quarta-feira, 30 de março de 2011

Misticismo X Racionalidade: A Religião na Idade Média

O início da Idade Média foi delimitado pela queda do Império Romano Ocidental. Os povos germânicos que invadiram Roma deram origem às nações da Europa. Daquele império restou a Igreja Cristã que se tornou a Igreja Católica Apostólica Romana. A mudança de um grupo de pessoas que praticava o amor fraternal e era pobre em bens materiais e disposto a sacrificar a própria vida em favor da mensagem que pregava para uma instituição rica e poderosa com força para se impor sobre o mundo ocidental foi lenta e gradual. Começou quando a perseguição contra os cristãos deu lugar a tolerância, com o Édito de Milão, por Constantino, em 313 d.C. A igreja começou a fazer concessões em seus ensinos para se acomodar aos novos adeptos do paganismo à medida em que o cristianismo se tornava a religião oficial do império. A adoração de imagens que antes representavam deuses pagãos começou a fazer parte dos cultos, com a transmutação daquelas em santos cristãos. A mediação dos sacerdotes e dos santos começou a substituir a mediação de Jesus Cristo e a salvação pelas boas obras e ofertas para a igreja passaram a competir com a salvação pela fé em Cristo. O bispo de Roma ganhou preeminência sobre os outros bispos até se tornar o papa, cabeça de todas as igrejas, e a doutrina da infalibilidade papal foi aos poucos ganhando forma. Entre as atribuições dos sacerdotes estava a de serem os únicos a terem o direito de interpretar as Escrituras e estas só eram traduzidas para o latim e mantidas inacessíveis para o povo comum. Os cristãos que não aderiram às mudanças passaram a ser perseguidos e a Igreja foi se tornando cada vez mais poderosa ao impor sua política religiosa sobre o mundo medieval. Muito do conhecimento greco-romano foi sendo perdido ao longo dos séculos (aproximadamente 10 séculos). Não é por pouco que esta época ficou conhecida como a Idade Escura ou das Trevas.

Profecias bíblicas (nos livros de Daniel e Apocalipse) indicavam um longo período de apostasia e perseguição no futuro, ao final do domínio romano. Um dos apóstolos, Paulo, referindo-se a estas profecias afirmara: "Eu sei que depois da minha partida entrarão no meio de vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho, e que dentre vós mesmos se levantarão homens, falando coisas perversas para atrair os discípulos após si." "Ora, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, rogamos-vos, irmãos, que não vos movais facilmente do vosso modo de pensar, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola como enviada de nós, como se o dia do Senhor estivesse já perto. Ninguém de modo algum vos engane; porque isto não sucederá sem que venha primeiro a apostasia e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição, aquele que se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, de sorte que se assenta no santuário de Deus, apresentando-se como Deus." (Atos 20:29-30 e 2 Tessalonicenses 2:1-4.)

Os capítulos 2, 7 e 8 do livro de Daniel apresentam uma sucessão de quatro impérios mundiais: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Falam da divisão do último, Roma, e do surgimento de um poder perseguidor a partir deste. "Enquanto eu olhava, eis que o mesmo chifre fazia guerra contra os santos, e prevalecia contra eles". " Grande será o seu poder, mas não de si mesmo; e destruirá terrivelmente, e prosperará, e fará o que lhe aprouver; e destruirá os poderosos e o povo santo. Pela sua sutileza fará prosperar o engano na sua mão; no seu coração se engrandecerá, e destruirá a muitos que vivem em segurança; e se levantará contra o príncipe dos príncipes; mas será quebrado sem intervir mão de homem." (Daniel 7:21, 8:24-25.) O mesmo poder reaparece nas profecias de Apocalipse 12, 13 e 17: "Também lhe foi permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe autoridade sobre toda tribo, e povo, e língua e nação." "Então ele me levou em espírito a um deserto; e vi uma mulher montada numa besta cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e que tinha sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas; e tinha na mão um cálice de ouro, cheio das abominações, e da imundícia da prostituição; e na sua fronte estava escrito um nome simbólico: A grande Babilônia, a mãe das prostituições e das abominações da terra. E vi que a mulher estava embriagada com o sangue dos santos e com o sangue dos mártires de Jesus. Quando a vi, maravilhei-me com grande admiração. Ao que o anjo me disse: Por que te admiraste? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a leva, a qual tem sete cabeças e dez chifres." (Apocalipse 13:7 e 17:3-7)

Embora não seja o objetivo aqui entrar em detalhes destas profecias (o que poderá ser feito mais tarde), pode ser visto, desta pequena amostra do que dizem estas profecias, que estava predito o surgimento de um grande poder apóstata, no final do império romano, que exerceria um domínio entre as nações e perseguiria os que fossem fiéis a Deus.

Entre aqueles que procuraram permanecer no cristianismo original estavam os valdenses.

"Desde o início, os valdenses afirmavam o direito de cada fiel de ter a Bíblia em sua própria língua, sendo esta Bíblia a fonte de toda autoridade eclesiástica.

Os valdenses reuniam-se em casas de família ou mesmo em grutas, clandestinamente, devido à perseguição da Igreja Católica. Celebravam a Santa Ceia uma vez por ano. São considerados como uma igreja pré-reformada. Negavam a supremacia de Roma, rejeitavam o culto às imagens como idolatria e eram guardadores do sábado bíblico.
" valdenses

Muitos morreram queimados na estaca ou por meio de outras torturas durante este tempo, na verdade, qualquer um que estivesse em desacordo com as idéias que a Igreja defendesse e, principalmente, se ameaçasse sua supremacia.

D'Aubigne, em sua "História da Reforma no Décimo Sexto Século" apresenta um pouco as condições da Europa na época anterior a Reforma:

"As nações da Cristandade não mais olhavam a um Deus santo e vivo para o livre dom da vida eterna. Para obtê-la, elas eram obrigados a recorrer a todos os meios que uma imaginação supersticiosa, temerosa e alarmada poderia conceber. O Céu estava cheio de santos e mediadores, cujo dever era solicitar esta mercê. A Terra estava cheia de obras piedosas, sacrifícios, observâncias e cerimônias pelas quais ela devia ser obtida. Eis um quadro da religião deste período transmitida a nós por alguém que foi por muito tempo um monge e, posteriormente, um colaborador de Lutero - Myconius: 'Os sofrimentos e méritos de Cristo eram considerados como um conto sem valor ou como as ficções de Homero. Não havia nenhum pensamento de fé pela qual nos tornamos participantes da justiça do Salvador e da herança da vida eterna. Cristo era considerado um juíz severo, preparado para condenar todos os que não recorriam à intercessão dos santos ou às indulgências papais. Outros intercessores apareciam no lugar dele: - primeiro a Virgem Maria, como a Diana do paganismo, e então os santos, cujos números eram aumentados continuamente pelos papas. Estes mediadores concediam sua intercessão apenas àqueles suplicantes merecedores do bem das ordens fundadas por eles. Para isto era necessário fazer, não o que Deus mandou em sua Palavra, mas realizar uma quantidade de obras inventadas pelos monges e sacerdotes, e que trouxessem dinheiro para o cofre. Estas obras eram Ave-Marias, as orações de Santa Úrsula e Santa Bridget: eles deviam recitar e clamar noite e dia. Havia tantos locais de visitas para peregrinos quanto montanhas, florestas e vales. Mas estas penitências podiam ser combinadas com dinheiro. O povo, portanto, trazia aos conventos e aos sacerdotes dinheiro e toda a coisa que tinha algum valor - galinhas, patos, gansos, ovos, cera, palha, manteiga e queijo. Então os hinos ressoavam, o sinos tocavam, o incenso enchia o santuário, os sacrifícios eram oferecidos, as despensas transbordavam, os copos circulavam e as missas finalizavam e encobriam estas piedosas orgias. Os bispos não pregavam mais, mas consagravam sacerdotes, sinos, monges, igrejas, capelas, imagens, livros e cemitérios; e tudo isto trazia um grande rendimento. Ossos, braços e pés eram preservados em caixas douradas e prateadas; eles eram entregues durante a missa para os fiéis beijarem, e isto também era uma fonte de grande lucro.'

'Todas estas pessoas sustentavam que o papa, 'sentando-se como Deus no templo de Deus', não podia errar, e elas não admitiriam qualquer contradição.'

Na igreja de Todos os Santos em Wittenberg foi mostrado um fragmento da arca de Noé, fuligem da fornalha dos Três Jovens, um pedaço de madeira da manjedoura de Jesus Cristo, um pelo da barba de São Cristovão e dezenove mil outras relíquias de maior ou menor valor. Em Schaffhausen foi exibido um sopro de São José que Nicodemos recebeu em sua luva. Em Wurtemberg podia-se encontrar um vendedor de indulgências, vendendo sua mercadoria, com sua cabeça adornada com uma grande pena arrancada da asa de São Miguel. Mas não era necessário viajar longe em busca destes preciosos tesouros. Os homens que cultivavam estas relíquias atravessavam o país inteiro, vendendo-as próximo aos distritos rurais (como já tinha acontecido com as Escrituras Sagradas) e levando-as às casas dos fiéis, para poupar-lhes o incômodo e a despesa de uma peregrinação. Eles eram exibidos com pompa nas igrejas. Estes vendedores ambulantes pagavam uma soma estipulada pelos proprietários das relíquias - uma percentagem de seus lucros. O reino do Céu tinha desaparecido, e em seu lugar um mercado de abominações tinha sido aberto sobre a Terra.

Assim um espírito de profanação tinha invadido a religião; e as mais santas recordações da Igreja, as ocasiões que mais particularmente convocavam os fiéis a santa meditação e amor, foram desgraçadas por bufonaria e profanação idólatra. As 'Celebrações da Páscoa' mantinham um distinguido lugar nos registros da Igreja. Como o festival da ressurreição de Cristo devia ser celebrado com alegria, os pregadores estudavam em seus sermões tudo o que pudesse suscitar o riso entre seus ouvintes. Um imitava a nota do cuco, outro grasnava como um ganso. Um arrastava para o altar um leigo vestido com o hábito de um monge; um segundo relatava as mais indecentes histórias; e um terceiro recontava os truques de São Pedro, e entre outros, como em uma taverna ele tinha enganado seu anfitrião não pagando sua conta. O baixo clero tirava vantagem desta oportunidade para ridicularizar seus superiores. As igrejas se convertiam em meros cenários para saltimbancos e os sacerdotes em bufões.

Se tal era o estado da religião, o que deve ter sido o estado da moralidade? ...

A doutrina e a venda de indulgências eram poderosos incentivos para o mal entre um povo ignorante. É verdade, de acordo com a Igreja, que as indulgências poderiam beneficiar apenas aqueles que prometiam emendar suas vidas, e que mantinham sua palavra. Mas o que poderia ser esperado de uma doutrina inventada somente com vistas ao lucro que poderia derivar dela? Os vendedores das indulgências eram tentados, para uma melhor venda de sua mercadoria, a apresentar seus artigos ao povo nos aspectos mais atrativos e sedutores. Os próprios instruídos não compreendiam plenamente a doutrina. Tudo o que a multidão via neles era que eles permitiam aos homens pecarem; e os mercadores não estavam demasiado ávidos em dissipar um erro tão favorável a suas vendas.

Que distúrbios e crimes foram cometidos nestas eras escuras, quando a impunidade era adquirida por dinheiro! O que tinha o homem a temer, quando uma pequena contribuição para construir uma igreja defendia-o do temor de punição no mundo por vir? Que esperança poderia haver de reavivamento quando toda comunicação entre Deus e o homem estava cortada, e o homem, alienado de Deus, que é o espírito e a vida, movia-se unicamente em um ciclo de cerimônias sem valor e observâncias sensuais, em uma atmosfera de morte!

Os sacerdotes eram os primeiros que cediam a esta influência corruptora. Desejando exaltaram-se tornavam-se degradados. Eles tinham almejado roubar a Deus de um raio de sua glória e colocá-lo em seu próprio seio, mas sua tentativa tinha-se provado vã, e eles tinham apenas escondido ali um fermento de corrupção roubado do poder do mal. A história da época abunda com escândalos. Em muitos lugares, o povo se deleitava em ver um sacerdote manter uma amante, para que as mulheres casadas pudessem estar seguras contra suas seduções. Que cenas humilhantes a casa de um pastor apresentava naqueles dias! O pobre homem sustentava a mulher e os filhos que ela lhe gerava com os dízimos e ofertas. Sua consciência era perturbada: ele corava na presença do povo, diante de seus empregados e perante Deus. A mãe, temedo vir a passar necessidade se o sacerdote morresse, fazia provisão contra isto de antemão, e roubava sua própria casa. Sua honra era perdida. Seus filhos eram sempre uma viva acusação contra ela. Desprezados por todos, eles mergulhavam em contendas e dissipação. Tal era a família do sacerdote! ..... Estas eram cenas terríveis, por meio das quais o povo sabia como beneficiar-se.

Os distritos rurais eram cenário de numerosos tumultos. As habitações do clero eram frequentemente esconderijos de corrupção. Corneille Adrian em Burges, o abade Trinkler em Cappel, imitavam os costumes do Oriente, e tinham seus próprios hárens. Sacerdotes, unindo-se a caráteres dissolutos, frequentavam as tavernas, jogavam dados, e coroavam suas orgias com disputas e blasfêmia. ...

Se formos adiante na ordem hierárquica, não encontraremos menor corrupção. Os dignitários da Igreja preferiam o tumulto dos campos aos hinos do altar. Ser capaz, com a lança na mão, de reduzir seus vizinhos a obediência era uma das principais qualificações de um bispo. Baldwin, arcebispo de Treves, estava continuamente em guerra com seus vizinhos e seus vassalos: ele demolia seus castelos, construia fortalezas e não pensava em nada a não ser na extensão de seu território.

Um certo bispo de Eichstadt, quando adminstrando a justiça, usava uma capa de correspondência sob seu manto, e tinha uma grande espada em sua mão. Ele costumava dizer que não temia cinco bavários, desde que eles não o atacassem a não ser em uma luta justa. Por toda a parte os bispos estavam continuamente em guerra com suas cidades. Os cidadãos exigiam liberdade, os bispos requeriam implicita obediência. Se os últimos ganhavam a vitória, puniam os revoltosos sacrificando numerosas vítimas à sua vingança; mas a chama da insurreição irrompia novamente, no mesmo momento em que se pensava estar extinguida.

E que espetáculo era apresentado pelo trono pontifical nos tempos que precederam imediatamente a Reforma! Roma, deveria-se reconhecer, tinha raramente testemunhado tanta infâmia.

Rodrigo Borgia, após ter vivido com uma senhora romana, tinha continuado a mesma ilícita ligação com uma de suas filhas, chamada Rosa Vanozza, com quem teve cinco filhos. Ele era cardeal e arcebispo, vivia em Roma com Vanozza e outras mulheres, visitando as igrejas e hospitais, quando a morte de Inocêncio VIII criou vaga na cadeira pontifical. Ele foi bem sucedido em obtê-la subornando cada cardeal a um preço estipulado. Quatro mulas carregadas com prata publicamente entraram no palácio de Sforza, um dos mais influentes dos cardeais. Borgia tornou-se papa sob o nome de Alexander VI, e regozijou-se em assim alcançar o ápice da felicidade terrestre.
" History of the Reformation of the Sixteenth Century, Livro 1, Capítulo 3.

Apesar das descrições acima, essa não era a totalidade do quadro religioso apresentado na Idade Média, conforme D'Aubigne:

"Roma mal havia usurpado o poder antes que forte oposição se formasse contra ela, a qual continuou ao longo dos Séculos Medievais.

O arcebispo Claudius de Turin, no nono século; Pierre de Bruys, seu discípulo Henry, e Arnold de Brescia, no décimo segundo século, na França e na Itália, trabalharam para restabelecer a adoração a Deus em espírito e em verdade; mas, no máximo, ele procuravam muito esta adoração na ausência de imagens e de observância externas. ...

Wickliffe se ergueu na Inglaterra em 1360, e apelou do papa para a palavra de Deus: mas a real ferida interna do corpo da Igreja era, aos seus olhos, apenas um dos numerosos sintomas da doença.

John Huss pregou na Boêmia um século antes de Lutero pregar na Saxônia. Ele parece ter penetrado mais fundo do que seus predecessores na essência da verdade cristã. Ele orava a Cristo por graça para gloriar-se somente em sua cruz e na inestimável humilhação de seus sofrimentos. Mas suas investidas foram menos diretas contra os erros da Igreja romana do que contra as vidas escandalosas do clero. Ele foi, todavia, se nos permitem a expressão, o João Batista da Reforma. As chamas de sua estaca acenderam um fogo na Igreja que lançou uma luz brilhante nas trevas circundantes, e cujas fagulhas não deviam ser prontamente extinguidas.

John Huss fez mais: palavras proféticas foram pronunciadas das profundezas de seu calabouço. Ele previu que uma real reforma da Igreja estava às portas. Quando expulso de Praga e compelido a vaguear pelos campos da Boêmia, onde uma imensa multidão seguia seus passos e esperava por suas palavras, ele exclamou: 'Os maus já começaram a preparar uma traiçoeira armadilha para o ganso. Mas se até o ganso, que é apenas uma ave doméstica, um animal pacífico, e cujo vôo não é muito alto no ar, tem apesar disso avançado mediante seus esforços, outras aves, ascendendo mais ousadamente para o céu, avançarão com ainda maior força. Ao invés de um débil ganso, a verdade expedirá águias e falcões de vista aguçada.' Esta predição foi cumprida pelos reformadores.

Quando o venerável sacerdote foi intimado pela ordem de Sigismund perante o concílio de Constance, e foi atirado na prisão, a capela de Bethlehem, na qual ele tinha proclamado o evangelho e os futuros triunfos de Cristo, ocupou sua mente, muito mais do que sua própria defesa. Em uma noite o santo mártir viu na imaginação, das profundezas de seu calabouço, as figuras de Cristo que ele tinha pintado nas paredes de seu oratório apagadas pelo papa e seus bispos. Esta visão afligiu-o: mas no dia seguinte ele viu muitos pintores ocupados em restaurar estas figuras em maior número e em mais brilhantes cores. Tão logo sua tarefa terminou, os pintores, que estavam rodeados por uma imensa multidão, exclamaram: Que agora venham os papas e bispos! eles nunca mais as apagarão! E muitas pessoas em Bethlehem se regozijaram, e eu com elas, acrescenta John Huss. - 'Ocupe-se com sua defesa ao invés do que com seus sonhos', disse seu fiel amigo, o cavaleiro de Chlum, a quem ele tinha comunicado a visão. 'Eu não sou um sonhador', replicou Huss, 'mas eu mantenho isto por certo, que a imagem de Cristo nunca será apagada. Eles têm desejado destrui-la, mas ela será pintada novamente em todos os corações por pregadores muito melhores do que eu. A nação que ama Cristo se regozijará com isto. E eu, despertando de entre os mortos, e erguendo-me, por assim dizer, de minha sepultura, saltarei com grande alegria.'

Um século se passou; e a tocha do evangelho, acesa novamente pelos reformadores, iluminou verdadeiramente muitas nações, que se regozijaram em seu brilho. ...

Anselmo de Canterbury estabeleceu como a própria essência do Cristianismo as doutrinas da encarnação e expiação, e em uma obra em que ele ensina-nos como morrer, ele diz para a alma que está partindo: 'Confie apenas nos méritos de Jesus Cristo.' São Bernardo proclamou com poderosa voz os mistérios da Redenção. 'Se meu pecado veio de outro', ele diz, 'por que minha justiça não me seria concedida da mesma maneira? Seguramente é melhor para mim que ela me seja dada, do que se ela fosse inata.' Muitos escolásticos, e em tempos anteriores, o Chanceler Gérson, vigorasamente atacaram os erros e abusos da Igreja.

Mas reflitamos, acima de tudo, acerca das milhares de almas, obscuras e desconhecidas ao mundo, foram, não obstante, participantes da verdadeira vida de Cristo.

Um monge chamado Arnoldi apresentava, cada dia, esta fervente oração em sua cela silenciosa: 'Oh! Senhor Jesus Cristo! Eu creio que somente tu és minha redenção e minha justiça.' Christopher de Utenheim, um piedoso bispo de Basel, tinha seu nome inscrito em uma pintura pintada em vidro, a qual está ainda naquela cidade, e cercou-o com este lema, que ele desejava ter continuamente diante de seus olhos: 'Minha esperança está na cruz de Cristo; eu busco a graça e não as obras.'

Um pobre frade cartusiano, chamado Martin, escreveu uma tocante confissão, na qual ele diz: 'Oh! misericordioso Deus! eu sei que eu não posso ser salvo e satisfazer tua justiça de outro modo que não seja pelos méritos, pela inocente paixão, e pela morte de teu querido e amado Filho. ... Santo Jesus! toda a minha salvação está em tuas mãos. Tu não podes afastar-me das mãos de teu amor, pois elas me criaram, formaram-me, e me redimiram. Tu tens escrito meu nome com uma pena de ferro, com grande misericórdia e de maneira indelével, no teu lado, em tuas mãos e em teus pés,' etc.etc. Então o bom cartusiano colocou sua confissão em uma caixa de madeira, e encerrou-a em um buraco que ele tinha feito na parede de sua cela.

A piedade do irmão Martin nunca teria sido conhecida, se a caixa não tivesse sido descoberta em 21 de dezembro de 1776, quando alguns trabalhadores estavam derrubando uma velha construção que tinha sido parte do convento cartusiano em Basel. Quantos conventos não poderiam ter encoberto tais tesouros! ...

Thomas Conecte, um frade carmelita, apareceu em Flanders. Ele declarou que 'as mais grosseiras abominações eram praticadas em Roma, que a Igreja requeria uma reforma, e que conquanto sirvamos a Deus, não devemos temer as excomunhões do papa.' O país inteiro escutou com entusiasmo; Roma condenou-o à estaca em 1432, e seus contemporâneos declararam que ele tinha sido transladado para o Céu.

O cardeal Andrew, arcebispo de Crayn, sendo enviado a Roma como o embaixador do imperador, foi tomado de consternação ao descobrir que a santidade papal, em que ele cria devotamente, era mera ficção; e em sua simplicidade dirigiu-se a Sixtus IV em linguagem de objeção evangélica. A zombaria e a perseguição foram sua única resposta. Por isto ele se esforçou para reunir, em 1482, um novo concílio em Basel. 'A igreja inteira', disse ele, 'está sacudida por divisões, heresias, pecados, vícios, injustiça, erros, e males sem conta, bem como está prestes a ser engolida pelo abismo devorador da danação. Por este motivo nós proclamamos um concílio geral para a reforma da fé católica e a purificação da moralidade.' O arcebispo foi lançado na prisão em Basel, onde ele morreu. O inquisidor, Henry Institoris, que foi o primeiro a se opor a ele, pronunciou estas notáveis palavras: "Todo o mundo clama e exige um concílio; mas não existe poder humano que possa reformar a Igreja por um concílio. O Altíssimo encontrará outros meios, que presentemente são desconhecidos para nós, embora possam estar às portas, para trazer de volta a Igreja a sua condição primitiva.' Esta notável profecia, comunicada por um inquisidor, no próprio período do nascimento de Lutero, é a melhor apologia para a Reforma.

Jerome Savonarola, logo após entrar na ordem Dominicana em Bologna em 1475, devotou-se a contínuas orações, jejuns e mortificações, e clamava: 'Tu, ó Deus, és bom, e em tua bondade ensina-me tua justiça.' Ele pregou com energia em Florença, cidade para qual havia-se mudado em 1489. Sua voz levava convicção; seu semblante era iluminado por entusiasmo; e sua atitude possuía encantadora graça. 'Devemos regenerar a Igreja', disse ele, e ele professava o grande princípio que unicamente poderia efetuar esta regeneração. 'Deus', ele exclamou, 'redime os pecados dos homens e justifica-os por sua graça. Há tanta compaixão no Céu quanto homens justificados sobre a Terra, pois ninguém é salvo por suas próprias obras. Nenhum homem pode vangloriar-se; e se, na presença de Deus, pudéssemos perguntar a todos estes pecadores justificados: -Você foi salvo por sua própria força? - todos responderiam em uma voz: Não a nós, ó Senhor! não a nós, mas ao teu nome seja a glória! - Portanto, ó Deus, eu busco a tua graça, e te trago não a minha própria justiça, mas quando por tua graça me justificas, então tua justiça me pertence, pois a graça é a justiça de Deus. -Enquanto, ó homem, enquanto tu não crês, tu és, por causa de teu pecado, destituido da graça. -Ó Deus,salva-me por tua justiça, quer dizer, em teu Filho, único entre os homem que foi achado sem pecado!' Assim a grandiosa e santa doutrina da justificação pela fé alegrava o coração de Savonarola. Em vão os que presidiam a Igreja se opuseram a ele; ele sabia que os oráculos de Deus estavam muito acima da Igreja visível, e que ele devia proclamar estes oráculos com o auxílio da Igreja, sem ele, ou mesmo a despeito dela. 'Fuja', clamava ele, 'fuja para longe de Babilônia!' e foi Roma a quem ele designou assim, e Roma em breve respondeu em sua maneira usual. Em 1497, o infame Alexander VI emitiu uma ordem contra ele; e em 1498, a tortura e a estaca terminaram com a vida deste reformador. ...

'Um monge chamado Jonh Hilten foi um interno do convento franciscano em Eisenach, na Turíngia. As profecias de Daniel e o Apocalipse de São João eram seu estudo especial. Ele até escreveu um comentário sobre estas obras, e censurou os mais flagrantes abusos da vida monástica. Os monges exasperados atiraram-no na prisão. Sua avançada idade e a imundície do calabouço causaram-lhe uma perigosa doença: ele chamou o superior, e o último, mal tendo chegado perante ele, explodiu em violenta paixão, e sem ouvir as queixa do prisioneiro, amargamente acusou sua doutrina, que se opunha, acrescenta a crônica, a cozinha dos monges. O franciscano esquecendo sua enfermidade e suspirando pesadamente, respondeu: 'Eu suporto seus insultos calmamente por amor de Cristo, pois não tenho dito nada que possa por em perigo a situação monástica: tenho apenas censurado seus mais notórios abusos. mas, continuou ele (de acordo com o que Melancthon registra em sua Apologia da Confissão de Fé de Augsburg), 'outro homem surgirá no ano de nosso Senhor de 1516: ele vos destruirá, e não sereis capazes de resistir-lhe.' John Hilten, que tinha profetizado que o fim do mundo viria em 1651, estava menos enganado ao indicar o ano em que o futuro reformador apareceria. Não muito tempo depois, ele nasceu em uma pequena vila a uma pequena distância do calabouço do monge: nesta mesma cidade de Eisenach ele iniciou seus estudos, e somente um ano mais tarde do que o frade aprisionado tinha declarado, ele publicamente iniciou a Reforma.
" History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 1, capítulo 6, J.H. Merle D'Aubigne.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Misticismo X Racionalidade: a religião na história antiga

Continuando o tema proposto em Misticismo X Racionalidade, eu pretendo explorar um pouco as evidências na história humana de que pode haver uma religião fundamentada na crença em um Ser sobrenatural (acima e além da Natureza) que não seja mística, ou "uma religião de mistérios". Pode haver uma religião baseada em evidências e que pode mudar de acordo com elas.

Aqui, usamos a expressão "religião baseada em evidências" associada a dois sentidos:
(a) existem evidências que podem ser usadas para avaliar afirmações dessa religião e
(b) os ensinamentos dessa religião estimulam não uma fé cega, mas uma fé racional,
isto é, uma confiança desenvolvida pela avaliação de evidências.

Nesta série de posts, estamos abordando algumas informações relacionadas com esse tipo de religião.

Este tipo de religião, embora sendo uma manifestação rara em nosso mundo em termos de contingente humano engajado nela, tem tido um impacto significativo em todos os setores da sociedade humana ao longo dos séculos.

Existem evidências, por exemplo, de que vários dos conceitos e histórias escritos nos livros da Bíblia já eram conhecidos de vários povos ao longo do globo muito antes de serem escritos os primeiros livros bíblicos.

Antes de discorrer sobre os eventos e evidências relacionados à religião bíblica na história, faz-se necessária uma descrição suscinta do que compõe essa religião. Ela centraliza-se na revelação do Deus bíblico e traz uma mensagem que foi escrita em 66 livros por cerca de 40 autores ao longo de mais de 1500 anos. Os livros de Isaías e Ezequiel contam a história do início do mal no Universo, quando um dos seres criados por Deus, usando sua liberdade de escolha iniciou uma rebelião contra o governo de Deus e perdeu sua posição original neste governo. Esta rebelião foi permitida continuar a existir para que fossem julgados pelos seres inteligentes os seus efeitos e todos pudessem fazer suas escolhas a favor ou contra. No livro de Gênesis, encontramos o relato da criação da vida na Terra e a história da escolha dos seres humanos de ficarem do lado da rebelião. Como essa escolha não foi totalmente deliberada, mas os seres humanos foram ludibriados, eles receberam um tempo de teste do governo de rebelião na Terra. Deus, embora não se manifestando de forma direta aos seres humanos depois de sua rebelião, elaborou um plano para esclarecê-los e resgatá-los para o estado de harmonia com Ele novamente. Aceitar ou não este plano é uma questão individual de cada ser humano pensante. A Bíblia conta a história destas duas rebeliões, da promessa de um Redentor, da perda exponencial por parte dos seres humanos da capacidade de compreender e aceitar a Deus e seu plano, à medida em que faziam más escolhas. Fala do consequente embotamento das faculdades morais e de discernimento claro entre o bem e o mal, do dilúvio, da escolha de pessoas para serem porta-vozes de Deus, da escolha do povo de Israel para se tornar um exemplo para os outros povos das características do governo de Deus sobre a Terra. Apresenta Israel como a nação da qual surgiria o Redentor, as profecias sobre eventos relacionados com o plano de redenção e desdobramentos históricos das ações humanas, os constantes afastamentos do povo de Israel do plano de Deus, a divisão do povo de Israel em dois reinos, o esfacelamento da maioria de Israel pelos assírios e o cativeiro babilônico dos judeus. Descreve o retorno do exílio e a recontrução da nação, a vinda e rejeição do Redentor pela maioria dos judeus, sua morte e ressureição e o início da igreja cristã. Termina com profecias de eventos ocorrendo desde o início da igreja cristã até o encerramento da história da rebelião no Universo. Durante o período de teste para a humanidade, os seres inteligentes do Universo devem perceber a diferença entre viver sob a direção de Deus e fazer de sua lei a norma de vida e o viver sob o domínio da satisfação própria, em um contraste entre a lei do amor e a lei do egoísmo.

É bom lembrar que cada parte desse todo foi escrita por pessoas bem diferentes ao longo de muitos séculos e que, na maioria das vezes, não tinham uma visão clara do que elas mesmas estavam escrevendo. Outro detalhe é que fica difícil compreender a Bíblia por uma leitura ocasional, cada parte depende das outras e a compreensão dos símbolos proféticos depende da compreensão da história toda e do conhecimento dos símbolos que aparecem em outras profecias, ou seja, se você não mergulhar no todo, não vai entender as partes. Apocalipse, por exemplo, que é uma palavra grega que significa revelação (não um mistério, foi escrito para ser entendido), usa símbolos tirados do Gênesis, da história de Israel no Antigo Testamento, das profecias de Daniel, dos livros dos profetas menores e da história dos evangelhos e início da igreja cristã no Novo Testamento. Enfim, se a pessoa for ler com má vontade, preconceito e visão superficial, não vai entender e encontrará muitas contradições.

Mais uma observação que cabe neste momento é a de que a Bíblia pretende ser um conjunto de livros inspirados, mas não ditados, por Deus. Isto significa que as idéias subjacentes vieram de Deus, mas a linguagem é humana, expressa com as limitações culturais, de entendimento e de conhecimentos do autor de cada livro. Outro aspecto que se destaca indiscutivelmente ao longo da história bíblica é o fato de Deus lidar com os seres humanos levando em conta sua capacidade de absorver conceitos novos em cada época, ou seja, a revelação é gradativa e as responsabilidades também crescem com o grau de progresso do ser humano.

Tendo em conta as informações prévias, gostaria de apresentar, primeiramente, evidências de que as histórias da criação, da queda de Adão e Eva, do dilúvio e da torre de Babel que aparecem em Gênesis, fazem parte das tradições de diversos povos por todo o globo, muitas delas mais antigas do que a escrita do livro de Gênesis.

"Milhares de tabletes cuneiformes foram escavados na região que compreende a antiga Mesopotâmia.
Eram recibos, cartas, leis, documentos de propriedade, etc. Alguns continham listas genealógicas e histórias tradicionais sobre os primórdios da humanidade. Ao avaliá-los, qual não foi a surpresa dos arqueólogos ao perceberem que muitos traziam semelhanças bastante acentuadas com o que seria posteriormente escrito na Bíblia.

"Uma extraordinária coincidência foi percebida, por exemplo, na forma como os antigos documentos
egípcios e mesopotâmicos chamavam o primeiro ancestral da humanidade: Adamu, Adime, Adapa, Alulim, Alorus, Atûm, Adumuzi, etc. ...

"Ao contrário de ser um plágio, o Gênesis possui características de ser quase uma 'correção' daquilo que o antecede. Prova disso é o fato de que, dentre todos os textos, ele é o único que assume um monoteísmo clássico em meio a versões milenares que preferiam atribuir aos 'deuses' a obra de criação e julgamento do planeta Terra.

"Até mesmo Levi-Strauss que considerava o relato da criação um mito foi forçado a admitir que 'grande surpresa e perplexidade surgem do fato de que esses temas básicos para os mitos da criação são mundialmente os mesmos em diferentes áreas do globo', principalmente fora do Oriente Médio. (Claude Levi-Strauss, 'The Structural Study of Myth', em Structural Anthropology, (New York: Basic Books, 1963), p. 208.)" Rodrigo P. Silva, "Escavando a verdade - A arqueologia e as incríveis histórias da Bíblia". São Paulo, Casa Publicadora Brasileira, 2008, p.p. 48 e 50.

Em textos sagrados muito antigos do Egito (~3000 a.C.), The Pyramid Texts (http://www.sacred-texts.com/egy/pyt/index.htm), Atum aparece como um deus, ele é considerado um dos deuses mais antigos do Egito. Ele foi primeiramente considerado um deus da terra e, depois, foi associado com Rá, o deus sol. Os sacerdotes da cidade de Heliópolis, consideravam Atum como o primeiro ser que emergiu das águas de Nun (espécie de águas primordiais) na criação. Entre seus filhos houve Set, que matou um de seus irmãos, Osíris (http://www.egyptianmyths.net/atum.htm). Embora existam muitas diferenças básicas entre estas concepções religiosas e a narrativa bíblica, encontramos similaridades em alguns pontos: na criação da vida na Terra, o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas (Gênesis 1:2), Adão foi o primeiro ser humano criado, o nome de um de seus filhos foi Sete, um dos filhos de Adão, que foi Caim e não Sete, matou seu irmão, Abel.

"Saindo do Egito para a Mesopotâmia, encontramos ainda outra grande variedade de mitos, com curiosas semelhanças com um ou outro aspecto da cosmogonia bíblica. O conto de Enki e Ninhursag, mais conhecido como o 'mito do paraíso', foi escrito por volta do 2º milênio a.C. Nele, os deuses criaram os céus, a Terra e os homens. Eles os colocam no paraíso idílico de Dilman e, para curar a costela de Enki, fazem surgir uma mulher e lhe dão o nome de Nin-ti, cujo signifcado seria 'rainha dos meses', 'senhora da costela' ou 'aquela que faz viver'. Ora, Eva também foi criada a partir de uma costela de Adão e seu nome hebraico (hawwa) é associada etmologicamente ao verbo 'viver'.

"O Enuma Elish é outro importantíssimo documento que também possui muitos paralelos com o relato bíblico. O texto foi primeiramente encontrado nas escavações da biblioteca real de Assurbanipal, que ficava na cidade de Nínive e data do 7º século a.C. Porém, outros fragmentos mais completos foram encontrados posteriormente em Kish. Ao todo são sete tabletes que descrevem a criação do mundo dividida em sete partes (como o Gênesis que a divide em sete dias)." Rodrigo P. Silva, "Escavando a verdade - A arqueologia e as incríveis histórias da Bíblia". São Paulo, Casa Publicadora Brasileira, 2008, p.p. 53 e 54.

Os relatos da criação nestes sete tabletes apresentam inúmeras semelhanças com o relato bíblico da criação. Por exemplo, os dois falam do sugimento do céu e da Terra, da pré-existência do espírito divino, de caos e trevas primitivas, a luz emanando dos deuses ou de Deus, criação do firmamento, da terra seca e dos luminares, criação do homem na sexta etapa ou sexto dia e dos deuses ou de Deus celebrando a criação na sétima etapa ou sétimo dia (ibidem).

Foram encontrados quatro tabletes cuneiformes sobre uma história tradicional da Mesopotâmia, três da biblioteca de Assurbanipal e um mais extenso e antigo (século 14 a.C.) dos arquivos egípcios de El Amarna. Segundo este relato, o primeiro homem chamado Adapa recebeu grande sabedoria, mas não era naturalmente imortal, ele era filho do deus Ea e morava na cidade de Eridu. Éden, o paraíso bíblico, e Eridu têm a mesma raiz etmológica, como o sumeriano Edin e Edenu, que significa "paraíso" ou "planura". O livro bíblico de Lucas também estabelece a genealogia humana a partir de Adão e que este procede de Deus (Lucas 3:38). Adapa vivia no meio dos Anunnakis,lembrando os anaquins, ou gigantes, mencionados na Bíblia. Ele quebra com a vela de seu barco a asa do vento sul e é julgado pelos deuses. Em seu julgamento, ele recusa-se a se alimentar da água e do pão da vida, pois sabia serem reservados aos deuses. O deus Anu o questiona por não ter comido ou bebido a água da vida, pois assim ele não poderia ter vida eterna, mas isto era um teste e ele é elogiado por isto. Ele recebe um manto para substituir o
primeiro que era da lamentação e é ungido com azeite. No Gênesis, Adão não deveria comer do fruto da árvore do bem e do mal para não morrer, ele seria, como Deus, conhecedor do bem e do mal (Gênesis 2:16 e 17, 3:1-5). Por ter desobedecido esta ordem ele perde o direito de comer da árvore da vida e viver eternamente (Gênesis 3:22-24). Adão e Eva fizeram para si vestimentas de folhas de figueira, mas Deus as substituiu por outras de peles de animais (Gênesis 3:7, 21). (Ibidem, p.p. 55 e 56).

Outro relato que apresenta similaridades com o bíblico é o épico babilônico de Gilgamesh, em que este herói sumeriano tem um amigo chamado Enkidu que é seduzido por uma cortesã da deusa Ishtar e passa a ter um "conhecimento pleno". Ishtar, então, declara: "Você agora é um conhecedor, Enkidu. Você será igual a Deus. Ela improvisa vestiduras e o veste com elas. (Ibidem, p. 56.)

Existem tradições e relatos acerca de um dilúvio semelhante ao da Bíblia nas mais diversas regiões do planeta. Nos relatos sumerianos, a versão mais antiga é a de um tablete bastante danificado que conta a história de Ziusudra que sobreviveu a uma imensa inundação que ocorreu sobre a Terra. O tablete número 11 do Épico de Gilgamesh (de uma tradição do segundo milênio antes de Cristo), conta que Gilgamesh tinha um amigo chamado Utnapishtim que conseguiu sobreviver ao Dilúvio. Ele foi avisado previamente pelo deus Ea sobre a inundação e deveria construir um barco de madeira e piche. Quando o barco ficou pronto entrou a bordo com seus tesouros, sua família, seus artesãos e os animais que havia recolhido. Ele fechou a porta e esperou a tempestade cair. Esta durou seis dias sem parar. No sétimo dia, o barco encalhou no topo do monte Nissir e ficou ali por mais seis dias. Depois, ele soltou uma pomba para ver se as águas haviam baixado, mas ela retornou; mais tarde, soltou um corvo que não retornou, pois havia
encontrado terra firme. Utnashpistim saiu do barco com os animais e companheiros e ofereceu um cordeiro aos deuses que respiraram a fumaça do sacrifício e se mostraram satisfeitos. Outra história semelhante, datada de 1646 a 1626 a.C., conta que Atrahasis foi avisado pelo deus Enki de que a Terra seria destruída por causa do barulho que os homens faziam, não permitindo que o deus Enlil descansasse em paz. Depois de serem enviadas pragas e fome veio um dilúvio. Atrahasis, sua família e vários tipos de animais sobreviveram através de um barco que ele construiu (Ibidem, p.p. 68, 69 e 70.)

No site da BBC (http://www.bbc.co.uk/ahistoryoftheworld/about/transcripts/episode16/), encontramos um relato interessante. Eis alguns trechos (traduzidos):

"É a hora do almoço no Museu Britânico e o local, como de costume, está agitado pelos visitantes. Naturais de Bloomsbury estão visitando como fazem regularmente por diversos motivos e, há cerca de 140 anos atrás, um destes nativos, um visitante da hora do almoço regular, era um homem chamado George Smith. Ele era um aprendiz em uma firma de impressão não distante do museu, e tinha se tornado fascinado pela coleção do museu de antigos tabletes de barro. Ele estava tão absorto neles, que educou-se para lê-los e, no devido prazo, tornou-se um dos principais tradutores de seu tempo. Em 1872, Smith estava estudando um tablete particular de Nínive (moderno Iraque) e isto é que desejo considerar agora.

"Caminhei pelo museu e estou agora sentado na biblioteca onde guardamos os tabletes de barro da Mesopotâmia; uma sala repleta de estantes desde o chão até o teto e, em cada estante, um estreito tabuleiro de madeira com uma dúzia de tabletes de barro nele - a maioria deles fragmentos. O fragmento que George Smith estava particularmente interessado, em 1872, tem cerca de 5 ou 6 polegadas (130 - 150 mm) de altura, é marrom escuro e está coberto com texto escrito muito densamente, organizado em duas colunas muito próximas. À distância, ele parece um bocado com pequenos anúncios de um antiquado jornal. Mas este fragmento, depois de George Smith perceber o que ele era, iria sacudir os fundamentos de uma das maiores histórias do Antigo Testamento, e, de fato, suscitou importantes questões sobre o papel das Escrituras e sua relação com a verdade.

"Nosso tablete é sobre um dilúvio - sobre um homem a quem foi dito por seu deus para construir um barco e carregá-lo com sua família e animais, porque a inundação estava prestes a apagar a humanidade da face da Terra. A narração no tablete era assombrosamente familiar a George Smith - porque quando ele leu e decifrou, tornou-se claro que o que ele tinha dinte de si era um antigo mito que era um paralelo e - mais importante - 'antecedia' a história de Noé e sua arca. ...

"Que uma história bíblica hebraica já tivesse sido contada em um tablete de barro mesopotâmico era uma descoberta estupenda - e Smith sabia-o - como um contemporâneo relata-nos:

" 'Smith tomou o tablete e começou a ler as linhas que o conservador que tinha limpado o tablete tinha trazido à luz; e quando ele viu que elas continham a parte da lenda que ele tinha esperado encontrar ali, ele disse: 'Eu sou o primeiro homem a ler isto após 2000 anos de esquecimento.' Colocando o tablete na mesa, ele saltou e correu pela sala em um grande estado de excitação e, para o espanto dos presentes, começou a despir-se!'

"Mas esta foi realmente uma descoberta digna de se tirar as roupas. Este tablete, agora universalmente conhecido como o Tablete do Dilúvio - tinha sido escrito no que é agora o Iraque no sétimo século a.C, 400 anos antes da mais antiga versão sobrevivente da narrativa bíblica. Seria concebível que essa narrativa bíblica, longe de ser uma reveleção especialmente privilegiada, era meramente parte de um conjunto de lendas que era compartilhado por todo o Oriente Médio?

"Este foi um dos grandes momentos de reescrita da história mundial no radical século desenove. George Smith publicou o tablete apenas 12 anos após o 'Origem das Espécies' de Charles Darwin. E ao fazer isto, ele abriu uma caixa de Pandora religiosa. O Professor David Damrosch, da Columbia University, avalia o sísmico impacto do Tablete do Dilúvio:

"'As pessoas nos anos de 1870 estavam obcecadas pela história bíblica, e houve grande quantidade de controvérsia quanto à veracidade das narrativas bíblicas. Assim, causou sensação quando George Smith encontrou esta antiga versão da história do dilúvio, claramente muito mais antiga do que a versão bíblica. O primeiro ministro Gladstone veio ouvir sua palestra descrevendo sua nova tradução, ela foi relatada em artigos de primeira página ao redor do globo, e houve um artigo de capa no 'New York Times' em 1872 em que já se notava que o tablete podia ser interpretado de dois modos muito diferentes - isto prova que a Bíblia é verdadeira ou mostra que ela é toda lendária? E a descoberta de Smith deu munição adicional ao debate de ambos os lados quanto à veracidade da história bíblica, debates sobre Darwin e evolução, geologia - todas estas coisas estavam ocorrendo."

Mas relatos sobre um dilúvio que inundou a Terra inteira fazem parte das tradições de, virtualmente, todas as culturas ao redor do globo (http://en.wikipedia.org/rewiki/Flood_myth; http://www.talkorigins.org/faqs/flood-myths.html#Pygmy).

Por exemplo, o site The TalkOrigins Archive apresenta um index por região de locais onde existem relatos sobre um dilúvio. (Neste site também podemos encontrar as narrativas por região.) As regiões incluem Europa: gregos, arcadianos, samotrácios, romanos, escandinávios, germânicos, celtas, galeses, lituanios, transilvanianos ciganos, turcos; Oriente Próximo: sumerianos, egípcios, babilônicos, assírios, caldeus, hebreus, islâmicos, persas, zoroastrianos; África: Camarões, Masai, Komililo Nandi, Kwaya (Lago Vitória), sudeste da Tanzânia, pigmeus, Ababua (norte do Zaire), Kikuyu (Quenia), Bakongo (oeste do Zaire), Bachokwe (sul do Zaire), Congo inferior, Basonge, Bena-Lulua (Rio Congo, sul do Zaire), Yoruba (sudeste da Nigéria), Efik Ibibio (Nigéria), Ekoi (Nigéria), Mandingo (Costa do Marfim)); Ásia: Vogul, Samoyed (norte da Sibéria), Yenisey-Ostyaks (centro norte da Sibéria), Kamchadale (nordeste da Sibéria), altaicos (Ásia central), tuvinianos (Soyot) (norte da Mongólia), Mongólia, Buryat (leste da Sibéria), Sagaiye (leste da Sibéria), russos, hindus, Bhil (Ìndia central), Kamar (distrito de Raipur, Índia Central), Assam, Tamil (sudeste da Índia), Lepcha (Sikkim), Tibet, Singpho (Assam), Lushai (Assam), Lisu (nordeste de Yunnan, China), Lolo (sudeste da China), Jino (sudeste de Yunnan, China), Karen (Burma), Chingpaw (Burma superior), China, Coréia, Munda (centro-norte da Índia), Santal (Bengala), Ho (sudeste de Bengala), Bahnar (China), Kammu (nordeste da Tailândia), Ilhas Andaman (Baía de Bengala), Zhuang (China), Sui (sudeste de Guizhou, China), Shan (Burma), Tsuwo (interior de Formosa), Bunun (interior de Formosa), Ami (Taiwan oriental), Benua-Jakun (Península Malaia), Kelantan (Península Malaia), Ifugao (Filipinas), Kiangan Ifugao, Atá (Filipinas), Mandaya (Filipinas), Tinguian (Luzon, Filipinas), Batak (Sumatra), Nias (uma ilha a oeste de Sumatra) Engano (outra ilha a oeste de Sumatra), Dusun (Borneo Norte Britânico), Dyak (Borneo), Ot-Danom (Borneo holandês), Toradja (Celebes central), Alfoor (entre Celebes e Nova Guiné), Rotti (sudeste de Timor), Nage (Flores); Austrália: Arnhem Land (norte do Território do Norte), Maung (Ilhas Goulburn, Arnhem Land), Gunwinggu (norte de Arnhem Land), Gumaidj (Arnhem Land), Manger (Arnhem Land), área do Rio Fitzroy (Austrália ocidental), Monte Elliot (costa de Queensland), Andingari (sul da Austrália), Wiranggu (sul da Austrália), Narrinyeri (sul da Austrália), Lago Tyres (Vitória), Kurnai (Gippsland, Vitória), sudeste australiano, Maori (Nova Zelândia); Ilhas do Pacífico: Kabadi (Nova Guiné), Valman (norte da Nova Guiné), Rio Mamberao (Irian Jaya), Samo-Kubo (Papua Nova Guiné ocidental), Papua Nova Guiné, Ilhas Palau, Carolinas ocidentais, Novas Hébridas, Lifou (uma das ilhas Loyalty), Fiji, Samoa, Nanumanga (Tuvalu, sul do Pacífico), Mangaia (Ilhas Cook), Raiatea (Grupo Leeward, Polinésia francesa), Taiti, Havaí; América do Norte: Innuit, Esquimó (Orowignarak, Alasca), Norton Sound Eskimo Central Eskimo, Tchiglit Eskimo (Oceano Ártico), Herschel Island Eskimo, Netsilik Eskimo (Groenlândia), Tlingit (costa sul do Alasca), Hareskin (Alasca), Tinneh (Alasca e sul), Loucheux (Dindjie, Alasca), Dogrib and Slave (tribos Tinneh), Kaska (ilha da Colúmbia Britânica do norte), índios Thompson (Colúmbia Britânica), Sarcee (Alberta), Tsetsaut, Haida (Ilhas Queen Charlotte, Colúmbia Britânica), Tsimshian (Colúmbia Britânica), Kwakiutl (Colúmbia Britânica), Kootenay (sudeste da Colúmbia Britânica), Squamish (Colúmbia Britânica), Bella Coola (Colúmbia Britânica), Lillooet (Green River, Colúmbia Britânica), Makah (Cape Flattery, Washington), Klallam (nordeste de Washington), Skokomish (Washington), Skagit (Washington), Quillayute (Washington), Nisqually (Washington), Twana (Puget Sound, Washington), Kathlamet, Cascade Mountains, Spokana, Nez Perce, Cayuse (Washington oriental), Yakima (Washington), Warm Springs (Oregon), Joshua (sul de Oregon), Smith River (norte da costa da Califórnia), Wintu (centro-norte da Califórnia), Maidu (Califórnia central), Northern Miwok (Califórnia central), Tuleyome Miwok (próximo a Clear Lake, Califórnia), Olamentko Miwok (Bodega Bay, Califórnia) Ohlone (San Francisco a Monterey, Califórnia), Kato (Mendocino County, Califórnia), Shasta (norte da Califórnia interior), Pomo (centro-norte da Califórnia), Salinan (Califórnia), Yuma (Arizona ocidental, sul da Califórnia), Havasupai (Colorado River inferior), Ashochimi (Califórnia), Yurok (norte da costa da Califórnia), Blackfoot (Alberta e Montana), Cree (Canadá), Timagami Ojibway (Canadá), Chippewa (Ontário, Minnesota, Wisconsin), Ottawa, Menomini (fronteira Wisconsin-Michigan), Cheyenne (Minnesota), Yellowstone, Montagnais (norte do Golfo de St. Lawrence), Micmac (leste do Canadá maritimo), Algonquin (Rio Ottowa superior), Lenape (Delaware) (Delaware até New York), Cherokee (Great Lakes área dos Grandes lagos; leste do Tennessee), Mandan (Dakota do Norte), Lakota, Choctaw (Mississippi), Natche (Mississippi inferior), Chitimacha (Louisiana do sul), Caddo (Oklahoma, Arkansas), Pawnee (Nebraska), Navajo (Four Corners area), Jicarilla Apache (nordeste do Novo México), Sia (nordeste do Arizona), Acagchemem (próximo a San Juan Capistrano, Califórnia), Luiseño (sul da Califórnia), Pima (sudoeste do Arizona), Papago (Arizona), Hopi (nordeste do Arizona), Zuni (Novo México); América Central: Tarascan (norte de Michoacan, México), Michoacan (México), Yaqui (Sonoran, norte do México), Tarahumara (norte do México), Huichol (México ocidental), Cora (leste do Huichols), Tepecano (sudeste do Huichols), Tepehua (leste do México), Toltec (México), Nahua (México central), Tlaxcalan (México central), Tlapanec (sul central do México), Mixtec (norte de Oaxaca, México), Zapotec (Oaxaca, sul do México), Trique (Oaxaca, sul do México), Totonac (leste do Mexico), Chol (sul do México), Tzeltal (Chiapas, sul do México), Quiché (Guatemala), Maias (sul do México e Guatemala), Popoluca (Veracruz, México), Nicarágua, Panamá, Caribe (Antilhas); América do Sul: Acawai (Orinoco), Arekuna (Guyana), Makiritare (Venezuela), Macusi (Guyana Britânica), Muysca (Colômbia), Yaruro (sul da Venezuela), Yanomamö (sul da Venezuela), Tamanaque (Orinoco), Arawak (Guyana), Pamary, Abedery e Kataushy (rio Purus, Brasil), Ipurina (Amazonas superior), Jivaro (leste do Equador), Shuar (Andes), Murato (leste do Equador), Cañari (Quito, Equador), Guanca and Chiquito (Peru), Ancasmarca (próximo a Cuzco, Peru), Canelos Quechua, Quechua, Incas (Peru), Colla (alto dos Andes), Chiriguano (sul da Bolívia), Chorote (leste do Paraguai), leste do Brasil (região do Rio de Janiero), leste do Brasil (região de Cabo Frio), Caraya (rio Araguaia, Brasil central), Coroado (sul do Brasil), Araucania (costa do Chile), Toba (norte da Argentina), Selk'nam (extremo sul da Argentina), Yamana (Terra do Fogo).

Existem também vários documentos antigos e relatos semelhantes à história bíblica da Torre de Babel, em que a linguagem humana, que até ali era uma só, foi confundida e deu origem às diversas línguas. Alguns exemplos:

"Naqueles dias, as terras de Subur (e) Hamazi, Sumer possuidora de língua em harmônia (?), a grande terra dos decretos do principado, Uri, a terra tendo tudo que é apropriado (?), a terra Martu, repousando em segurança, o universo inteiro, o povo em unissono (?) para Enlil em uma língua [fala]. ... (Então) Enki, o senhor da abundância, (cujos) comandos são dignos de confiança, o senhor da sabedoria, que entende a terra, o líder dos deuses, dotado de sabedoria, o senhor de Eridu mudou a fala em suas bocas, [trouxe (?)] contenda para ela, na fala
do homem que (até então) tinha sido uma." ("The Babel of Tongues: A Sumerian Version" by Kramer, S.N., Journal of the American Oriental Society 88:108-11,1968 encontrado em: http://www.ancient-hebrew.org/36_babel.html)

"A ereção (construção) desta torre (templo) ofendeu muito a todos os deuses. Em uma noite eles (subverteram) o que o homem tinha construído, e impediram seu progresso. Eles foram dispersos e sua fala ficou estranha." ("Tells, Tombs and Treasures"; encontrado em: http://www.thehighway.com/flood_Wilson.html)

"Várias tradições similares à da Torre de Babel são encontradas na América Central. Uma diz que Xelhua, um dos sete gigantes salvos do dilúvio, construiu a Grande Pirâmide de Cholula para desafiar o Céu. Os deuses destruíram-no com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. O Dominicano Diego Duran (1537-1588) disse ter ouvido este relato de um sacerdote com 100 anos em Cholula, pouco depois da conquista do México.

Outra lenda, atribuída pelo historiador nativo Don Ferdinand d'Alva Ixtilxochitl (c. 1565-1648) aos antigos Toltecas, diz que depois dos homens se terem multiplicado após um grande dilúvio, eles erigiram um alto zacuali ou torre, para se preservarem no caso de um segundo dilúvio. Contudo, as suas línguas foram confundidas e eles foram para diferentes partes da terra.

Outra lenda ainda, atribuída aos Índios Tohono O'odham ou Papago, afirma que Montezuma escapou a uma grande inundação, depois tornou-se mau e tentou construir uma casa que chegasse ao céu, mas o Grande Espírito destruiu-a com relâmpagos.

Rastos de uma história um pouco parecida também têm sido citados entre os Tarus do Nepal e do Norte da Índia (Relatório do Census de Bengal, 1872, p. 160); e de acordo com David Livingstone, os Africanos que ele conhecera e que viviam junto ao Lago Ngami em 1879 tinham uma tradição assim, mas com as cabeças dos construtores a serem "partidas pela queda do scaffolding [andaime]" (Missionary Travels, cap. 26)." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_de_Babel)

Ethel R. Nelson, juntamente com outros autores, escreveu uma série de livros sobre a similaridade de histórias, conceitos e costumes da Bíblia com os mais antigos caracteres da escrita chinesa. Alguns destes livros são: "God and the Ancient Chinese", "God's Promise to the Chinese", "The Beginning of Chinese Characters", "Genesis and the Mystery Confucius Couldn't Solve". Para escrever o segundo livro, os autores examinaram as mais antigas inscrições feitas em ossos e carapaças de tartarugas, que são chamadas de "escrita de oráculos em ossos". Podemos encontrar algo das comparações destes símbolos chineses com idéias que aparecem no Gênesis no seguinte site: http://www.answersingenesis.org/creation/v20/i3/china.asp

Alguns exemplos: o símbolo antigo chinês para cobiça ou desejo é uma mulher entre duas árvores. Gênesis capítulo 3 conta a história de Eva comendo do fruto da árvore do bem e do mal porque aquele fruto era "desejável para dar entendimento" (Gên 3:6) e dando-o depois para seu marido. Como resultado, os dois tiveram de sair do jardim do Éden e deixar de comer do fruto da árvore da vida (Gên 3:22 e 23). Dificuldade ou problema é representado por uma área cercada com uma árvore dentro e uma coisa negativa ou um não é representado por uma serpente enrolada em duas árvores. Em Gênesis 3 foi uma serpente que enganou Eva acerca do fruto da árvore e como resultado ela e o marido tornaram-se suscetíveis à morte (perda do direito à árvore da vida), cansaço e doenças. O símbolo para justiça é a combinação de uma mão, uma lança, eu e um cordeiro ou carneiro. Nos rituais hebraicos do Antigo Testamento, as pessoas que cometiam uma injustiça e se arrependiam traziam um cordeiro ao sacerdote para ser imolado em lugar da pessoa culpada. Isto simbolizava que a transgressão tinha como penalidade a morte, mas Deus enviaria alguém como Ele mesmo (uma das pessoas da trindade), inocente, para morrer em lugar do transgressor e, por causa da inocência do substituto, essa pessoa seria considerada justa novamente. O signicado dos rituais do Antigo Testamento são expressos nos seguintes textos: "E como a sua oferta pela culpa, trará ao Senhor um carneiro sem defeito, do rebanho; conforme a tua avaliação para oferta pela culpa trá-lo-á ao sacerdote". Levítico 6:6. "Então imolará o cordeiro da oferta pela culpa e, tomando do sangue da oferta pela culpa, pô-lo-á sobre a ponta da orelha direita daquele que se há de purificar, e sobre o dedo polegar da sua mão direita, e sobre o dedo polegar do seu pé direito." Levítico 14:25. "Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo" 1 Pedro 1:18 e 19. "Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." 2 Coríntios 5:21. Estes símbolos representam o que os reformadores do século 16, na Europa, chamaram de "justificação pela fé".

O site acima também comenta sobre uma cerimônia que remonta a 4000 anos, conhecida como Sacrifício Limite, que é relatada no Shu Jing (Livro de História), livro compilado por Confúcio, em que está registrado que o Imperador Shun (que governou desde cerca de 2256 a.C. até 2205 a.C) oferecia sacrifício a ShangDi. A Primeira Canção do Sacrifício Limite - para saudar a aproximação do espírito de SahangDi - dizia o seguinte: "Outrora no início, havia grande caos, sem forma e escuro. Os cinco elementos não haviam começado a se revolver, nem o sol ou a lua a brilhar. No meio (do caos) não havia forma ou som. Tu, ó Soberano espiritual, vieste em tua presidência e primeiro separaste as partes mais espessas das mais claras." (http://www.hyperhistory.net/apwh/essays/comp/cw03bordersacrifice.htm). É interessante a semelhança com Gênesis 1:1-4: "No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. Disse Deus: haja luz. E houve luz. Viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas." Outras canções da cerimônia também apresentam paralelos com a Bíblia, quem se interessar pode consultar o site entre parênteses.

Bill Cooper escreveu um livro que foi publicado em março de 1995, "After the Flood". Em seu livro, ele traz o resultado de um estudo, que durou 25 anos, de textos contidos nos capítulos 10 e 11 de Gênesis, conhecidos como a "Tabela das Nações", em comparação com registros arqueológicos dos povos do Oriente Médio e genealogias e crônicas mais antigas dos
primeiros povos europeus. Os textos que aparecem abaixo foram extraídos do primeiro capítulo de seu livro: "O conhecimento de Deus entre os antigos pagãos".

"Para que possamos conduzir o assunto que estamos prestes a estudar em sua devida perspectiva, devemos primeiro admitir que muitos de nossos preconceitos com relação ao homem antigo estão equivocados. Comumente se supõe, por exemplo, que as nações do mundo tomaram conhecimento do Deus de Gênesis apenas depois que elas foram evangelizadas por missionários cristãos. Apenas desde a tradução das Escrituras, assume-se, elas tomaram conhecimento da criação e do Deus que a criou. Supõe-se ainda que o antigo homem pagão não podia ter qualquer conceito de uma divindade superior a um ídolo, porque é impossível chegar ao conhecimento de um verdadeiro Deus sem esse conhecimento ter sido dado através da direta revelação de Sua Palavra, e assim por diante. O pensamento popular parece nunca ter considerado a possibilidade de que o homem pagão
tinha, indubitavelmente, noção de Deus e de Seus atributos e poder, e que essa noção existiu e floresceu por séculos sem recorrer, em absoluto, às Escrituras. De modo que, é com alguma surpresa, que nos deparamos exatamente com isto, um profundo conhecimento e apreciação de um eterno e todo-poderoso Deus Criador, de Sua paternidade da raça humana e de Seus
infinitos atributos nos escritos de vários historiadores do mundo antigo e entre os ensinos dos mais antigos filósofos. ...

"Mas primeiro devemos entender algo da absoluta profundidade do conceito filosófico pagão do Deus verdadeiro único. Nos deparamos com ele em lugares tão distantes um do outro quanto o mundo é amplo, e entre culturas tão diversas social e politicamente como as da antiga Grécia e da China. Por exemplo, é dos escritos do taoísta Lao-tzé, que floresceu na China do século 16 a.C., que a profunda declaração seguinte a respeito da existência e de alguns dos atributos de Deus é tomada:

'Antes do tempo, e por todo o tempo, tem havido um ser auto-existente, eterno, infinito, completo, onipresente. Além deste ser, antes do início, não havia nada.' (Lao-tzu, Tao-te-ching, tr. Leon Wieger. English version by Derek Bryce. 1991. Llanerch Publishers, Lampeter. p. 13.) ...

"Embora, imperfeito como o conceito de Deus possa ter sido entre os antigos pagãos, ele era, todavia, muito real, frequentemente profundo, e pode ter-se fundamentado unicamente sobre um corpo de conhecimento que tinha sido presevado entre as raças antigas a partir de um ponto particular da história. Qual é esse ponto da história pode tornar-se evidente à medida em que nosso estudo prossegue e nos defrontamos com as famílias da humanidade dispersando-se ao redor do globo a partir de um único ponto. Mas que ele era profundo e, de muitos modos, inspirador, dificilmente pode ser negado, como o seguinte antigo texto de Heliópolis no Egito testifica:

'Eu sou o criador de todas as coisas que existem ...que procederam da minha boca. O céu e a Terra não existiam, nem haviam sido criadas as ervas do solo nem as coisas rastejantes. Eu as fiz surgir do abismo primitivo de um estado de não existência...' (Paráfrase do autor da tradução literal de Wallace Budge de 'The Gods of the Egyptians'. Vol. 1. Dover. New York. 1969. pp. 308-313.)...

"Por exemplo, entre os antigos gregos temos na Teogonia de Hesíodo (8º século a.C.) um relato da criação do mundo que mantém inequivoca e notavelmente íntimas similaridades como o relato de Gênesis:

'Primeiro de tudo o Vazio veio à existência ... em seguida a Terra ... Do Vazio surgiram as trevas ... e da Noite surgiu a Luz e o Dia ...' (Hesiod, Theogony, (tr. Norman Brown, 1953). Bobbs-Merrill Co. New York. p. 15.)

"E todavia é imediatamente óbvio a partir da leitura de toda a Teogonia que Hesíodo não obteve esta informação do livro de Gênesis. Isto é evidente a partir de sua degradante visão só do Criador. ... Xenófanes, por exemplo, que viveu cerca de dois séculos depois de Hesíodo, mantinha uma visão totalmente mais sublime do Criador e em uma passagem muito inspiradora busca restaurar o equilibrio teológico:

"Homero e Hesíodo atribuiram aos deuses todas as coisas que entre os homens são vergonhosas e censuráveis - roubo e adultério e mútuo engano ...[Mas] existe um Deus, o maior entre os deuses e homens, não semelhante aos mortais em forma ou pensamento ... ele vê como um todo, ele pensa como um todo, ele ouve como um todo ... Ele permanece sempre no mesmo estado, não mudando em absoluto ... Mas longe de se atarefar ele governa tudo com sua mente.' ( Barnes, Jonathan. 1987. Early Greek Philosophy. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 95-97.) ...

"Tales de Mileto (ca 625-545 a.C.) é comumente considerado como tendo sido o primeiro filósofo materialista entre os gregos. ... Mas contra isto deve-se apresentar os aforismas que são atribuídos por outros a Tales, tais como: 'Das coisas existentes, Deus é a mais antiga - pois ele não foi gerado. O mundo é a mais bela, pois é criação de Deus ... A mente é a mais rápida, pois percorre tudo ...' (Barnes, Jonathan. 1987. Early Greek Philosophy. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 68.) ...

"[Platão] pinta-nos um quadro das condições das coisas em seus próprios dias, mas fala dos materialistas como se eles fossem uma improvável nova geração de pensadores que tinham recém chegado em cena:

'Algumas pessoas, eu creio, explicam todas as coisas que vieram a existir, todas as coisas que estão vindo a existência agora, e todas as coisas que assim o farão no futuro, atribuindo-as ou a natureza, a arte ou ao acaso.' (Plato. The Laws, (tr. Trevor Saunders, 1970). Penguin Classics. Harmondsworth. p.416.)


" ... prossegue dizendo-nos como esses pensadores definem os deuses como 'conceitos artificiais'e 'ficções legais'. Ele cita a tendência para o que ele considerava ser 'uma doutrina perniciosa' que 'deve ser a ruína da geração mais jovem, tanto no estado em geral como nas famílias particulares'. (Plato. The Laws, (tr. Trevor Saunders, 1970). Penguin Classics. Harmondsworth.Plato. The Laws, (tr. Trevor Saunders, 1970). Penguin Classics. Harmondsworth. p.417.) ...

"Um estóico posterior, o romano Cícero, devia dar ao conceito [criacionista] talvez a sua mais alta expressão nos tempos pré-cristãos, e suas palavras são dignas de citação, em pequena extensão:

"Quando se vê um relógio de sol ou um relógio de água, vê-se que ele diz a hora por projeto e não por acaso. Como então se pode imaginar que o universo como um todo é vazio de propósito e inteligência quando ele abrange tudo, inclusive estes artefatos e seus artífices? Nosso amigo Possidônio, como se sabe, recentemente fez um globo que em suas revoluções mostra os movimentos do sol, das estrelas e dos planetas, de dia e de noite, como eles aparecem no céu. Então, se alguém tomasse este globo e mostrasse-o ao povo da Bretanha ou da Cítia, algum destes bárbaros deixaria de ver que ele era o produto de uma inteligência consciente?' (Cicero, On the Nature of the Gods, (tr. Horace McGregor, 1988). Penguin Classics. Harmondsworth. p. 159.)"

Embora ficasse muito extenso transcrever aqui a imensa quantidade de evidências documentadas que existem de que conceitos e histórias bíblicas permeiam as narrativas, crenças e tradições de todas as culturas pré-bíblicas ao redor do planeta, acredito que esta amostra já seja suficiente para os que a examinarem sem preconceitos.

É difícil imaginar povos ao redor do mundo antigo trocando informações tão eficientemente a ponto de influenciarem-se uns aos outros com suas narrativas de eventos passados. Muito mais razoável seria supor que esses povos descendem de pessoas que viviam inicialmente em uma mesma região geográfica e compartilhavam contos e crenças. Por sinal, isso está de acordo com as afirmações bíblicas sobre o passado da humanidade.

Um conceito que pretendo explorar na continuação deste tema, é a questão do significado de mistério no contexto bíblico (algo que ainda não é entendido) em relação ao conceito de mistério místico (algo que é inacessível).

As questões que eu gostaria de deixar aqui para reflexão são as seguintes: É razoável supor que a existência de registros tão antigos e tão amplamente espalhados pelo planeta de conceitos e histórias bíblicas indiquem que há fatos por trás dos detalhes contidos neles? É totalmente racional excluir esta possibilidade?

sábado, 20 de novembro de 2010

Misticismo X Racionalidade

Parece, para muitos, que a humanidade se divide em dois grandes grupos: místicos e racionais ou, no máximo, alguma combinação em diferentes proporções destes dois grupos.

O pensamento místico incluiria qualquer tipo de crença no sobrenatural ou mágico, enquanto o pensamento racional estaria baseado na lógica e no método científico.

Nessa visão de mundo, os místicos seriam guiados principalmente por sensações e intuição, ao passo que os racionais seriam dirigidos pela razão e evidências observáveis. Contudo, a maioria das pessoas se posicionaria em uma espécie de intersecção destes dois tipos básicos. Muitas vezes manifestando pensamentos que estariam em oposição entre si.

Essa visão dualista do mundo parece subjacente à mente das pessoas quando considerando temas relacionados a ciência e religião.

Na verdade, há nós nessa concepção de mundo, que se não forem desembaraçados, tornam difícil tratar dos temas acima com clareza imparcial.

Começo pelas definições de místico e racional. Místico é uma palavra de origem grega que significa "iniciado em uma religião de mistérios" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Misticismo). Eu parto do princípio de que todo o místico é religioso, mas nem todo o religioso é místico. Para ficar clara esta proposição, é preciso primeiro conceituar o termo religião. A etimologia da palavra é latina (religio). "O significado não é claro. Cícero (106-43 a. C.) no De Natura Deorum afirma que a palavra vem da raiz relegere ('considerar cuidadosamente'), oposto de neglere, descuidar. Já Lactâncio, escritor cristão (m. 330 d.C.), diz que vem de religare ('ligar', 'prender')." (http://www.ceismael.com.br/artigo/papel-da-religiao.htm, citando a Enciclopédia Luso-Brasileira).

Então, em princípio, um religioso seria alguém que considera cuidadosamente algo ao qual ele está ligado. Bem, mas a partir desta definição poder-se-ia concluir que todos são religiosos e muitas pessoas consideram-se não religiosas, por exemplo: ateus, agnósticos, céticos, materialistas, hedonistas, humanistas e muitos cientistas. Eu acredito que o ser humano é intrinsicamente religioso não importa aquilo em que acredite. Essa religiosidade não precisa se manifestar como crença no sobrenatural ou no culto a alguma divindade. (A Medicina parece ter encontrado o local da experiência religiosa no cérebro humano: o lobo temporal, http://www.bbc.co.uk/science/horizon/2003/godonbrain.shtml) O "deus" de muitas pessoas é qualquer coisa a que ela se sente tão ligada, dedica tanta energia e identifica-se de tal maneira que, se ela perdesse tal motivação, ela se sentiria perdida, vazia. Pode ser uma ideologia, um modo de vida, uma outra pessoa ou conjunto de pessoas, coisa materiais ou mesmo o estar centrada em si mesma.

Muitas pessoas sentir-se-iam desconfortáveis com este tipo de definição por causa das implicações relacionadas quando se subentende que todo o religioso é um místico.

Voltemos então à definição de místico: "iniciado em uma religião de mistérios". Vimos que, pela minha definição, qualquer pessoa pode ser considerada religiosa, creia ou não no sobrenatural (algo que esteja acima ou além da natureza). Mas será que qualquer um que creia que há algo ou alguém fora ou acima da natureza é um místico? Alguém que crê no sobrenatural pode ser racional sem ser uma mistura antagônica de pensamentos conflitantes? Alguém que se considera racional (baseia-se na razão), pode não estar baseando suas crenças em coisas tão objetivas quanto ele julga que são?

Para responder à primeira pergunta é preciso resolver primeiro a questão de algo ou alguém acima da natureza ser ou não um mistério (no sentido de inacessível e/ou incompreensível).

Ao longo da história, a maioria das crenças no sobrenatural e/ou mágico tem se caracterizado pela falta de explicações razoáveis e, portanto, ausência de compreensão. A maioria das crenças em divindades, mesmo a maior parte da religiosidade baseada no Deus dos cristãos, tem-se caracterizado pelos mesmos problemas. Poder-se-ia concluir que qualquer crença no sobrenatural seja caracterizada pelo misticismo, mas eu pretendo discutir algumas das evidências históricas de que, ao longo dos séculos, tem havido entre os seres humanos, uma crença em um ser sobrenatural, que não é absolutamente inacessível e incompreensível e que, ao contrário, existem muitas evidências que podem ser testadas por aqueles que desejam ser racionais.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Origem da Vida e seus Pesquisadores

Algumas coisas que se ouvem muito nos meios acadêmicos, em centros de pesquisa e são bastante propagadas por revistas de divulgação científica, são que a Evolução é um fato, que crer em Deus e em Criacionismo é uma coisa para ignorantes, porque Deus e Criacionismo não podem ser estudados de forma racional, etc.

Bem, se a evolução é um fato, segundo dicionários de português, ela é real,verdadeira, algo que acontece. Acho que hoje em dia ninguém (ou pelo menos quase ninguém) discorda de que ocorrem mutações nos seres vivos, de que eles se adaptam, enfim ... A maioria das pessoas pensantes também percebe que a seleção natural faz bastante sentido. A questão é que a Síntese Evolutiva Moderna agrega muito mais idéias além destas, você precisa aceitar que houve um ancestral comum para todas as espécies de seres vivos que existem sobre a Terra. E ai eu encontro mais duas palavras problemáticas que não foram até hoje bem definidas e sobre as quais não existe consenso entre os cientistas, que seriam: vida e espécie. Para a última existem pelo menos umas 3 definições: o conceito evolutivo, o filogenético e o biológico. A última é mais difundida, mais aceita, mas existem várias exceções para ela e isto, para mim, significa que a definição ainda não ficou boa.

Tudo bem, deixando de lado as definições, se querem que algo seja aceito como fato, coisa real, verdadeira, e se a Evolução pode ser estudada cientificamente, então tem que poder acontecer duas coisas: primeira, se é um fato tem de poder ser observada e, segundo, se pode ser comprovada cientificamente tem de poder se comprovar pelo método científico com a exclusão de qualquer outra hipótese. O primeiro teste é simples: Se houve um ancestral comum e se ele se originou da primeira molécula ou conjunto de compostos que deram origem a vida, então tem de ser possível se observar isto. E o problema com fatos é que não se pode afirmá-los quando ocorreram no passado e ninguém estava lá para ver.

Comprovar uma hipótese que não pode ser acessada diretamente também é difícil, porque se a origem da vida for reproduzida em laboratório, quem garante que foi assim mesmo que aconteceu?

Por falar nisso, como fica a origem da vida em laboratório, sim, porque como disse Robert Shapiro, um pesquisador que crê que a origem da vida foi através de metabolismo primeiro: "Em contraste, nenhum nucleotídeo de qualquer tipo foi relatado como produto de experimentos com discarga de faíscas ou em estudos de meteoritos, nem as unidades menores (nucleosídeos) que contêm um açúcar e base, mas falta o fosfato. Para resgatar o conceito de RNA-primeiro deste, normalmente, defeito letal, seus defensores criaram uma disciplina chamada síntese prebiótica. Eles têm tentado demonstrar que RNA e seus componentes podem ser preparados em seus laboratórios em uma sequência de reações cuidadosamente controladas, normalmente realizadas em água a temperaturas observadas na Terra. Tal sequência inicia usualmente com compostos de carbono que tenham sido produzidos em experimentos com discarga de faíscas ou encontrados em meteoritos. A observação de um composto químico orgânico específico em qualquer quantidade (mesmo como parte de uma mistura complexa) em uma das fontes acima justifica sua classificação como "prebiótico", uma substância que supostamente se provou estar presente na Terra primitiva. Uma vez tendo recebido esta distinção, o produto químico pode então ser usado na forma pura, em qualquer quantidade, em outra reação prebiótica. Os produtos de tais reações também serão considerados "prebióticos" e empregados no próximo passo da sequência. O uso de sequẽncias de reações deste tipo (sem qualquer referência à origem da vida) tem há muito sido uma prática honrada no campo tradicional da química orgânica sintética. Meu próprio orientador da tese de PhD, Robert B. Woodward, recebeu o Prêmio Nobel por sua brilhante síntese de quinino, colesterol, clorofila e muitas outras substâncias. Pouco importa se quilogramas de material inicial foram necessários para produzir miligramas de produto. O ponto foi a demonstração de que seres humanos podem produzir, ainda que ineficientemente, substâncias encontradas na natureza. Infelizmente, nem químicos nem laboratórios estavam presentes na Terra primitiva para produzir RNA." Robert Shapiro, ""A simpler origin for life", Scientific American, 12 de fevereiro de 2007.

Outro ponto: se crer em Deus é um viés que impede o estudo racional do assunto sobre as origens, como fica a declaração abaixo (feita por ninguém menos do que Freeman Dyson):
"A descrição de Oparin foi geralmente aceita pelos biólogos por meio século. Ela era popular não porque houvesse qualquer evidência para apoiá-la, mas antes porque parecia ser a única alternativa para o criacionismo bíblico." Freeman Dyson, "Origins of Life", p. 38.

Racionalidade, objetividade, sem comentários ...

Eu admiro Darwin (criacionistas e evolucionistas me apedrejariam por isto), ele foi honesto na forma de colocar suas idéias, teve um insight brilhante quando percebeu que as espécies se modificavam e foi metódico ao documentar isto. Ele sabia que havia falhas no seu trabalho e ele admitiu isto na introdução de seu livro. Infelizmente, as pessoas não lêem atentamente o livro dele (ou nem lêem) e idolatram a imagem que fizeram dele.

Uma vez em uma palestra sobre origem da vida alguém me disse que origem da vida não faz parte da Teoria da Evolução. Tudo bem, só tem uma coisinha: sem origem da vida não tem ancestral comum, sem ancestral comum não existe origem das espécies. Voltando a origem da vida, Leslie Orgel, que foi uma espécie de pai da idéia do mundo de RNA primitivo, passou grande parte de sua vida pesquisando sobre o assunto, e morreu em 2007, disse o seguinte em um artigo que encontrei no site da Nasa anteriormente (agora pode ser encontrado no seguinte link http://eddieting.com/eng/originoflife/orgel.html):

"A hipótese mais simples presume que os nucleotídeos no RNA se formaram quando reações químicas diretas levaram a união do açúcar ribose com bases dos ácidos nucléicos e fosfato (que estaria disponível no material inorgânico). Este cenário é atrativo mas, como será visto, tem-se provado difícil de confirmar. ...)". E ele prossegue relatando todas as dificuldades.

Gerald Joyce, que foi orientado por Orgel em seu doutorado, e é também pesquisador da origem da vida através da molécula de RNA ou algum precursor semelhante, disse o seguinte em um artigo publicado na Nature em 2002:

“O principal obstá́culo para se entender a origem da vida baseada em RNA é identificar um mecanismo plausível para vencer a bagunça produzida pela química prebiótica” Gerald F. Joyce, "The antiquity of RNA-based evolution" Nature, 11 de julho de 2002.

Shapiro faz algumas considerações interessantes em um artigo publicado em 2007 na Scientific American:

“A analogia que vem a mente é a de um jogador de golfe, que tendo jogado uma bola através de uma rota de 18 buracos, então presume que a bola também jogaria a si mesma por esta rota na ausência dele. Ele demonstrou a possibilidade do evento; só é necessário imaginar que alguma combinação de forças naturais (terremotos, ventos, tornados e inundações, por exemplo) poderiam produzir o mesmo resultado, dado tempo suficiente. Nenhuma lei física precisa ser violada para a formação espontânea de RNA acontecer, mas as chances contra isto são imensas, implica em que o mundo não vivo tem um desejo inato de gerar RNA. A maioria dos cientistas da origem da vida que ainda apoia a teoria do RNA primeiro ou aceita este conceito (implicita, se não explicitamente) ou acha que as chances imensamente desfavoráveis foram simplesmente vencidas por boa sorte.”
“Imagine um gorila (braços muito longos são necessários) em um imenso teclado conectado a um processador de palavras. O teclado contém não apenas os símbolos usados nas linguagens inglesa e européia, mas também um enorme excesso extraído de todas as outras linguagens conhecidas e todos os conjuntos de símbolos armazenados em um típico computador. As chances de uma reunião espontânea de um replicador no ‘pool’ que eu descrevi acima pode ser comparada àquelas do gorila compor, em inglês, uma receita coerente de chili com carne. Com considerações semelhantes em mente, Gerald F. Joyce do Scripps Research Institute e Leslie Orgel do Salk Institute concluiram que o aparecimento espontâneo de cadeias de RNA na terra sem vida ‘teria sido um quase milagre’. Eu estenderia esta conclusão a todos os propostos substitutos de RNA que mencionei acima.” Robert Shapiro, "A simpler origin for life", Scientific American, 12 de fevereiro de 2007.

A observação de Shapiro, de que "só é necessário imaginar que alguma combinação de forças naturais (terremotos, ventos, tornados e inundações, por exemplo) poderiam produzir o mesmo resultado, dado tempo suficiente" me veio a mente quando estava lendo o artigo publicado na Nature, no ano passado, sobre a síntese de nucleotídeos de pirimidina e que foi divulgado como algo que deixou a origem da vida por RNA bem próxima de se comprovar. No final do artigo aparecem as seguintes considerações:

"Embora a questão de fornecimentos temporalmente separados de glicolaldeído e gliceraldeído permaneça um problema, uma variedade de situações poderia ter surgido que resultaria nas condições de aquecimento e progressiva desidratação seguida de congelamento, reidratação e irradiação ultavioleta." Matthew W. Powner, Beatrice Gerland e John D. Sutherland, "Synthesis of activated pyrimidine ribonucleotides in prebiotically plausible conditions", Nature, 14 de maio de 2009. É poderia ... não é impossível, como disse Shapiro. Acho que provar que algo é impossível é bem difícil, inclusive que Deus não existe.

Shapiro acredita que um ciclo composto por moléculas bem mais simples que nucletídeos poderia ter dado origem a uma espécie de ciclo metabólico pouco sofisticado que teria a capacidade de se reproduzir e suportar seleção natural. Outros pesquisadores partilham de idéias semelhantes, um deles, Günter Wächtershäuser, propôs um ciclo que considerou simples, o ciclo do ácido cítrico reverso, um ciclo autocatalítico, ou seja, as próprias moléculas carreadoras do ciclo servem como catalisadoras das reações. Em 200O, Orgel publicou um artigo sobre este tipo de ciclo (porque ciclos do tipo autocatalílico eram uma proposta comum entre defensores do metabolismo primeiro na origem da vida):

“Postular um reção catalisada ao acaso, talvez por um íon metálico, pode ser razoável, mas postular um conjunto delas é apelar para a magia.” Leslie E. Orgel, "Self-organizing biochemical cycles" Leslie E. Orgel, PNAS, 7 de novembro de 2000.

Mas em janeiro deste ano uma pesquisa publicada pareceu dar um "xeque mate" na proposta de metabolismo primeiro na origem da vida:

"Em agudo contraste com a dinâmica da replicação dependente de molde, demonstramos aqui que a replicação da informação de compostos é tão imprecisa que os mais ajustados genomas de compostos não se mantêm pela seleção e, portanto, falta-lhes capacidade de evolução (isto é, não podem substancialmente se afastar da solução steady-state assintótica já embutida nas equações dinâmicas). Concluímos que esta limitação fundamental de conjuntos de replicadores adverte contra teorias de origem da vida de metabolismo primeiro, embora sistemas metabólicos antigos possam ter providenciado habitat estável dentro do qual replicadores poliméricos mais tarde evoluiram." Vera Vasas, Eörs Szathmáry e Mauro Santos, "Lack of evolvability in self-sustaining autocatalytic networks constraints metabolism-first scenarios for the origin of life", PNAS, 26 de janeiro de 2010.

Contudo, eu não apostaria que os defensores do metabolismo primeiro na origem da vida vão desistir assim tão fácil, afinal, os proponentes do "Mundo de RNA" continuam suas pesquisas nesta linha apesar de todos os viéses e críticas. Seria porque alguma destas hipóteses "tem que" funcionar de qualquer jeito para não se pensar em "criacionismo bíblico", como disse Dyson?

Por favor, a origem da vida e o ancestral comum, seja lá como possam ter sido, é algo que aconteceu no passado, é algo intangível, tão intangível quanto Deus. Agora, se podemos rastrear as evidências de algo que aconteceu em um passado impalpável, por que não podemos rastrear Deus da mesma forma? "Não, mas estudar a origem química da vida é uma coisa racional, não influenciada por crenças pessoais (contanto, que exclua Deus)."

Uma vez eu vi uma charge, em uma revista, em que um homem caminhava com uma bengala e uma Bíblia no rosto tapando seus olhos. E é verdade, muita gente usa a Bíblia como desculpa para não estudar e entender a natureza. É verdade também, com frequência, que estas pessoas não estudam a Bíblia também, mas permitem que outros que se consideram versados na Bíblia os guiem e lhes dirijam as crenças sobre o que a Bíblia ensina. Bem, e se mudássemos apenas um detalhe nesta figura? E se ao invés da Bíblia fosse o "Origem das Espécies"? Isto se pareceria com alguma coisa que acontece na realidade?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Êfemera

O Pai Eterno, Arquiteto do Universo,
Teve um belo sonho e o tornou realidade
E o substrato do mundo disperso
De gases e poeira na imensidade
Tornou-se o primeiro lar da humanidade
Onde a dor e a morte não existiam
E o mal era apenas possibilidade
Que nossos pais não conheciam.

Quando as sombras encheram nosso mundo,
Quando murcharam as primeiras flores,
E o desespero era negro e profundo,
Uma promessa apontava um ``Varão de Dores'',
Que entre o céu e a terra seria suspenso,
De ponte entre Deus e o homem serviria.
Seu sofrimento seria muito intenso
Mas por amor a tudo venceria.

Esse Deus maravilhoso, de múltipla sabedoria,
Na natureza nos ensina e guia
Ainda que maculada e enfraquecida
Ela dá preciosas lições de vida.
Veja-se a efêmera, inseto curioso,
Que segue seu destino imperioso;
Adulta, vive apenas um dia,
Embora como larva há muito já existia.

Como larva, eu aqui sofria;
No fundo de algum lago vivia;
Meu mundo era apenas isso então
No fundo, a lama; acima a escuridão.
Sem respostas, sem saídas, sem retorno.
Pouco tempo, na verdade, era preciso
Para saber de tudo que havia em torno
Parecendo amplo, mas, de fato, conciso.

Os tipos de ilusões podem variar
Pra que a vida se passe em sonhos
Que nunca vão se concretizar
Porque mesmo nos dias risonhos
Em que eles parecem reais
As satisfações materiais
Não limpam a alma do mundo,
Quando a larva se transforma
E voa como forma alada
Para longe do lago em que se forma,
Logo em adulta será transformada.

Para todos chega um dia
Em que é preciso se encontrar
Com a destruição da fantasia,
Em que é preciso encarar
A própria vulnerabilidade,
A importância da calamidade,
A inutilidade de impedir a morte
E o que nos sobrevém aos azares da sorte.

Como o incerto pode contar-se certo?
E o mutável confiável?
Mas quando além do lago vê o céu
E de seus olhos cai um negro véu,

Quando contempla a Estrela da Manhã
E vê que em Cristo a esperança não é vã
Então a larva é transformada
E o lago já não é mais sua morada

Porque do mundo tira as afeições
Já não o enganam suas ilusões.
E quando em adulto então se transformar,
Morrer ao eu irá, ao eu irá negar.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Qualquer coisa

Qualquer coisa que descreva a beleza de um momento
Qualquer coisa evocando lembranças perdidas no tempo
Qualquer coisa que chamou de volta as esperanças

Qualquer coisa no ar e um sentimento
Mais profundo, mais bonito que voar no vento
Qualquer coisa … fascinante como o mar!
É qualquer coisa … melhor que sonhar!

Há qualquer coisa que não sei explicar
Que me impressiona na beleza de um olhar
Que me emociona e que me faz chorar
Faz tanto tempo que esperei falar!

Ainda nem consigo acreditar
Depois da chuva vem o arco-íris
Além da areia está o mar
Agora já encontrei o meu lugar

Há qualquer coisa … qualquer coisa nesse olhar
Um espelho para me mirar
Um conselho sábio a cativar
Alguma coisa que me fez te amar