segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Como Sair da Depressão


Recentemente terminei de ler o livro "Como sair da depressão - prevenção, tratamento e cura", de Neil Nedley.
O autor, um médico americano, trabalhando como médico interno em um hospital, percebeu que as diversas doenças e sintomas de muitos de seus pacientes estavam relacionados à depressão e que a medicina atual oferece, basicamente, um tratamento com medicamentos associado a terapia para estes pacientes. Contudo, geralmente, as causas da depressão não são investigadas devidamente e os remédios combatem apenas os sintomas, mas nem sempre com muita eficiência. O médico começou a estudar o assunto e desenvolveu estratégias eficazes para buscar as causas individuais da depressão e tratar a doença através de mudanças nos hábitos e estilo de vida das pessoas. Desta forma elas podem ir diminuindo a  medicação e suspendê-la completamente ao atingirem a cura após implementarem as mudanças. Ele começou a ser convidado para fazer palestras sobre o assunto e as pessoas pediam para que ele fizesse um livro sobre o que estava lhes ensinando, de modo que elas pudessem ter estes conselhos e conhecimentos por escrito.

A depressão pode se tornar a causa ou um fator agravante para diversas doenças, como já foi comentado no post "Sobre Viver o Hoje e não Pensar no Amanhã", inclusive doenças bastante graves como câncer e problemas cardíacos, sem falar nos danos ao lobo frontal do cérebro. A depressão tem como causas, normalmente, um conjunto de fatores, alguns não são modificáveis e outros podem ser modificados. Entre os não modificáveis estão os fatores genéticos, a idade, o sexo, antecedentes na família, etc. Entre os modificáveis estão os relacionados com a alimentação e estilo de vida. Fatores sociais, muitas vezes são difíceis de alterar, mas a pessoa pode desenvolver uma atitude positiva diante de situações que não podem ser alteradas. Com relação à fatores orgânicos, como desequílibrios na química cerebral, uma alimentação correta e exercícios podem ajudar a contornar. Algumas carências alimentares podem desencadear ou agravar a depressão, alguns tipos de alimentos, que contenham mais tripotofano ou ômega 3, por exemplo, podem ajudar pessoas que tenham depressão. A música clássica ajuda a aliviar a depressão, bem como o receber massagens, fazer inspirações profundas e se expôr à luz solar por um breve período. A confiança no poder e amor de Deus e o "ouvi-Lo" através das mensagens das Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, bem como o conversar com Ele por levar-lhe nossas preocupações e expectativas por meio da oração, são um poderoso auxílio e antídoto contra a depressão.

Sabe-se que a depressão está associada a danos no córtex pré-frontal no lobo frontal do cérebro, a sede de nossa personalidade, capacidade de decisões, planejamento, raciocínio, consciência, auto-controle, etc. Alguns hábitos podem levar a danos nesta importante região do cérebro, como assistir a programas de TV cujas imagens se modificam a cada 3 segundos aproximadamente, levando o cérebro a um tipo de estado hipnótico, fazer uso de drogas, álcool, nicotina, cafeína, carnes e queijos. Adicionalmente, alguns outros fatores, tais como estresse, ausência de repouso e adequada atividade física, podem agravar ou somar-se a outras condições para desencadear a depressão maior.

Evitar pensamentos ruins e procurar desenvolver pensamentos alegres é importante, mas alguns pensamentos negativos costumam ser bastante recorrentes e difíceis de serem vencidos sem ajuda. Por experiência própria, sei que isso pode ser conseguido quando nossa maneira de encarar a vida, as pessoas e nosso papel como ser humano é modificado. Esse processo pode levar algum tempo, pois todo ser humano tem a tendência de ser egoísta e focado em si mesmo. Aprender a ser abnegado e colocar a felicidade dos outros acima da nossa própria não é uma coisa natural para nós. Passar algum tempo cada dia aprendendo as lições da vida de Jesus Cristo e experimentando a paz que ele nos proporciona ao nos livrar de nossas culpas causa uma inteira reviravolta em nossas perspectivas de vida. É decisivo não apenas para vencer a depressão, mas para viver uma vida que valha a pena.

Referência:

"Como sair da depressão. Prevenção, tratamento e cura." Neil Nedley. Casa Publicadora Brasileira. Tatuí, SP.

sábado, 6 de outubro de 2012

Sobre Viver o Hoje e não Pensar no Amanhã


À medida em que o tempo passa e observo mais a vida das pessoas em nosso mundo - porque com 50 anos já consegui observar um pouco a evolução de muitas vidas individuais - percebo que a coisa mais triste não é nem a falta de amor entre as pessoas, a guerra, a fome, a miséria e as catástrofes. O que existe de mais triste neste mundo é o que as próprias pessoas fazem a si mesmas. Outras pessoas podem nos ferir com palavras, com atos ou até fisicamente, mas elas não têm o poder de destruir nosso ânimo, nosso íntimo, se não consentirmos que elas façam isso, somos nós que permitimos que nossa mente nos torture com o que os outros fazem. O que não nos damos conta é que, no fim da vida, tudo o que fizemos habitualmente, pensando em agradar a nós mesmos, não será simplesmente o que vai causar
nossa morte - porque todos morrem - mas será o que vai nos tornar pedaços de seres humanos incompletos arrastando uma vida miserável antes de morrer.

As pessoas não param muito para observar os velhinhos nos asilos e nos hospitais e, na verdade, mesmo quando eles são parentes, não se pensa muito sobre o que fez com que eles perdessem os movimentos, o coração, a memória, a perna, os olhos, os pulmões, os rins, o fígado, o senso crítico, o juízo e, muitas vezes, tudo o que eles já foram um dia! É como se tudo isso fizesse parte do envelhecer de outros e não fosse acontecer conosco. A verdade é que nossos hábitos estão nos levando para uma velhice desse tipo e, quando acontecer conosco, não teremos mais condições de avisar os outros para que possam evitar os erros que cometemos, ninguém mais vai nos ouvir e, possivelmente, nem vamos mais ouvir a nós mesmos! Todos os dias tenho visto pessoas despedaçadas que não têm mais força nem capacidade para se ajudarem, são como brinquedos quebrados jogados num canto.

Você já parou para pensar sobre o porquê de as pessoas terminarem assim e por que este é o destino mais provável de quem vive neste mundo? Outro dia estava lendo em um livro escrito por um médico [1] sobre coisas que podem danificar o lobo frontal de nosso cérebro. Só para esclarecer, o lobo frontal define quem somos, nossa capacidade de decidir, raciocinar e tomar decisões. O autor descreve um lista de coisas que fazemos que podem danificar nosso lobo frontal e fazer com que nos tornemos, pouco a pouco, menos conscientes, menos capazes de avaliar e tomar decisões acertadas. Ele cita diversas pesquisas que demonstram que o uso de drogas ilegais, nicotina, cafeína, bebidas alcoólicas, carnes e queijos, por exemplo, causam danos ao lobo frontal. Certos hábitos também podem ter este efeito, tais como assistir por várias horas programas de televisão em que as cenas demoram menos de 30 s para serem trocadas, causando um estado meio hipnótico no telespectador, por não permitir tempo suficiente para serem analisadas pelo lobo frontal, também o ouvir certos tipos de música com ritmos mais agressivos. Por outro lado, outros hábitos e alimentos podem reforçar a capacidade do lobo frontal, tais como ouvir música clássica, praticar exercícios e ingerir carboidratos de vegetais integrais e frutas. Várias doenças mentais têm como causa ou agravante danos no lobo frontal; entre estas está a depressão. Os hábitos, substâncias e alimentos mencionados acima podem ajudar a causar ou agravar a depressão ou ajudar a evitá-la e/ou curá-la, dependendo de quais escolhermos. A depressão, por sua vez, está envolvida em inúmeras outras doenças: demências, infecções, enxaqueca, esclerose múltipla, doença de Parkinson, tumores, derrames, diabetes, hiper e hipotireoidismo, hiper e hipocalcemia, influenza, mononucleose, pneumonia, artrite reumatóide, lupus eritematoso sistêmico, tuberculose, anemia, apneia, câncer, etc.

Não é incrível que as próprias coisas que a pessoas fazem para preservar seu bem-estar e liberdade são as que as fazem perdê-los mais rápido? Comer o que parece mais gostoso para o apetite mal-acostumado, ouvir e assistir o que desperta nossas emoções e sentidos e não nosso bom senso, até mesmo permitir que nossos sentimentos mais institivos, como raiva, medo, inveja, preguiça e cobiça nos dominem, tudo isso faz com que nossa qualidade de vida e nossa capacidade de discernir bem se enfraqueçam. O resultado vamos sentir aos 60, 70 ou 80 anos, dependendo de quanto nossos antepassados enfraqueceram a carga genética que nos doaram. Quantos se orgulham de sua posição e realizações pessoais, quantos se julgam inteligentes ou importantes, quantos não pensam no dia depois de amanhã?

Quando chega a doença e a velhice, a voz, a mente e o corpo se tornam muito fracos para advertir as próximas gerações e, mesmo que eles pudessem fazê-lo, quantos ouviriam? A pessoa nem mesmo têm consciência clara do que está acontecendo com ela. Tenho visto muito frequentemente pessoas aos pedaços, mal subsistindo e, descubro que aqueles fragmentos humanos foram médicos, advogados, juízes, empresários, assim como operários, donas de casa, empregadas domésticas. Não importa quem você seja ou tenha sido, porque quando os hábitos cobram seu preço, todos se tornam apenas sombras daquilo que um dia foram. E podem culpar apenas a si mesmos.

[1] Como Sair da Depressão - Prevenção, tratamento e cura. Neil Nedley.

domingo, 12 de agosto de 2012

Dieta e Saúde


Recentemente, terminei de ler um livro sobre a relação entre dieta e saúde: The China Study[1]. Os autores deste livro foram o Dr. T. Colin Campbell e seu filho Thomas Campbell. O Dr. Campbell é bioquímico e especialista em nutrição e seus efeitos sobre a saúde a longo prazo. Ele é professor emérito de Bioquímica Nutricional na Cornell University e tem recebido muitos fundos para pesquisa peer-reviewed (revisada por especialistas). Ele já escreveu mais de 300 artigos de pesquisa para revistas especializadas, trabalhou como conselheiro senior de ciências no American Intitute for Cancer Research (1993-1997), faz parte da comissão consultiva do Comitê de Médicos para Medicina Responsável e, desde 1978, ele tem participado de diversos painéis especializados em segurança alimentar da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, além de manter um cargo de professor honorário na Chinese Academy of Preventive Medicine[2]. Seu filho, Thomas Campbell, é médico.

O título de seu livro, The China Study, foi extraído do China-Cornell-Oxford Project, um projeto de pesquisa que durou mais de 20 anos (a partir de 1983), resultado da parceria entre a Chinese Academy of Preventive Medicine, Cornell University e University of Oxford. O Dr. Colin foi um dos diretores deste projeto, que foi considerado pelo New York Times, em 1990, como "o Grand Prix da epidemiologia". Este estudo examinou taxas de mortalidade devidas a dezenas de tipos de câncer e outras doenças crônicas em 65 distritos na China e correlacionou-as com pesquisa sobre dieta e testes sanguíneos de milhares de pessoas nestes distritos (100 pessoas de cada distrito). O estudo concluiu que as mais altas taxas de mortalidade pertenciam aos distritos em que a dieta era mais baseada em alimentos de origem animal (carnes, ovos, leite e derivados), enquanto que, nos distritos em que a alimentação era mais baseada em alimentos vegetais integrais, as taxas de mortalidade eram menores. As taxas de mortalidade maiores eram devidas a doenças ditas "ocidentais", porque correspondiam às doenças responsáveis por altas taxas de mortalidade nos países mais ricos do ocidente. O estudo foi realizado nestes distritos pelo fato de eles possuírem uma população geneticamente semelhante que tendia a manter o mesmo estilo de vida ao longo de gerações: viviam do mesmo modo, no mesmo lugar e com uma dieta específica.

A atenção do Dr. Campbell para uma dieta mais ao estilo vegetariano, foi despertada, pela primeira vez, enquanto ele trabalhava em um projeto de nutrição para crianças subnutridas nas Filipinas, no final da década de 1960. Ali ele descobriu que crianças bem jovens estavam morrendo de câncer de fígado, o que ele correlacionou com o alto consumo de manteiga de amendoim contaminada por aflatoxina. Ele verificou, no entanto, que as crianças mais bem alimentadas, as que consumiam uma dieta mais rica em proteínas de origem animal, eram as mais afetadas pelo câncer de fígado, ao contrário das crianças mais pobres, que também utilizavam a manteiga de amendoim, mas tinham uma dieta mais pobre em proteína animal. Nesta época, ele se deparou com um estudo realizado na Índia[3], que consistiu em um experimento sobre desenvolvimento de câncer de fígado e consumo de proteína animal em dois grupos de ratos de laboratório. Um dos grupos recebeu aflatoxina e foi alimentado com 20% de proteína. O outro grupo recebeu a mesma quantidade de aflatoxina e 5% de proteína. Todos os ratos alimentados com 20% de proteína desenvolveram câncer de fígado ou lesões precursoras de câncer. Todos os ratos que foram alimentados com 5% de proteína não desenvolveram câncer de fígado ou lesões precursoras.

Mais tarde, o Dr. Campbell recebeu fundos para investigar o efeito de vários fatores sobre o metabolismo da aflatoxina. No início da pesquisa, ele levantou a hipótese de que a proteína que consumimos altera o crescimento de tumores por mudar como a aflatoxina é detoxificada por enzimas presentes no fígado. Após vários experimentos ficou claro que o nível de ingestão de proteína modificava a atividade enzimática: diminuir a ingestão de proteína (caseína do leite) diminuía muito a atividade enzimática, o que significa que menos aflatoxina estava sendo transformada no perigoso metabólico que tem o potencial de se ligar ao DNA e mutá-lo (potencial de causar câncer). Ele realizou, também,  estudos sobre os efeitos da aflatoxina no desenvolvimento de câncer de fígado em humanos nas Filipinas (e na China, posteriormente) e diversos estudos em animais. Nos estudos em animais, ele investigou  a iniciação, promoção e desenvolvimento de câncer em ratos alimentados com dieta rica em proteína animal comparada a dieta pobre. A proteína animal utilizada foi caseína (a proteína mais abundante no leite de vaca). Nestes estudos ele verificou que uma dieta com quantidade de 20% de proteína (caseína) promovia o desenvolvimento de células precursoras de câncer (células foci) pela aflatoxina em ratos de laboratório mesmo quando a quantidade de aflatoxina era menor do que no outro grupo. Por outro lado, a dieta mais pobre em caseína, mesmo com maior quantidade de aflatoxina, não promovia o desenvolvimento de células precursoras de câncer. Quando os animais eram expostos a uma determinada quantidade de aflatoxina e recebiam 20% de caseína as células precursoras de câncer se desenvolviam, mas quando a dieta era trocada para uma proporção de 5% de caseína o desenvolvimento era acentuadamente diminuído. Se a dieta era revertida novamente a 20% de caseína as células voltavam a se desenvolver. Em outro experimento, quando a dieta de 20% de caseína era trocada por uma com 5% de caseína o desenvolvimento de células precursoras de câncer diminuía dramaticamente. Quando a dieta era novamente aumentada para 20% de caseína, as células voltavam a se desenvolver. Vários experimentos deste tipo demonstraram que o crescimento destas células podia ser revertido para mais e para menos dependendo da quantidade de caseína consumida e isto em todos os estágios de desenvolvimento das células. Outros resultados demonstraram que até 10% de ingestão de caseína não desenvolvia as células precursoras de câncer, mas a medida em que a proporção da ingestão aumentava além dos 10%, o desenvolvimento das células aumentava proporcionalmente ao crescimento no consumo de caseína. A descoberta mais significativa destes experimentos foi a de que o desenvolvimento das células precursoras de câncer só ocorria quando o consumo de caseína alcançava ou excedia a quantidade de proteína  requerida para o desenvolvimento do corpo (12%). Esta descoberta é notável pelo fato de que a quantidade de proteína necessária para manutenção da saúde em ratos e humanos é semelhante. O tipo de proteína consumida também influenciava o desenvolvimento das células precursoras de câncer. Proteínas de origem vegetal, como glúten e proteína de soja, não promoviam o desenvolvimento destas células mesmo na proporção de 20%. A relação entre desenvolvimento de tumores em ratos alimentados com 20% de caseína e com 5% foi idêntica a dos experimentos com desenvolvimento de células foci (precursoras de câncer). Quando as dietas eram trocadas de um consumo de 20% de caseína para 5% e vice-versa os resultados para o desenvolvimento de tumores foi o mesmo que para o desenvolvimento de células foci. No final dos experimentos, todos os ratos que foram alimentados até o fim com 20% de caseína estavam mortos ou quase mortos, enquanto os que foram alimentados com 5% de caseína estavam vivos. Pesquisas realizadas com outros animais (como camundongos, por exemplo), outros tipos de câncer (que não o de fígado) e outros carcinógenos (além de aflatoxina) encontraram resultados semelhantes aos das pesquisas com ratos, câncer de fígado e aflatoxina.

O livro também descreve os resultados de pesquisas sobre a influência do consumo de proteínas de origem animal sobre diversos tipos de doenças versus os efeitos de uma dieta baseada em vegetais integrais [4].
Com relação ao aumento do colesterol sanguíneo, pesquisas indicam uma correlação entre aumento de colesterol sanguíneo e o consumo de gordura saturada, proteína animal e colesterol, enquanto que o consumo de vegetais, que não contêm colesterol, ajuda a diminuir a quantidade de colesterol produzida pelo organismo[5]. Os alimentos de origem vegetal contêm uma grande quantidade de antioxidantes que eliminam radicais livres implicados no desenvolvimento de várias doenças, os alimentos de origem animal, por outro lado, têm efeitos negativos sobre o sistema imunológico: a proteína animal aumenta a acidez do sangue e dos tecidos fazendo com que cálcio (básico) seja retirado dos ossos para neutralizar esta acidez. A maior concentração de cálcio no sangue inibe processos pelo qual a vitamina D é ativada a calcitriol nos rins. O calcitriol fica assim indisponível para regular o sistema imunológico. Esta relação entre proteína animal e sistema imunológico poderia explicar os resultados de pesquisas que demonstram um maior desenvolvimento de Diabetes do tipo I em bebês alimentados com leite de vaca ao invés de leite materno[6-8]. Outras doenças auto-imunes, como artrite rematóide e esclerose múltipla, poderiam compartilhar esta como uma de suas causas. Os autores deste livro argumentam que doenças como demência e Alzheimer estão ligadas a hipertensão, altos níveis de colesterol sanguíneo e radicais livres, os quais são evitados por uma dieta vegetariana e agravados por uma dieta de origem animal. Eles argumentam que o câncer de mama está ligado a uma exposição a maiores concentrações de hormônios femininos ao longo da vida e a alta concentração de colesterol sanguíneo, os quais estão ligados, por sua vez, a uma dieta rica em proteína animal, especialmente em caseína do leite. A exposição média, ao longo da vida, ao hormônio estrogênio, de mulheres chinesas é de 35% a 40% em comparação com a de mulheres ocidentais. E a taxa de câncer de mama daquelas é cerca de um quinto da taxa entre estas. Uma menor taxa de câncer colorretal estaria associada com uma alimentação vegetariana rica em fibras. Outras doenças mencionadas no livro que poderiam ser evitadas ou atenuadas por uma dieta vegetariana e causadas ou agravadas por uma dieta baseada em proteína animal são degeneração macular, doença cardíaca e obesidade, cálculo renal e osteoporose. Cálculo renal e osteoporose são afetados pela questão de a alimentação de origem animal aumentar a acidez do sangue e retirar cálcio dos ossos para neutralizá-la. Maior quantidade de cálcio e oxalato no sangue  resultam em pedras nos rins, além disso, radicais livres também podem iniciar a formação de pedras nos  rins. No estudo realizado na China rural, onde o consumo de proteína animal em relação ao de proteína vegetal era de cerca de 10%, a taxa de fratura de ossos foi de um quinto da dos Estados Unidos. Infelizmente, descrever todas as pesquisas e conclusões mencionadas no livro deixaria este post muito extenso.

The China Study causou impacto inclusive na vida do ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton[9], que aderiu a um regime vegetariano para perder peso e tentar reverter problemas cardíacos. Muitos acreditam que em uma dieta vegetariana podem faltar elementos essenciais à manutenção da saúde como ferro, zinco, cálcio, vitamina B12 ou aminoácidos essenciais. No capítulo 11, os autores do livro declaram que "não existe virtualmente nenhum nutriente em alimentos de base animal que não sejam melhor fornecidos por vegetais". Para demonstrar isto, eles utilizaram uma tabela de dados de nutrientes cuja fonte de informação é, entre outras, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos[10]. Esta tabela compara os nutrientes de uma certa quantidade de partes iguais de vegetais (tomates, espinafres, feijões lima, ervilhas e batatas) com uma igual quantidade de partes iguais de alimentos de base animal (bife, porco, galinha e leite integral). Nesta tabela os alimentos de base animal só excederam os vegetais em quantidades de gordura e colesterol. A quantidade total de proteína nos alimentos vegetais foi de 33 g para 34 g nos de base animal. A quantidade total de ferro nos vegetais foi de 20 mg para 2 mg nos de base animal. A quantidade total de cálcio nos vegetais foi 545 mg para 252 mg nos de base animal. Os vegetais também excederam bastante os alimentos de base animal em relação às vitaminas antioxidantes. Com relação a vitamina B12, os autores citam uma pesquisa [11] que demonstra que vegetais que crescem em solos saudáveis, que têm boa concentração desta vitamina por causa dos microorganismos do solo, absorvem prontamente este nutriente. Por outro lado, vegetais que crescem em solos sem vida (solos não orgânicos) podem ser deficientes em vitamina B12 (e neste caso, suplementos podem ser necessários). Existem muitos vegetais ricos em zinco, a lista é bem grande. Com relação aos aminoácidos essenciais, embora não se possa obter todos em um único alimento vegetal, uma combinação variada de vegetais pode suprir todos eles. Atualmente fala-se muito nos ácidos graxos do tipo ômega-3, mas seus benefícios podem ser meio controversos. Os autores citam pesquisas[12-13] que apontam benefícios, como reduzir o risco de morte súbita cardíaca, mas, em contrapartida, não reduzem o risco total de infarto nem a mortalidade por problemas cardiovasculares e, de quebra, aumentam o risco de câncer de mama.

Os autores enfatizam que o que as pesquisas têm demonstrado é que uma boa saúde não é resultado do consumo desta ou daquela substância extraída do alimento integral (vitaminas) ou de consumir um alimento sem algum elemento (como leite desnatado). Uma boa saúde é resultado do consumo de alimentos vegetais integrais variados e de pouco ou nenhum consumo de proteína animal. E isto porque existe um sinergismo entre as diferentes substâncias presentes nos vegetais que fazem com que elas sejam melhor aproveitadas pelo organismo do que se fossem consumidas separadamente. Por outro lado, a proteína animal numa proporção acima de 10% pode promover cânceres e outras doenças.

Com certeza, ter uma boa alimentação não é tudo que se pode fazer para se ter uma boa saúde, nem é tudo o que é necessário. Não adianta comer corretamente e não ter atividade física, por exemplo, ou nutrir sentimentos negativos, porque saúde é um bem-estar constituído por vários fatores. Mas o que é animador acerca das informações contidas neste livro é que, mesmo que alguém tenha predisposição genética para doenças como câncer, diabetes e Alzheimer, entre outras, é possível não desenvolver essas doenças; existe uma alta probalidade de não desenvolvê-las mantendo hábitos de vida saudáveis e uma alimentação correta. É possível mesmo impedir o progresso da doença e, inclusive, retrocedê-la.

Por que então podemos lembrar de pessoas com, aparentemente, hábitos de vida e alimentação saudáveis que ficaram doentes e morreram e de outras que fumaram e beberam até os noventa anos e não adoeceram? Porque se conseguíssemos contar todas as pessoas que têm bons hábitos de saúde e não adquiriram doenças graves, essas seriam a maioria, mas não todas. Podemos minimizar nossas chances de adoecer, mas não podemos zerá-las. Desistir de cuidar da saúde por causa disto é praticamente tão absurdo quanto alguém decidir entrar em um jogo de roleta russa com uma arma carregada porque, de qualquer forma, sempre existe a chance de que ao passar pela rua uma bala perdida possa atingi-lo. Essa pode parecer uma atitude totalmente maluca e, no entanto, pessoas sensatas em muitos aspectos, podem utilizar argumentos do tipo: "Vamos todos morrer mesmo, então por que me privar do que me satisfaz?" ou "Vivemos em um ambiente em que tudo está contaminado, então nada do que fizermos vai fazer muita diferença". Com relação à primeira afirmação, o maior problema não é morrer, porque a morte é um sofrimento rápido que acaba logo. O problema é perder a saúde e passar anos vivendo uma vida horrível de sofrimento e imensas limitações. O problema da segunda afirmação é que ela não é verdadeira. É verdade que vivemos em um mundo em que está tudo contaminado? Obviamente sim. Mas é verdade que nada do que fizermos vai fazer diferença? Não, alguns dos dados das pesquisas mencionadas no The China Study demonstraram que não. Por exemplo, ratos expostos a doses altas de substâncias cancerígenas, alimentados com baixas proporções de proteína animal não desenvoveram câncer. Assim como pessoas, que viviam na China e outros lugares, cuja alimentação era predominantemente vegetariana adquiriam menos doenças como câncer, diabetes, problemas cardíacos, obesidade, osteoporose, etc.

É claro que é difícil fazer mudanças em nossos hábitos, mas as mudanças podem ocorrer mais cedo do que pensávamos por não termos mais saúde para desfrutar das coisas de que gostávamos. Por outro lado, podemos ter que deixar coisas que nos parecem boas por outras que descobriremos serem muito melhor.

Isto me faz lembrar de um filme que assisti há alguns anos: um homem rico, bem-sucedido e solteiro, pensava que ele tinha tudo o que queria da vida. Morava em um apartamento de cobertura em um bairro nobre. Tinha sucesso, poder e as mulheres que desejava. Ele achava que era feliz, não queria outra vida. Mas, numa noite de Natal, ele resolve ajudar um homem pobre e este homem, um anjo, lhe diz que sua vida vai mudar. No dia seguinte, em vez de acordar em seu apartamento de luxo, ele acorda em uma casa no subúrbio com uma esposa e 2 filhos. Ele odeia aquela vida e quer voltar para sua vida antiga, mas não pode. Aos poucos, ele começa a admirar a esposa, que é uma advogada talentosa, mas ganha pouco para realizar um trabalho humanitário que lhe traz muita satisfação. Começa a conhecer e amar as crianças e a esposa. Começa a conhecer os amigos verdadeiros e leais que tem naquela vida. Então o tempo acaba e o anjo lhe diz que aquela era apenas uma amostra do que a vida dele poderia ser e ele vai voltar à antiga vida no dia seguinte. Mas a antiga vida então lhe parece vazia e solitária. Ele mudou, descobriu emoções e prazeres que não sabia que existiam. O filme é ficção, mas a lição é real. Mudar nossos hábitos de alimentação pode nos fazer descobrir um mundo novo de sabores, clarear nossas percepções e nos ajudar a ter maior controle sobre nossa vida.

Referências

1. Campbell T.C., and Campbell T.M. "The China Study. The Most Comprehensive Study
of Nutrition Ever Conducted and the Startling Implications for Diet, Weight Loss
and Long-term Health." 2006. BENBELLA BOOKS. Dallas, Texas.

2. http://en.wikipedia.org/wiki/T._Colin_Campbell

3. Madhavan TV, and Gopalan C. "The effect of dietary protein on carcinogenesis of aflatoxin."
Arch. Path. 85 (1968): 133-137.

4. http://en.wikipedia.org/wiki/The_China_Study_(book)

5. Kato H, Tillotson J, Nichaman MZ, et al. "Epidemiologic studies of coronary heart disease
and stroke in Japanese men living in Japan, Hawaii and California: serum lipids and diet."
Am.]. Epidemiol. 97 (1973): 372-385.

6. KaIjalainen j, Martin jM, Knip M, et al. "A bovine albumin peptide as a possible trigger of
insulin-dependent Diabetes Mellitus." New Engl.Journ. Med. 327 (1992): 302-307.

7. Akerblom HK, and Knip M. "Putative environmental factors and Type 1 diabetes." Diabetes
Metabolism Revs. 14 (1998): 31-67.

8. Naik RG, and Palmer jP. "Preservation of beta-cell function in Type 1 diabetes." Diabetes Rev.
7 (1999): 154-182.

9. http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/northamerica/usa/8038801/Bill-Clintons-new-diet-nothing-but-beans-vegetables-and-fruit-to-combat-heart-disease.html

10. U.s. Department of Agriculture. "USDA Nutrient Database for Standard Reference." Washington,
DC: U.s. Deparunent of Agriculture, Agriculture Research Service, 2002. Accessed at
http://www.naI.USDA.gov/fnidfoodcomp

11. Mozafar A. "Enrichment of some B-vitamins in plants with application of organic fertilizers."
Plant and Soil 167 (1994): 305-311.

12. Albert CM, Hennekens CH, O'Donnell C), et aL "Fish consumption and risk of sudden cardiac
death," lAMA 279 (1998): 23-28.

13. Holmes MD, Hunter Dj, Colditz GA, et al. "Association of dietary intake of fat and fatty acids
with risk of breast cancer." JAMA 281 (1999): 914-920.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Guerra Cósmica

Eu tenho escrito algumas vezes neste blog sobre temas relacionados à
história da religião em nosso mundo, especialmente da religião bíblica.
Do meu ponto de vista, eu diria até, do ponto de vista de quem tem uma
visão panorâmica da história e profecias bíblicas, tudo o que
aconteceu ou ainda irá acontecer neste planeta é perfeitamente
coerente e, até certo ponto, previsível. Um problema insolúvel para muitos, mesmo para alguns que supostamente têm um conhecimento razoável dos textos bíblicos, é a questão da existência de sofrimento e injustiça em um Universo que teria sido criado por um Deus bom. Como e por que um Deus bom e totalmente poderoso poderia ter deixado estas coisas acontecerem?
No contexto da Bíblia, independente de alguém crer ou não nela, podem ser encontradas respostas coerentes para questões como esta acima?
Neste post pretendo começar a mencionar algumas das principais bases para entendermos a explicação e a solução bíblica para esses problemas.

A ficção está cheia de relatos de guerras cósmicas, "Guerra nas
Estrelas" (Star Wars) é o exemplo mais contemporâneo e famoso de que
me recordo. A ficção é interessante não pela própria ficção, mas
pelo que ela nos ensina sobre a mente de seus autores. A maioria das
histórias de ficção começa com razoável tranquilidade, de forma a nos
familiarizarmos com personagens e ambiente, suscita uma crise ou
problema a ser resolvido e termina com algum tipo de solução boa ou
não. Isto demonstra um esquema básico subjacente na mente da quase
totalidade dos autores de ficção. Alguém já leu ou assistiu a alguma
história de ficção em que tudo esteja bem do início ao fim da história?
Já pararam pra pensar por que isto acontece? Provavelmente muito
poucos leriam ou assistiriam a essa história. Por um lado, a mente
humana sente necessidade de resolver problemas e, por outro, não
existiria o mínimo de identificação. Ninguém vive em um "mar de
rosas", mas todo mundo desejaria viver. A ficção tem apelo com base
em nosso desejo de resolver desafios.

Esse esquema básico - início tranquilo, crise e
resolução - que encontramos nos relatos de ficção e que parece fazer parte de nosso inconsciente coletivo já se encontra em um relato muito antigo: o da Guerra cósmica.

Podemos encontrar essa história na Bíblia (mas não exclusivamente
nela). Seus detalhes podem ser encontrados ao longo da Bíblia toda: de
Gênesis ao Apocalipse. Recuando o máximo possível na história
bíblica do Universo nos deparamos com o livro de Provérbios, capítulo
8. Ali encontramos a sabedoria falando aos homens em primeira pessoa
como a obra mais antiga de Deus: "O Senhor me criou como a primeira das
suas obras, o princípio dos seus feitos mais antigos. Desde a
eternidade fui constituída, desde o princípio, antes de existir a terra."
Versos 22 e 23. O texto prossegue enumerando itens que foram criados
na Terra. Mas esta primeira coisa criada, constituída desde a
eternidade, tem a ver com os planos de Deus ao estabelecer planetas
com seres vivos, o "know-how" ou sabedoria envolvidos. A eternidade
refere-se à situação em que unicamente Deus pode estar: fora do espaço-tempo.
Este conceito de espaço-tempo é bastante recente, de forma que os
escritores hebreus do Antigo e Novo Testamentos não tinham como
entendê-lo. No entanto, o escritor do livro de Hebreus emprega uma
palavra (grega, que era a língua mais popular nos tempos do Novo
Testamento) que podemos relacionar com este conceito no capítulo 11,
verso 3: "Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de
Deus; de modo que o visível não foi feito daquilo que se vê." A
palavra que é aqui traduzida como "mundos" é, transliterando,
"aionas". Esta palavra é traduzida como século(s), para sempre, eternamente
ou mundo(s) nos textos bíblicos (Mat 6:13, Lucas 1:33,
Romanos 1:25; 9:5; 11:36; 16:27
2 Cor 11:31, Gal 1:5, Filip 4:20, 1 Tim 1:17, 2 Tim 4:18,
Heb 1:2; 11:3; 13:8; 13:21, 1 Pe 4:11; 5:11, Judas 1:25,
Apoc 1:6,18; 4:9,10; 5:13,14; 7:12; 10:6; 11:15; 14:11; 15:7; 19:3; 20:11; 22:5), ou seja, traduz a idéia de tempo e, por implicação,
em alguns textos, de espaço. Até aqui vimos que na Eternidade Deus elaborou a sabedoria subjacente ao plano básico de mundos com seres vivos, depois Ele criou "aionas" ou espaço-tempo (no Big Bang). Então utilizou esta infra-estrutura (espaço-tempo)
para criar mundos ou planetas. O nosso não teria sido
o primeiro mundo a ser criado, pois quando ele o foi, outros seres já
existentes se alegraram: "Onde estavas tu, quando eu lançava os
fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento...quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de
Deus bradavam de júbilo?" Jó 38:4-7. Este texto diz que outros seres que não eram seres humanos se alegraram quando a Terra foi criada: "estrelas da manhã" e "filhos de Deus". Estrela é uma palavra utilizada na Bíblia como símbolo para anjo (Apocalipse 1;20, Isaías 14:12-13), filhos de Deus seriam outros seres inteligentes que não os humanos. A Bíblia descreve um lugar onde seria a sede do governo de Deus neste Universo, o Céu (poderia ser um planeta), em que viveriam os anjos com Deus (1 Reis 8:39, Prov. 11:4, Salmo 103:19, Isaías 37:16, Isaías 6:1-2, Apoc 4:1-3 e 5:11). A palavra anjos é a tradução de uma palavra grega que significa mensageiro. Anjo é uma função que uma classe de seres inteligentes de diferentes espécies exerce no governo de Deus. A guerra cósmica que inspirou o título deste post é relatada na Bíblia como tendo começado neste local entre esta classe de seres inteligentes.
Uma característica dos seres inteligentes é a liberdade de escolha. Um universo sem liberdade de escolha por parte dos seres inteligentes seria um universo de autômatos sem vontade própria.

Poderíamos nos perguntar por que Deus (segundo a Bíblia, uma entidade formada por 3 pessoas: Gên. 1:2, 26; João 1:1-3; Mateus 28:19) teria tido o desejo de criar seres com vontade própria semelhantes a Ele? Em Isaías 43:7 é-nos dito que Ele criou pessoas para Sua glória e em Êxodo 33:18 e 19, Deus diz a Moisés que Sua glória é Sua bondade. Portanto, parece plausível entender-se que, em Sua bondade, Deus desejou compartilhar Sua felicidade com outros seres. Para que eles pudessem existir era preciso que possibilidades matemáticas se concretizassem na física, química e biologia de universos que tiveram de ser inventados.

Mas seres inteligentes teriam a possibilidade de se opor ao governo de Deus? Essa era uma possiblidade que não poderia ser descartada se a liberdade de escolha tivesse que ser preservada a qualquer custo. E, de fato, a Bíblia diz que isto ocorreu. A história é contada ao longo da Bíblia toda, no Antigo e Novo Testamentos. Ezequiel 28:11-15 conta a história de um anjo (querubim) sob a forma de uma lamentação sobre o rei de Tiro. É dito que ele era perfeito até que se achou nele iniquidade. Em Isaías 14:12-15, é dito que este anjo (estrela da manhã) cobiçou a posição de Deus (Seu poder e não Seu caráter). Também é dito que ele se tornou o pai da mentira e contudo se apresenta como anjo de luz com aparência de justiça (João 8:44, 2 Cor 11:14 e 15). Com mentira e aparência de justiça ele teria conquistado a simpatia de outros anjos e iniciado uma guerra na sede do governo de Deus em nosso universo (Apocalipse 12:7-9) e também, mais tarde, através do engano, arrastado os primeiros seres humanos em sua rebelião (Gên 3). Como ele e os anjos que o seguiram não se apresentam como são, mas enganam e se fazem de seres de luz, eles têm, desde há muito tempo, se comunicado com os seres humanos como espíritos de pessoas mortas (Deut 32:17, Salmo 106:28).

Esse anjo, mais tarde conhecido como Satanás, podia usar uma arma desconhecida até ali por outros seres inteligentes: o engano. Esta era uma arma que Deus não podia utilizar, pois é contrária a Seu caráter (Neemias 9:13, Salmo 25:10, Salmo 119:160). Deus só podia utilizar a verdade, amor e justiça nesta guerra. Podia eliminar os rebeldes no princípio da rebelião, mas uma vez que decidiu que existisse a liberdade de escolha não podia evitar que se rebelassem se assim o desejassem. Os seres inteligentes não conheciam o mal e seus resultados, eliminá-lo prematuramente apenas faria com que as criaturas servissem a Deus por medo e não por amor. A luta entre o bem e o mal deveria se desenvolver para que todos os seres inteligentes pudessem decidir voluntariamente. As consequências de escolher o mal deviam ser patenteadas aos olhos de todo o universo (1 Cor. 4:9, 1 Pedro 1:12). A Terra se tornou o campo de batalha porque foi o único planeta a se unir aos anjos em rebelião. Mas Deus planejou um meio de resgatar os seres humanos. Esta história continua.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Misticismo X Racionalidade: a religião na história contemporânea

Vimos, nos posts anteriores sobre misticismo X racionalidade que - utilizando uma definição do termo "religião" baseada no seu sentido original - todos os seres humanos são religiosos, ou se tornam "ligados" a algo; as histórias contadas no Antigo Testamento hebraico já eram conhecidas por povos de diferentes culturas ao redor de todo o globo mesmo antes de terem sido escritas pelos escritores hebreus; a religião praticada pelos cristãos durante a Idade Média era baseada na superstição e fundada na autoridade humana e, finalmente, a religião que emergiu durante a Reforma protestante, baseada na Bíblia, lançou as bases da Idade Moderna.

Mas a libertação que veio com a mudança nos parâmetros religiosos da Idade Média e que fez o mundo ocidental acordar para princípios como igualdade, individualidade e racionalidade, não foi naturalmente seguida por um mundo mais humano, racional e livre, apesar das filosofias humanistas e racionalistas. O quadro histórico que temos diante de nós é o da Revolução Francesa, que conquistou a liberdade e exaltou a Razão através de extrema violência e derramamento de sangue, as duas Grandes Guerras, o nazismo, o facismo, o marxismo na Rússia, as ditaduras militares, guerra fria, terrorismo, etc.

Porque o que temos diante de nós, comparando o mundo medieval com o mundo moderno, não é a oposição entre um mundo que seguia o cristianismo e a religião bíblica e um mundo que se libertou deste modelo e partiu em busca do progresso e desenvolvimento humanos. O que temos é um mundo que abandonou os princípios bíblicos (a Bíblia era um livro quase extinto na maior parte do período medieval), abandonou os princípios do cristianismo, colocou a autoridade de um ou poucos homens no centro, mas manteve os nomes e palavras relacionados ao cristianismo e à Bíblia enquanto matava seu verdadeiro significado. A Reforma despertou o mundo para o que estava acontecendo, mas, como eu disse antes, a religião bíblica é uma religião que raramente foi praticada ao longo da história da humanidade e, diga-se de passagem, sempre suscitou extrema oposição. No mundo moderno aconteceu algo semelhante, foram mantidos alguns dos ideais reativados pelo cristianismo, como igualdade, racionalidade e liberdade, mas a Bíblia e o Cristo que os fizeram reacender foram rejeitados. Como resultado, o homem foi colocado no centro novamente, não um ou poucos, mas o conceito de ser humano, enquanto o ser humano real continuou oprimido e escravizado por outros ou por si mesmo (vícios, crimes, ambição, loucura, etc).
E o que acontece com o mundo contemporâneo? Ele progrediu muito em termos materiais, sem dúvida, o conhecimento e tecnologia desenvolvidos não são igualados em nenhuma época anterior. Porque Ciência, o Método Científico em funcionamento, não recompensa a nenhum tipo específico de pessoa, sabendo-se usá-lo corretamente ele funciona, não vai discriminar ninguém pela raça (nazismo, racismo), nem pelas posses (capitalismo selvagem), nem pelo sexo (machismo, feminismo, homofobia) e nem pela filosofia (evolucionismo, criacionismo). Ciência é simplesmente um método pra se conhecer as coisas.

Mas em relação a religião, o mundo está voltando a Idade Média: misticismo, superstição e magia retornaram com força total. Na prática, não importa de que lado da balança o mundo esteja, uma coisa básica não muda: a ênfase no que o homem pode realizar por seus próprios esforços.

Não me entendam mal, por seus esforços o homem pode muita coisa e é desejável, mesmo necessário, que ele se esforce para produzir, conhecer, vencer obstáculos e melhorar a si mesmo e a outros, mas em termos de conseguir ultrapassar seu egoísmo natural (fonte dos piores males que afligem a humanidade), ele é totalmente impotente em seus esforços.

Entre as implicações das considerações acima se encontra o problema de se supor que se está sendo totalmente racional quando existem conceitos anteriormente aceitos que interferem no raciocínio, especialmente quando este não se baseia explicitamente no método científico, ou seja, em métodos matemáticos.

Em oposição às soluções humanas para o problema do egoísmo, a solução bíblica é uma nova criação do ser humano segundo Deus, a qual não produz uma justiça meramente exterior de um cidadão aparentemente exemplar, mas altera os motivos e intenções do coração ("e a vos revestir do novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade" Efésios 4:24).

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Deus existe? A Evolução é um fato?

Pretendo terminar a série de posts "Misticismo X Racionalidade". Mas antes de continuar sobre o tema, pretendo dar uma pausa para considerar estas questões acima. Elas poderiam ser consideradas em posts separados, pois são dois assuntos diferentes. Crer em um Deus não implica em não crer na Evolução e acreditar na Evolução não implica em não crer em um Deus. Mas estou colocando estas duas questões juntas porque até a divulgação da “Origem das Espécies” de Charles Darwin não se considerava haver contradição entre a crença em Deus e a Ciência. Inclusive a maioria dos primeiros cientistas, daqueles que descobriram o método científico, como Galileu, Newton, Da Vinci e outros, criam em Deus e essa crença os induziu ao desenvolvimento do método cientifico, que é um tema para um post futuro. Foi somente depois que a “Origem das Espécies” ganhou status de “teoria científica” que a crença em Deus passou a ser algo a ser estigmatizado pelo que se acredita ser a maioria acadêmica, embora se estime que cerca de 2/3 dos cientistas atuais creiam em Deus (www.msnbc.msn.com/id/8916982/ns/technology_and_science-science/t/scientists-belief-god-varies-discipline/). Na verdade, as questões acima se desdobram em várias outras, mas eu resumiria tudo em quatro questões principais: Existem boas razões para crer na existência de Deus? Existem boas razões para não crer? A Evolução pode ser considerada um fato? Existem evidências contrárias?


Com relação as duas primeiras questões, eu pretendo enumerar algumas razões para elas que costumam ser mais comuns, mas com certeza, não tenho a pretensão de esgotar o tema. Com relação às duas últimas, é importante definir os significados das palavras “fato”, “evidência” e “ciência”, entre outras.


Procurei na internet algumas estatísticas de quantas pessoas ao redor do mundo creem em algum deus. Concluí, se elas estão corretas, que acima de 75% das pessoas, mais ou menos, acredita em algum tipo de deus. Não é preciso muita habilidade para perceber isso. A maioria das pessoas têm alguma forma de religião que propõe alguma forma de divindade ou ser superior. Maioria pode ser considerado um bom argumento para muitos; essa é uma razão que muitos costumam apresentar para suas atitudes e crenças. Pessoalmente, considero essa uma péssima razão. Basta pesquisar um pouco a história do mundo para perceber como as maiorias estiveram erradas em incontáveis exemplos através da história. Por muito tempo, maiorias acreditaram que a Terra fosse o centro do Universo, que a vida podia surgir de restos orgânicos, que mulheres eram menos capazes que os homens, entre outras ideias que já prevaleceram nas sociedades. Maiorias podem decidir eleições, mas não garantem que as escolhas sejam as melhores. Uma razão aparentemente boa para não se crer em Deus seria o fato de não se poder vê-lo ou tocá-lo.

Contudo, muitas tecnologias utilizadas em nosso mundo estão baseadas em teorias que são abstratas e das quais podemos apenas ter evidências. É o caso da relatividade, mecânica quântica e outras teorias. Mas, antes de prosseguir com estas duas questões, consideremos, por um momento, as questões relativas a definições de palavras e Evolução.


As definições para “fato”, encontradas em dicionários, são do tipo algo “real” ou “verdadeiro”, “que existe”. Já “evidência”, no contexto científico, é uma informação que altera a probabilidade de hipóteses relevantes. Portanto, uma evidência favorável a uma hipótese aumenta a probabilidade dessa hipótese se confirmar. “Ciência” seria o método científico em funcionamento, o qual consiste, basicamente, em observação controlada (observação preliminar, planejamento da coleta de informações, coleta de informações, elaboração de dados a partir das informações coletadas, tudo isso seguindo critérios da Estatística e da Teoria da Informação) e sistematização formal, que é o processo de elaborar e utilizar modelos matemáticos que expressem aspectos do assunto em estudo1. Normalmente, em Ciência, as coisas raramente podem ser ditas como “provadas”, mas geralmente, a maior parte dos dados ou leis obtidos em Ciência são evidências para algo. Assim, considerando a evolução das espécies, como proposta por Charles Darwin e posteriormente corrigida para o Neodarwinismo, do ponto de vista da definição de Ciência proposta acima, ela está, basicamente, restrita à primeira parte do método científico apenas, pois não existe um modelo matemático abrangente do qual surjam naturalmente as proposições evolutivas ou que faça uso formal (matemático) delas: mutações e seleção natural2. E isto não entra no mérito de elas serem ou não boas ideias, apenas que não se encaixam na plenitude do método científico, como fazem, por exemplo, a Relatividade Geral, a Mecânica Quântica, etc. Com respeito a evidências, por exemplo, as que serviriam para solidificar hipóteses como o ancestral comum ou as modificações sofridas até se obter a diversidade de seres existentes hoje são praticamente inexistentes ou duvidosas. Por exemplo, o registro fóssil não apresenta as diferentes graduações até as formas atuais, salvo algumas poucas formas que poderiam ser consideradas como intermediárias. O que se observa é não uma evolução gradual até os estágios atuais, mas quase todo o tempo dado para a idade da Terra com poucas formas de vida e, de repente, no período Cambriano, uma explosão de formas de vida complexas. Ou seja, repentinamente, aparece uma multidão de formas de vida complexas sem nenhuma forma intermediária anterior aparente. E quanto ao ancestral comum, por exemplo, ele teria supostamente surgido de uma célula primordial que teria descendido de algum grupo de moléculas orgânicas originais, RNAs primitivos ou um ciclo metabólico simples, coisas que se têm demonstrado em experimentos de laboratório altamente improváveis. O maior argumento a favor da Evolução é que a maioria acadêmica aceita esta hipótese. E a realidade é que este é motivo suficiente para muitas pessoas.


Voltando às questões sobre a existência de Deus, uma pergunta comum que é feita por muitos que não acreditam nEle é a seguinte: Se Deus existe e criou tudo, quem criou Deus? Esta pergunta, em termos de lógica, é semelhante a que os antigos faziam sobre o nosso planeta: o que acontece quando chegamos ao fim do mundo: podemos cair da borda da Terra? Em outras palavras: este tipo de pergunta apenas demonstra nossa falta de conhecimento para lidar com o assunto: essas perguntas não fazem sentido quando se entende a realidade; precisam ser modificadas. Deus, não sendo limitado por tempo e espaço e existindo além deles, não pode ser sujeito às mesmas leis físicas que nós. Não se pode falar em criação (algo que supõe tempo) do que existe for a do espaço-tempo. Outra questão comumente apresentada é quanto à presença do mal ou sofrimento: se Deus existe por que permite as guerras ou as doenças ou a injustiça? A resposta para este tipo de questão requer considerações de mais alto nível do que a anterior e não pode ser encontrada simplesmente pelo estudo da Natureza. A Bíblia apresenta a resposta para esta questão. A resposta, resumidamente, é que a presença do mal em nosso planeta é o resultado da escolha dos ancestrais humanos. A eles foi dada a liberdade de escolherem o governo de Deus ou não no planeta. A escolha contrária ao governo de Deus, cujas leis promoveriam o máximo bem-estar no planeta, significou que as coisas não funcionariam mais como planejadas, e isto implicou em mau funcionamento que gera sofrimento e injustiça. Mas por que Deus permitiu que isso acontecesse? - muitos perguntam. Porque Ele não queria que os seres humanos fossem autômatos programados para fazerem o que os programou para fazer, queria que eles fossem semelhantes a Ele, capazes de fazer escolhas inteligentes, capazes de amar por entendimento e livremente. Ele previu o que aconteceria com a humanidade e providenciou um plano para corrigir o mal, o qual está em andamento. É verdade que há muito sofrimento na Terra, muitos sofrem sem causa, mas em muitos casos, as pessoas que sofrem trouxeram sobre si mesmas o sofrimento por seus maus hábitos, por suas escolhas. No plano de Deus para corrigir o mal, Ele sofreu (na pessoa de Jesus Cristo) mais do que qualquer ser humano jamais sofrerá. Sobre Ele foi colocada a culpa por toda transgressão já praticada no planeta. Sob o peso dessa culpa seu coração se rompeu e quando os soldados romanos retiraram o corpo da cruz, uma lança rasgou o peito de Jesus e dali saiu “sangue e água” (João 19:34). Agora, imagine essa história, por um momento: todas as divindades em todas as culturas recebem a adoração de seres humanos e todas concedem dons ou favores, mas todas permanecem na sua esfera superior ou se elas viessem a Terra não seria para serem pobres, sofredoras ou rejeitadas, mas principalmente, não viriam para pagar por um crime que não cometeram, muito menos por todos os crimes já cometidos. E por que tudo isso? Para colocar o ser humano novamente na sua condição original, por amar tanto essas criaturas que formou que não deseja perdê-las apesar do que elas trouxeram sobre si mesmas. De um ponto de vista egoísta, seria mais fácil deixar estas criaturas simplesmente morrerem conforme elas escolheram.


Já um cientista chamado Maupertuis inspirado na ideia de que tudo o que Deus faz é perfeito descobriu o princípio da ação mínima, do qual derivam todas as leis da Física.


Existem, com certeza, muitas questões que poderiam ser adicionadas aqui, mas como disse, não pretendo esgotar o assunto. Mas gostaria de acrescentar alguns motivos para acreditar em Deus.


Porque a vida não parece ter-se originado por acaso (seguindo meramente leis químicas e físicas), isto tem-se demonstrado altamente improvável.


Porque a história tem seguido em detalhes (até com datas específicas) previsões das profecias bíblicas.


Porque a fé no Deus bíblico está por traz dos melhores avanços da humanidade, como a observação da natureza, o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento do método científico e, acima de tudo, regeneração da humanidade.

1O Método Científico. Eduardo F. Lütz

2Entenda-se que não estou me referindo a alguns cálculos matemáticos, mas a um modelo matemático abrangente para a Evolução das Espéicies.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Misticismo X Racionalidade: A Religião na Idade Moderna

É um pensamento comum em nosso tempo o de que o retorno ao estudo dos clássicos gregos e latinos, nos últimos séculos da Idade Média, com o consequente despertamento cultural e o surgimento dos ideais humanistas e, posteriormente, racionalistas, tenham colocado o mundo em uma nova rota de desenvolvimento científico, valorização da razão, dos direitos humanos, liberdade e igualdade. Nesta perspectiva, a Reforma teria sido apenas mais um movimento de emancipação que acompanhou as tendências da época.

Um estudo cuidadoso da história, no entanto, nos mostra que embora o retorno ao estudo dos clássicos gregos e latinos tenha dado um impulso a Reforma por possibilitar a leitura do Novo Testamento em sua língua original, o grego, o desenvolvimento científico (a partir da descoberta do método científico), a valorização da razão, direitos humanos, liberdade e igualdade são valores que provêm antes do retorno à religião bíblica durante a Reforma do que do mero estudo dos clássicos. Eu não pretendo apenas afirmar isto aqui. Eu gostaria de convidar aqueles que me lêem a um passeio pela história dentro de nossas limitadas possibilidades.

Antes de iniciarmos nosso passeio, convém abrir parênteses para enfatizar uma diferença crucial existente entre a religião bíblica e qualquer outra forma de religão, pensamento ou filosofia de vida. (Isto precisa ser dito, creiamos ou não na Bíblia como uma fonte confiável de informação,' para que os eventos históricos referentes a Reforma possam ser entendidos.) A ênfase de todos os tipos de religiões que não têm a Bíblia como único fundamento em questões de fé é posta sobre o que o homem pode realizar para alcançar benefícios, vida após a morte, iluminação ou o que seja. Seja por meio de sacrifícios, boas obras, esforços, peregrinações, meditações, etc. Filosofias de vida diferentes, não importa quão diferentes entre si, sempre se centralizam em coisas que os seres humanos podem realizar e experimentar. A religião bíblica (aquela que se baseia unicamente no que está escrito na Bíblia e a usa como seu próprio intérprete) coloca ênfase no que Deus faz pelos seres humanos, assim os sacrifícios de cordeiros do Antigo Testamento apontavam para "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Na perspectiva bíblica, quando o ser humano se alienou de Deus, no princípio de sua história, perdeu sua capacidade de amar a Deus e de ser genuinamente bom, uma vez que Deus seria a fonte do bem no homem e do funcionamento de todas as leis do Universo. Por causa disso, o ser humano passou a ter duas tendências: uma que o faz ter uma natureza religiosa e desejar o bem, boas coisas e até realizar várias delas, e outra que o faz rebelar-se contra Deus e ser egoísta (tendência a degradação). Um texto que declara isto inequivocamente é o seguinte: "Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros." Romanos 7:19-23.

Segundo a religião bíblica, o homem pode ser ético, estabelecer bons ideiais para si mesmo e os outros, mas é incapaz de, alienado de Deus, vencer completamente seu egoísmo. A solução bíblica para o problema humano está no que Deus pode fazer pelo homem quando este permite: "Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. ... Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser". "Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. ...Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação; pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." (Romanos 8: 2-4 e 8; 2 Coríntios 5: 14-15, 17-21.)

No ponto onde paramos, no post anterior, o mundo ocidental era um mundo místico, religioso, sem desenvolvimento científico, quase completamente estagnado em conhecimento, sem respeito a liberdade ou direitos humanos, mas ainda era um mundo centralizado no homem. A salvação dos homens estava centralizada na autoridade da Igreja, assumida pelo papa, para obter aprovação da divindade os homens realizavam orações e jejuns dedicados aos santos (seres humanos mortos), realizavam peregrinações e pagavam indulgências, em suma, confiavam nas próprias obras, na intercessão de sacerdotes e santos. Pagando uma boa soma em dinheiro muitos sentiam-se livres para viverem de acordo com seus instintos. Exemplares da Bíblia, em latim e grego, eram muito raros mesmo para os sacerdotes que, normalmente não a liam, o povo comum não tinha qualquer acesso a eles. É nesse contexto histórico que encontramos Lutero precisamente antes de começar a Reforma:

"Ele encontrou no convento uma Bíblia presa por uma corrente, e a esta Bíblia acorrentada ele retornava constantemente. Ele tinha apenas pouca compreensão da Palavra, todavia era seu mais agradável estudo. ... Parece que cerca desta época ele começou a estudar as Escrituras em suas línguas originais, e a lançar o fundamento do mais perfeito e útil de seus labores - a tradução da Bíblia. ... Queimando com o desejo de alcançar aquela santidade em busca da qual ele entrara no claustro, Lutero cedeu a todo o rigor de uma vida ascética. Ele se esforçou para crucificar a carne por jejuns, mortificações e vigílias. Encerrado em sua cela, como em uma prisão, ele lutava incessantemente contra os pensamentos enganosos e as más inclinações de seu coração. Um pequeno pão e peixe eram frequentemente seu único alimento. ...Lutero não encontrou na tranquilidade do claustro e na perfeição do monastério aquela paz de mente que tinha procurado ali. Ele desejava ter a segurança de sua salvação: esta era a grande necessidade de sua alma. Sem ela, não havia repouso para ele. Mas os temores que o tinham agitado no mundo perseguiam-no em sua cela. Não, eles tinham aumentado. ... O senso de sua pecaminosidade pertubava-o; a perspectiva do juízo de Deus enchia-o de temor. Mas no próprio momento em que estes terrores tinham alcançado seu ponto mais alto, as palavras de S. Paulo, que já o tinham impressionado em Wittenberg, "o justo viverá pela fé" [Galátas 3:11], retornaram forçosamente à sua memória e iluminaram sua alma como um raio do Céu." History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 2, capítulos 3 e 6.

Acreditando que o único modo de um ser humano ser justificado diante de Deus é pela fé no que Cristo fez e faz por ele e que a única autoridade em matéria de fé são as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, Lutero lançou a base da libertação da escravidão espiritual do homem pelo homem, do estudo das Escrituras de cada pessoa por si mesma (e não através da interpretação dos sacerdotes) e da igualdade de todos os homens perante Deus.

Segundo D'Aubigné:

"O Cristianismo não é um simples desenvolvimento do Judaísmo. Diferente do papado, ele não objetiva confinar o homem nas apertadas faixas de ordenaças exteriores e doutrinas humanas. O Cristianismo é uma nova criação; ele toma posse do homem interior e tranforma-o nos mais profundos princípios de sua natureza humana, de modo que o homem não mais requer que outro homem imponha regras sobre ele; mas, ajudado por Deus, ele pode de si mesmo e por si próprio distinguir o que é verdadeiro e fazer o que é correto. Ao levar a humanidade para aquela idade madura que Cristo lhe adquiriu e libertá-la da tutela em que Roma a tinha mantido por tanto tempo, a Reforma deveria desenvolver o homem inteiro; e enquanto regenera seu coração e sua vontade pela Palavra de Deus, ilumina seu entendimento pelo estudo de conhecimento profano e sagrado. ... 'Ocupem-se com as crianças,' continua Lutero, ainda dirigindo-se aos magistrados; 'pois muitos pais são como avestruzes; eles estão endurecidos para com seus pequenos, e satisfeitos com ter posto o ovo, eles não se preocupam com nada depois disto. A prosperidade de uma cidade não consiste meramente em acumular grandes tesouros, em construir fortes muros, em erigir esplêndidas mansões, em possuir brilhantes exércitos. Se homens loucos caem sobre ela, sua ruína será apenas maior. A verdadeira riqueza de uma cidade, sua segurança e sua força, é ter cidadãos instruídos, sérios, dignos e bem-educados. E a quem devemos culpar porque existem tão poucos no presente, a não ser vocês magistrados, que têm permitido que nossa juventude cresça como árvores em uma floresta?' " History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 10, capítulo 9.

Lutero e outros reformadores aprenderam que a religião bíblica requer um "culto racional" (Romanos 12:1). A Reforma foi o movimento que, no final da Idade Média, lançou os fundamentos para a valorização do ser humano como um ser racional, livre, independente e capaz de pensar por si mesmo. O renascimento da cultura grega e latina sozinho não fez isto, pois os cultos daquela época não ousavam questionar ou tentar modificar a estrutura estabelecida (ver http://www.iep.utm.edu/humanism/ no item "Erasmus"), os primeiros humanistas eram cristãos, mas a ruptura entre cristianismo e humanismo se deu durante o Iluminismo: "O Iluminismo da metade do século dezoito na Europa trouxe uma separação entre instituições religiosas e seculares que exemplificaram uma crescente fissura entre cristianismo e humanismo. A dependência em declínio dos fundamentos religiosos por parte de filósofos levou a experiências em vários planos políticos e sociais dos últimos poucos séculos ao redor do mundo, incluindo Comunismo Internacionalista, Socialismo Nacional, Facismo, Anarquismo, Teocracia, Caesaropapismo e várias comunidades utópicas. Cristãos participaram em todos estes movimentos em vários graus como indivíduos e institucionalmente, como participaram deístas e materialistas (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Christian_Humanism).

O humanismo atual, um humanismo inclusivo, procura abraçar a humanidade toda com valores que foram trazidos à luz a partir da religião bíblica pela Reforma, com a diferença de que ele procura estabelecer estes valores à parte do Deus da Bíblia.

Considerando o método científico, por exemplo, as primeiras idéias para ele vieram de homens como Da Vinci, Galileu e Newton, os quais foram influenciados pela Bíblia e buscaram revelar a sabedoria do Deus bíblico através da Natureza que criam que Ele criou. Eles se deram conta do papel que a matemática tem no funcionamento da Natureza, o que para eles era perfeitamente natural, pois a Bíblia apresenta um Deus que governa segundo leis bem estabelecidas.

"A sabedoria é filha da experiência. A experiência jamais engana; e os que se lamentam dos seus logros deveriam antes lamentar-se da sua ignorância porque pedem à experiência aquilo que está para lá dos seus limites. Em contrapartida, pode o juízo enganar-se sobre a experiência; e para evitar o erro não há outra via senão reduzir todos os juízos a cálculos matemáticos o servir-se exclusivamente da matemática para entender e demonstrar as razões das coisas que a experiência manifesta. A matemática é o fundamento de toda a certeza." Leonardo da Vinci – apud in (ABBAGNANO 1970, Origens da Ciência, p. 9) (http://filosofiageral.wikispaces.com/A+Revolu%C3%A7%C3%A3o+Cient%C3%ADfica)

"A Filosofia [Física] está escrita neste grandioso livro que está sempre aberto à nossa contemplação (refiro-me ao universo), mas que não pode ser entendido sem que primeiro aprenda-se a língua, e conheçam-se os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em linguagem matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender sequer uma de suas palavras; sem estes
[caracteres] fica-se a vagar por um escuro labirinto." (Il Saggiatore, 1623, Galileo Galilei)

"Newton foi levado acima de tudo por argumentos derivados do estudo do universo, embora sua mente profundamente pensadora extraiu outros argumentos também. Este grande homem cria (Opticks III. Book. Query 31) que o movimento dos corpos celestiais demonstrava a existência Daquele que governa-os. Seis planetas - Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno - revolvem-se ao redor do Sol. Todos os planetas rotacionam na mesma direção em órbitas que são mais ou menos concêntricas. (Não obstante, existem outros corpos, os cometas, que seguem totalmente diferentes órbitas, movendo-se em todas as direções e em cada região do Céu.) Newton acreditava que tal uniformidade de movimento só podia resultar da vontade de um Ser supremo." Derivation of the laws of motion and equilibrium from a metaphysical principle, by Pierre Louis Moreau de Maupertuis (http://en.wikisource.org/wiki/Derivation_of_the_laws_of_motion_and_equilibrium_from_a_metaphysical_principle).

Newton também escreveu um livro sobre as profecias de Daniel e Apocalipse, Observations upon the
Prophecies of Daniel,and the Apocalypse of St. John, in Two Parts
, que pode ser obtido no seguinte site http://www.isaacnewton.ca/daniel_apocalypse/

Em seu artigo acima e no seguinte, Accord between different laws of Nature that seemed incompatible, Maupertuis deduz o princípio da ação mínima, segundo ele "ninguém pode duvidar de que tudo é governado por um Ser supremo que tem imposto forças sobre os objetos materiais, forças que mostram seu poder, tal como ele destinou estes objetos a executar ações que demonstram sua sabedoria. A harmonia entre estes dois atributos é tão perfeita, que indubitavelmente todos os efeitos da Natureza poderiam ser derivados de cada um tomado separadamente. Uma cega e determinística mecânica segue os planos de um intelecto perfeitamente claro e livre." O princípio metafísico de Maupertuis do qual ele deriva seu princípio da ação mínima (um princípio de otimização) tem como base a crença de que Deus faz as coisas com sabedoria e perfeição e se origina da declaração bíblica: "E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom." Gênesis 1:31.

Mesmo Freeman Dyson declarou: "A ciência ocidental nasceu da teologia cristã. Provavelmente não é um acidente que a ciência moderna tenha crescido explosivamente na Europa cristã e deixado para trás o resto do mundo. Milhares de anos de debates teológicos nutriram o hábito do pensamento analítico capaz de ser aplicado à análise de fenômenos naturais." Review of Feynman and of Polkinghorne "Belief in God in an Age of Science", 1998.

Na realidade, o Iluminismo e Racionalismo do século 18, que romperam com o Cristianismo, derivaram seus ideais da Reforma, como Russel também acreditava: "Russel argumenta que o iluminismo foi, em última instância, nascido da reação protestante contra a contra-reforma católica, quando as visões filosóficas dos últimos dois séculos cristalizaram-se em uma visão de mundo coerente. Ele argumenta que muitas das visões filosóficas, tais como afinidade pela democracia contra a monarquia, originaram-se entre os protestantes no início do século 16 para justificar seu desejo de romper com o papa e a Igreja Católica. Embora muitos destes ideais filosóficos tenham sido acolhidos por católicos, Russel argumenta, no século 18 o Iluminismo foi a manifestação do princípio do rompimento que começou com Martinho Lutero." Age of Enlightenment citando Russell, Bertrand. A History of Western Philosophy. p492-494." (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Age_of_Enlightenment#cite_note-3)

A religião bíblica, é, na verdade, uma religião raramente praticada em nosso mundo. Ela foi praticada pelos ancestrais do povo de Israel (Abrãao, Isaque e Jacó) e apenas muito pouco tempo pelo próprio povo de Israel, que, na maior parte das vezes, viveu em rebelião contra seus princípios. Os primeiros cristãos viveram de acordo com ela, mas seus seguidores deram origem a Igreja Católica da Idade Média. Os primeiros protestantes deram lugar a descendentes que já não viviam de acordo com os princípios destes. Desta forma, os ideais que deram origem ao moderno humanismo, a saber, ética, racionalidade, democracia e direitos humanos (http://www.iheu.org/adamdecl.htm), além do método científico, tiveram origem nos princípios extraídos da religião bíblica, os ideais foram mantidos, mas o Deus que motivou a existência deles foi deixado de fora.