Mostrando postagens com marcador História e Religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História e Religião. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Um Mundo sem Religião

Introdução

Neste post, pretendo explorar um pouco a idéia inspirada na canção Imagine, do cantor e compositor John Lennon. Assim como ele, muitas pessoas imaginam que o mundo seria um lugar melhor se não existisse religião. Richard Dawkins, que se considera cético e racional, é uma dessas pessoas.

Portanto, ao invés de citar alguns fatos históricos e dar minha própria interpretação, me propus a afastar a cortina do tempo e dar uma olhada mais de perto em alguns acontecimentos não muito comentados e facilmente esquecidos de um dos capítulos mais intensos da história humana: a Revolução Francesa durante o Reino do Terror.
É importante refletir que, ao passo que geralmente se considera a Inquisição e o Nazismo como capítulos escuros da História, a Revolução Francesa, em si, é vista como um marco da liberdade.
Aqui questiono essa interpretação com base nos acontecimentos que afetaram os que viveram e morreram naquele período. O que me leva a refletir um pouco sobre um problema humano mais básico e profundo: a existência do mal.

Imagine...


No prefácio de seu livro The God Delusion (Deus, um delírio), Richard Dawkins, a propósito da música de Lennon, Imagine, comenta sobre como ele imagina que seria um mundo sem religião:

“ ‘Imagine um mundo sem religião.' …  As torres gêmeas do World Trade Center estariam visivelmente presentes.

"Imagine, com John Lennon, um mundo sem religião. Imagine nenhum homem bomba suicida, nenhum 11/9, nenhum 7/7, sem Cruzadas, sem caça às bruxas, sem Conspiração da Pólvora, sem divisão da Índia, sem guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres de sérvios, croatas e muçulmanos, sem perseguição de judeus como 'assassinos de Cristo', sem 'problemas' na Irlanda do Norte, sem 'crimes por honra', sem televangelistas com ternos brilhantes e cabelos bufantes extorquindo dinheiro de pessoas crédulas ('Deus deseja que você doe até que doa'). Imagine nenhum Taliban para explodir estátuas antigas, nenhuma decapitação pública de blasfemadores, nenhuma flagelação da pele feminina devido ao crime de mostrar uma polegada dela." (Tradução Livre)

O mundo que John Lennon idealiza em sua música é um mundo sem religião, sem Céu ou inferno, sem posses, sem divisão de países, sem ganância e com as pessoas vivendo apenas para o presente, em paz em uma fraternidade. Em outras palavras, basta acabar com a ideia de uma vida futura de recompensas e punições, acabar com a religião, e o mundo ficará automaticamente muito melhor, talvez até possam acabar as divisões e ganâncias, porque, afinal, o que faz tudo isto existir é a religião.

Talvez não fosse exatamente assim que Lennon pensasse, pode ser que apenas considerasse que a religião era um mal entre outros. De qualquer forma, a música passa essa impressão, assim como Dawkins em seu livro. Como se os seres humanos não lutassem e discordassem por outros motivos que não religião. Os problemas mencionados por Dawkins certamente não teriam ocorrido, mas outros, por outros motivos, poderiam substituí-los. Ou seria que o problema da humanidade é ter religião, que sem ela, a humanidade seria um paraíso cheio de pessoas boas vivendo em paz como Lennon cantava?

Dawkins acredita que não precisamos de Deus para sermos bons. Ele apoia sua opinião em uma pesquisa em que pessoas responderam perguntas típicas sobre dilemas morais.

“A conclusão principal do estudo de Hauser e Singer foi a de que não há diferença estatisticamente significativa entre ateus e crentes religiosos ao tomar estas decisões. Isto parece compatível com a opinião que eu e muitos outros mantêm de que não necessitamos de Deus para sermos bons - ou maus." (The God Delusion, p. 195, tradução livre)

A questão com a qual eu gostaria de encerrar esta seção é a seguinte: Se a maioria das pessoas têm plena consciência de quais são as escolhas corretas a ser feitas, como demonstra o estudo acima citado, por que o mundo não é um lugar melhor?

Como seria um Mundo sem Religião?


Será que basta que as pessoas tenham consciência do que é correto para que ajam assim? Outra questão: As crenças não afetam o modo como elas realmente se comportarão quando estiverem de fato vivendo uma questão de dilema moral que não seja hipotética e que represente riscos reais para elas?

A propósito, parece bastante óbvio que meramente possuir uma religião não torna as pessoas boas, pois pessoas podem acreditar em coisas ruins derivadas de sua religião ou da distorção dela e o mundo está cheio de exemplos disto. Contudo, as pessoas que praticam o mal em nome de uma religião se tornaram más por causa de sua religião? Se o problema for a religião, então todas as pessoas sem religião deveriam ser boas!

Não precisamos imaginar como seria um mundo sem religião como o fez John Lennon. Já temos algumas pequenas amostras espalhadas pela história. Podemos afastar um pouco a cortina do tempo e olhar para a França durante a Revolução, no período em que a religião foi expulsa de seus domínios, durante a fase do Reino do Terror.

John S. C. Abbott, no segundo volume de seu French Revolution of 1789 - As Viewed in the Light of Republican Institutions, justifica os atos realizados durante a Fase do Terror na França, com as seguintes palavras:

"A história da Revolução Francesa tem sido contada também, muito frequentemente, neste espírito, encobrindo as atrocidades dos opressores e ampliando a falta de humanidade do oprimido. Conquanto a verdade exija que toda a violência de um povo escravizado, em desespero rompendo seus laços, deva ser fielmente retratada, a verdade, não menos imperiosamente, exige que a falta de misericórdia dos orgulhosos opressores, esmagando milhões por eras, e incitando uma nação inteira na loucura do desespero, deveria ser também imparcialmente descrita." (Tradução Livre, p. 335.)

E o que ele diz é verdadeiro, até certo ponto. Porque durante séculos a Inquisição e os desmandos de reis e nobres oprimiram o povo pobre, porém isto não ocorria somente na França. Apesar disto, uma certa organização, ainda que injusta e cruel, permitia que os povos seguissem existindo. As cenas descritas por esse autor, e outros, retratam a implosão de uma civilização. Tão autodestrutivos se tornaram os atos que, eles mesmos, teriam extinguido a própria nação se não houvessem cessado. Como podemos ver das seguintes descrições:

“O espírito ousado dos girondinos foi manifesto nas palavras de Vergniaud:

'Temos testemunhado', disse ele, 'o desenvolvimento desse estranho sistema de liberdade em que nos é dito:
'Vocês são livres, mas pensem como nós, ou os denunciaremos à vingança do povo, são livres, mas inclinem a cabeça ao ídolo que adoramos, ou os denunciaremos à vingança do povo, são livres, mas unam-se a nós em perseguir os homens cuja probidade e inteligência tememos, ou os denunciaremos à vingança do povo.' Cidadãos! temos motivos para temer que a Revolução, como Saturno, devorará sucessivamente todos os seus filhos, e apenas engendrará despotismo e as calamidades que o acompanham.' (Ibidem, p.p. 332-333. Tradução Livre)

"A insurreição monarquista em La Vendée, depois de um longo e terrível conflito, foi esmagada. Nenhuma linguagem pode descrever os horrores de vingança que se seguiram. O relato da brutalidade é demasiado horrível para ser contado. Demônios não poderiam ter sido mais infernais em crueldade. 'A morte pelo fogo e pela espada', escreve Lamartine, fez ruído, espalhou sangue e deixou corpos para serem enterrados e contados. As silenciosas águas do Loire estavam mudas e não prestariam contas. Unicamente o fundo do mar saberia o número de vítimas. Carrier tornou os marinheiros tão impiedosos quanto ele próprio. ... Enquanto se entregava às alegrias do amor e do vinho no convés, suas vítimas, encerradas no porão, viam, a um dado sinal, as comportas se abrirem e as ondas do Loire engolirem-nos. Um gemido abafado anunciava para a tripulação que centenas de vidas tinham dado seu último suspiro sob seus pés. Eles continuavam suas orgias sobre esse sepulcro flutuante. 'Algumas vezes Carrier, Lambertye e seus cúmplices se regozijavam no cruel prazer deste espetáculo de agonia.
Eles faziam com que suas vítimas de ambos os sexos subissem para o convés. Despojados de suas vestes, eles os atavam face a face - um sacerdote com uma freira, um jovem com uma jovem. Suspendiam-nos, assim nus e entrelaçados, por uma corda que passava sob seus ombros através de um bloco da embarcação. Divertiam-se em horríveis sarcasmos com esta paródia de casamento na morte, e, então, afundavam as vítimas no rio. Este esporte canibal foi denominado 'Casamentos Republicanos'. …

"As prisões de Paris estavam agora repletas de vítimas. Instruções municipais, emitidas por Chaumette, catalogaram como segue os que deveriam ser presos como pessoas suspeitas:
1. Os que, por discursos enganosos, extinguissem a energia do povo. 2. Os que enigmaticamente deplorasssem o quinhão do povo e propagassem más notícias com afetado pesar. 3. Os que, silenciosos a respeito das faltas dos monarquistas, falassem contra as faltas dos patriotas. 4. Os que tivessem piedade daqueles contra os quais a lei era obrigada a tomar medidas. 5. Os que se associassem com aristocratas, sacerdotes e moderados e tivessem interesse em seu destino. 6. Os que não tivessem tido parte ativa na Revolução. 7. Os que tivessem recebido a Constituição com indiferença e tivessem expressado temores com respeito a sua duração. 8. Os que, embora não tivessem feito nada contra a liberdade, não tinham feito nada por ela. 9. Os que não assitissem às sessões. 10. Os que falassem com desprezo das autoridades constituídas. 11. Os que tivessem assinado petições contra-revolucionárias. Os partidários de La Fayette e os que marcharam sob o comando no Campo de Marte.

"Havia apenas poucas pessoas em Paris que não eram passíveis de ser presas, pelas maquinações de algum inimigo, sob alguma destas acusações. Muitos milhares foram logo encarcerados." (The History of the French Revolution - 1789 -. Louis Adolphe Thiers, vol. 3, p.p. 342-345. London, 1895. Tradução Livre)

" 'As miseráveis vítimas em Nantes', diz Mr. Alison, 'foram mortas com punhais nas prisões ou levadas em uma embarcação e afogadas juntas no Loire. Em uma ocasião uma centena de sacerdotes foi tomada junta, despojada de suas vestes e precipitada nas ondas. Mulheres em gravidez adiantada, crianças com oito, nove e dez anos de idade foram atiradas juntas na corrente, ao lado das quais, homens armados com sabres foram colocados para cortarem suas cabeças se as ondas as lançassem não afogadas na praia. Em uma ocasião, por ordens de Carrier, vinte e três dos monarquistas - em outra - vinte e quatro, foram guilhotinados juntos sem qualquer julgamento. O carrasco protestou, mas foi em vão. Entre eles havia muitas crianças com sete ou oito anos de idade e sete mulheres; o carrasco morreu dois ou três dias após, com horror do que ele mesmo tinha feito. Tão grande era a multidão de cativos que foram trazidos de todos os lados que os carrascos se declararam exaustos pela fadiga e um novo método de execução foi planejado. Duas pessoas de sexos diferentes, geralmente um idoso e uma idosa, desprovidos de qualquer espécie de roupa, eram atados juntos e atirados no rio. Foi determinado por documentos autênticos que seiscentas crianças pereceram por este tipo de morte desumana; e tal foi a quantidade de cadáveres acumulados no Loire, que a água se tornou contaminada. As cenas nas prisões que precederam estas execuções excedem todas as mais terríveis que romances tenham concebido. Em uma ocasião o inspetor entrou na prisão procurando por uma criança, onde, na noite anterior, haviam sido deixadas acima de três mil crianças; elas tinham todas partido pela manhã, tendo sido afogadas na noite precedente. Para todos os representantes dos cidadãos em favor destas vítimas inocentes, Carrier apenas respondeu: 'Elas são todas víboras, deixai-as serem sufocadas.' Trezentas jovens de Nantes foram afogadas por ele em uma noite: muito longe de terem tido qualquer parte em discussões políticas, elas eram da desafortunada classe dos que vivem pelos prazeres de outros. Em outra ocasião, quinhentas crianças de ambos os sexos, a mais velha das quais não tinha ainda quatorze anos, foram levadas para o mesmo local para serem baleadas. A pequenez de sua estatura fez com que a maioria das balas da primeira descarga voasse sobre suas cabeças; elas soltaram seus liames, apressaram-se para as fileiras dos executores, se agarraram aos seus joelhos e pediram por misericórdia. Contudo, nada podia suavizar os assassinos. Eles as mataram mesmo enquanto jazendo a seus pés.
Uma mulher deu à luz uma criança no cais; mal tinham cessado as agonias do parto, quando ela foi empurrada, com o inocente recém-nascido, para o barco fatal! Quinze mil pessoas pereceram em Nantes sob as mãos dos executores, ou de doenças na prisão, em um mês. O número total de vítimas do Reino do Terror naquela cidade excedeu os trinta mil." (French Revolution of 1789 - As Viewed in the Light of Republican Institutions, p.p. 533, 534. New York, 1887. Tradução Livre.)

"Não podemos dar melhor relato do estado de Paris naquela época do que nas palavras de Desodoards, um calmo e filosófico escritor, que tinha ardentemente esposado a causa da Revolução, e que, consequentemente, não será suspeito de exagero.
'O que então', diz ele, 'foi este governo revolucionário? Cada direito, civil e político, foi destruído. Liberdade de imprensa e de pensamento estavam no fim. O povo todo estava dividido em duas classes, os privilegiados e os proscritos. A propriedade era descontroladamente violada, lettres de cachet [cartas assinadas pelo rei e secretário de estado autorizando a prisão de alguém] foram restabelecidas, o asilo das habitações exposto à mais tirânica inquisição e a justiça despojada de toda aparência de humanidade e honra. A França estava coberta de prisões; todos os excessos de anarquia e despotismo lutando em meio a uma confusa multidão de comitês; terror em cada coração; o cadafalso devorando uma centena cada dia e ameaçando devorar um número ainda maior; em cada casa melancolia e pranto e, em cada rua, o silêncio da tumba.

'A guerra era travada contra as emoções mais ternas da natureza. Fosse uma lágrima derramada sobre a tumba do pai, esposa ou amigo, isto era, de acordo com estes jacobinos, um assalto à República. Não se regozijar quando os jacobinos se regozijavam era trair a liberdade. Toda a turba de baixos oficiais de justiça, alguns dos quais mal podiam ler, divertia-se com as vidas de homens sem a menor vergonha ou remorso. Frequentemente um ato de acusação que se destinava a uma pessoa recaía sobre outra. O oficial apenas mudava o nome ao perceber seu erro e, frequentemente, não mudava. Enganos da mais inconcebível natureza eram cometidos com impunidade. A duquesa de Biron foi julgada por um ato preparado contra seu agente. Um jovem de vinte anos foi julgado por ter, como foi alegado, um filho portando armas contra a França. Um rapaz de dezesseis, cujo nome era Mallet, foi preso sob uma acusação de um homem de quarenta, chamado Bellay. 'Qual a sua idade?' inquiriu o presidente, olhando-o com alguma surpresa. 'Dezesseis', respondeu o jovem. 'Bem, você tem plenamente quarenta no crime', disse o magistrado; 'levem-no para a guilhotina.' ...

"Em meio a tais cenas não é estranho que todo o respeito pelo Evangelho de Jesus Cristo foi renunciado. Os jacobinos de Paris lotaram a Convenção, exigindo a abjuração de todas as formas de religião e todos os modos de adoração. Eles governavam a Convenção com controle despótico. A Comuna de Paris, investida como a polícia local da cidade, passou leis proibindo o clero de executar cultos religiosos fora das igrejas. Ninguém a não ser amigos e parentes eram permitidos seguir os restos do morto à sepultura. Todos os símbolos religiosos foram ordenados ser apagados dos cemitérios e serem substituídos por uma estátua do sono. As seguintes divagações de Anacharsis Cloots, um rico barão da Prússia, que denominou-se o orador da raça humana, e que foi um dos mais conspícuos dos agitadores jacobinos, fortemente exibe o espírito da época:
'Paris, a metrópole do globo, é o local apropriado para o orador da raça humana. Não deixei Paris desde 1789. Foi então que redobrei meu zelo contra os pretensos soberanos da Terra e do Céu. Ousadamente preguei que não existe outro deus a não ser a Natureza, nenhum outro soberano a não ser a raça humana - o povo deus. O povo é suficiente para si mesmo. A Natureza não se ajoelha perante ela própria. A religião é o único obstáculo para a felicidade universal. Chegou a hora de destruí-la.'

“A corrente popular em Paris então se impõe fortemente contra toda religião. ...

“A Convenção indicou um comitê de doze homens, denominado de o Comitê de Segurança Pública, e o investiu de poder ditatorial. Todo o poder revolucionário estava agora alojado em suas mãos. Eles indicaram subcomitês como lhes agradava e governaram a França com terrível energia. O Tribunal Revolucionário era apenas um de seus comitês. Em todos os departamentos eles estabeleceram suas agências. A própria Convenção se tornou impotente contra este espantoso despotismo. Esta ditadura foi energicamente apoiada pelo populacho de Paris; e o governo da cidade de Paris era composto dos mais violentos jacobinos, que estavam em perfeita fraternidade com o Comitê de Segurança Pública. St. Just, que propôs na Convenção o estabelecimento desta ditadura, disse:
'Vocês não devem mais mostrar qualquer indulgência para com os inimigos da nova ordem de coisas. A liberdade deve triunfar a qualquer custo. Nas atuais circunstâncias da República, a Constituição não pode ser estabelecida, isto garantiria impunidade a ataques à nossa liberdade, porque ela seria deficiente na violência necessária para restringi-los.' " (The French Revolution of 1789 - as viewed in the light of republican institutions. Vol 2, p.p. 358, 360-361)

“A seção de l'Homme-Armé declarou que não reconhecia nenhuma outra adoração além da verdade e da razão, nenhum outro fanatismo além da liberdade e igualdade, nenhuma outra doutrina além daquela da fraternidade e das leis republicanas decretadas desde 31 de maio de 1793. A seção de La Réunion declarou que faria uma fogueira com todos os confessionários e todos os livros usados pelos católicos e que fecharia a igreja de St. Mary. ... Assim as seções, tomando a iniciativa, abjuraram a fé católica como a religião estabelecida e se apossaram de seus prédios e seus tesouros como pertencendo ao domínio comunal. Os deputados em missão nos departamentos já tinham incitado um grande número de comunas a se apoderarem da propriedade móvel das igrejas, a qual, eles disseram, não era necessária para a religião e, a qual, além disso, como toda a propriedade pública, pertencia ao Estado e poderia, portanto, ser usada conforme sua vontade. ... Foram em procissão para a Convenção e a turba, indulgindo em sua inclinação pelo burlesco, caricaturou da maneira mais ridícula as cerimônias da religião, e teve tanto prazer em profaná-las quanto tinha tido anteriormente em celebrá-las. Homens, usando sobrepeliz e vestes sacerdotais, vieram cantando Aleluias e dançando o Carmangnole para o tribunal da Convenção; onde eles depositaram a hóstia, os crucifixos e as estátuas de ouro e prata; fizeram burlescos discursos e, algumas vezes, dirigiram as mais singulares exclamações para os próprios santos. 'Oh, vós!' exclamou uma delegação de St. Denis, 'oh, vós instrumentos de fanatismo, abençoados santos de todos os tipos, sede afinal patriotas, erguei-vos em massa, servi o país por irdes para a Fundição serdes derretidos e dai-nos neste mundo aquela felicidade que desejáveis obter para nós no outro! ... A pedido de Chaumette, foi resolvido que a igreja metropolitana de Notre Dame deveria ser convertida em um edifício republicano denominado Templo da Razão. ... O primeiro festival da Razão foi realizado com pompa no 20 de Brumário (10 de novembro). Foi assistido por todas as seções, junto com as autoridades constituídas. Uma jovem mulher representava a deusa da Razão. ... Discursos foram feitos e hinos cantados no templo da Razão; então se dirigiram para a Convenção e Chaumette falou nestes termos:
'Legisladores! - o fanatismo tem dado lugar a razão. Seus olhos ofuscados não podem suportar o brilho da luz. Neste dia uma imensa multidão se reuniu sob aquelas abóbadas góticas, as quais, pela primeira vez, ecoaram a verdade. Ali a França celebrou a única verdadeira adoração, a da liberdade, da razão. Ali concebemos desejos pela prosperidade das armas da república. Ali abandonamos os ídolos inanimados pela razão, por aquela imagem animada, a obra-prima da Natureza.' " (The history of the French Revolution, 1789-1800, vol. 3, p.p. 241-243. London, 1895. Tradução Livre.)

"Cem mil prisões e algumas centenas de condenações tornavam o aprisionamento e o cadafalso sempre presente nas mentes de vinte e cinco milhões de franceses. Eles tinham de suportar pesados impostos. Se, por uma classificação perfeitamente arbitrária, eles fossem colocados na lista dos ricos, eles perdiam durante aquele ano uma parte de sua renda. Algumas vezes, a pedido de um representante ou de um ou outro agente, eram obrigados a desistir de suas colheitas, ou de suas mais valiosas propriedades de ouro e prata. Não ousavam mais exibir qualquer luxo ou condescender com prazeres ruidosos. ... Nunca tinha o poder derrubado com maior violência os hábitos do povo. Para ameaçar todas as vidas, dizimar todas as fortunas, fixar o padrão de todas as trocas, dar novos nomes a todas as coisas, abolir as cerimônias da religião, indisputavelmente, é a mais atroz das tiranias, sem levarmos em conta o perigo do Estado, a inevitável crise do comércio e o espírito do sistema inseparável do espírito de inovação. (Ibidem, p.p. 244-245. Tradução Livre)

A ironia de tudo isso é que, enquanto na prática, ninguém desfrutou de verdadeira liberdade - os que estavam no poder em um dia eram os próximos a ir para a guilhotina em outro - de real igualdade, se não considerarmos que estavam todos igualmente em péssima situação, e de uma fraternidade que não fosse ficção, eles realmente acreditavam que estavam estabelecendo tudo isso!  Então, enquanto a justiça, a liberdade e os mais básicos dos direitos humanos eram todos pisados a pés, as pessoas cegavam-se a si mesmas com palavras como liberdade, igualdade e fraternidade! Tenho certeza de que se fosse possível viajar no tempo e realizar a pesquisa citada mais acima por Dawkins, os franceses daquele tempo, em sua maioria, dariam as mesmas respostas moralmente boas.
Eles, inclusive, se consideravam totalmente racionais e respeitadores da liberdade e direitos humanos (só que não!)

Esse estado de coisas não durou por muito tempo na França, pois era um mecanismo autodestrutivo, os líderes extremistas acabaram todos na guilhotina como os milhares que foram condenados por eles. E outras vozes foram ouvidas depois deles.

“Camille Jordan se tornou o órgão das queixas que havia por toda a parte das infrações contra a liberdade de culto. Ele pronunciou um memorável discurso em favor de indiscriminada liberdade de consciência para todos os cidadãos e não temeu pegar emprestados argumentos da excelência do Cristianismo. … ‘Se vocês desejam erigir um dique contra o temível progresso do crime e desordem, devem garantir completa liberdade religiosa.’ Jordan então prosseguiu explicando em detalhes, da maneira mais razoável, como esta liberdade deveria ser respeitada. … Este discurso foi um evento marcante. … A Assembléia, em esmagadora maioria, repeliu as leis mais intolerantes que ainda desgraçavam o código da França. A liberdade de consciência obteve um sinal de triunfo.” (J. O. Lacroix, Religion and The Reign of Terror or The Church During The French Revolution. Carlton & Lanahan: New York, 1869.Tradução Livre, grifos no original.)

Outros Exemplos de não Religião


Temos outros exemplos em nosso mundo de sociedades ou períodos da história em que a religião não estava no palco.

Na União Soviética, durante o período de governo de Stalin, estima-se que mais de vinte milhões de pessoas tenham morrido por causa de seus programas de governo e durante o período de perseguições políticas conhecido como o grande expurgo. No seu governo também houve um aumento de perseguição a homossexuais e combate à religião (https://youtu.be/Y4HKxYawyPw).

Durante a Segunda Guerra Mundial, o nazismo, embasado no Darwinismo Social (https://www.todamateria.com.br/darwinismo-social/) é outro exemplo do que a humanidade é capaz, supostamente utilizando “razão” e “ciência”. Calcula-se que durante essa guerra tenham morrido entre 66 e 85 milhões de pessoas (http://segundaguerra.net/os-mortos-na-segunda-guerra-mundial-civis-e-militares/).
Para um mundo que, no século XIX, acreditava no progresso contínuo da humanidade a partir de uma idade da razão, nos defrontamos com a realidade de que a racionalidade humana e consciência moral não foram suficientes para proteger o mundo da injustiça, desigualdade e desrespeito pela vida e liberdade.

Progresso Real

Apesar dos problemas que o mundo enfrentou na Idade Moderna, podemos constatar que houve um real progresso em relação à Idade Média, principalmente em Ciência, Tecnologia e qualidade de vida. Acredita-se, comumente, que este progresso se iniciou com a redescoberta dos clássicos gregos e romanos e que o iluminismo e racionalismo, assim como o naturalismo, foram etapas importantes para o desenvolvimento científico.
A Enciclopédia Britânica considera que Newton foi o responsável pelo explosão de conhecimento em todas as áreas, o que, na realidade, foi o que mudou nosso mundo:

“Para o mundo macroscópico, o Principia foi suficiente. As três leis de Newton de movimento e o princípio da gravitação universal era tudo o que era necessário para analisar as relações mecânicas de corpos ordinários e o Cálculo provia as ferramentas matemáticas essenciais. …
“Aqui a obra seminal não foi o Principia, mas a obra prima de Newton sobre física experimental, a Opticks, publicada em 1704, na qual ele mostrou como examinar um assunto experimentalmente e descobrir as leis encobertas nele. Newton mostrou como o judicioso uso de hipóteses pôde abrir o caminho para adicional investigação experimental até que uma teoria coerente foi alcançada. A Opticks veio a servir como modelo, nos séculos 18 e 19, para a investigação do calor, luz, eletricidade, magnetismo e química dos átomos.” (L.P. Williams, History of science: The Rise Of Modern Science. Disponível em

A Opticks, na verdade,  começa com definições, consequências matemáticas dessas definições e, só então, verificação experimental. As investigações sobre a luz, magnetismo, eletricidade e química estão na base do desenvolvimento da Biologia, Eletrônica, Medicina, Informática, Indústria, etc.

Anteriormente a Newton, outros pioneiros, como Roger Bacon, Galileu e Da Vince já acreditavam que a Ciência se baseia em métodos matemáticos. (Galileu Galilei. Il Saggiatore; 1624. W.J. Meyer. Concepts of mathematical modeling. Mineola, New York: Dover Publications Inc., 1984.)

Não foi a Filosofia, nem a experimentação (já utilizada em certa medida pelos gregos) o que causou a tremenda explosão de conhecimentos que repercutiu em todas as áreas, mas o desenvolvimento de métodos matemáticos!

Estes pioneiros não fizeram parte de movimentos racionalistas, nem foram naturalistas, mas eram todos homens que acreditavam em Deus. Newton passou tanto tempo estudando a Bíblia quanto a natureza ( http://www.newtonproject.ox.ac.uk/texts/newtons-works/religious). Crer em Deus não significa colocar a razão de lado, ao contrário, aceitar a Deus na vida significa dar o melhor emprego a ela, como o fizeram os pioneiros da Ciência.

Por que o Mundo não é um Lugar Melhor?


Podemos constatar pela História, que o mundo não se torna automaticamente melhor pela existência de religião, muito menos, pela ausência dela. Por quê?

O problema não está na religião, nem na tentativa de ser racional, o problema está com o ser humano. O problema humano começou no início da humanidade, com as escolhas que nossos ancestrais fizeram e com as que continuamos a fazer depois deles. A história humana é como o caso de pessoas que se tornam viciadas em algo: antes de cair no vício a pessoa era livre e poderia escolher o que fazer com a sua vida. No momento em que ela usa de sua liberdade para iniciar na estrada de algum vício, ela envereda por um caminho do qual não consegue mais sair sozinha, perde a liberdade. Esta foi a história de nossos ancestrais e nós a estamos repetindo. Assim como o uso de drogas e bebidas altera o senso de autocrítica, escolher o caminho da transgressão moral escraviza e cega o praticante.

“Quem pode entender o coração humano? Não há nada que engane tanto como ele; está doente demais para ser curado." (Jeremias 17:9.Nova Tradução na Linguagem de Hoje)

Sem perceber a realidade do que o texto acima diz, a humanidade prossegue culpando a religião, a ideologia, os sistemas políticos e econômicos, as formas de governo e mesmo alguma coisa abstrata como a ganância e o egoísmo, enquanto exalta a máxima de “siga seu coração”. O problema humano é mais profundo do que meramente a adoção de religiões, sistemas políticos e ideologias errados ou mesmo um conjunto de ideias e sentimentos distorcidos.

O período medieval não foi um período em que o cristianismo dominou o mundo, mas um período em que a religião cristã se tornou um misto do que a Bíblia ensinava com a filosofia e práticas religiosas de gregos e romanos (http://www.criacionismo.com.br/2018/04/por-que-entender-o-que-significa.html).

Então, a prática da religião se tornou como o ser humano que a praticava, uma mistura do que vem de Deus com os resultados do afastamento dele. A filosofia e razão humanas também são uma mistura destas duas coisas. E o problema é que estas são duas coisas que não se misturam, como o óleo e a água. Na prática, o mal (mau funcionamento das coisas que foram usadas em desacordo com o manual do fabricante) é o resultado desta tentativa de mistura.

Conclusões

Algumas pessoas, como Dawkins e Lennon, acreditam que o ser humano seria bom automaticamente se não existisse religião para atrapalhar. Outros creem que a função da religião é apenas orientar no caminho do bem que as pessoas precisam seguir para adquirirem por si mesmas um estado melhor. Creem que seguir o coração (no sentido de sentimentos e intuições) seria um caminho seguro porque o coração é naturalmente bom. Acham que o problema são as filosofias, ideologias ou sentimentos e ideais ruins que vêm de fora e contaminam o coração.

O problema é não reconhecer que a escolha do mal teve um efeito tão devastador na capacidade humana de autocontrole e autopercepção quanto o efeito do uso de drogas.

Desta forma, as pessoas podem enganar-se a si mesmas de tal modo a acreditarem que estão estabelecendo a liberdade e igualdade enquanto destroem, na prática, tudo o que estas palavras significam. Podem acreditar que estão “fazendo ciência”, quando é apenas um tipo mais sistematizado de observação, experimentação e interpretação filosófica, ao invés do uso de métodos matemáticos explícitos  para cada etapa do processo, o que permitiria resultados que ultrapassariam a intuição e o raciocínio filosófico, como é o caso da Relatividade e Mecânica Quântica. O uso de métodos matemáticos para o ser humano em oposição ao raciocínio qualitativo é como um cego fazer uso de um guia ao invés de preferir tatear no escuro.

O problema do mal, semelhante ao que ocorre com o uso de drogas, é que ele cega para os problemas reais e para os métodos de cura.

O seguinte texto indica a única solução para o problema do mal:

“Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. … Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (João 8:34 e 36.)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Misticismo X Racionalidade: a religião na história contemporânea

Vimos, nos posts anteriores sobre misticismo X racionalidade que - utilizando uma definição do termo "religião" baseada no seu sentido original - todos os seres humanos são religiosos, ou se tornam "ligados" a algo; as histórias contadas no Antigo Testamento hebraico já eram conhecidas por povos de diferentes culturas ao redor de todo o globo mesmo antes de terem sido escritas pelos escritores hebreus; a religião praticada pelos cristãos durante a Idade Média era baseada na superstição e fundada na autoridade humana e, finalmente, a religião que emergiu durante a Reforma protestante, baseada na Bíblia, lançou as bases da Idade Moderna.

Mas a libertação que veio com a mudança nos parâmetros religiosos da Idade Média e que fez o mundo ocidental acordar para princípios como igualdade, individualidade e racionalidade, não foi naturalmente seguida por um mundo mais humano, racional e livre, apesar das filosofias humanistas e racionalistas. O quadro histórico que temos diante de nós é o da Revolução Francesa, que conquistou a liberdade e exaltou a Razão através de extrema violência e derramamento de sangue, as duas Grandes Guerras, o nazismo, o facismo, o marxismo na Rússia, as ditaduras militares, guerra fria, terrorismo, etc.

Porque o que temos diante de nós, comparando o mundo medieval com o mundo moderno, não é a oposição entre um mundo que seguia o cristianismo e a religião bíblica e um mundo que se libertou deste modelo e partiu em busca do progresso e desenvolvimento humanos. O que temos é um mundo que abandonou os princípios bíblicos (a Bíblia era um livro quase extinto na maior parte do período medieval), abandonou os princípios do cristianismo, colocou a autoridade de um ou poucos homens no centro, mas manteve os nomes e palavras relacionados ao cristianismo e à Bíblia enquanto matava seu verdadeiro significado. A Reforma despertou o mundo para o que estava acontecendo, mas, como eu disse antes, a religião bíblica é uma religião que raramente foi praticada ao longo da história da humanidade e, diga-se de passagem, sempre suscitou extrema oposição. No mundo moderno aconteceu algo semelhante, foram mantidos alguns dos ideais reativados pelo cristianismo, como igualdade, racionalidade e liberdade, mas a Bíblia e o Cristo que os fizeram reacender foram rejeitados. Como resultado, o homem foi colocado no centro novamente, não um ou poucos, mas o conceito de ser humano, enquanto o ser humano real continuou oprimido e escravizado por outros ou por si mesmo (vícios, crimes, ambição, loucura, etc).
E o que acontece com o mundo contemporâneo? Ele progrediu muito em termos materiais, sem dúvida, o conhecimento e tecnologia desenvolvidos não são igualados em nenhuma época anterior. Porque Ciência, o Método Científico em funcionamento, não recompensa a nenhum tipo específico de pessoa, sabendo-se usá-lo corretamente ele funciona, não vai discriminar ninguém pela raça (nazismo, racismo), nem pelas posses (capitalismo selvagem), nem pelo sexo (machismo, feminismo, homofobia) e nem pela filosofia (evolucionismo, criacionismo). Ciência é simplesmente um método pra se conhecer as coisas.

Mas em relação a religião, o mundo está voltando a Idade Média: misticismo, superstição e magia retornaram com força total. Na prática, não importa de que lado da balança o mundo esteja, uma coisa básica não muda: a ênfase no que o homem pode realizar por seus próprios esforços.

Não me entendam mal, por seus esforços o homem pode muita coisa e é desejável, mesmo necessário, que ele se esforce para produzir, conhecer, vencer obstáculos e melhorar a si mesmo e a outros, mas em termos de conseguir ultrapassar seu egoísmo natural (fonte dos piores males que afligem a humanidade), ele é totalmente impotente em seus esforços.

Entre as implicações das considerações acima se encontra o problema de se supor que se está sendo totalmente racional quando existem conceitos anteriormente aceitos que interferem no raciocínio, especialmente quando este não se baseia explicitamente no método científico, ou seja, em métodos matemáticos.

Em oposição às soluções humanas para o problema do egoísmo, a solução bíblica é uma nova criação do ser humano segundo Deus, a qual não produz uma justiça meramente exterior de um cidadão aparentemente exemplar, mas altera os motivos e intenções do coração ("e a vos revestir do novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade" Efésios 4:24).

quarta-feira, 30 de março de 2011

Misticismo X Racionalidade: A Religião na Idade Média

O início da Idade Média foi delimitado pela queda do Império Romano Ocidental. Os povos germânicos que invadiram Roma deram origem às nações da Europa. Daquele império restou a Igreja Cristã que se tornou a Igreja Católica Apostólica Romana. A mudança de um grupo de pessoas que praticava o amor fraternal e era pobre em bens materiais e disposto a sacrificar a própria vida em favor da mensagem que pregava para uma instituição rica e poderosa com força para se impor sobre o mundo ocidental foi lenta e gradual. Começou quando a perseguição contra os cristãos deu lugar a tolerância, com o Édito de Milão, por Constantino, em 313 d.C. A igreja começou a fazer concessões em seus ensinos para se acomodar aos novos adeptos do paganismo à medida em que o cristianismo se tornava a religião oficial do império. A adoração de imagens que antes representavam deuses pagãos começou a fazer parte dos cultos, com a transmutação daquelas em santos cristãos. A mediação dos sacerdotes e dos santos começou a substituir a mediação de Jesus Cristo e a salvação pelas boas obras e ofertas para a igreja passaram a competir com a salvação pela fé em Cristo. O bispo de Roma ganhou preeminência sobre os outros bispos até se tornar o papa, cabeça de todas as igrejas, e a doutrina da infalibilidade papal foi aos poucos ganhando forma. Entre as atribuições dos sacerdotes estava a de serem os únicos a terem o direito de interpretar as Escrituras e estas só eram traduzidas para o latim e mantidas inacessíveis para o povo comum. Os cristãos que não aderiram às mudanças passaram a ser perseguidos e a Igreja foi se tornando cada vez mais poderosa ao impor sua política religiosa sobre o mundo medieval. Muito do conhecimento greco-romano foi sendo perdido ao longo dos séculos (aproximadamente 10 séculos). Não é por pouco que esta época ficou conhecida como a Idade Escura ou das Trevas.

Profecias bíblicas (nos livros de Daniel e Apocalipse) indicavam um longo período de apostasia e perseguição no futuro, ao final do domínio romano. Um dos apóstolos, Paulo, referindo-se a estas profecias afirmara: "Eu sei que depois da minha partida entrarão no meio de vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho, e que dentre vós mesmos se levantarão homens, falando coisas perversas para atrair os discípulos após si." "Ora, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, rogamos-vos, irmãos, que não vos movais facilmente do vosso modo de pensar, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola como enviada de nós, como se o dia do Senhor estivesse já perto. Ninguém de modo algum vos engane; porque isto não sucederá sem que venha primeiro a apostasia e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição, aquele que se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, de sorte que se assenta no santuário de Deus, apresentando-se como Deus." (Atos 20:29-30 e 2 Tessalonicenses 2:1-4.)

Os capítulos 2, 7 e 8 do livro de Daniel apresentam uma sucessão de quatro impérios mundiais: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Falam da divisão do último, Roma, e do surgimento de um poder perseguidor a partir deste. "Enquanto eu olhava, eis que o mesmo chifre fazia guerra contra os santos, e prevalecia contra eles". " Grande será o seu poder, mas não de si mesmo; e destruirá terrivelmente, e prosperará, e fará o que lhe aprouver; e destruirá os poderosos e o povo santo. Pela sua sutileza fará prosperar o engano na sua mão; no seu coração se engrandecerá, e destruirá a muitos que vivem em segurança; e se levantará contra o príncipe dos príncipes; mas será quebrado sem intervir mão de homem." (Daniel 7:21, 8:24-25.) O mesmo poder reaparece nas profecias de Apocalipse 12, 13 e 17: "Também lhe foi permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe autoridade sobre toda tribo, e povo, e língua e nação." "Então ele me levou em espírito a um deserto; e vi uma mulher montada numa besta cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e que tinha sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas; e tinha na mão um cálice de ouro, cheio das abominações, e da imundícia da prostituição; e na sua fronte estava escrito um nome simbólico: A grande Babilônia, a mãe das prostituições e das abominações da terra. E vi que a mulher estava embriagada com o sangue dos santos e com o sangue dos mártires de Jesus. Quando a vi, maravilhei-me com grande admiração. Ao que o anjo me disse: Por que te admiraste? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a leva, a qual tem sete cabeças e dez chifres." (Apocalipse 13:7 e 17:3-7)

Embora não seja o objetivo aqui entrar em detalhes destas profecias (o que poderá ser feito mais tarde), pode ser visto, desta pequena amostra do que dizem estas profecias, que estava predito o surgimento de um grande poder apóstata, no final do império romano, que exerceria um domínio entre as nações e perseguiria os que fossem fiéis a Deus.

Entre aqueles que procuraram permanecer no cristianismo original estavam os valdenses.

"Desde o início, os valdenses afirmavam o direito de cada fiel de ter a Bíblia em sua própria língua, sendo esta Bíblia a fonte de toda autoridade eclesiástica.

Os valdenses reuniam-se em casas de família ou mesmo em grutas, clandestinamente, devido à perseguição da Igreja Católica. Celebravam a Santa Ceia uma vez por ano. São considerados como uma igreja pré-reformada. Negavam a supremacia de Roma, rejeitavam o culto às imagens como idolatria e eram guardadores do sábado bíblico.
" valdenses

Muitos morreram queimados na estaca ou por meio de outras torturas durante este tempo, na verdade, qualquer um que estivesse em desacordo com as idéias que a Igreja defendesse e, principalmente, se ameaçasse sua supremacia.

D'Aubigne, em sua "História da Reforma no Décimo Sexto Século" apresenta um pouco as condições da Europa na época anterior a Reforma:

"As nações da Cristandade não mais olhavam a um Deus santo e vivo para o livre dom da vida eterna. Para obtê-la, elas eram obrigados a recorrer a todos os meios que uma imaginação supersticiosa, temerosa e alarmada poderia conceber. O Céu estava cheio de santos e mediadores, cujo dever era solicitar esta mercê. A Terra estava cheia de obras piedosas, sacrifícios, observâncias e cerimônias pelas quais ela devia ser obtida. Eis um quadro da religião deste período transmitida a nós por alguém que foi por muito tempo um monge e, posteriormente, um colaborador de Lutero - Myconius: 'Os sofrimentos e méritos de Cristo eram considerados como um conto sem valor ou como as ficções de Homero. Não havia nenhum pensamento de fé pela qual nos tornamos participantes da justiça do Salvador e da herança da vida eterna. Cristo era considerado um juíz severo, preparado para condenar todos os que não recorriam à intercessão dos santos ou às indulgências papais. Outros intercessores apareciam no lugar dele: - primeiro a Virgem Maria, como a Diana do paganismo, e então os santos, cujos números eram aumentados continuamente pelos papas. Estes mediadores concediam sua intercessão apenas àqueles suplicantes merecedores do bem das ordens fundadas por eles. Para isto era necessário fazer, não o que Deus mandou em sua Palavra, mas realizar uma quantidade de obras inventadas pelos monges e sacerdotes, e que trouxessem dinheiro para o cofre. Estas obras eram Ave-Marias, as orações de Santa Úrsula e Santa Bridget: eles deviam recitar e clamar noite e dia. Havia tantos locais de visitas para peregrinos quanto montanhas, florestas e vales. Mas estas penitências podiam ser combinadas com dinheiro. O povo, portanto, trazia aos conventos e aos sacerdotes dinheiro e toda a coisa que tinha algum valor - galinhas, patos, gansos, ovos, cera, palha, manteiga e queijo. Então os hinos ressoavam, o sinos tocavam, o incenso enchia o santuário, os sacrifícios eram oferecidos, as despensas transbordavam, os copos circulavam e as missas finalizavam e encobriam estas piedosas orgias. Os bispos não pregavam mais, mas consagravam sacerdotes, sinos, monges, igrejas, capelas, imagens, livros e cemitérios; e tudo isto trazia um grande rendimento. Ossos, braços e pés eram preservados em caixas douradas e prateadas; eles eram entregues durante a missa para os fiéis beijarem, e isto também era uma fonte de grande lucro.'

'Todas estas pessoas sustentavam que o papa, 'sentando-se como Deus no templo de Deus', não podia errar, e elas não admitiriam qualquer contradição.'

Na igreja de Todos os Santos em Wittenberg foi mostrado um fragmento da arca de Noé, fuligem da fornalha dos Três Jovens, um pedaço de madeira da manjedoura de Jesus Cristo, um pelo da barba de São Cristovão e dezenove mil outras relíquias de maior ou menor valor. Em Schaffhausen foi exibido um sopro de São José que Nicodemos recebeu em sua luva. Em Wurtemberg podia-se encontrar um vendedor de indulgências, vendendo sua mercadoria, com sua cabeça adornada com uma grande pena arrancada da asa de São Miguel. Mas não era necessário viajar longe em busca destes preciosos tesouros. Os homens que cultivavam estas relíquias atravessavam o país inteiro, vendendo-as próximo aos distritos rurais (como já tinha acontecido com as Escrituras Sagradas) e levando-as às casas dos fiéis, para poupar-lhes o incômodo e a despesa de uma peregrinação. Eles eram exibidos com pompa nas igrejas. Estes vendedores ambulantes pagavam uma soma estipulada pelos proprietários das relíquias - uma percentagem de seus lucros. O reino do Céu tinha desaparecido, e em seu lugar um mercado de abominações tinha sido aberto sobre a Terra.

Assim um espírito de profanação tinha invadido a religião; e as mais santas recordações da Igreja, as ocasiões que mais particularmente convocavam os fiéis a santa meditação e amor, foram desgraçadas por bufonaria e profanação idólatra. As 'Celebrações da Páscoa' mantinham um distinguido lugar nos registros da Igreja. Como o festival da ressurreição de Cristo devia ser celebrado com alegria, os pregadores estudavam em seus sermões tudo o que pudesse suscitar o riso entre seus ouvintes. Um imitava a nota do cuco, outro grasnava como um ganso. Um arrastava para o altar um leigo vestido com o hábito de um monge; um segundo relatava as mais indecentes histórias; e um terceiro recontava os truques de São Pedro, e entre outros, como em uma taverna ele tinha enganado seu anfitrião não pagando sua conta. O baixo clero tirava vantagem desta oportunidade para ridicularizar seus superiores. As igrejas se convertiam em meros cenários para saltimbancos e os sacerdotes em bufões.

Se tal era o estado da religião, o que deve ter sido o estado da moralidade? ...

A doutrina e a venda de indulgências eram poderosos incentivos para o mal entre um povo ignorante. É verdade, de acordo com a Igreja, que as indulgências poderiam beneficiar apenas aqueles que prometiam emendar suas vidas, e que mantinham sua palavra. Mas o que poderia ser esperado de uma doutrina inventada somente com vistas ao lucro que poderia derivar dela? Os vendedores das indulgências eram tentados, para uma melhor venda de sua mercadoria, a apresentar seus artigos ao povo nos aspectos mais atrativos e sedutores. Os próprios instruídos não compreendiam plenamente a doutrina. Tudo o que a multidão via neles era que eles permitiam aos homens pecarem; e os mercadores não estavam demasiado ávidos em dissipar um erro tão favorável a suas vendas.

Que distúrbios e crimes foram cometidos nestas eras escuras, quando a impunidade era adquirida por dinheiro! O que tinha o homem a temer, quando uma pequena contribuição para construir uma igreja defendia-o do temor de punição no mundo por vir? Que esperança poderia haver de reavivamento quando toda comunicação entre Deus e o homem estava cortada, e o homem, alienado de Deus, que é o espírito e a vida, movia-se unicamente em um ciclo de cerimônias sem valor e observâncias sensuais, em uma atmosfera de morte!

Os sacerdotes eram os primeiros que cediam a esta influência corruptora. Desejando exaltaram-se tornavam-se degradados. Eles tinham almejado roubar a Deus de um raio de sua glória e colocá-lo em seu próprio seio, mas sua tentativa tinha-se provado vã, e eles tinham apenas escondido ali um fermento de corrupção roubado do poder do mal. A história da época abunda com escândalos. Em muitos lugares, o povo se deleitava em ver um sacerdote manter uma amante, para que as mulheres casadas pudessem estar seguras contra suas seduções. Que cenas humilhantes a casa de um pastor apresentava naqueles dias! O pobre homem sustentava a mulher e os filhos que ela lhe gerava com os dízimos e ofertas. Sua consciência era perturbada: ele corava na presença do povo, diante de seus empregados e perante Deus. A mãe, temedo vir a passar necessidade se o sacerdote morresse, fazia provisão contra isto de antemão, e roubava sua própria casa. Sua honra era perdida. Seus filhos eram sempre uma viva acusação contra ela. Desprezados por todos, eles mergulhavam em contendas e dissipação. Tal era a família do sacerdote! ..... Estas eram cenas terríveis, por meio das quais o povo sabia como beneficiar-se.

Os distritos rurais eram cenário de numerosos tumultos. As habitações do clero eram frequentemente esconderijos de corrupção. Corneille Adrian em Burges, o abade Trinkler em Cappel, imitavam os costumes do Oriente, e tinham seus próprios hárens. Sacerdotes, unindo-se a caráteres dissolutos, frequentavam as tavernas, jogavam dados, e coroavam suas orgias com disputas e blasfêmia. ...

Se formos adiante na ordem hierárquica, não encontraremos menor corrupção. Os dignitários da Igreja preferiam o tumulto dos campos aos hinos do altar. Ser capaz, com a lança na mão, de reduzir seus vizinhos a obediência era uma das principais qualificações de um bispo. Baldwin, arcebispo de Treves, estava continuamente em guerra com seus vizinhos e seus vassalos: ele demolia seus castelos, construia fortalezas e não pensava em nada a não ser na extensão de seu território.

Um certo bispo de Eichstadt, quando adminstrando a justiça, usava uma capa de correspondência sob seu manto, e tinha uma grande espada em sua mão. Ele costumava dizer que não temia cinco bavários, desde que eles não o atacassem a não ser em uma luta justa. Por toda a parte os bispos estavam continuamente em guerra com suas cidades. Os cidadãos exigiam liberdade, os bispos requeriam implicita obediência. Se os últimos ganhavam a vitória, puniam os revoltosos sacrificando numerosas vítimas à sua vingança; mas a chama da insurreição irrompia novamente, no mesmo momento em que se pensava estar extinguida.

E que espetáculo era apresentado pelo trono pontifical nos tempos que precederam imediatamente a Reforma! Roma, deveria-se reconhecer, tinha raramente testemunhado tanta infâmia.

Rodrigo Borgia, após ter vivido com uma senhora romana, tinha continuado a mesma ilícita ligação com uma de suas filhas, chamada Rosa Vanozza, com quem teve cinco filhos. Ele era cardeal e arcebispo, vivia em Roma com Vanozza e outras mulheres, visitando as igrejas e hospitais, quando a morte de Inocêncio VIII criou vaga na cadeira pontifical. Ele foi bem sucedido em obtê-la subornando cada cardeal a um preço estipulado. Quatro mulas carregadas com prata publicamente entraram no palácio de Sforza, um dos mais influentes dos cardeais. Borgia tornou-se papa sob o nome de Alexander VI, e regozijou-se em assim alcançar o ápice da felicidade terrestre.
" History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 1, Capítulo 3.

Apesar das descrições acima, essa não era a totalidade do quadro religioso apresentado na Idade Média, conforme D'Aubigne:

"Roma mal havia usurpado o poder antes que forte oposição se formasse contra ela, a qual continuou ao longo dos Séculos Medievais.

O arcebispo Claudius de Turin, no nono século; Pierre de Bruys, seu discípulo Henry, e Arnold de Brescia, no décimo segundo século, na França e na Itália, trabalharam para restabelecer a adoração a Deus em espírito e em verdade; mas, no máximo, ele procuravam muito esta adoração na ausência de imagens e de observância externas. ...

Wickliffe se ergueu na Inglaterra em 1360, e apelou do papa para a palavra de Deus: mas a real ferida interna do corpo da Igreja era, aos seus olhos, apenas um dos numerosos sintomas da doença.

John Huss pregou na Boêmia um século antes de Lutero pregar na Saxônia. Ele parece ter penetrado mais fundo do que seus predecessores na essência da verdade cristã. Ele orava a Cristo por graça para gloriar-se somente em sua cruz e na inestimável humilhação de seus sofrimentos. Mas suas investidas foram menos diretas contra os erros da Igreja romana do que contra as vidas escandalosas do clero. Ele foi, todavia, se nos permitem a expressão, o João Batista da Reforma. As chamas de sua estaca acenderam um fogo na Igreja que lançou uma luz brilhante nas trevas circundantes, e cujas fagulhas não deviam ser prontamente extinguidas.

John Huss fez mais: palavras proféticas foram pronunciadas das profundezas de seu calabouço. Ele previu que uma real reforma da Igreja estava às portas. Quando expulso de Praga e compelido a vaguear pelos campos da Boêmia, onde uma imensa multidão seguia seus passos e esperava por suas palavras, ele exclamou: 'Os maus já começaram a preparar uma traiçoeira armadilha para o ganso. Mas se até o ganso, que é apenas uma ave doméstica, um animal pacífico, e cujo vôo não é muito alto no ar, tem apesar disso avançado mediante seus esforços, outras aves, ascendendo mais ousadamente para o céu, avançarão com ainda maior força. Ao invés de um débil ganso, a verdade expedirá águias e falcões de vista aguçada.' Esta predição foi cumprida pelos reformadores.

Quando o venerável sacerdote foi intimado pela ordem de Sigismund perante o concílio de Constance, e foi atirado na prisão, a capela de Bethlehem, na qual ele tinha proclamado o evangelho e os futuros triunfos de Cristo, ocupou sua mente, muito mais do que sua própria defesa. Em uma noite o santo mártir viu na imaginação, das profundezas de seu calabouço, as figuras de Cristo que ele tinha pintado nas paredes de seu oratório apagadas pelo papa e seus bispos. Esta visão afligiu-o: mas no dia seguinte ele viu muitos pintores ocupados em restaurar estas figuras em maior número e em mais brilhantes cores. Tão logo sua tarefa terminou, os pintores, que estavam rodeados por uma imensa multidão, exclamaram: Que agora venham os papas e bispos! eles nunca mais as apagarão! E muitas pessoas em Bethlehem se regozijaram, e eu com elas, acrescenta John Huss. - 'Ocupe-se com sua defesa ao invés do que com seus sonhos', disse seu fiel amigo, o cavaleiro de Chlum, a quem ele tinha comunicado a visão. 'Eu não sou um sonhador', replicou Huss, 'mas eu mantenho isto por certo, que a imagem de Cristo nunca será apagada. Eles têm desejado destrui-la, mas ela será pintada novamente em todos os corações por pregadores muito melhores do que eu. A nação que ama Cristo se regozijará com isto. E eu, despertando de entre os mortos, e erguendo-me, por assim dizer, de minha sepultura, saltarei com grande alegria.'

Um século se passou; e a tocha do evangelho, acesa novamente pelos reformadores, iluminou verdadeiramente muitas nações, que se regozijaram em seu brilho. ...

Anselmo de Canterbury estabeleceu como a própria essência do Cristianismo as doutrinas da encarnação e expiação, e em uma obra em que ele ensina-nos como morrer, ele diz para a alma que está partindo: 'Confie apenas nos méritos de Jesus Cristo.' São Bernardo proclamou com poderosa voz os mistérios da Redenção. 'Se meu pecado veio de outro', ele diz, 'por que minha justiça não me seria concedida da mesma maneira? Seguramente é melhor para mim que ela me seja dada, do que se ela fosse inata.' Muitos escolásticos, e em tempos anteriores, o Chanceler Gérson, vigorasamente atacaram os erros e abusos da Igreja.

Mas reflitamos, acima de tudo, acerca das milhares de almas, obscuras e desconhecidas ao mundo, foram, não obstante, participantes da verdadeira vida de Cristo.

Um monge chamado Arnoldi apresentava, cada dia, esta fervente oração em sua cela silenciosa: 'Oh! Senhor Jesus Cristo! Eu creio que somente tu és minha redenção e minha justiça.' Christopher de Utenheim, um piedoso bispo de Basel, tinha seu nome inscrito em uma pintura pintada em vidro, a qual está ainda naquela cidade, e cercou-o com este lema, que ele desejava ter continuamente diante de seus olhos: 'Minha esperança está na cruz de Cristo; eu busco a graça e não as obras.'

Um pobre frade cartusiano, chamado Martin, escreveu uma tocante confissão, na qual ele diz: 'Oh! misericordioso Deus! eu sei que eu não posso ser salvo e satisfazer tua justiça de outro modo que não seja pelos méritos, pela inocente paixão, e pela morte de teu querido e amado Filho. ... Santo Jesus! toda a minha salvação está em tuas mãos. Tu não podes afastar-me das mãos de teu amor, pois elas me criaram, formaram-me, e me redimiram. Tu tens escrito meu nome com uma pena de ferro, com grande misericórdia e de maneira indelével, no teu lado, em tuas mãos e em teus pés,' etc.etc. Então o bom cartusiano colocou sua confissão em uma caixa de madeira, e encerrou-a em um buraco que ele tinha feito na parede de sua cela.

A piedade do irmão Martin nunca teria sido conhecida, se a caixa não tivesse sido descoberta em 21 de dezembro de 1776, quando alguns trabalhadores estavam derrubando uma velha construção que tinha sido parte do convento cartusiano em Basel. Quantos conventos não poderiam ter encoberto tais tesouros! ...

Thomas Conecte, um frade carmelita, apareceu em Flanders. Ele declarou que 'as mais grosseiras abominações eram praticadas em Roma, que a Igreja requeria uma reforma, e que conquanto sirvamos a Deus, não devemos temer as excomunhões do papa.' O país inteiro escutou com entusiasmo; Roma condenou-o à estaca em 1432, e seus contemporâneos declararam que ele tinha sido transladado para o Céu.

O cardeal Andrew, arcebispo de Crayn, sendo enviado a Roma como o embaixador do imperador, foi tomado de consternação ao descobrir que a santidade papal, em que ele cria devotamente, era mera ficção; e em sua simplicidade dirigiu-se a Sixtus IV em linguagem de objeção evangélica. A zombaria e a perseguição foram sua única resposta. Por isto ele se esforçou para reunir, em 1482, um novo concílio em Basel. 'A igreja inteira', disse ele, 'está sacudida por divisões, heresias, pecados, vícios, injustiça, erros, e males sem conta, bem como está prestes a ser engolida pelo abismo devorador da danação. Por este motivo nós proclamamos um concílio geral para a reforma da fé católica e a purificação da moralidade.' O arcebispo foi lançado na prisão em Basel, onde ele morreu. O inquisidor, Henry Institoris, que foi o primeiro a se opor a ele, pronunciou estas notáveis palavras: "Todo o mundo clama e exige um concílio; mas não existe poder humano que possa reformar a Igreja por um concílio. O Altíssimo encontrará outros meios, que presentemente são desconhecidos para nós, embora possam estar às portas, para trazer de volta a Igreja a sua condição primitiva.' Esta notável profecia, comunicada por um inquisidor, no próprio período do nascimento de Lutero, é a melhor apologia para a Reforma.

Jerome Savonarola, logo após entrar na ordem Dominicana em Bologna em 1475, devotou-se a contínuas orações, jejuns e mortificações, e clamava: 'Tu, ó Deus, és bom, e em tua bondade ensina-me tua justiça.' Ele pregou com energia em Florença, cidade para qual havia-se mudado em 1489. Sua voz levava convicção; seu semblante era iluminado por entusiasmo; e sua atitude possuía encantadora graça. 'Devemos regenerar a Igreja', disse ele, e ele professava o grande princípio que unicamente poderia efetuar esta regeneração. 'Deus', ele exclamou, 'redime os pecados dos homens e justifica-os por sua graça. Há tanta compaixão no Céu quanto homens justificados sobre a Terra, pois ninguém é salvo por suas próprias obras. Nenhum homem pode vangloriar-se; e se, na presença de Deus, pudéssemos perguntar a todos estes pecadores justificados: -Você foi salvo por sua própria força? - todos responderiam em uma voz: Não a nós, ó Senhor! não a nós, mas ao teu nome seja a glória! - Portanto, ó Deus, eu busco a tua graça, e te trago não a minha própria justiça, mas quando por tua graça me justificas, então tua justiça me pertence, pois a graça é a justiça de Deus. -Enquanto, ó homem, enquanto tu não crês, tu és, por causa de teu pecado, destituido da graça. -Ó Deus,salva-me por tua justiça, quer dizer, em teu Filho, único entre os homem que foi achado sem pecado!' Assim a grandiosa e santa doutrina da justificação pela fé alegrava o coração de Savonarola. Em vão os que presidiam a Igreja se opuseram a ele; ele sabia que os oráculos de Deus estavam muito acima da Igreja visível, e que ele devia proclamar estes oráculos com o auxílio da Igreja, sem ele, ou mesmo a despeito dela. 'Fuja', clamava ele, 'fuja para longe de Babilônia!' e foi Roma a quem ele designou assim, e Roma em breve respondeu em sua maneira usual. Em 1497, o infame Alexander VI emitiu uma ordem contra ele; e em 1498, a tortura e a estaca terminaram com a vida deste reformador. ...

'Um monge chamado Jonh Hilten foi um interno do convento franciscano em Eisenach, na Turíngia. As profecias de Daniel e o Apocalipse de São João eram seu estudo especial. Ele até escreveu um comentário sobre estas obras, e censurou os mais flagrantes abusos da vida monástica. Os monges exasperados atiraram-no na prisão. Sua avançada idade e a imundície do calabouço causaram-lhe uma perigosa doença: ele chamou o superior, e o último, mal tendo chegado perante ele, explodiu em violenta paixão, e sem ouvir as queixa do prisioneiro, amargamente acusou sua doutrina, que se opunha, acrescenta a crônica, a cozinha dos monges. O franciscano esquecendo sua enfermidade e suspirando pesadamente, respondeu: 'Eu suporto seus insultos calmamente por amor de Cristo, pois não tenho dito nada que possa por em perigo a situação monástica: tenho apenas censurado seus mais notórios abusos. mas, continuou ele (de acordo com o que Melancthon registra em sua Apologia da Confissão de Fé de Augsburg), 'outro homem surgirá no ano de nosso Senhor de 1516: ele vos destruirá, e não sereis capazes de resistir-lhe.' John Hilten, que tinha profetizado que o fim do mundo viria em 1651, estava menos enganado ao indicar o ano em que o futuro reformador apareceria. Não muito tempo depois, ele nasceu em uma pequena vila a uma pequena distância do calabouço do monge: nesta mesma cidade de Eisenach ele iniciou seus estudos, e somente um ano mais tarde do que o frade aprisionado tinha declarado, ele publicamente iniciou a Reforma.
" History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 1, capítulo 6, J.H. Merle D'Aubigne.