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segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Terra da Filosofia, a Matemática e a Grande Barca


Autor: Eduardo F. Lütz

Havia uma cidade em uma região chamada Filosofia.

Para os cidadãos daquele lugar, Filosofia era tudo o que existia. Para onde quer que fossem, estavam em Filosofia. Construíam casas, plantavam, colhiam, passeavam pelos arredores da cidade e tinham a impressão de que as terras de Filosofia não tinham fim.

As Grandes Descobertas

Algumas pessoas com espírito de aventura começaram a sair pelos arredores, indo cada vez mais longe, a fim de melhor conhecer Filosofia. Alguns voltaram dizendo coisas intrigantes. Descobriram uma grande muralha que parecia não ter fim. Outros descobriram indícios de que havia muita água por debaixo do solo e que em qualquer lugar seria possível cavar um poço e encontrar água. O povo de Filosofia chamava a água de matemática. Curiosamente, eles chamavam também os poços de matemática, se bem que quando faziam isso referiam-se a características da água e não dos poços.

Até então, pensava-se que Filosofia se estendia sem limites e que água só poderia ser encontrada em locais muito específicos, nos quais haviam sido cavados poços. A água era últil para beber e lavar roupas. O povo não percebia que era a água que alimentava também suas plantações, seus animais e as árvores de onde obtinham frutos e madeira para construir casas.

Havia cópias de textos antigos reunidos em um livro chamado de Diários dos Pioneiros. Esses textos falavam de engenheiros que usaram uma tecnologia muito sofisticada para construir Filosofia e depois trouxeram colonos para povoar o local. Além de falar desses eventos, os Diários também falavam de regras de segurança, convívio e saúde.

Muitos duvidavam da autenticidade desses textos porque não acreditavam em tecnologias tão complexas e as interpretações mais aceitas de alguns trechos importantes pareciam-lhes absurdas. E, quanto a tecnologias avançadas, se elas estavam disponíveis no início, por que não estariam atualmente? Os Diários falavam de uma revolta que impediu que os engenheiros ensinassem tecnologias avançadas aos pioneiros e forçou-os a se retirarem, mas os detalhes estavam espalhados pelos Diários, de forma que a maioria das pessoas ignorava tais explicações.

Embora a maioria das pessoas não notasse, os Diários falavam em coisas além de Filosofia. Mencionavam que pessoas viajaram e passaram sobre muralhas que ficam além das muralhas de Filosofia. Também diziam que a água dava suporte a Filosofia. Os estudiosos dos Diários diziam que isso significava que água era algo importante para que as pessoas não morressem de sede.

Alguns curiosos, intrigados com esse tipo de texto, decidiram saber mais sobre matemática (água e poços). De alguma forma, isso teria sido fundamental para os pioneiros construírem Filosofia. Logo, seria importante estudar o assunto para saber mais sobre como os pioneiros pensavam e como foram capazes de construir Filosofia. Até então, os matemáticos (especialistas em poços e água) limitavam-se a encontrar maneiras mais eficientes de tirar água dos poços. As novas ideias abriram interessantes perspectivas para seu trabalho.

Exploradores decidiram investigar a profundidade das águas nos poços e concluíram que não era possível encontrar o fundo. Mais do que isso, descobriram que se um poço fosse cavado com profundidade suficiente, a partir de certo ponto o poço não parecia ter paredes.

Os matemáticos perceberam que precisavam desenvolver técnicas que permitissem a exploradores mergulhar e viajar sob a água a fim de poder melhor explorar poços. Um matemático chamado Natan resolveu iniciar um projeto assim, mas percebeu que precisaria de um grande tanque transparente cheio de água. Natan não tinha tanta água assim, mas lembrou-se de que havia água nos poços, a qual podia ser extraída e colocada em seu tanque. Com isso ele pode desenvolver os primeiros protótipos de equipamentos de mergulho e fazer os primeiros testes.

Exploradores começaram a utilizar e aperfeiçoar cada vez mais os equipamentos de mergulho. Não foram muito longe nas primeiras tentativas. Os rumores pareciam se confirmar: após uma certa profundidade, parecia-se estar em uma câmara gigantesca, da qual não se podiam ver as fronteiras. Olhando-se para cima a partir desse local, via-se uma estrutura que suportava as terras de Filosofia, pelo menos nas imediações em que ocorriam os mergulhos. A ideia de que Filosofia fora fundada sobre a água ganhou novo fôlego.

Com a experiência obtida nos mergulhos, alguns decidiram esforçar-se mais e construir uma espécie de submarino, que lhes permitisse ir mais longe e explorar aquela câmara de água subterrânea. Com o tempo, muito esforço e após muitas tentativas fracassadas, conseguiu-se finalmente construir um submarino capaz de alcançar boas velocidades viajando sob a água. Essas coisas precisavam ser feitas bem longe da cidade para não causar transtornos aos cidadãos e eliminar o risco de danificar alguma propriedade.

Boom no Conhecimento é ignorado

A maioria das pessoas que viviam em Filosofia não ficou sabendo do que se passava e continuou com suas atividades normais sem perceber que uma revolução no conhecimento estava acontecendo. Outros ouviram rumores, mas entenderam apenas que um grupo de curiosos gostava de explorar poços e acharam isso um tanto sem graça e sem propósito. Poços fornecem água para satisfazer algumas necessidades específicas e isso basta. Além disso, água não é algo particularmente gostoso. Intelectuais diziam: "Por que investir tanto esforço para olhar o que há dentro de poços? Sabemos o que há lá: água. O esforço seria melhor empregado plantando-se novas lavouras."

Chegou o grande dia de estrear o submarino. Ele foi colocado em um grande poço preparado para isso às custas de muito trabalho e engenhosidade. Algums exploradores especialmente treinados entraram no submarino. O aparelho começou a descer. O ambiente ficava cada vez mais escuro. Os exploradores ligaram as luzes do aparelho e continuaram descendo por aquele túnel vertical. Após um certo ponto, o submarino emergiu da extremidade inferior do túnel.

Após descer um pouco mais para evitar que o veículo colidisse com algo da base de Filosofia, iniciou-se uma viagem horizontal. Após algumas horas, notaram que o ambiente já não parecia tão escuro. A tripulação desligou as luzes e olhou para cima. Realmente, parecia haver uma vasta região iluminada. Iniciaram a subida e o ambiente ficava cada vez mais claro.

Chegaram à superfície da água, abriram a escotilha e foram para a parte de cima do submarino para ver melhor o que haviam encontrado. Estavam em um vasto oceano que não parecia ter fim. Olhando para o ponto de onde vieram, notaram uma gigantesca embarcação. Filosofia era uma barca gigante! Aquela água dos poços, que todos pensavam vir de uma fonte limitada, talvez um reservatório subtarrâneo, era só uma manifestação de algo muito maior do que Filosofia. Aquela água era parte de um oceano que sustentava Filosofia e que estendia-se de horizonte a horizonte. A expressão dos Diários que falava da água como sustentando Filosofia parecia muito mais clara e significativa agora. A maioria dos estudiosos dos Diários nunca ficou sabendo disso e continuou supondo que isso era apenas uma referência ao fato de que a água dos poços matava a sede.

Novas Tecnologias

Diversas outras viagens foram feitas, algumas para explorar os limites e a forma de Filosofia quando vista de fora, de longe, de perto e de baixo, para explorar a profundidade do oceano, para buscar outras embarcações semelhantes a Filosofia, e assim por diante. Nessas buscas, os exploradores descobriram coisas novas nas águas profundas, materiais úteis que poderiam usar em Filosofia. Até novas fontes de alimento foram descobertas. Seria possível viver ricamente desses alimentos e materiais sem retornar a Filosofia. Seria possível até construir novas embarcações que permitissem vida confortável, embora o esforço necessário para isso fosse grande demais naquela época. Para a maioria do povo que ignorava tudo isso, porém, Filosofia continuava a ser tudo o que existia e importava e poços ou água eram apenas um recurso limitado encontrado em locais muito específicos. Filosofia continuava sendo sinônimo de mundo para eles.

Revolução Conceitual

Para os exploradores da água, porém, isso não mais parecia adequado. Confundir poço com água não faz sentido algum considerando-se que a maior parte da água está em um vasto oceano que nada tem a ver com poços. Também decidiram parar de usar o nome de Filosofia como se fosse sinônimo de mundo, pois da perspectiva dos exploradores da água, Filosofia era apenas uma região que parecia extremamente pequena quando observada de um ponto mais distante na imensidão do mar. E, indo um pouco mais longe, sequer era possível ver Filosofia.

Refinar a linguagem facilitou muito a vida dos exploradores ao conversar entre si, mas ao falarem com o resto do povo, era necessário escolher entre usar a linguagem popular, que induzia ideias equivocadas, ou dar muitas explicações sobre a natureza de Filosofia, a abrangência da água e a diferença entre poço e água. A quase totalidade das pessoas, incluindo curiosos e exploradores que não participavam das excursões de submarino, ainda ignorava a existência do oceano (conceito que não fazia sentido para eles), muito menos seria capaz de entender e acreditar que Filosofia seria uma barca a flutuar nesse oceano.

O povo passou a usar coisas que exploradores construíram a partir de materiais encontrados no oceano. Também passaram a ter maior quantidade e qualidade de alimentos graças aos novos recursos encontrados durante as explorações oceânicas. Acreditavam, porém, que tudo aquilo era proveniente de alguma região de Filosofia. Se alguém dissesse que aquelas coisas vinham do oceano, entendiam que oceano era um poço situado em alguma região de Filosofia.

Quando exploradores falavam de sua percepção de Filosofia em função de suas aventuras no oceano, as pessoas entendiam que eles estavam falando de pequenos mergulhos em poços e que isso era algo muito restrito para gerar qualquer conclusão a respeito de Filosofia como um todo. Assim, acabavam descartando quase tudo o que os exploradores da água diziam. Intelectuais de Filosofia escreviam sobre a exploração de poços e argumentavam que era impossível obter uma visão panorâmica de Filosofia quando se está confinado ao interior de um poço. Segundo eles, bastaria sair um pouquinho do poço e olhar ao redor para notar o fato óbvio de que matemática é algo muito mais restrito do que as terras ilimitadas de Filosofia.

Com o tempo, os exploradores que haviam construído submarinos, descobriram no oceano materiais que lhes permitiram construir aviões, podendo não apenas obter uma visão aérea de Filosofia, mas viajar para mais longe e explorar novas regiões distantes do oceano com maior facilidade. Com isso, descobriram novas fontes de riquezas que foram trazidas para melhorar a vida dos habitantes de Filosofia. Algumas pessoas sem escrúpulos usaram alguns desses novos materiais para construir armas e fazer coisas que geravam muito lixo. De vez em quando, colocava-se a culpa nos exploradores por isso.

Debate sobre a Origem

Havia exploradores da água que acreditavam nos Diários e começaram a notar que vários trechos falavam em Filosofia como um ambiente limitado e que havia pessoas morando em lugares além de Filosofia. Pela forma como isso era mencionado, perceberam que provavelmente havia outras barcas semelhantes a Filosofia e mais antigas do que ela em locais muito distantes do oceano. Eles estudavam também os detalhes das estruturas que existiam na base de Filosofia e notaram que muitos trechos dos Diários faziam referências a eles. Tais referências eram geralmente ignoradas porque falavam de coisas que não faziam sentido para a maioria das pessoas, incluindo os estudiosos profissionais dos Diários.

Estudiosos profissionais dos Diários dos Pioneiros procuravam extrair deles toda informação possível. Por causa do perfil das pessoas que normalmente se dedicavam a essa área, concentravam-se mais nas regras de convivência, saúde e segurança, as quais realmente possuíam aplicação mais imediata para a população. Havia um trecho famoso que falava sobre o planejamento e a construção de Filosofia por engenheiros com grande conhecimento de tecnologias avançadíssimas. Esse texto dizia que Filosofia havia sido construída em um local previamente inóspito, que sementes foram plantadas em seu solo, poços foram cavados e encheram-se de água e depois foram trazidos colonos para habitá-la. Os Diários foram escritos por pioneiros, que afirmaram ter podido conversar com os engenheiros e tido a oportunidade de tomar notas do que eles haviam dito. Embora os pioneiros fossem pessoas simples, disseram ter feito seu melhor para anotar da forma mais fiel possível o que ouviram, ainda que algumas expressões não fizessem sentido para eles.

A maioria dos estudiosos dos Diários interpretava que os engenheiros encontraram uma terra hostil, possivelmente muito rochosa e irregular, e a prepararam para que pudesse ser habitada. Muitos estudiosos também diziam que a expressão "encheram-se os poços" significava que os engenheiros despejaram grande quantidade de água nos poços e que ela teria ficado armazenada em câmaras subterrâneas, anteriormente vazias.

Havia quem duvidasse dos Diários. Para onde teriam ido os engenheiros após construir Filosofia e por que razão o povo não mais tinha acesso a tecnologias tão avançadas? Aliás, toda essa história de tecnologias avançadas parecia um conto de fadas. Tal coisa provavelmente nunca existira.

Origem dos Habitantes de Filosofia

Alguns suspeitavam que o povo de Filosofia era originário dali mesmo. Havia muitos tipos de plantas estranhas em Filosofia. Talvez alguma delas, que poderia estar extinta, pudesse ter gerado pessoas como se fossem seus frutos. Isso simplificaria as coisas e não mais seria necessário apelar-se à ideia de engenheiros com tecnologias avançadas trazendo pessoas de algum lugar que não existe. Muito menos seria necessário seguir as regras supostamente decretadas pelos engenheiros. Plantas gerando frutos e sementes eram algo conhecido e mais provável do que engenheiros de fora de Filosofia com tecnologias inimagináveis. Aliás sequer faria sentido falar-se em "fora de Filosofia", já que Filosofia abrangia tudo o que existia.

Intrigado com a possibilidade de origem local dos habitantes de Filosofia, um curioso chamado Dórian saiu a investigar plantas exóticas. Isso foi antes dos aviões, porém após o início das explorações submarinas, que já estavam bastante avançadas na época. Dórian nunca viajou de submarino porque era claustrofóbico. Não acreditava em oceanos, apenas em poços e, possivelmente, câmaras subterrâneas de água. Mesmo assim, achava absurda a ideia de que os engenheiros teriam enchido os poços com água em algum momento e portanto uma interpretação literal dos Diários não seria algo confiável. Os reservatórios de água subterrânea provavelmente sempre estiveram lá.

Em sua viagem exploratória, descobriu uma espécie de planta que gerava uma grande semente. Abrindo-se essa semente, observava-se algo com um formato parecido com um feto humano. Dependendo da época, as sementes produzidas possuíam um conteúdo com formato um pouco diferente, distanciando-se ou aproximando-se mais do formato de um feto. Dado tempo suficiente, pensou Dorian, esta planta provavelmente produzirá uma semente contendo exatamente um feto humano. Deve ser um fenômeno raro, mas acontece. Se pudéssemos esperar tempo suficiente, provavelmente veríamos muitos humanos nascendo deste tipo de planta.

Tais ideias causaram vaias e aplausos entre o povo de Filosofia. Uns diziam que Dórian estava indo contra a sabedoria dos engenheiros e pioneiros. Outros ficaram felizes em não mais precisar seguir regras antigas. Com o tempo, a ideia de Dórian passou a ser aceita por quase todos os intelectuais respeitados, e ideias sobre detalhes do processo de geração de humanos a partir de sementes começaram a ser imaginados. Entre as evidências, os intelectuais falavam de como sementes pequenas podem gerar grandes árvores com características bem diferentes das sementes que lhes deram origem. As sementes eram pequenas e arredondadas, mas as árvores eram grandes, cheias de galhos e folhas. Portanto, uma semente poder gerar algo bem diferente de si mesma seria algo natural e provavelmente essa seria a origem dos habitantes de Filosofia.

Naturalistas e Planejamentistas

As estruturas engenhosas que sustentavam Filosofia, vistas logo nas primeiras viagens de submarino, passaram a ser ignoradas. Os planos de viagens submarinas ainda as levavam em conta para evitar colisões, mas sem mencionar seu significado e formato exatos. Os exploradores acostumaram-se a passar distraidamente pelo local pensando apenas em seu destino final.

A ideia de que Filosofia era uma estrutura que flutuava em um vasto oceano nunca foi popular até porque a maioria das pessoas não fazia ideia do que isso significava. Entre intelectuais, houve muita resistência a princípio, até porque ficava difícil descartar a existência dos engenheiros naquele cenário. Com o tempo, porém, testemunhos de exploradores da água e evidências se acumularam e os intelectuais buscaram maneiras de aceitar esse fato sem precisar recorrer à ideia de engenheiros com tecnologias avançadas. Segundo eles, o conhecimento precisava apoiar-se em fatos atuais e locais, sem nunca mencionar entidades de fora de Filosofia. Não percebiam o quanto isso contradizia o próprio conceito de oceano.

Por fim, a ideia de estrutura flutuante foi aceita pela maioria dos intelectuais, após imaginarem maneiras pelas quais materiais poderiam haver se unido espontaneamente no oceano para formar Filosofia.

A diversidade de crenças sobre a origem de Filosofia continuou a existir, mas cada vez menos pessoas cria ser literal o trecho dos Diários que falava sobre a construção do local realizada por engenheiros. Muitos exploradores que viajavam de submarino passaram a apoiar a ideia de Dórian. Eles citavam o fato de que a água de Filosofia era apenas manifestação de um grande oceano, muito maior do que Filosofia. Os poços eram apenas aberturas que permitiam acesso à água do oceano e que não faria sentido alguém precisar despejar água neles. Portanto, a ideia de que alguém preparou Filosofia para ser habitada era muito improvável. Este era o famoso argumento do oceano.

Os que criam que Filosofia se formou com base somente em fenômenos naturais eram chamados de naturalistas. Os que criam que Filosofia fora planejada e construída por engenheiros eram chamados de planejamentistas.

A maioria dos planejamentistas dizia que havia sido feita terraplanagem de um local inóspito, irregular e pedregoso, o solo havia sido então arado, depois haviam sido plantadas sementes úteis, depois poços foram cavados e muita água fora despejada neles. Depois disso, os pioneiros haviam sido trazidos. Um trecho dos Diários dizia claramente que "poços foram cavados e encheram-se de água" e muitos estudiosos afirmavam que essa expressão, na linguagem antiga, significava que água havia sido despejada nos poços.

A maioria dos planejamentistas contestavam o argumento do oceano dizendo que esse tipo de ideia baseava-se em pessoas desequilibradas que mergulhavam em poços e depois inventavam teorias absurdas, chegando até a falar em oceanos, máquinas voadoras e sementes que geram humanos. Não se poderia confiar em pessoas assim. Para estes, submarinos eram excentricidades sem propósito e aviões e oceanos eram meras especulações. Para eles, os Diários afirmavam claramente que água havia sido despejada nos poços e eles preferiam crer no relato de quem viu acontecer do que em especulações de lunáticos.

Havia exploradores planejamentistas que reconheciam que o argumento do oceano possuía um elemento de verdade: a ideia de que alguém precisou despejar água nos poços realmente não fazia sentido algum. Os poços seriam preenchidos com água automaticamente se alguém cavasse um poço suficientemente profundo. Apesar disso, eles não concordavam com os naturalistas, pois observando Filosofia por baixo, observavam claramente estruturas engenhosamente construídas para sustentar Filosofia.

Este grupo de planejamentistas não cria que haviam terras áridas e inabitáveis no início, mas apenas um oceano. Os Diários não falavam em terras áridas, mas em local inabitável. Os pioneiros teriam construído um grande navio a partir de materiais do oceano, criando um ambiente habitável nessa embarcação. Entendiam o texto que dizia que os poços encheram-se de água como sendo literais, mas significando que a água veio de baixo, do oceano, assim que os poços foram cavados. Ao usar esse tipo de argumento para convencer a outra ala de planejamentistas, frequentemente ouviam a resposta de que eles estavam apenas tentando reinterpretar os textos antigos para adequar-se a sua preferência pessoal e seu gosto por ideias mirabolantes que incluíam aviões, oceanos e sementes que geram pessoas. Note-se que os planejamentistas que viajavam pelo oceano não criam em sementes que geram pessoas, mas eram vistos como se cressem assim pelos demais planejamentistas, que achavam que viajar de submarino e avião testemunhando fatos era a mesma coisa que fazer extrapolações ao observar sementes com formato curioso. Para a maioria das pessoas essas eram atividades do mesmo tipo.

Com o tempo, a maioria da população aceitou a ideia de Dórian e passou a crer que os pioneiros nasceram de sementes, não entenderam o processo e inventaram fábulas sobre como teria sido sua origem. Muitos diziam acreditar em partes dos Diários, mas poucos conheciam de fato seu conteúdo.

Apesar das grandes descobertas, para o povo e para os intelectuais de Filosofia, incluindo a maioria dos estudiosos dos Diários, poços continuam sendo limitados, submarinos são desperdício de esforço e aviões são meras especulações: não pode existir algo assim. A ideia das sementes que geraram pessoas é bastante bem aceita pela maioria das pessoas, incluindo muitos estudiosos dos Diários, que entendem os trechos sobre construção de Filosofia como alegorias. E a controvérsia sobre as origens permanece, cada um propondo seus argumentos e ignorando as réplicas ou tratando-as de maneira simplista.

terça-feira, 5 de abril de 2016

O Conhecimento Humano e a Existência de Deus

Carl Sagan, astrônomo e astrofísico entre outras coisas, foi um cientista muito popular na década de 1980 devido a seu papel na divulgação científica. Certa vez ele comentou acerca de ateísmo e crença na existência de Deus:

"Um ateu é alguém que tem certeza de que Deus não existe, alguém que tem evidências convincentes contra a existência de Deus. Eu não conheço uma evidência assim convincente. Como Deus pode ser relegado a tempos e locais remotos e a causas últimas, teríamos que saber muito mais sobre o universo do que sabemos agora para ter certeza de que Deus não existe. Ter certeza da existência de Deus e ter a certeza da não existência de Deus parece-me serem os extremos muito confiantes em um assunto tão cheio de dúvida e incerteza a ponto de inspirar, na verdade, muito pouca confiança." [1]

E concordo com isso, em parte. Essa opinião demonstra mais bom senso do que grande parte das idéias expressas neste mundo, sejam religiosas ou céticas. O problema é que bom senso não é suficiente. O bom senso nos induz a pensar que se uma coisa não é vista, tocada ou ouvida, existe uma boa chance de ela não existir.

Ocorre, porém, que essa afirmação de Sagan demonstra conhecimento também. Quando se vai um pouco além, estuda-se um pouco mais a natureza e suas leis, percebe-se que existe uma infinidade de coisas que não podem ser vistas, tocadas e sentidas. Alguns exemplos são: partículas subatômicas, espaço, tempo e gravidade. Contudo, conhecimento ainda não é suficiente. Porque por mais que se conheça, sempre existe um infinito além para ser conhecido. Qualquer entidade neste universo, e mesmo o próprio universo, existe dentro desse "aquário" que é a nossa realidade física, restrita às nossas leis físicas, ao tempo e ao espaço.

No entanto, essa asserção ainda revela entendimento. Que é o que acontece quando se percebe que certezas podem fechar portas para questionamentos válidos. Como é possível ter certeza sem nunca ter questionado uma idéia, observado pontos fortes e fracos, ido até as últimas consequências testando opiniões contrárias às nossas?

O problema, com a maioria das certezas, é que, ao tropeçarmos em alguma evidência muito contrária a elas, ainda parecem mais fortes do que qualquer evidência. Isso ocorre com crentes e descrentes. O próprio ceticismo pode se tornar uma convicção mais forte do que a evidência. Desta forma, entendimento, mais uma vez, não é suficiente.

Percebemos que bom senso, conhecimento e entendimento são coisas fundamentais, necessárias, para conseguirmos diferenciar o que é real do que não é. Constatamos, por todos os exemplos de intolerância ao longo da história, que certezas que não admitem questionamentos têm grande chance de imperdir o reconhecimento de evidências. E, também, que a própria idéia de que não se pode ter certeza sobre um determinado assunto pode tornar-se uma certeza, impedindo que evidências sejam percebidas como evidências. Resumindo: certeza que não admite questionamentos tem grande chance de enfraquecer ou mesmo obliterar evidências. A percepção de que não se pode ter certeza sobre alguma coisa pode tornar-se uma certeza e, consequentemente, da mesma forma enfraquecer e obliterar evidências.

Neste caso, o que seria suficiente? Para começar, o desejo de descobrir a verdade qualquer que seja ela. Isso é ainda mais difícil do que parece à princípio.
Enquanto se está pisando em um terreno conhecido, enquanto nossos fundamentos não estão sendo abalados, é relativamente fácil reajustar nossas visões de mundo. O problema ocorre quando a realidade começa a ir em uma direção que tem o potencial de derrubar a plataforma em que nos sentimos seguros. Minha questão é: até que ponto você conseguiria examinar evidências contrárias a sua posição de uma forma isenta? Isto é possível?

Relacionada à capacidade de examinar idéias contrárias às nossas com isenção, há a questão de como construimos nossas bases do que é confiável. Comumente se acredita que a base para as convicções de religiosos, ou místicos e espiritualistas, seria um conjunto de ensinamentos expostos em livros como a Bíblia, Alcorão, ensinamentos de Buda ou mensagens dos espíritos e outras. E a base para as de céticos seriam a ciência e o pensamento racional. Um ponto fundamental, porém, na forma como avaliamos proposições, tem a ver com o grau de confiança e credibilidade que depositamos em determinadas pessoas. Isso, além de nossas experiências individuais e conjunto de valores, é um dos fatores que mais pesa em nossas avaliações do que é do que é aceitável ou não.  Por exemplo, há sempre algumas pessoas que se destacaram por seu entendimento e realizações em áreas de conhecimento que compõem a base para nossas concepções. Consequentemente, o que essas pessoas disseram ou acreditaram costuma ter um papel fundamental na hora de avaliarmos evidências. Não há nada errado em levarmos em conta a experiência de outros que se destacaram por suas realizações. O problema é quando isso se torna um obstáculo para avaliarmos evidências por nós mesmos!

O bom senso faz muitos questionarem a existência de um Deus bom em face da exitência do mal, como doenças, calamidades, guerras, etc. Ao mesmo tempo, também faz com que pessoas questionem por que Deus, aparentemente, não se manifesta aos nossos sentidos nesse planeta. Estas são questões muito relevantes que pretendo abordar posteriormente. No momento, existe uma questão que vem ainda antes destas duas: existe, atualmente, à disposição do ser humano, conhecimento suficiente para responder sobre a existência ou não de Deus?

Para investigarmos isto, é importante que tenhamos, inicialmente, uma idéia correta de como se estrutura o conhecimento humano sobre a realidade. Em um primeiro momento da vida, adquirimos conhecimento sobre o mundo através dos sentidos, do que podemos ver, tocar, provar, cheirar e ouvir. A partir disso, dirigidos por nossos raciocínios e emoções, vamos construindo nossos conceitos. Quando aprendemos a linguagem, adquirimos uma ferramenta importante para ampliar nossos meios de investigação sobre a realidade. Para sobreviver, porém, precisamos aprender a lidar com nosso ambiente e isso inclui começarmos a aprender as formas, os números, as cores, a paisagem, nossa geografia, nossa história, enfim, começamos uma jornada que nos leva a perceber em maior ou menor grau como as coisas estão interconectadas, como nos afetam e são afetadas por nós.

Ocorre que a forma como descobrimos o mundo segue um caminho inverso ao de como a realidade se estrutura. Começamos com uma experiência social, de sermos tocados e cuidados por outras pessoas, de experimentarmos o mundo através dos sentidos. Então, obtemos uma noção de nosso ambiente e de como nos movimentarmos nele; também adquirimos a linguagem. A partir do momento em que nosso cérebro começa a processar informações, iniciamos a construção de uma história através da memória e aprendizado. Do ponto de vista humano, o conhecimento se processo através da construção de uma história, da interação social, de uma experiência física e geográfica, da aquisição da linguagem. Conhecimentos abstratos como matemática explícita e filosofia só acontecem mais tarde e, a maior parte das pessoas do planeta, não se aprofunda muito nestes temas.

A realidade, no entanto, tem uma estrutura inversa. Porque, ao investigarmos a história, percebemos que ela tem origem nas questões sociais. As questões sociais se compõem de interações das pessoas entre si e com o ambiente físico, ou seja, psicologia, fisiologia, ecologia, geografia, economia, política, etc. O funcionamento de todas essas coisas obedece às leis da física. O ambiente, todos os seres vivos e suas interações, em todos os níveis, são regidos pelo eletromagnetismo, gravidade, interações fracas e fortes. Com certeza, todas essas coisas geram superestruturas que, intuitivamente, parecem ser muito mais do que a soma das partes. E são. A soma das partes, porém, acrescida de todas as interações entre elas, ainda segue estritamente estas leis básicas e não existe nenhum princípio mágico por trás. Cada detalhe tem sua origem nas leis da física. Todas estas leis seguem o princípio da ação mínima, que é expresso por uma equação bem pequena.

δA=0

Então, apesar do que parece para o nosso senso comum, as leis mais básicas que geram toda a complexidade do Universo, seguem um princípio básico bem simples, que é um princípio de otimização. Quando expresso matematicamente, este princípio nos permite deduzir as leis físicas.

Eu disse "expresso matematicamente" porque, nossa linguagem matemática, a forma como escrevemos os símbolos dos conceitos abstratos não é a Matemática. Os símbolos que escolhemos para representar os conceitos foram inventados pelos homens, mas os conceitos por trás dos símbolos não foram criados pelos seres humanos. Eles foram sendo descobertos e se demonstraram a forma mais eficiente de representar e gerar novos conhecimentos sobre a realidade. Incluindo aqueles aos quais jamais teríamos acesso simplesmente por nossos sentidos ou raciocínio filosófico. Apesar de que, para o nosso senso comum, muitas vezes os conceitos matemáticos parecem meras abstrações sem correspondência na realidade, tudo o que o homem conhece e experimenta tem sua base no funcionamento matemático da realidade. Aquela matemática que está por trás dos símbolos e que se expressa não só por números, mas por equações e Lógica. Quando a experiência humana é insuficiente para compreender algo, quando a filosofia não consegue alcançar, quando não se pode testar em laboratório, o uso de Matemática gera conhecimentos testáveis e comprováveis cientificamente. Acaba gerando toda a realidade que conhecemos, a que não conhecemos e tudo o que poderia existir, mas não sabemos se existe ou não.

Toda a nossa Física e, portanto, nossa Biologia, Economia, Sociologia e tudo no Universo deixam de existir sem o tempo e o espaço. E hoje se sabe que tempo e espaço tiveram origem. Portanto, nossa realidade, "nosso aquário", a Física e suas consequências, só existem a partir dali, dentro do tempo e do espaço. Tudo o que está fora disso, e não tem sentido falar-se em antes disso sem existência de tempo, pode ser acessado pela Matemática, mas não por outras formas de conhecimento humano.

Existe um Teorema da Lógica Modal conhecido como Teorema Ontológico, demonstrado por um matemático chamado Kurt Gödel. Este teorema conclui que Deus necessariamente deve existir. Ele é formamelmente consistentente e correto e foi validado por diversos softwares.[2] Naturalmente, há várias críticas ao teorema e suas conclusões. Algumas destas críticas afirmam que várias coisas poderiam substituir Deus no teorema, tais como estrelas do mar, mal absoluto e outras. Contudo, se estas coisas fossem colocadas ali, não se encaixariam nos axiomas do teorema. Uma outra crítica argumenta que a Lógica Modal S5 depende de um pressuposto metafísico questionável envolvendo a existência real dos mundos de possibilidades mencionados na literatura. O problema com este argumento é que ele confunde a linguagem utilizada em livros didáticos sobre o assunto com a própria Lógica Modal. A linguagem didática normalmente utilizada nesta área, se entendida literalmente, parece estar fazendo afirmações metafísicas. Entretanto, a Lógica Modal em si não depende de tais pressupostos filosóficos.

Deus seria uma entidade que está fora do Universo e, portanto, não depende de nossas leis físicas, do tempo e do espaço. Ele teria criado estas coisas. Não podemos tentar aplicar a Ele nossas regras de causalidade. As únicas coisas existentes fora do tempo e do espaço seriam Deus e a Matemática. Por isso ela é útil para tratar da existência ou não de Deus. No entanto, não é só através da Matemática que podemos encontrar evidências de Deus. Pretendo continuar este assunto posteriormente.

Referências

[1] Wikipédia, Carl Sagan (fonte: Head, Tom, ed. (2006). Conversations with Carl Sagan (1st ed.). Jackson, MS: University Press of Mississippi. ISBN 1-57806-736-7. LCCN 2005048747. OCLC 60375648.)

[2] Christoph Benzmuller e Bruno Woltzenlogel Paleo. "Automating Godel’s Ontological Proof of God’s Existence with Higher-order Automated Theorem Provers". Disponível em: http://page.mi.fu-berlin.de/cbenzmueller/papers/C40.pdf Acessado em 05/04/2016.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Origem da Vida e seus Pesquisadores

Algumas coisas que se ouvem muito nos meios acadêmicos, em centros de pesquisa e são bastante propagadas por revistas de divulgação científica, são que a Evolução é um fato, que crer em Deus e em Criacionismo é uma coisa para ignorantes, porque Deus e Criacionismo não podem ser estudados de forma racional, etc.

Bem, se a evolução é um fato, segundo dicionários de português, ela é real,verdadeira, algo que acontece. Acho que hoje em dia ninguém (ou pelo menos quase ninguém) discorda de que ocorrem mutações nos seres vivos, de que eles se adaptam, enfim ... A maioria das pessoas pensantes também percebe que a seleção natural faz bastante sentido. A questão é que a Síntese Evolutiva Moderna agrega muito mais idéias além destas, você precisa aceitar que houve um ancestral comum para todas as espécies de seres vivos que existem sobre a Terra. E ai eu encontro mais duas palavras problemáticas que não foram até hoje bem definidas e sobre as quais não existe consenso entre os cientistas, que seriam: vida e espécie. Para a última existem pelo menos umas 3 definições: o conceito evolutivo, o filogenético e o biológico. A última é mais difundida, mais aceita, mas existem várias exceções para ela e isto, para mim, significa que a definição ainda não ficou boa.

Tudo bem, deixando de lado as definições, se querem que algo seja aceito como fato, coisa real, verdadeira, e se a Evolução pode ser estudada cientificamente, então tem que poder acontecer duas coisas: primeira, se é um fato tem de poder ser observada e, segundo, se pode ser comprovada cientificamente tem de poder se comprovar pelo método científico com a exclusão de qualquer outra hipótese. O primeiro teste é simples: Se houve um ancestral comum e se ele se originou da primeira molécula ou conjunto de compostos que deram origem a vida, então tem de ser possível se observar isto. E o problema com fatos é que não se pode afirmá-los quando ocorreram no passado e ninguém estava lá para ver.

Comprovar uma hipótese que não pode ser acessada diretamente também é difícil, porque se a origem da vida for reproduzida em laboratório, quem garante que foi assim mesmo que aconteceu?

Por falar nisso, como fica a origem da vida em laboratório, sim, porque como disse Robert Shapiro, um pesquisador que crê que a origem da vida foi através de metabolismo primeiro: "Em contraste, nenhum nucleotídeo de qualquer tipo foi relatado como produto de experimentos com discarga de faíscas ou em estudos de meteoritos, nem as unidades menores (nucleosídeos) que contêm um açúcar e base, mas falta o fosfato. Para resgatar o conceito de RNA-primeiro deste, normalmente, defeito letal, seus defensores criaram uma disciplina chamada síntese prebiótica. Eles têm tentado demonstrar que RNA e seus componentes podem ser preparados em seus laboratórios em uma sequência de reações cuidadosamente controladas, normalmente realizadas em água a temperaturas observadas na Terra. Tal sequência inicia usualmente com compostos de carbono que tenham sido produzidos em experimentos com discarga de faíscas ou encontrados em meteoritos. A observação de um composto químico orgânico específico em qualquer quantidade (mesmo como parte de uma mistura complexa) em uma das fontes acima justifica sua classificação como "prebiótico", uma substância que supostamente se provou estar presente na Terra primitiva. Uma vez tendo recebido esta distinção, o produto químico pode então ser usado na forma pura, em qualquer quantidade, em outra reação prebiótica. Os produtos de tais reações também serão considerados "prebióticos" e empregados no próximo passo da sequência. O uso de sequẽncias de reações deste tipo (sem qualquer referência à origem da vida) tem há muito sido uma prática honrada no campo tradicional da química orgânica sintética. Meu próprio orientador da tese de PhD, Robert B. Woodward, recebeu o Prêmio Nobel por sua brilhante síntese de quinino, colesterol, clorofila e muitas outras substâncias. Pouco importa se quilogramas de material inicial foram necessários para produzir miligramas de produto. O ponto foi a demonstração de que seres humanos podem produzir, ainda que ineficientemente, substâncias encontradas na natureza. Infelizmente, nem químicos nem laboratórios estavam presentes na Terra primitiva para produzir RNA." Robert Shapiro, ""A simpler origin for life", Scientific American, 12 de fevereiro de 2007.

Outro ponto: se crer em Deus é um viés que impede o estudo racional do assunto sobre as origens, como fica a declaração abaixo (feita por ninguém menos do que Freeman Dyson):
"A descrição de Oparin foi geralmente aceita pelos biólogos por meio século. Ela era popular não porque houvesse qualquer evidência para apoiá-la, mas antes porque parecia ser a única alternativa para o criacionismo bíblico." Freeman Dyson, "Origins of Life", p. 38.

Racionalidade, objetividade, sem comentários ...

Eu admiro Darwin (criacionistas e evolucionistas me apedrejariam por isto), ele foi honesto na forma de colocar suas idéias, teve um insight brilhante quando percebeu que as espécies se modificavam e foi metódico ao documentar isto. Ele sabia que havia falhas no seu trabalho e ele admitiu isto na introdução de seu livro. Infelizmente, as pessoas não lêem atentamente o livro dele (ou nem lêem) e idolatram a imagem que fizeram dele.

Uma vez em uma palestra sobre origem da vida alguém me disse que origem da vida não faz parte da Teoria da Evolução. Tudo bem, só tem uma coisinha: sem origem da vida não tem ancestral comum, sem ancestral comum não existe origem das espécies. Voltando a origem da vida, Leslie Orgel, que foi uma espécie de pai da idéia do mundo de RNA primitivo, passou grande parte de sua vida pesquisando sobre o assunto, e morreu em 2007, disse o seguinte em um artigo que encontrei no site da Nasa anteriormente (agora pode ser encontrado no seguinte link http://eddieting.com/eng/originoflife/orgel.html):

"A hipótese mais simples presume que os nucleotídeos no RNA se formaram quando reações químicas diretas levaram a união do açúcar ribose com bases dos ácidos nucléicos e fosfato (que estaria disponível no material inorgânico). Este cenário é atrativo mas, como será visto, tem-se provado difícil de confirmar. ...)". E ele prossegue relatando todas as dificuldades.

Gerald Joyce, que foi orientado por Orgel em seu doutorado, e é também pesquisador da origem da vida através da molécula de RNA ou algum precursor semelhante, disse o seguinte em um artigo publicado na Nature em 2002:

“O principal obstá́culo para se entender a origem da vida baseada em RNA é identificar um mecanismo plausível para vencer a bagunça produzida pela química prebiótica” Gerald F. Joyce, "The antiquity of RNA-based evolution" Nature, 11 de julho de 2002.

Shapiro faz algumas considerações interessantes em um artigo publicado em 2007 na Scientific American:

“A analogia que vem a mente é a de um jogador de golfe, que tendo jogado uma bola através de uma rota de 18 buracos, então presume que a bola também jogaria a si mesma por esta rota na ausência dele. Ele demonstrou a possibilidade do evento; só é necessário imaginar que alguma combinação de forças naturais (terremotos, ventos, tornados e inundações, por exemplo) poderiam produzir o mesmo resultado, dado tempo suficiente. Nenhuma lei física precisa ser violada para a formação espontânea de RNA acontecer, mas as chances contra isto são imensas, implica em que o mundo não vivo tem um desejo inato de gerar RNA. A maioria dos cientistas da origem da vida que ainda apoia a teoria do RNA primeiro ou aceita este conceito (implicita, se não explicitamente) ou acha que as chances imensamente desfavoráveis foram simplesmente vencidas por boa sorte.”
“Imagine um gorila (braços muito longos são necessários) em um imenso teclado conectado a um processador de palavras. O teclado contém não apenas os símbolos usados nas linguagens inglesa e européia, mas também um enorme excesso extraído de todas as outras linguagens conhecidas e todos os conjuntos de símbolos armazenados em um típico computador. As chances de uma reunião espontânea de um replicador no ‘pool’ que eu descrevi acima pode ser comparada àquelas do gorila compor, em inglês, uma receita coerente de chili com carne. Com considerações semelhantes em mente, Gerald F. Joyce do Scripps Research Institute e Leslie Orgel do Salk Institute concluiram que o aparecimento espontâneo de cadeias de RNA na terra sem vida ‘teria sido um quase milagre’. Eu estenderia esta conclusão a todos os propostos substitutos de RNA que mencionei acima.” Robert Shapiro, "A simpler origin for life", Scientific American, 12 de fevereiro de 2007.

A observação de Shapiro, de que "só é necessário imaginar que alguma combinação de forças naturais (terremotos, ventos, tornados e inundações, por exemplo) poderiam produzir o mesmo resultado, dado tempo suficiente" me veio a mente quando estava lendo o artigo publicado na Nature, no ano passado, sobre a síntese de nucleotídeos de pirimidina e que foi divulgado como algo que deixou a origem da vida por RNA bem próxima de se comprovar. No final do artigo aparecem as seguintes considerações:

"Embora a questão de fornecimentos temporalmente separados de glicolaldeído e gliceraldeído permaneça um problema, uma variedade de situações poderia ter surgido que resultaria nas condições de aquecimento e progressiva desidratação seguida de congelamento, reidratação e irradiação ultavioleta." Matthew W. Powner, Beatrice Gerland e John D. Sutherland, "Synthesis of activated pyrimidine ribonucleotides in prebiotically plausible conditions", Nature, 14 de maio de 2009. É poderia ... não é impossível, como disse Shapiro. Acho que provar que algo é impossível é bem difícil, inclusive que Deus não existe.

Shapiro acredita que um ciclo composto por moléculas bem mais simples que nucletídeos poderia ter dado origem a uma espécie de ciclo metabólico pouco sofisticado que teria a capacidade de se reproduzir e suportar seleção natural. Outros pesquisadores partilham de idéias semelhantes, um deles, Günter Wächtershäuser, propôs um ciclo que considerou simples, o ciclo do ácido cítrico reverso, um ciclo autocatalítico, ou seja, as próprias moléculas carreadoras do ciclo servem como catalisadoras das reações. Em 200O, Orgel publicou um artigo sobre este tipo de ciclo (porque ciclos do tipo autocatalílico eram uma proposta comum entre defensores do metabolismo primeiro na origem da vida):

“Postular um reção catalisada ao acaso, talvez por um íon metálico, pode ser razoável, mas postular um conjunto delas é apelar para a magia.” Leslie E. Orgel, "Self-organizing biochemical cycles" Leslie E. Orgel, PNAS, 7 de novembro de 2000.

Mas em janeiro deste ano uma pesquisa publicada pareceu dar um "xeque mate" na proposta de metabolismo primeiro na origem da vida:

"Em agudo contraste com a dinâmica da replicação dependente de molde, demonstramos aqui que a replicação da informação de compostos é tão imprecisa que os mais ajustados genomas de compostos não se mantêm pela seleção e, portanto, falta-lhes capacidade de evolução (isto é, não podem substancialmente se afastar da solução steady-state assintótica já embutida nas equações dinâmicas). Concluímos que esta limitação fundamental de conjuntos de replicadores adverte contra teorias de origem da vida de metabolismo primeiro, embora sistemas metabólicos antigos possam ter providenciado habitat estável dentro do qual replicadores poliméricos mais tarde evoluiram." Vera Vasas, Eörs Szathmáry e Mauro Santos, "Lack of evolvability in self-sustaining autocatalytic networks constraints metabolism-first scenarios for the origin of life", PNAS, 26 de janeiro de 2010.

Contudo, eu não apostaria que os defensores do metabolismo primeiro na origem da vida vão desistir assim tão fácil, afinal, os proponentes do "Mundo de RNA" continuam suas pesquisas nesta linha apesar de todos os viéses e críticas. Seria porque alguma destas hipóteses "tem que" funcionar de qualquer jeito para não se pensar em "criacionismo bíblico", como disse Dyson?

Por favor, a origem da vida e o ancestral comum, seja lá como possam ter sido, é algo que aconteceu no passado, é algo intangível, tão intangível quanto Deus. Agora, se podemos rastrear as evidências de algo que aconteceu em um passado impalpável, por que não podemos rastrear Deus da mesma forma? "Não, mas estudar a origem química da vida é uma coisa racional, não influenciada por crenças pessoais (contanto, que exclua Deus)."

Uma vez eu vi uma charge, em uma revista, em que um homem caminhava com uma bengala e uma Bíblia no rosto tapando seus olhos. E é verdade, muita gente usa a Bíblia como desculpa para não estudar e entender a natureza. É verdade também, com frequência, que estas pessoas não estudam a Bíblia também, mas permitem que outros que se consideram versados na Bíblia os guiem e lhes dirijam as crenças sobre o que a Bíblia ensina. Bem, e se mudássemos apenas um detalhe nesta figura? E se ao invés da Bíblia fosse o "Origem das Espécies"? Isto se pareceria com alguma coisa que acontece na realidade?

sábado, 6 de março de 2010

Darwin e Origem das Espécies

Há mais ou menos um ano eu li o livro de Darwin On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Terminei o curso de Biologia, fiz mestrado e nunca tinha lido este livro. E o que me surpreendeu foi que ao invés de me entediar, achei muito interessante. Gostei muito da leitura. Aproveitei o impulso e li a biografia de Darwin, afinal, o mundo estava comemorando os 150 anos de A Origem das Espécies e os 200 anos do nascimento de Darwin. Na ocasião, escrevi algumas coisas em função do que li e transcrevo uma parte delas aqui.

Em 1859, foi publicado o livro de Charles Darwin, A Origem das Espécies (em inglês: On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Na introdução de seu livro, Darwin descreve como chegou a ele e às conclusões ali expressas.

Darwin relata que, durante sua viagem a bordo do Beagle, alguns fatos pareciam lançar "alguma luz sobre a origem das espécies". Em seu retorno, pareceu-lhe que algo poderia ser feito a respeito desta questão por pacientemente reunir fatos e refletir sobre eles. Após cinco anos, ele se permitiu "especular sobre o assunto" e redigiu algumas notas que ampliou em 1844 em um esboço das conclusões. Três anos mais tarde, sua obra estava quase finalizada. Ele informou que seu "resumo" estava "necessariamente imperfeito" e que ele não podia fornecer "referências e autoridades" para suas declarações, em que, sem dúvida, seriam encontrados "erros". Ele sentia necessidade de publicar, posteriormente, em "detalhes todos os fatos, com referências", sobre os quais suas "conclusões estavam baseadas". Ele estava cônscio de que "escassamente um único ponto foi discutido neste volume a respeito do qual não podem ser aduzidos fatos".

Darwin inicia sua reflexões sobre a origem das espécies descrevendo as variações induzidas pelo homem em espécies de plantas e animais domésticos. Em seu próximo capítulo ele relata a ampla variação que ocorre dentro das espécies na natureza, dificultando, muitas vezes, o classificá-las como variações ou outras espécies. Ele sugere que estas variações fariam parte do processo de surgimento de novas espécies. A seguir, é delineada a luta-pela-existencia, baseada nas idéias de Malthus, com a conclusão de que pequenas mudanças em uma espécie, de algum modo favoráveis, seriam retidas e passadas às próximas gerações, configurando-se assim uma "seleção-natural", que seria realizada pela natureza ao invés da seleção artificial realizada pelo homem. A luta pela existência
levaria à inevitável extinção de espécies menos adaptadas. O processo da seleção natural de espécies mais adaptadas seria contínuo e lento, acumulando variações ao longo de extensos períodos geológicos. Durante sua viagem no Beagle, Darwin leu o livro Princípios da Geologia de Charles Lyell, que
propunha longos períodos de tempo de mudanças graduais para o estabelecimento das configurações geológicas.

Entre os sexos, a seleção ocorreria não devido a uma luta pela existência, mas a uma disputa entre os
machos pelas fêmeas, sendo vitoriosos e produzindo descendência mais numerosa os machos mais fortes ou aqueles portando características mais atraentes para as fêmeas. Isto determinaria que estas características fossem fortalecidas na espécie enquanto as dos machos menos bem sucedidos enfraquecidas e, talvez, até extintas. O isolamento geográfico seria um elemento importante na seleção natural, pois detendo a imigração de variedades mais adaptadas e a competição, premitiria a uma outra variedade ser lentamente aprimorada e produzir uma nova espécie. A seleção natural levaria a divergência de caracter: quanto mais seres vivos existissem na mesma área, mais eles divergiriam em estrutura, hábitos e constituição.
Na luta das espécies para aumentaram seus números, quanto mais diversificados os descendentes se tornassem melhores seriam suas chances de sobrevivência.

Como motivo para não se encontrarem especies-intermediarias no registro-geologico, Darwin alega a extrema imperfeição deste registro. Comenta as dificuldades de preservação dos fósseis. Partes moles não podem ser preservadas, partes duras como conchas e ossos se desfazem quando depositadas no fundo do oceano, onde sedimento não se acumula. Restos que são envolvidos por areia ou cascalhos são dissolvidos por percolação da água da chuva por ocasião do erguimento do leito. O sedimento acumulado deveria ser extremamente espesso, sólido ou formado por extensas massas para resistir à incessante ação das ondas quando erguido e sofrendo posteriores oscilações de nível. Uma camada fossífera espessa e extensa só poderia se acumular durante um período de subsidência, mas o mesmo movimento de subsidência tenderia a afundar a área fazendo derivar o sedimento. Seria necessário um equilíbrio exato entre a subsidência e o suprimento de sedimento para preservar o registro.

Em sua revisão do livro, no último capítulo, Darwin declara que acreditava que todos os animais descendiam de, no máximo, quatro ou cinco progenitores e as plantas de um número menor ou igual. Ele escreve que, a partir das semelhanças entre todos os seres vivos, tais como composição química, estrutura celular e leis de crescimento e reprodução, ele infere que provavelmente todos os seres orgânicos tenham descendido de uma única forma primordial. ...

Deixando de lado as definições e considerando a obra de Charles Darwin, A Origem das Espécies, é inegável que ela é extremamente coerente, produto de amplas observações da natureza e profundas reflexões, das quais ele conseguiu extrair alguns fatos e princípios bem estabelecidos, como variações, seleção natural e características fixadas e herdáveis nos organismos.

Por mais que o raciocínio de Darwin tenha sido brilhante e encontre correspondência na natureza, sua obra não pode ser chamada de teoria, do ponto de vista rigorosamente científico, senão no sentido popular da palavra. Isto porque, como já foi mencionado [no texto original],
uma teoria, cientificamente falando, é uma estrutura matemática. Outras definições para a palavra teoria nos fariam cair no terreno inseguro das racionalizações e paradigmas humanos elevados a categoria de verdades absolutas que não podem ser contestadas unicamente porque alguns seres humanos acreditam que seu raciocínio é melhor do que o dos outros.

Darwin, no entanto, na introdução da "Origem", se mostrou consciente de que suas reflexões eram especulações, como ele mesmo disse, de que sua obra estava imperfeita e incompleta e de que faltavam fatos para aduzirem suas idéias. Por mais que algumas idéias pareçam boas, é preciso que se tenha em mente que quando as coisas são devidamente formalizadas em uma estrutura matemática, surgem muitos dados que não se consegue prever com o raciocínio não formal.

Uma declaração de Darwin, por exemplo, que hoje é tratada como um fato que não pode ser contraditado, pelo menos não se admite outra explicação, é a de que todos os seres orgânicos teriam descendido de poucas ou de uma única forma primordial. Ele conclui isto baseado em semelhanças entre todos os organismos. Isto é uma hipótese, que não foi devidamente testada, diga-se de passagem, pode ser uma boa hipótese, mas é apenas isto.

Existem muitas observações, experimentos, técnicas e modelos computacionais e matemáticos sendo relizados para esclarecer mecanismos de especiação, seleção, proximidade e divergência entre espécies (baseadas no genoma, por exemplo).
Mas quanto eu saiba, não existe nenhum experimento, modelo computacional ou matemático demonstrando (que não seria a mesma coisa que mostrar que é possível) que todos os organismos vivos têm um único ancestral comum.

Dez trilhões de cientistas acreditando em uma idéia não tornam esta idéia mais científica do que qualquer outra se ela não pode ser demonstrada.