifesta aos nossos sentidos nesse planeta. Estas são questões muito relevantes que pretendo abordar posteriormente. No momento, existe uma questão que vem ainda antes destas duas: existe, atualmente, à disposição do ser humano, conhecimento suficiente para responder sobre a existência ou não de Deus?

Para investigarmos isto, é importante que tenhamos, inicialmente, uma idéia correta de como se estrutura o conhecimento humano sobre a realidade. Em um primeiro momento da vida, adquirimos conhecimento sobre o mundo através dos sentidos, do que podemos ver, tocar, provar, cheirar e ouvir. A partir disso, dirigidos por nossos raciocínios e emoções, vamos construindo nossos conceitos. Quando aprendemos a linguagem, adquirimos uma ferramenta importante para ampliar nossos meios de investigação sobre a realidade. Para sobreviver, porém, precisamos aprender a lidar com nosso ambiente e isso inclui começarmos a aprender as formas, os números, as cores, a paisagem, nossa geografia, nossa história, enfim, começamos uma jornada que nos leva a perceber em maior ou menor grau como as coisas estão interconectadas, como nos afetam e são afetadas por nós.

Ocorre que a forma como descobrimos o mundo segue um caminho inverso ao de como a realidade se estrutura. Começamos com uma experiência social, de sermos tocados e cuidados por outras pessoas, de experimentarmos o mundo através dos sentidos. Então, obtemos uma noção de nosso ambiente e de como nos movimentarmos nele; também adquirimos a linguagem. A partir do momento em que nosso cérebro começa a processar informações, iniciamos a construção de uma história através da memória e aprendizado. Do ponto de vista humano, o conhecimento se processo através da construção de uma história, da interação social, de uma experiência física e geográfica, da aquisição da linguagem. Conhecimentos abstratos como matemática explícita e filosofia só acontecem mais tarde e, a maior parte das pessoas do planeta, não se aprofunda muito nestes temas.

A realidade, no entanto, tem uma estrutura inversa. Porque, ao investigarmos a história, percebemos que ela tem origem nas questões sociais. As questões sociais se compõem de interações das pessoas entre si e com o ambiente físico, ou seja, psicologia, fisiologia, ecologia, geografia, economia, política, etc. O funcionamento de todas essas coisas obedece às leis da física. O ambiente, todos os seres vivos e suas interações, em todos os níveis, são regidos pelo eletromagnetismo, gravidade, interações fracas e fortes. Com certeza, todas essas coisas geram superestruturas que, intuitivamente, parecem ser muito mais do que a soma das partes. E são. A soma das partes, porém, acrescida de todas as interações entre elas, ainda segue estritamente estas leis básicas e não existe nenhum princípio mágico por trás. Cada detalhe tem sua origem nas leis da física. Todas estas leis seguem o princípio da ação mínima, que é expresso por uma equação bem pequena.

δA=0

Então, apesar do que parece para o nosso senso comum, as leis mais básicas que geram toda a complexidade do Universo, seguem um princípio básico bem simples, que é um princípio de otimização. Quando expresso matematicamente, este princípio nos permite deduzir as leis físicas.

Eu disse "expresso matematicamente" porque, nossa linguagem matemática, a forma como escrevemos os símbolos dos conceitos abstratos não é a Matemática. Os símbolos que escolhemos para representar os conceitos foram inventados pelos homens, mas os conceitos por trás dos símbolos não foram criados pelos seres humanos. Eles foram sendo descobertos e se demonstraram a forma mais eficiente de representar e gerar novos conhecimentos sobre a realidade. Incluindo aqueles aos quais jamais teríamos acesso simplesmente por nossos sentidos ou raciocínio filosófico. Apesar de que, para o nosso senso comum, muitas vezes os conceitos matemáticos parecem meras abstrações sem correspondência na realidade, tudo o que o homem conhece e experimenta tem sua base no funcionamento matemático da realidade. Aquela matemática que está por trás dos símbolos e que se expressa não só por números, mas por equações e Lógica. Quando a experiência humana é insuficiente para compreender algo, quando a filosofia não consegue alcançar, quando não se pode testar em laboratório, o uso de Matemática gera conhecimentos testáveis e comprováveis cientificamente. Acaba gerando toda a realidade que conhecemos, a que não conhecemos e tudo o que poderia existir, mas não sabemos se existe ou não.

Toda a nossa Física e, portanto, nossa Biologia, Economia, Sociologia e tudo no Universo deixam de existir sem o tempo e o espaço. E hoje se sabe que tempo e espaço tiveram origem. Portanto, nossa realidade, "nosso aquário", a Física e suas consequências, só existem a partir dali, dentro do tempo e do espaço. Tudo o que está fora disso, e não tem sentido falar-se em antes disso sem existência de tempo, pode ser acessado pela Matemática, mas não por outras formas de conhecimento humano.

Existe um Teorema da Lógica Modal conhecido como Teorema Ontológico, demonstrado por um matemático chamado Kurt Gödel. Este teorema conclui que Deus necessariamente deve existir. Ele é formamelmente consistentente e correto e foi validado por diversos softwares.[2] Naturalmente, há várias críticas ao teorema e suas conclusões. Algumas destas críticas afirmam que várias coisas poderiam substituir Deus no teorema, tais como estrelas do mar, mal absoluto e outras. Contudo, se estas coisas fossem colocadas ali, não se encaixariam nos axiomas do teorema. Uma outra crítica argumenta que a Lógica Modal S5 depende de um pressuposto metafísico questionável envolvendo a existência real dos mundos de possibilidades mencionados na literatura. O problema com este argumento é que ele confunde a linguagem utilizada em livros didáticos sobre o assunto com a própria Lógica Modal. A linguagem didática normalmente utilizada nesta área, se entendida literalmente, parece estar fazendo afirmações metafísicas. Entretanto, a Lógica Modal em si não depende de tais pressupostos filosóficos.

Deus seria uma entidade que está fora do Universo e, portanto, não depende de nossas leis físicas, do tempo e do espaço. Ele teria criado estas coisas. Não podemos tentar aplicar a Ele nossas regras de causalidade. As únicas coisas existentes fora do tempo e do espaço seriam Deus e a Matemática. Por isso ela é útil para tratar da existência ou não de Deus. No entanto, não é só através da Matemática que podemos encontrar evidências de Deus. Pretendo continuar este assunto posteriormente.

Referências

[1] Wikipédia, Carl Sagan (fonte: Head, Tom, ed. (2006). Conversations with Carl Sagan (1st ed.). Jackson, MS: University Press of Mississippi. ISBN 1-57806-736-7. LCCN 2005048747. OCLC 60375648.)

[2] Christoph Benzmuller e Bruno Woltzenlogel Paleo. "Automating Godel’s Ontological Proof of God’s Existence with Higher-order Automated Theorem Provers". Disponível em: http://page.mi.fu-berlin.de/cbenzmueller/papers/C40.pdf Acessado em 05/04/2016.

terça-feira, 1 de março de 2016

Reflexões sobre a Morte

Depois de uma longa pausa, estou retornando ao meu blog. E, para este retorno, resolvi tratar de alguns temas bem controvertidos: morte, Deus, fé e Ciência. Embora, no momento, essa seja apenas uma reflexão sobre a morte.

Minha vida acabou de passar por alguns daqueles tipos de acontecimentos que puxam o tapete debaixo dos pés e têm o poder de revirar tudo!
Meu pais faleceram em 2014. Eles estavam bem idosos e, é claro, eu sabia que eles iriam morrer um dia. Eu achava que tinha, finalmente, entrado em um acordo razoável com a morte. Algo assim: ela existe, significa o fim da existência, não é temível e todo mundo vai passar por ela. Uma fórmula bem simples para lidar com esse conceito. Porque quando se é jovem a morte parece uma coisa distante: só um conceito abstrato!

Minhas experiências com a morte foram bem limitadas até 2014. Durante minha adolescência vivi alguns momentos de muita depressão e uso de drogas. Nessa época, até tentei suicídio uma vez. Foi uma tentativa bem titubeante, por causa da sensação de incerteza sobre o que me aguardava. Quando criança, a idéia da morte me apavorava, pelo motivo de que parecia desolador simplesmente não existir mais depois de todo o turbilhão de emoções que é viver! O problema é quando viver se torna extremamente doloroso! O que pessoas que passam por isto querem não é a morte, mas simplesmente pararem de sofrer tanto! A morte parece a única forma de atingir esse objetivo.

A questão é que, quando a pessoa não se mata, aquilo que parecia um sofrimento sem fim se modifica. Porque a pessoa aprende a lidar com o que parecia sem solução, ela aprende a lidar melhor com as próprias emoções. Isso até ela se encontrar com novos obstáculos e pensar na morte outra vez. Então vai ter que aprender a lidar com esses obstáculos também. Nem sempre isso vai acontecer, porque, às vezes, a pessoa não consegue crescer, ela usa medicamentos e atitudes que a "congelam" numa atitude de negação e autoproteção. Não tenho nada contra medicamentos para depressão e outros problemas psicológicos. Acho que eles foram feitos para ajudar as pessoas a conseguir viver com problemas muitas vezes intoleráveis. O que acontece, infelizmente com alguma frequência, é que, para algumas pessoas, as dificuldades a serem vencidas não têm a ver com a forma como elas as enfrentam, não são o modo como elam reagem às situações, mas o fato de existirem coisas que lhes causam sofrimento. O que as pessoas fazem é se proteger dessas coisas externas. O remédio e o evitar situações desagradáveis servem de escudo para se protegerem do mundo hostil. Não percebem que enfrentar o mundo hostil e controlar as emoções é a única coisa que faz com que alguém realmente supere os obstáculos e cresça. Crescer pode ser doloroso, mas é necessário. Porque, do contrário, tanto faz continuar vivendo se passamos pela vida sem ter saído de dentro de uma casca! É como participar de uma corrida de obstáculos contornando todos eles! Você não participou de fato da corrida, só fingiu que sim. Daí quem passa a vida tentando se proteger de sofrimentos e evitando toda a situação desagradável, não viveu de fato! Não experimentou a recompensa pelos esforços, porque evita esforços. Não apreendeu o sentido da vida, porque viveu só pra si, em uma concha.

O que aconteceu comigo, recentemente, foi o choque que ocorreu entre as idéias que eu usava para enfrentar um fenômeno distante de mim e a realidade de enfrentar esse fenômeno cara à cara. A morte, infelizmente, não recompensa aquela sua idéia romântica de que, depois de uma vida intensa de muitas realizações, um dia você simplesmente adormece calmamente depois de se despedir devidamente de toda a família! Não, primeiro você vai perdendo, cada dia um pouco mais, tudo o que tinha e era! Se você era rico e orgulhoso ou pobre e ansioso, não faz mais diferença depois de algum tempo! E isso porque, muito frequentemente, você não morre de repente. A não ser naqueles casos em que a pessoa morre de acidente ou de mal súbito, ela vai perdendo a capacidade de desfrutar da própria vida e das coisas que antes gostava, até perder a si mesma, sua memória e aquilo que fazia dela o que ela era. E isso não é só nos casos de Alzheimer ou demência avançada. Porque a mente e o corpo vão ficando cansados e incapazes de fazer os mesmos esforços. Tem um pequeno instante, entre a morte e a vida, em que você ainda não foi, mas já não está mais aqui. E esse momento é muito triste! Quando você é o espectador desse fenômeno e pode apenas olhar a vida dos seus entes queridos escorrendo pelos dedos sem ao menos conseguir produzir um real confôrto, porque eles já estão escapando do seu alcance, isso é muito terrível! Talvez a coisa mais terrível que eu já tive de enfrentar na minha vida!

É estranho como as palavras de pessoas que nunca passaram por isto soam nos seus ouvidos nesse momento: "Faz parte da vida" ou "É a vida, todos vão morrer". Soa estranho porque você já pensou isso, já disse isso alguma vez. E, principalmente quando as pessoas que morreram eram idosas, você pensa que é natural esperar que elas irão morrer logo! Não é nenhuma surpresa! Claro que não! Quando é o seu vizinho, um parente pouco chegado, um estranho, ou quando você não acompanhou todo o processo de morrer, passo a passo, pelo qual a pessoa passou. Quando você não morreu com ela, hora a hora, dia a dia, minuto a minuto, sempre um pouquinho mais e tentou, desesperadamente, evitar a dor, o sofrimento e a perda até da dignidade para aquela pessoa! Quando ela finalmente atravessa os portais de além da vida, você pensa: "Como assim, porque ainda estou aqui? Eu andei todo o caminho com ela, passei por todo o processo até a morte! Agora ela foi e eu fiquei! O que eu faço?"

Eu não tenho perguntas do tipo: por que existe a morte? O que ocorre depois da morte? Por que existe o sofrimento? E existe um Deus? Essas são perguntas que eu já respondi para mim mesma. São perguntas que fiz naquela ocasião da tentativa de suicídio.

Acho que a diferença entre as minhas perguntas e as daqueles que deixam de crer em um Deus ao se deparar com esse tipo de questão é que eu as fiz diretamente para Deus. Meu raciocínio foi o seguinte: Se existe um Deus, Ele deve ser capaz de me responder essas questões e, se não, quero saber que as coisas são assim justamente por esse motivo. Quero que as respostas sejam o que elas realmente são e não o que eu quero que sejam! E as respostas foram chegando, não todas de uma vez, porque envolve muitas coisas e coisas profundas. Contudo, elas estão ao alcance de qualquer um que realmente queira entender. As respostas não se encontram simplesmente na fé ou na Ciência. Elas abrangem tudo isso, mas ninguém precisa ser expert para entender, embora quanto mais se aprenda mais claras as respostas vão se tornando.

Pretendo entrar em mais detalhes em posts subsequentes.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Guerra Cósmica

Eu tenho escrito algumas vezes neste blog sobre temas relacionados à
história da religião em nosso mundo, especialmente da religião bíblica.
Do meu ponto de vista, eu diria até, do ponto de vista de quem tem uma
visão panorâmica da história e profecias bíblicas, tudo o que
aconteceu ou ainda irá acontecer neste planeta é perfeitamente
coerente e, até certo ponto, previsível. Um problema insolúvel para muitos, mesmo para alguns que supostamente têm um conhecimento razoável dos textos bíblicos, é a questão da existência de sofrimento e injustiça em um Universo que teria sido criado por um Deus bom. Como e por que um Deus bom e totalmente poderoso poderia ter deixado estas coisas acontecerem?
No contexto da Bíblia, independente de alguém crer ou não nela, podem ser encontradas respostas coerentes para questões como esta acima?
Neste post pretendo começar a mencionar algumas das principais bases para entendermos a explicação e a solução bíblica para esses problemas.

A ficção está cheia de relatos de guerras cósmicas, "Guerra nas
Estrelas" (Star Wars) é o exemplo mais contemporâneo e famoso de que
me recordo. A ficção é interessante não pela própria ficção, mas
pelo que ela nos ensina sobre a mente de seus autores. A maioria das
histórias de ficção começa com razoável tranquilidade, de forma a nos
familiarizarmos com personagens e ambiente, suscita uma crise ou
problema a ser resolvido e termina com algum tipo de solução boa ou
não. Isto demonstra um esquema básico subjacente na mente da quase
totalidade dos autores de ficção. Alguém já leu ou assistiu a alguma
história de ficção em que tudo esteja bem do início ao fim da história?
Já pararam pra pensar por que isto acontece? Provavelmente muito
poucos leriam ou assistiriam a essa história. Por um lado, a mente
humana sente necessidade de resolver problemas e, por outro, não
existiria o mínimo de identificação. Ninguém vive em um "mar de
rosas", mas todo mundo desejaria viver. A ficção tem apelo com base
em nosso desejo de resolver desafios.

Esse esquema básico - início tranquilo, crise e
resolução - que encontramos nos relatos de ficção e que parece fazer parte de nosso inconsciente coletivo já se encontra em um relato muito antigo: o da Guerra cósmica.

Podemos encontrar essa história na Bíblia (mas não exclusivamente
nela). Seus detalhes podem ser encontrados ao longo da Bíblia toda: de
Gênesis ao Apocalipse. Recuando o máximo possível na história
bíblica do Universo nos deparamos com o livro de Provérbios, capítulo
8. Ali encontramos a sabedoria falando aos homens em primeira pessoa
como a obra mais antiga de Deus: "O Senhor me criou como a primeira das
suas obras, o princípio dos seus feitos mais antigos. Desde a
eternidade fui constituída, desde o princípio, antes de existir a terra."
Versos 22 e 23. O texto prossegue enumerando itens que foram criados
na Terra. Mas esta primeira coisa criada, constituída desde a
eternidade, tem a ver com os planos de Deus ao estabelecer planetas
com seres vivos, o "know-how" ou sabedoria envolvidos. A eternidade
refere-se à situação em que unicamente Deus pode estar: fora do espaço-tempo.
Este conceito de espaço-tempo é bastante recente, de forma que os
escritores hebreus do Antigo e Novo Testamentos não tinham como
entendê-lo. No entanto, o escritor do livro de Hebreus emprega uma
palavra (grega, que era a língua mais popular nos tempos do Novo
Testamento) que podemos relacionar com este conceito no capítulo 11,
verso 3: "Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de
Deus; de modo que o visível não foi feito daquilo que se vê." A
palavra que é aqui traduzida como "mundos" é, transliterando,
"aionas". Esta palavra é traduzida como século(s), para sempre, eternamente
ou mundo(s) nos textos bíblicos (Mat 6:13, Lucas 1:33,
Romanos 1:25; 9:5; 11:36; 16:27
2 Cor 11:31, Gal 1:5, Filip 4:20, 1 Tim 1:17, 2 Tim 4:18,
Heb 1:2; 11:3; 13:8; 13:21, 1 Pe 4:11; 5:11, Judas 1:25,
Apoc 1:6,18; 4:9,10; 5:13,14; 7:12; 10:6; 11:15; 14:11; 15:7; 19:3; 20:11; 22:5), ou seja, traduz a idéia de tempo e, por implicação,
em alguns textos, de espaço. Até aqui vimos que na Eternidade Deus elaborou a sabedoria subjacente ao plano básico de mundos com seres vivos, depois Ele criou "aionas" ou espaço-tempo (no Big Bang). Então utilizou esta infra-estrutura (espaço-tempo)
para criar mundos ou planetas. O nosso não teria sido
o primeiro mundo a ser criado, pois quando ele o foi, outros seres já
existentes se alegraram: "Onde estavas tu, quando eu lançava os
fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento...quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de
Deus bradavam de júbilo?" Jó 38:4-7. Este texto diz que outros seres que não eram seres humanos se alegraram quando a Terra foi criada: "estrelas da manhã" e "filhos de Deus". Estrela é uma palavra utilizada na Bíblia como símbolo para anjo (Apocalipse 1;20, Isaías 14:12-13), filhos de Deus seriam outros seres inteligentes que não os humanos. A Bíblia descreve um lugar onde seria a sede do governo de Deus neste Universo, o Céu (poderia ser um planeta), em que viveriam os anjos com Deus (1 Reis 8:39, Prov. 11:4, Salmo 103:19, Isaías 37:16, Isaías 6:1-2, Apoc 4:1-3 e 5:11). A palavra anjos é a tradução de uma palavra grega que significa mensageiro. Anjo é uma função que uma classe de seres inteligentes de diferentes espécies exerce no governo de Deus. A guerra cósmica que inspirou o título deste post é relatada na Bíblia como tendo começado neste local entre esta classe de seres inteligentes.
Uma característica dos seres inteligentes é a liberdade de escolha. Um universo sem liberdade de escolha por parte dos seres inteligentes seria um universo de autômatos sem vontade própria.

Poderíamos nos perguntar por que Deus (segundo a Bíblia, uma entidade formada por 3 pessoas: Gên. 1:2, 26; João 1:1-3; Mateus 28:19) teria tido o desejo de criar seres com vontade própria semelhantes a Ele? Em Isaías 43:7 é-nos dito que Ele criou pessoas para Sua glória e em Êxodo 33:18 e 19, Deus diz a Moisés que Sua glória é Sua bondade. Portanto, parece plausível entender-se que, em Sua bondade, Deus desejou compartilhar Sua felicidade com outros seres. Para que eles pudessem existir era preciso que possibilidades matemáticas se concretizassem na física, química e biologia de universos que tiveram de ser inventados.

Mas seres inteligentes teriam a possibilidade de se opor ao governo de Deus? Essa era uma possiblidade que não poderia ser descartada se a liberdade de escolha tivesse que ser preservada a qualquer custo. E, de fato, a Bíblia diz que isto ocorreu. A história é contada ao longo da Bíblia toda, no Antigo e Novo Testamentos. Ezequiel 28:11-15 conta a história de um anjo (querubim) sob a forma de uma lamentação sobre o rei de Tiro. É dito que ele era perfeito até que se achou nele iniquidade. Em Isaías 14:12-15, é dito que este anjo (estrela da manhã) cobiçou a posição de Deus (Seu poder e não Seu caráter). Também é dito que ele se tornou o pai da mentira e contudo se apresenta como anjo de luz com aparência de justiça (João 8:44, 2 Cor 11:14 e 15). Com mentira e aparência de justiça ele teria conquistado a simpatia de outros anjos e iniciado uma guerra na sede do governo de Deus em nosso universo (Apocalipse 12:7-9) e também, mais tarde, através do engano, arrastado os primeiros seres humanos em sua rebelião (Gên 3). Como ele e os anjos que o seguiram não se apresentam como são, mas enganam e se fazem de seres de luz, eles têm, desde há muito tempo, se comunicado com os seres humanos como espíritos de pessoas mortas (Deut 32:17, Salmo 106:28).

Esse anjo, mais tarde conhecido como Satanás, podia usar uma arma desconhecida até ali por outros seres inteligentes: o engano. Esta era uma arma que Deus não podia utilizar, pois é contrária a Seu caráter (Neemias 9:13, Salmo 25:10, Salmo 119:160). Deus só podia utilizar a verdade, amor e justiça nesta guerra. Podia eliminar os rebeldes no princípio da rebelião, mas uma vez que decidiu que existisse a liberdade de escolha não podia evitar que se rebelassem se assim o desejassem. Os seres inteligentes não conheciam o mal e seus resultados, eliminá-lo prematuramente apenas faria com que as criaturas servissem a Deus por medo e não por amor. A luta entre o bem e o mal deveria se desenvolver para que todos os seres inteligentes pudessem decidir voluntariamente. As consequências de escolher o mal deviam ser patenteadas aos olhos de todo o universo (1 Cor. 4:9, 1 Pedro 1:12). A Terra se tornou o campo de batalha porque foi o único planeta a se unir aos anjos em rebelião. Mas Deus planejou um meio de resgatar os seres humanos. Esta história continua.